Ttulo: Teia de Sonhos.
Autor: Virginia C. Andrews.
Ttulo original: WEB OF DREAMS.
Dados da edio: Crculo de Leitores, Lisboa, 1995.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Ftima Toms.
Estado da obra: corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

TEIA DE SONHOS

V. C. Andrews

V. C. ANDREWS

TEIA DE SONHOS
Traduo de VERA CAEIRO
Crculo de Leitores
Ttulo original: WEB OF DREAMS
Capa: FORTESPLIO
Ilustrao: CARLOS ANTUNES/FOKreSPLIO
Copyright (r) 1987 by Virgnia Andrews
Impresso e encadernado para Crculo de Leitores
por Companhia Editora do Minho, S.A.
no ms de Setembro de 1995
Nmero de edio: 3958
Depsito legal nmero 92 083/95
ISBN 972-42-1208-4

PRLOGO

O Luke e eu avanamos pelos altos portes de ferro forjado que deixam a descoberto a inscrio "MANSO FARTHINGGALE". Manchas de ferrugem invadiram os caracteres
qual yerupo cutnea, e o embate das tempestades martimas e dos ventos de Inverno entortaram os portes. Agora, encontram-se vergados contra o cu cinzento e sombrio
e at a casa grande parece oprimida, desgastada pelo tempo e pela histria pesada e triste que vive nos seus trios e nos seus sales grandiosos. Foram mantidos
alguns empregados para cuidar da casa e dos jardins; ningum controla realmente o seu trabalho e eles pouco fazem para conservar as coisas.
O Luke aperta a minha mo. Parecem ter passado anos, sculos, desde que estivemos aqui pela ltima vez. O cu carregado est em consonncia com a nossa chegada,
pois esta viagem no  nostlgica. Preferamos no ter de recordar a minha anterior estada aqui, mais exactamente, o meu aprisionamento, aps o terrvel acidente
que levou a vida de meus pais.
No entanto, a nossa viagem ainda  mais triste. O ar fnebre  adequado. Viemos sepultar o meu verdadeiro pai, viemos pr finalmente Troy Tatterton a descansar junto
do seu verdadeiro amor, a minha me, Heaven. O Troy havia permanecido na sua pequena cabana todos estes anos, dando continuidade ao seu complexo trabalho artstico
nos maravilhosos brinquedos Tatterton, ausentando-se apenas em ocasies especiais, como o nascimento dos meus filhos. Mas sempre que nos foi visitar, independentemente
da ocasio, nunca conseguiu estar muito tempo afastado de Farthinggale. Alguma coisa o chamava sempre de volta.
Agora, nunca mais partir.
Apesar de a casa grande ser uma apario constante nos meus pesadelos e de as memrias desses dias de tortura ainda
permanecerem notavelmente vivas, ao contemplar esta propriedade grandiosa, percebo a razo por que o Troy sentia necessidade de regressar. At eu, que tenho todas
as razes para no o fazer, sinto necessidade de voltar a entrar na casa e caminhar atravs dos seus longos corredores, subir a sua grande escadaria, para dar uma
vista de olhos ao quarto que havia sido a minha cela.
O Luke no quer que eu entre.
- Annie - diz ele -, no  necessrio. Esperamos pelo incio da cerimnia fnebre e cumprimentamos quem estiver l fora.
Porm, eu no consigo controlar-me. H alguma coisa que me faz continuar.
No entro no quarto que foi meu. H teias de aranha por todo o lado e tudo est coberto de p e fuligem. As cortinas esto desbotadas e soltas. A roupa de cama est
manchada, suja.
Sacudo a cabea e continuo, parando na suite da Jillian, a famosa suite que o Tony havia mantido com uma insistncia fantica, recusando-se a encarar a morte da
Jillian e tudo o que se fora junto com ela. Esta suite sempre me intrigou. Continua a intrigar-me ainda hoje. Entro, observo os espelhos sem vidros, fixo o meu olhar
na roupa ainda dobrada sobre as cadeiras, os produtos de beleza sobre o toucador. Passo por tudo, devagar, movimentando-me como se fizesse parte de um sonho, onde
o ar se assemelha a uma nvoa muito leve.
E, ento, paro junto  escrivaninha da Jillian. No sei porqu, talvez por a gaveta estar ligeiramente aberta. Tudo nesta suite me intriga e pergunto a mim mesma
se existe alguma coisa nessa gaveta que a Jillian possa ter escrito durante os seus dias de loucura. A curiosidade  mais forte do que eu e abro a gaveta. Afasto
o p com um sopro, espreito l para dentro e vejo folhas brancas, canetas e tinta. Nada fora do normal, penso, e  ento que descubro a bolsa de pano no fundo da
gaveta e pego nela.
L dentro est um livro. Tiro-o para fora devagar.
Na capa est escrito o LIVRO DE LEIGH. Retenho a respirao.  o dirio da minha av. Abro na primeira pgina e perco-me no tempo.

1 O LIVRO DE MEMRIAS DE LEIGH

Acho que tudo comeou com um sonho. No, no era um sonho, era mais um pesadelo. Nesse pesadelo, eu estava em p, com os meus pais - onde, no sei. Eles conversavam
um com o outro e, por vezes, voltavam-se e diziam-me qualquer coisa. O nico problema era que, sempre que tentava falar com eles, parecia que no me conseguiam ouvir.
 medida que continuava a tentar entrar na conversa, ia penteando o cabelo para trs. Porm, em vez de ficar penteada, descobri uma madeixa enorme de cabelo na minha
mo e fiquei aterrorizada. Tornei a puxar o cabelo para trs e, cada vez que o fazia, soltava-se outra madeixa de cabelo. Fitei, horrorizada, as enormes madeixas
de cabelo na minha mo. O que  que estava a acontecer? De repente, apareceu-me um espelho  frente e pude ver a minha imagem reflectida. Abafei um grito. A minha
linda camisola de caxemira estava cheia de buracos e a minha saia, rasgada e suja. Ento, perante os meus j incrdulos olhos, observei as minhas feies a ganharem
volume. Fui inchando, inchando, at que comecei a chorar. Um trilho de lgrimas escorria pelas minhas faces esborratadas. Afastei os olhos da horrvel imagem e virei-me
para os meus pais, gritando por socorro. Os meus gritos ressoavam e ultrapassavam as paredes. Os meus pais, porm, nada faziam. Porque no me ajudariam?
No conseguia parar de gritar. Por fim, quando pensei que j no tinha voz e que era incapaz de pronunciar um nico som, os meus pais voltaram-se para mim. Passou-lhes
pela cara expresses de assombro. Queria chamar pelo pap... que ele me cobrisse de abraos e beijos... que me protegesse como sempre fez... mas antes de conseguir
abrir a boca, a cara dele ensombrou-se com uma expresso de desgosto! Aninhei-me, aterrorizada, e ento ele desapareceu. Ficou
apenas a mam. Pelo menos, pensei que fosse a mam. Esta estranha era igualzinha a ela... excepto nos olhos. Os seus olhos eram to frios! Frios e calculistas...
vazios do amor e do calor que eu via diariamente. Para onde tinha ido esse olhar? Porque  que ela estava a olhar para mim desta maneira? A minha linda mam nunca
me fitaria com tanto dio. Sim, dio... e inveja! A minha mam nunca deixaria de me ajudar num momento de tanto desespero. Ela, porm, nada fez. Primeiro, a sua
expresso foi de desgosto, idntica ao olhar que o pap me tinha lanado. Logo foi substitudo por um sorriso afectado... um sorriso de satisfao. E depois virou-me
as costas... comeou a afastar-se... a ir-se embora... deixando-me sozinha na escurido.
No sei como, reencontrei a minha voz e gritei por socorro. Ela limitava-se a continuar a andar, tornando-se cada vez mais pequena. Tentei segui-la, mas no me conseguia
mexer. Ento, tornei a virar-me para a minha imagem reflectida e, num abrir e fechar de olhos, o espelho despedaou-se e pedaos de vidro saltaram-me para a cara.
com as foras que me restavam, gritei, levando as mos  cara, para me proteger, enquanto continuava a gritar.
Quando acordei, ainda estava a gritar e o meu corao batia furiosamente. Por um momento, no consegui imaginar onde estava. Ento, quando comecei a reconhecer o
meu quarto, lembrei-me. Estava em casa, no meu quarto, em Boston. Nesse dia era o meu aniversrio. O meu dcimo segundo aniversrio. Feliz por me ter livrado do
horrvel pesadelo, afastei os meus temores e afugentei as imagens que me tinham aterrorizado h apenas alguns segundos. Dirigi-me para o andar de baixo, pensando
apenas no dia que se seguiria.
No dia do meu dcimo segundo aniversrio abri a prenda que viria a ser a mais preciosa de todas as que j recebera: este livro de memrias.  ltima hora, o pap
enfiou-o  socapa na pequena montanha de prendas maravilhosas e dispendiosas que ele e a mam me tinham comprado. Eu sei que foi ele prprio que o l meteu, depois
de a mam ter posto tudo em ordem, pois ela estava to curiosa como eu em relao a esse presente. Normalmente, o pap deixava ao cuidado da mam a compra de presentes,
da mesma maneira que era ela quem estava encarregada de fazer as compras para a casa e de escolher todas as minhas roupas, uma vez que ele assumia que no percebia
nada de modas. Dizia que a
mam era uma artista e, por isso, sabia combinar melhor cores e cortes, mas eu acho que ele ficava era contente por no ter de ir s lojas de decorao e de roupa.
Em algumas ocasies, quando eu era mais nova, o pap trazia-me modelos dos seus navios a vapor; a mam, porm, achava que esses presentes eram disparatados para
oferecer a uma menina, principalmente aquele modelo que se desmontava para aprender o funcionamento do motor. Eu no conseguia deixar de ficar curiosa, e muito interessada,
e estava sempre a brincar com aquilo, excepto quando a mam se encontrava por perto.
Estava tudo embrulhado a um canto da mesa da sala de jantar, onde tomvamos o pequeno-almoo, tal como sempre estivera em todos os meus aniversrios, desde que me
lembro. Tinha acordado cedo, obviamente, devido ao sonho. Para mim, as manhs do dia de aniversrio eram iguais s manhs do dia de Natal, apesar de esta manh ainda
estar um pouco transtornada pelo pesadelo, tentando agora ferozmente esquecer o terror que me provocara.
O pap tinha embrulhado a prenda num papel de fundo rosa-claro, coberto com velas pintadas em azul-escuro que diziam FELIZ ANIVERSRIO. S o facto de saber que ele
tinha comprado a prenda sozinho fez com que se tornasse a mais importante para mim. Tentei no rasgar o papel ao desembrulhar. Adorava guardar coisas deste tipo,
lembranas de todas as ocasies especiais: as velas do bolo do meu dcimo aniversrio, aquele que era to grande que foi preciso o Clarence, o mordomo, e o Svenson,
o cozinheiro, para o conseguirem carregar para a sala de jantar; o anjo de rebuado no topo da rvore de Natal de metro e meio que a mam comprou para pr no meu
quarto de brincar quando eu tinha apenas cinco anos; bilhetes do circo ao qual o pap me levou quando veio fazer a sua apresentao em Boston, no ano passado; um
programa de um espectculo de marionetas a que a mam e eu assistimos no museu, quando eu tinha sete anos, e dzias de bugigangas, como botes e alfinetes, e at
mesmo atacadores antigos. Por isso, o pap j sabia que, para mim, as recordaes eram muito importantes.
Desembrulhei o livro muito devagar e percorri a capa e o meu nome gravado com a ponta dos dedos. Adorei o toque da capa, em couro, macio como manteiga, rosado, debruado
a dourado, e gostei, em especial, de ver o meu nome impresso, como o ttulo de um livro: o LIVRO DE LEIGH.
Levantei o olhar, emocionada. O pap, j vestido com o
seu fato e gravata cinzento-escuros, estava recuado, a sorrir, de p, como habitualmente, com as mos atrs das costas, balanando os calcanhares como um velho capito
do mar. Se no fosse um dia especial, a mam t-lo-ia feito parar, queixando-se de que a punha nervosa. Por ser o dono de uma grande companhia de paquetes de luxo
e andar tantas vezes em barcos, o pap dizia que passava mais tempo na gua do que em terra e que estava habituado a balanar.
- O que  isso? - inquiriu a mam, quando abri o livro e folheei pginas e pginas em branco.
- Eu chamo-lhe um dirio de bordo - disse o pap e piscou-me o olho. - O dirio de bordo do capito. Regista os acontecimentos importantes. As recordaes so mais
preciosas do que as jias - afirmou.
-  apenas um dirio - replicou a mam, sacudindo a cabea. - Dirio de bordo! Ela  uma menina, no  um marinheiro.
O pap voltou a piscar-me o olho. A mam tinha-me comprado tantas coisas caras e eu sabia que devia prestar-lhes mais ateno. Em vez disso, agarrei no livro intitulado
o LIVRO DE LEIGH, cingi-o junto ao corao e levantei-me a correr para agradecer ao pap com um beijo. Ele ajoelhou-se e eu beijei-o na face rosada, mesmo rente
 barba grisalha, e os cintilantes olhos castanho-acobreados luziram. A mam queixava-se de que o pap estava tantas vezes num dos seus barcos ou no meio do mar
que a sua pele sabia a sal, mas eu nunca sentia esse sabor a sal quando o beijava.
- Obrigada, pap - segredei. - Hei-de escrever sobre o pap o tempo todo.
Tinha tantas coisas para assentar, tantos pensamentos ntimos e preciosos; mal podia esperar para o fazer.
Contudo, a mam estava ansiosa por que eu abrisse os outros presentes. Havia dzias de camisolas de caxemira numa variedade de rosas, azuis e verdes, cada uma com
a sua saia travada a condizer, o tipo de saia que a mam e toda a gente usava, apesar de serem to justas que no se conseguia andar depressa assim vestida. Havia
blusas de seda, argolas de ouro e pulseiras a condizer, salpicadas de diamantes, da Tiffany's. Havia perfume Chanel e sabonetes perfumados, bem como um pente de
madreprola e um estojo de maquilhagem.
E btonl Finalmente podia usar bton, ao de leve, claro, e apenas em ocasies especiais. Mas tinha o meu prprio bton. A mam sempre me prometera que, quando chegasse
a altura, me ensinaria a maquilhar correctamente.
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A mam no me deixou abrir um dos embrulhos na altura. Tinha de esperar at estarmos sozinhas, mais tarde.
Assuntos de raparigas - disse ela, olhando para o meu pai. A mam achou horrvel da parte do pap ir a correr para o escritrio na manh do meu aniversrio, mas
ele assegurou que podia passar o resto do dia comigo e depois levar-me a mim e  mam a jantar fora; por isso, perdoei-lhe. Nos ltimos tempos, havia sempre uma
crise qualquer. Ele deitava as culpas para cima das companhias de aviao comercial que estavam a comprometer o negcio dos paquetes de luxo. A mam estava sempre
a critic-lo pela quantidade de tempo que passava a trabalhar, o que piorava ainda mais a situao.
Apesar de termos feito muitas viagens, ela queixava-se de que ns ramos como sapateiros sem sapatos, pois no fazamos as viagens que ela queria.
- O negcio do meu marido  viagens de frias e ns raramente fazemos frias. Temos de verificar novos percursos ou novos navios, em vez de os apreciarmos como devamos
- lamentava-se ela, por vezes com amargura.
Eu sabia que o meu ltimo grande embrulho tinha qualquer coisa a ver com tudo isso, porque a mam esclareceu que comprara o seu contedo na esperana de eu ter oportunidade
de o usar, e ento lanou um olhar carrancudo ao pap e queixou-se.
- Eu ainda no tive oportunidade de usar o meu. Desembrulhei rapidamente o presente e abri a caixa. Era um fato de esqui: uma pesada camisola de caxemira, umas calas
de esqui de bom corte e uma blusa italiana de seda a condizer. Muitas vezes, durante o Vero, a mam tinha exprimido o desejo de fazer umas frias de Inverno em
St. Moritz e ficar instalada no Hotel Palace, "onde parava a nata da sociedade". Era um fato bonito.
Dei uma vista de olhos por todos os meus lindos presentes, soltei gritinhos de prazer e abracei-a. Prometeu que iria certificar-se sempre de que os meus aniversrios
fossem melhores do que os dela, quando era nova, no Texas. Ainda que a famlia da mam no fosse pobre, ela dizia que a sua me, a minha av Jana, era to austera
quanto um padre puritano. Tinha-me contado vezes sem conta a histria de como no a deixavam sequer ter uma boneca, quando era pequena, e dizia que as suas irms,
ambas mais velhas, eram tal e qual a me. Por no deverem nada  beleza, no se preocupavam em ser femininas e em possuir objectos graciosos e bonitos.
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A tia Peggy e a tia Beatrice eram, verdade seja dita, to feias como a bruxa m de O Feiticeiro de Oz. No as vamos com frequncia mas, sempre que o fazamos, eu
detestava a maneira como me fitavam embasbacadas, atravs dos culos grossos. Ambas usavam as mesmas horrorosas armaes pretas, que ampliavam os seus olhos castanhos
de carneiro mal morto, fazendo com que parecessem sapos. O modo como a mam as juntava no mesmo saco quando falava delas, levava-me a pensar nas tias como sendo
gmeas. De facto, a constituio fsica delas era idntica. A mam chamava-lhes "tbuas de engomar". Contava tambm que a av Jana lhes tinha arranjado maridos,
eles prprios homens fracos e modestos: um era dono de uma loja em Ludville, no Texas, e o outro, um cangalheiro de Fairfax, nas redondezas.
Segundo a mam, tanto uma cidade como outra, incluindo a dela, "eram to poeirentas e sujas, que tnhamos de tomar banho depois de darmos um passeio na rua principal".
O pap no precisou de muito tempo para conquistar a mam e lev-la para longe de tudo aquilo. Obriguei-a a contar a histria vezes sem conta e nunca me importava
que, cada vez que o fazia, acrescentasse um pormenor novo, ou que alterasse, ou se esquecesse de alguma coisa que me tinha contado anteriormente. A parte principal
da histria era sempre igual e era uma das primeiras coisas que queria escrever no meu livro.
Assim, ao fim da tarde, quando ela veio ao meu quarto, enquanto nos preparvamos para ir jantar fora a um restaurante fino para festejarmos os meus anos, pedi-lhe
para me contar a histria de novo.
- Nunca te cansas de ouvir esta histria? - perguntou-me ela, lanando-me um olhar rpido.
- Oh, no, mam. Eu acho que  uma histria maravilhosa, uma histria de sonho. Nunca ningum conseguiu escrever uma histria to bonita - afirmei eu, o que a fez
muito feliz.
- Est bem - concordou, sentando-se  mesa do toucador. Comeou a escovar o seu lindo cabelo at ele ficar a brilhar como ouro fiado. - Eu vivia como a pobre Cinderela
antes de chegar o seu prncipe - comeou, como sempre comeava. - Mas nem sempre foi assim. Eu era a menina dos olhos do meu pai. Ele era o administrador encarregado
de um campo de petrleo nas redondezas, um homem muito importante. Apesar de no ter medo de sujar as mos quando era preciso, era muito elegante. Espero que um
dia encontres um homem como o meu pai.
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- Ento, e o meu pai no  como ele? O pap no se importa de trabalhar nos seus navios e de descer  casa das mquinas com os seus homens, no ?
- Sim - concordou ela, secamente -, ele no se importa. Mas eu quero um homem diferente para ti, algum que seja um verdadeiro executivo, que d ordens aos seus
empregados e que viva numa manso e...
- Mas, mam, ns no vivemos numa manso? - protestei eu. A nossa era a maior e mais luxuosa casa de cidade da nossa rua, uma clssica casa, em estilo colonial jorgiano,
com trios excessivamente grandes e um p-direito de quatro metros e meio. Todos os meus amigos adoravam a minha casa e ficavam particularmente impressionados com
a sala de jantar, porque tinha um tecto em forma de cpula e colunas jnicas em volta. A mam redecorara a sala de jantar h dois anos, quando vira uma igualzinha
numa das suas revistas de arte.
- Sim, mas eu quero que vivas numa propriedade com milhares de acres de terra, cavalos, piscinas, dezenas de empregados e uma praia privativa. E... - O seu olhar
tornou-se doce e sonhador, afastando-se, enquanto evocava essa maravilhosa manso e os seus jardins. - com um labirinto ingls!
Sacudiu a cabea como se estivesse a libertar-se dos seus devaneios e, com movimentos longos e graciosos, comeou a escovar de novo a cascata dos seus cabelos. Dizia
que tinha de o escovar pelo menos cem vezes por noite, para o manter macio e saudvel, e que o cabelo de uma mulher era a sua coroa. Normalmente usava o cabelo apanhado
ou afastado do rosto para mostrar o seu perfil escultural.
- Em todo o caso, as minhas irms, as gmeas tbuas de engomar, tinham imensos cimes do amor que o meu pai me devotava. Quando regressava a casa, ele trazia-me
com frequncia algo bonito e elas recebiam apenas coisas prticas, como estojos de costura ou agulhas de croch. Alis, as minhas irms tambm no eram dadas a fitas
bonitas, brincos ou pentes novos. Detestavam-me por ser bonita, percebes? Ainda me detestam.
- Mas, depois, o seu pai morreu e o seu irmo mais velho foi para a tropa - disse eu, impaciente por chegar s partes romnticas da histria.
1 English maze: tipo de jardim, usual nas propriedades inglesas, cujo formato labirntico  conseguido por meio de corredores de sebes altas e bem aparadas. (N.
da T.)
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- Sim, e como tudo mudou! Foi quando me tornei realmente na pobre Cinderela, percebes? Obrigaram-me a fazer toda a lida da casa e escondiam as minhas coisas bonitas
sempre que podiam. Se eu no fizesse o que elas queriam, partiam os meus pentes ou enterravam as minhas jias. Deitaram fora todos os meus cosmticos - afirmou ela,
com dio.
- Mas, e a sua me? O que  que a av Jana fazia? Eu sabia a resposta, mas queria ouvi-la da boca dela.
- Nada. Ela aprovava. De qualquer maneira, a av Jana achava que o meu pai me tinha estragado com mimos. A av  igual a elas, mesmo que agora no parea. E s porque
te ofereceu aquele alfinete de camafeu pelos teus anos - acrescentou ela, apreciando o camafeu sobre o meu toucador -, no penses que se modificou em nenhum aspecto.
-  bonito e o pap diz que  valiosssimo.
-  verdade. H alguns anos pedi-lho, mas ela no mo deu - confessou, com amargura.
- Quer que lho d, mam?
- No.  teu - respondeu ela, pouco depois. - A av deu-to a ti. S te peo para teres cuidado com ele. Bem, onde  que eu ia?
- Quando elas enterraram as suas jias.
- Enterraram as minhas... ah, sim, sim. E tambm rasgaram os meus melhores vestidos, os meus vestidos mais caros. Uma vez, a Beatrice, num acesso de mau gnio, entrou
sorrateiramente no meu quarto e esquartejou um dos meus vestidos com uma faca da cozinha.
- Que crueldade! - exclamei eu.
- Claro que negam tudo at hoje. Mas fizeram-no, garanto-te. At tentaram cortar o meu lindo cabelo uma vez; entraram no meu quarto pela calada, enquanto eu dormia,
e tentaram cort-lo com as longas tesouras de costura, mas eu acordei mesmo a tempo e... - Estremeceu, como se o resto da histria fosse demasiado aterrador para
continuar. Em seguida, recomeou a escovar o cabelo e prosseguiu. - O teu pai tinha vindo ao Texas em negcios, e a minha me, que ainda se dava com os de sangue
azul, conheceu-o num jantar e convidou-o a visitar-nos, com a inteno de ele vir a apaixonar-se pela tua tia Peggy.
"Mas quando me viu...
Parou e recostou-se, olhando-se no espelho. A mam sempre teve uma pele lisa, nem uma ruga se atrevia a despontar. Tinha feies elegantes, um rosto que se podia
encontrar
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retratado num camafeu ou na capa da Vogue. Tinha olhos azuis cintilantes que revelavam a sua disposio: brilhantes como luzes de Natal, quando estava contente,
frios como pingentes de gelo, quando estava zangada, suaves e tristes como um cachorro perdido, quando estava infeliz.
- Quando olhou para mim pela primeira vez - prosseguiu ela, dirigindo-se  sua prpria imagem no espelho -, o corao dele ficou imediatamente escravo da minha beleza.
"Claro que - acrescentou, virando-se bruscamente para mim - as tuas tias ficaram loucas de inveja. Obrigaram-me a vestir um vestido desbotado, castanho-plido, que
ia at aos ps e escondia o meu corpo, e no me deixaram usar qualquer jia. Tive de apanhar o cabelo num carrapito tipo avozinha e no me deixaram usar maquilhagem,
nem sequer uma ponta de bton.
"Mas o Cleave viu-me como eu era na realidade. No tirou os olhos de mim a noite toda e, cada vez que eu falava, nem que fosse para dizer "Pode-me passar o sal,
por favor?", calava-se e bebia as minhas palavras como se fossem prolas.
- Soltou um suspiro e eu fiz o mesmo. Deve ser maravilhoso, pensei, ter recordaes to romnticas. Mais que tudo, um dia eu queria ter recordaes to romnticas
como estas s para mim.
- Tambm te apaixonaste logo por ele? - Sabia igualmente esta resposta, mas tinha de a ouvir outra vez, porque queria escrev-la como deve ser no meu livro.
- No foi logo, apesar de dar comigo cada vez mais atrada para ele. Achava que o teu pai tinha uma pronncia esquisita, sabes, aquela pronncia de Boston. Ento,
ficava curiosa com tudo o que ele dizia. Era distinto e tinha ar de homem de negcios bem sucedido: seguro de si prprio, mas no severo. Vestia roupas caras, tinha
um espesso relgio de bolso de ouro com a corrente de ouro mais comprida que eu j vira. Quando abria o relgio, ouvia-se a melodia do Hino da Esperana.
- O aspecto dele era de velho lobo do mar? - perguntei, a rir. O pap dizia-me sempre que sim.
- Eu no sabia nada, nem do mar, nem do negcio dele, tendo vivido no interior do Texas toda a minha vida, Mas ele tinha a mesma barba que tem agora, s que no
era toda grisalha e estava aparada com muito mais cuidado, devo dizer. De qualquer maneira, ele no parava de falar sobre o crescimento da sua companhia de navios
a vapor. A av achou interessante - acrescentou, com um sorriso afectado. - J a pensar no pretendente rico que iria ter para a Peggy.
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- E depois, o que  que aconteceu?
- Ele pediu para ver os nossos jardins e antes de a av ter tempo para chamar a Peggy para o guiar, virou-se para mim e perguntou-me se eu o acompanhava. Devias
ter visto a cara delas na altura. A Peggy ficou ainda mais carrancuda, caram-lhe os queixos, e a Beatrice chegou mesmo a gemer.
"Claro que aceitei acompanh-lo, primeiro s para as atormentar, mas depois do passeio naquela noite quente do Texas...
- Sim?
- E de ele comear a falar ternamente, apercebi-me de que o Cleave Van Voreen era mais do que um enfadonho homem de negcios da Nova Inglaterra.  certo que era
rico e inteligente, e bonito  maneira dele, mas era tambm um homem muito s e muito apaixonado por mim, to apaixonado que se declarou nessa primeira noite. Estvamos
junto das roseiras.
- Pensava que tinhas ficado na dvida e que ele s se havia declarado na segunda noite.
- No, no, foi junto das rosas e foi na primeira noite. As estrelas... as estrelas irrompiam pela noite. Era uma exploso de luz por cima de ns. Deixou-me sem
flego - descreveu ela, pondo com suavidade os dedos no pescoo e cerrando os olhos, como se a recordao fosse demasiado forte para algum suportar.
Retive a respirao. Esta noite ela tinha contado a histria melhor do que nunca. Estava a torn-la especial por ser o meu dcimo segundo aniversrio. Que maravilhoso
da parte dela! Se calhar a mam alterava a histria de tempos em tempos porque achava que eu podia saber cada vez mais,  medida que ia ficando mais crescida.
- E, de repente, o Cleave pegou na minha mo e disse: "Jillian, j viajei por todo o pas e visitei muitos outros, vi muitas pessoas e muitas mulheres lindas, do
Oriente  Amrica do Sul, princesas havaianas, princesas russas, princesas inglesas, mas os meus olhos nunca contemplaram nenhuma mulher to linda como tu. s uma
jia to esplendorosa como qualquer uma das estrelas que luz sobre ns.
""Sou um homem de aco", prosseguiu ele, "que, logo que se apercebe do que tem ou no tem valor neste mundo, toma decises sem demora, mas so decises fervorosas,
decises de que no abdico por motivo algum."
"Em seguida, pegou na minha outra mo e continuou: "No deixarei esta cidade at te ter como minha mulher."
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Murmurei as palavras, acompanhando-a num coro silencioso. J havia ouvido aquela frase tantas vezes e continuava a ach-la emocionante. Pensar que o meu pai teria
ficado naquela cidade poeirenta do Texas, negligenciando o negcio dele para sempre, at conseguir casar com a mulher que amava... O romance deles devia estar escrito
num livro de histrias e agora pertencia ao meu.
- Bem, Leigh, claro que fiquei contentssima com uma expresso de afecto to profunda. Pediu permisso para me cortejar e eu concedi. A seguir, entrou em casa e
falou com a av Jana, em privado, pedindo tambm a sua permisso. A av ficou chocada, mas suponho que pensou que conseguiria pelo menos um pretendente rico para
uma das suas filhas.
"A partir da, veio a nossa casa todos os dias durante uma semana e as minhas irms morriam de inveja, mas no podiam fazer nada. A av Jana tinha vergonha que o
Cleave me visse toda esfarrapada a fazer a lida da casa. Por isso, fui suspensa dessas funes e as tuas tias tiveram de fazer o meu trabalho.
"Por volta do quinto dia, o Cleave declarou-se formalmente. Ps-se de joelhos, enquanto eu estava sentada no sof, na nossa sala de estar, e eu aceitei - relatou
ela, acabando a histria abruptamente. - Fui-me embora do Texas com ele e livrei-me de tudo aquilo.
"Quando a tua av e as tuas tias descobriram quo rica eu ficara, tornaram-se doces como o mel. - Olhou para o meu livro de memrias. - Vais escrever isto tudo a?
- Oh, sim. Todas as minhas recordaes mais importantes. Alguma vez teve um dirio, mam?
- Nunca, mas no faz mal - acrescentou prontamente.
- Tenho as minhas recordaes todas armazenadas aqui mesmo - continuou, apontando para o corao. - Algumas, s te contei a ti - confessou ela, falando to baixinho
que o meu corao parou de bater. Confiava em mim mais do que em qualquer outra pessoa.
- Nunca terei segredos para si, mam.
- Eu sei que no, Leigh. Ns somos demasiado parecidas, eu e tu, para escondermos uma da outra qualquer coisa que seja importante - confirmou ela, afagando o meu
cabelo com os dedos. - Vais-te tornar numa rapariga muito bonita, dentro em breve. Sabias isso?
- Quero ser to bonita como tu, mas no acho que o v ser. O meu nariz  demasiado comprido e no tenho a tua boca carnuda. Os meus lbios so muito finos, no so?
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- Claro que no. Alis, as tuas feies ainda nem sequer esto totalmente formadas. Segue as minhas instrues, faz o que te digo e sers muito atraente. Prometes-me
que o fars?
- Prometo.
- ptimo - exclamou e virou-se finalmente para o presente de aniversrio ao qual se tinha referido como "assunto de raparigas". - Est na hora de abrirmos isto e
falarmos sobre o assunto - disse. Ela prpria desembrulhou o presente e abriu a caixa.
No acreditava no que via. Era um soutien. O meu peito tinha comeado a crescer nos ltimos tempos e algumas das minhas amigas j usavam soutien. Ergueu-o.
- O teu corpo est a desenvolver-se e acabaste de ter a tua primeira menstruao - afirmou. - J  tempo de aprenderes os hbitos das mulheres e algumas coisas sobre
os homens.
Acenei com a cabea, quase sem respirar. Uma conversa to adulta entre ns as duas fazia com que o meu corao batesse apressadamente.
- No  para usar todos os dias, apenas quando fores encontrar-te com gente elegante e pretendentes formosos e abastados e quando o usares por baixo das tuas novas
camisolas de caxemira...
Peguei com cuidado no meu soutien novo. O meu corao ainda estava acelerado.
- Os homens, em especial os homens com posio e bens, gostam de ser vistos com mulheres fascinantes. Eleva-lhes o ego, percebes? - Riu-se e sacudiu a cabea por
cima dos ombros em sinal de desdm.
- Acho que sim.
- At o teu pai, que no presta ateno a mais nada que no seja os seus navios, tem prazer em entrar num restaurante fino comigo pelo brao. Os homens acham que
as mulheres so enfeites.
- Mas isso  bom? - perguntei, intrigada, em voz alta.
- Claro que  bom. Deix-los pensarem como quiserem, desde que trabalhem at  exausto para nos fazerem felizes. Nunca deixes um homem saber exactamente o que ests
a pensar. - De repente, virou-se para mim e a sua expresso doce tornou-se fria e dura. - Lembra-te sempre, Leigh, as mulheres nunca podem ser to promscuas como
os homens. Nunca.
O meu corao comeou outra vez a bater furiosamente. Ela estava prestes a entrar em assuntos mais ntimos.
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- Os homens podem ser promscuos. Espera-se que sejam. Precisam de provar a sua virilidade, mas se uma mulher fizer o mesmo, perder tudo o que  importante. Raparigas
decentes no vo at ao fim. S quando se casarem - prosseguiu. - Promete-me que no vais esquecer-te disto.
- Prometo - murmurei, com a voz pouco mais alta do que um sussurro.
- ptimo. - Voltou a contemplar a sua imagem no espelho e a expresso glida dissipou-se, para dar lugar, de novo,  minha doce e linda me. - Tens oportunidades
que eu nunca tive, se ao menos eu conseguir que o teu pai tire proveito delas.
"O teu pai levou-nos  Jamaica, como eu lhe pedi? Fomos a Deauville, s corridas? Possumos paquetes de luxo,  verdade, mas temos um iate privativo para podermos
velejar at  Ri viera? No. Ele leva-nos a Londres trs vezes por ano, porque nessa viagem pode conciliar os negcios com o prazer, e ele espera que eu distraia
os passageiros como se fosse a mulher do dono de um hotel ou qualquer coisa no gnero. Quero ir para fora, pelo menos uma vez, e estar verdadeiramente em frias,
nada de negcios. Apenas divertimento. Como  que ele espera que eu te apresente s pessoas certas, se no vamos a esses outros lugares?
Tornou a virar-se para mim. A sua face ardia de raiva.
- No te cases com um homem que esteja mais apaixonado pelo seu negcio do que por ti.
Eu no sabia o que dizer. Ela contara-me tantas coisas e confundira-me com tantas ideias e pensamentos novos! E eu tinha mais questes para pr. Quando  que os
homens tentavam que ns fssemos "at ao fim" e como  que sabamos em que homens  que devamos confiar ou no?
No estava preparada, pensei, e comecei a entrar em pnico.
A mam ps-se de p e precipitou-se para a porta.
- Estou to contente por termos tido esta pequena conversa, querida... Mas agora receio bem que tenhamos de nos vestir. Sabes como o teu pai fica impaciente quando
tem de esperar. Para ele, tudo est programado. Trata-nos como aos seus navios. Tenho a certeza de que est l em baixo, no seu escritrio, a andar de um lado para
o outro e a resmungar por entre dentes.
- Eu vou despachar-me.
- No, leva o tempo que precisares - disse ela, como se ignorasse que se estava a contradizer. -  bom praticares
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como deixar um homem  tua espera. Leva o teu tempo, trata do cabelo, pinta os lbios, como j te mostrei, sem comprimir, passa o bton suavemente pelos lbios como
se estivesses a acarici-los com um beijo - explicou ela, demonstrando. - Percebido? - Assenti. - ptimo. "E no te esqueas de pr as tuas meias e calar os teus
sapatos novos de salto alto, que so iguais aos meus. Usa sempre saltos altos. Favorecem muito mais as nossas pernas - aconselhou ela.
Comeou a sair e tornou a parar  entrada da porta.
- Quase me esquecia. Tenho outra surpresa para ti anunciou.
- Mais uma coisa? Mas a mam e o pap j me deram tanta coisa hoje...
- No  outro presente, Leigh.  um passeio, um lugar que eu quero que conheas - explicou ela. - vou levar-te comigo este fim-de-semana.
- Aonde?
- quela manso de que eu te falei, que se chama Manso Farthinggale.
- Onde est a pintar os murais da sala de msica? perguntei. Um destes dias, ela tinha-me contado por alto. A mam estava a fazer ilustraes em livros infantis
para Patrick e Clarissa Darrow, um casal dono de uma editora aqui, em Boston, que eram nossos vizinhos. A decoradora deles, Elisabeth Deveroe, tinha sido contratada
para um trabalho numa manso fabulosa, fora de Boston. A mam e a Elisabeth eram boas amigas e, um dia, a mam tinha-a acompanhado  manso e fizera algumas sugestes,
que, ao que parece, o dono adorou. Ele e a Elisabeth pediram-lhe ento para levar a cabo a encomenda, que consistia em pintar murais representativos de cenas de
contos de fadas, o que a mam tinha andado a fazer para as capas dos livros.
-  verdade, j fiz mais de metade e quero que vejas. E tambm quero que conheas o Tony.
- O Tony?
- Mister Tatterton, o dono, e quero que conheas a propriedade. Se quiseres ir, claro.
- Sim, quero! Estou ansiosa por ver as suas pinturas.
- ptimo - sorriu. - Agora temos de nos vestir antes que o teu pai abra um buraco no cho de tanto andar de um lado para o outro.
Ri-me, a pensar no pobre pap, e como seria para ele ter de viver agora com duas mulheres maduras, em vez de uma
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2 s. No conseguiria nunca ser cruel para com o pap, pensei. Nunca seria
capaz de desiludi-lo ou de no lhe contar os meus pensamentos verdadeiros. "Ser que no h uma altura", pensei, "uma altura, depois de nos apaixonarmos e casarmos,
em que podemos confiar nos nossos maridos e sermos honestas com eles?"
Vesti o meu soutien novo, uma das minhas camisolas de caxemira e a saia a condizer. Penteei o cabelo para trs e pus bton, como a mam me tinha ensinado. A seguir
fui buscar os sapatos de salto alto e pus-me em frente ao espelho a contemplar-me.
Estava to diferente! Era como se tivesse crescido de um dia para o outro. Era provvel que as pessoas que no me conheciam no conseguissem adivinhar a minha verdadeira
idade. "Que excitante", pensei, porm, de certo modo, era um pouco asssustador. Parecia mais velha... Mas conseguiria agir como tal? Eu observava sempre a mam em
pblico, a maneira como parecia entrar e sair da pele de diferentes personagens, tornar-se esta pessoa ou aquela, dar risadinhas e comportar-se como uma tolinha,
por vezes, enquanto aparentava um porte to elegante e aristocrtico outras vezes, de tal modo que qualquer um pensaria que ela faria parte da famlia real.
Linda, era-o sempre: o centro das atenes. Sempre que entrava numa sala, os homens paravam de falar e rodavam a cabea to bruscamente que quase a arrancavam do
pescoo.
Fiquei nervosa quando pensei que, no momento em que entrssemos no restaurante, todas as atenes se virariam para ns, e os homens e as mulheres tambm me iriam
fixar atentamente. Iriam rir? Iriam pensar: "Aqui est uma menina a tentar ser igual  me"?
Quando por fim desci ao escritrio do pap, estava muito apreensiva. Ele iria ser o primeiro homem a ver-me to aperaltada e, nesse momento, era o homem mais importante
da minha vida. A mam ainda estava a arranjar-se.
Encontrava-se por detrs da secretria a ler um dos seus relatrios. H dois anos, a mam tinha-se resignado a redecorar a casa toda, excepto o escritrio do pap.
Esta era a nica diviso em que ele no deixava a mam tocar, apesar de o cho estar coberto por um tapete rectangular bastante gasto, que a mam considerava uma
vergonha. A sua secretria tinha sido herdada do pai, estava riscada e lascada; contudo, ele no permitia que ningum lhe tocasse. O escritrio parecia desorganizado,
porque havia prateleiras de modelos
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de navios e livros sobre nutica em todas as paredes. Havia um pequeno sof de cabedal castanho-escuro, uma cadeira de baloio de nogueira, j gasta, e, ao seu lado,
uma mesa oval de carvalho silvestre. Ele trabalhava  luz de um candeeiro de lato a petrleo.
As nicas peas de arte no escritrio eram as fotografias de navios: de Yankee Clippers de alguns dos primeiros paquetes de luxo e algumas peas de madeira flutuante,
seca e tratada, em cima da desordenada secretria e sobre a mesa oval. Na parede atrs dele, estava pendurado um retrato do pai. As feies do av Van Voreen, que
havia morrido dois anos antes de eu nascer, eram duras e austeras. O rosto tinha rugas bem cavadas e as faces ostentavam um aspecto desgastado pela idade. O pap
dizia sempre que saa  sua me, que tambm tinha morrido antes de eu nascer. Pelas fotografias, parecia uma mulher de pequena constituio, carinhosa, de quem o
pap teria provavelmente herdado a sua maneira de ser sossegada e conservadora.
Eu estudava muitas vezes as fotografias dos parentes do pap  procura de alguma parecena comigo. Achava que os olhos da me dele eram iguais aos meus em alguns
retratos, mas em outros eram bastante diferentes.
O pap levantou lentamente o olhar da sua secretria, quando deu conta que eu tinha entrado no seu escritrio. Nos primeiros momentos, foi como se ele no me reconhecesse.
Depois, levantou-se bruscamente; estava espantado.
- Como  que estou, pap? - perguntei, a ttulo experimental.
- Ests to... crescida. O que  que a tua me fez contigo?
- Estou bem? - indaguei, com ansiedade.
- Oh, sim. No me tinha apercebido de como estavas a ficar bonita, Leigh. Parece-me que vou ter de deixar de pensar em ti como uma menina. - E ficou a olhar para
mim durante mais alguns segundos, o que me constrangeu. Senti-me corar. - Bem - exclamou, por fim, contornando a sua secretria e vindo na minha direco -, hoje
 noite vou andar de brao dado com duas mulheres lindas. Que maravilha! - Puxou-me para me abraar e aqueceu-me as faces com beijos.
- Tem a certeza de que estou bem, pap?
- Claro que tenho a certeza. Anda da comigo. Vamos ver quanto tempo teremos de esperar antes de a tua me descer aquelas escadas. - Ps o brao  minha volta e
samos
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para o trio, fitando o alto da escadaria suspensa, porque a mam estava nesse momento a descer.
Estava to bonita como sempre. Os seus olhos brilhavam com tanta intensidade que irradiavam luz. As suas cores eram radiantes e o cabelo emanava um reflexo angelical.
Piscou-me o olho, quando contornou o lance de escadas.
- Santo Deus, Cleave, podias ao menos ter mudado de fato desde hoje de manh - exclamou, enquanto descia as escadas.
- Mas eu mudei de fato! - protestou o pap. A mam abanou a cabea.
- So todos to iguais que ningum diria. - Puxou para trs uma madeixa do meu cabelo. A Leigh no est maravilhosa?
- Absolutamente. Est irresistvel. No consigo imaginar outra altura em que parecessem tanto me e filha - assegurou ele, mas ela pareceu magoada. Ele tambm notou
e corrigiu-se rapidamente. - Na verdade, tu pareces demasiado nova para j teres uma filha com esta idade. Parecem antes irms - concluiu ele. A mam irradiou felicidade.
- Ests a ver - sussurrou-me ela, quando comemos a sair -, se quiseres, consegues sempre que eles digam as frases certas.
O meu corao batia irregularmente, a minha respirao ficou presa na garganta e parecia no querer sair. A mam estava mesmo a faz-lo: a partilhar realmente comigo
os seus segredos de mulher. Vestida como estava, a caminho de um restaurante fino, senti-me mais arrepiada e excitada do que nunca.
E depois, no restaurante, o pap fez-nos outra surpresa. Anunciou que tinha inaugurado um cruzeiro de frias novo, s Carabas, na esperana de fomentar os negcios.
Primeiro, seria um cruzeiro  Jamaica e ele tinha programado tudo para que fizssemos a viagem inaugural. Partiramos na semana seguinte com direito a festa na partida
e tudo.
A mam estava de boca aberta, e, ao princpio, no parecia feliz, apesar de ainda nesse dia se ter queixado de nunca ir passear  Jamaica, que se tinha tornado o
novo local de frias para os ricos e os famosos.
- Mas, ento, e a educao da Leigh? - perguntou ela.
- Levamos connosco o preceptor, tal como das outras vezes - respondeu o pap, parecendo perplexo pela sbita preocupao da mam.
Eu tambm achei que era estranho da parte dela estar-se
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a preocupar com aquilo. Ela nunca se tinha preocupado antes.
- Pensei que ficasses contente - disse o pap. Parecia que o corao dele se tinha despedaado por a mam no ter ficado muito entusiasmada com a surpresa que havia
acabado de anunciar.
- Eu estou contente. S que...  to fora do normal tu, Cleave, fazeres alguma coisa espontaneamente. - A voz dela soou estranha e frgil. - Preciso de tempo para
me habituar  ideia. - Olhou para mim e pouco depois comeou a rir e continumos a festejar.
"Que dia de anos to maravilhoso este", pensei. E como fora perfeito da parte do pap ter-me oferecido este dirio para escrever estas recordaes to maravilhosas.
Era como se ele tivesse adivinhado que, a partir de agora, eu teria tantas recordaes especiais e que quereria, mais do que nunca, apont-las para as guardar para
sempre.
Hoje, senti um pouco do que seria ser mulher em vez de menina. No fundo do corao, gostava de saber se o pap me continuaria a trazer presentes e a chamar-me a
sua pequena princesa. Uma parte de mim receava que, se eu crescesse, o seu amor por mim mudaria, diminuiria.
A mam passou pelo meu quarto depois de eu me ter deitado e apagado as luzes. Queria lembrar-me do passeio  Manso Farthinggale. Pressenti como era importante para
ela eu gostar da Manso Farthinggale. Mas como  que eu poderia no gostar do stio que ela me tinha descrito? Segundo as suas palavras, soava a um reino de contos
de fadas.
E aquele Tony Tatterton... um rei.

3 UM REINO ENCANTADO

Estava  espera que o pap viesse connosco para ver os murais pintados pela mam, mas apesar de ser fim-de-semana, ele teve de ir ao escritrio. Por norma, passava
l os sbados e, muitas vezes, uma parte das tardes de domingo. Sobretudo neste fim-de-semana, o pap estava mais apreensivo do que nunca em relao aos seus negcios,
pois parecia certo que teria de vender um dos seus paquetes e reduzir o pessoal. As companhias de aviao estavam-se a expandir com mais velocidade do que ele imaginara
e continuavam a roubar-lhe a clientela. Dizia que as companhias de aviao iam comear a oferecer aos passageiros refeies a bordo, comida confeccionada por cozinheiros
famosos e que as pessoas at j faziam bicha para conseguirem lugares nos avies. Eu no lhe queria contar que algumas das minhas amigas da escola sonhavam em vir
a ser hospedeiras de bordo.
A mam aconselhou-o a investir em outros negcios diferentes dos navios a vapor e dos paquetes de luxo, mas ele abanou a cabea e respondeu que s sabia trabalhar
nesse ramo.
- O comandante  o ltimo a abandonar o navio - disse-me ele. - Percebes, princesa? - Senti pena dele, mas a mam no parecia nada perturbada, nem preocupada. Ela
achava que os novos cruzeiros s Carabas iriam ajudar a melhorar a situao. Dizia que j h algum tempo que o vinha a encorajar a iniciar esses cruzeiros.
- Mas como todos os homens - explicou-me ela -, detesta que uma mulher lhe diga o que fazer. Sinceramente prosseguiu -, os homens nunca deixam de ser umas crianas.
Gostam de ser apaparicados e mimados, mas so sempre to teimosos.
Ouvi o que ela disse; no entanto, no acreditava que o
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pap fosse assim to teimoso, excepto quando se tratava do seu escritrio l em casa. "E toda a gente  teimosa em relao a qualquer coisa", pensei. A mam tambm
era teimosa em algumas coisas. Quando a questionei sobre o assunto, ela respondeu que era um privilgio das mulheres fazerem-se por vezes difceis. Assegurou-me
que isso fazia com que os homens tivessem mais considerao pelas mulheres.
- Nunca deixes que um homem pense que te tem na mo - aconselhou ela. Estvamos a ter esta conversa no caminho para a Manso Farthinggale. Por hbito, tnhamos um
motorista, mas desta vez a mam quis conduzir.
O dia estava muito claro e invulgarmente quente. O pap comentou que estvamos a ter um Vero de So Martinho prolongado e, se continuasse assim, s veramos neve
em Janeiro. Eu esperava que houvesse neve no Natal. Era to diferente ouvir o som das campainhas dos trens ou os cnticos de Natal enquanto caam os flocos de neve.
Quando falei disso  mam, ela riu-se.
- O Tony Tatterton est a planear uma festa de Natal disse ela -, e, se o Tony Tatterton quiser ver neve no Natal e se no tiver nevado, ele mand-la- vir de avio.
- Deve ser muito rico - observei eu.
- Quando deliciares os teus olhos com Farthy e vires os carros desportivos e os Rolls-Royces, os puros-sangues rabes e os jardins com uma piscina que tem o tamanho
de uma piscina olmpica, vais perceber que esse adjectivo  at menosprezante - assegurou ela. Samos da cidade e fomos em direco ao mar.
- Farthy? O que  Farthy?
- Ah! - Voltou a rir-se, um riso agudo e curto, o tipo de som que as pessoas emitem quando esto a pensar em qualquer coisa bastante ntima, algo que s elas ou
algum muito prximo poderia apreciar. -  o diminutivo que o Tony deu  casa dele. Eu contei-te, chama-se Manso Farthinggale.
- Soa a nome de lugar tirado de um livro de histrias. S nas histrias  que as pessoas do nomes s suas casas.
- Oh, no - explicou a mam. - As pessoas com histria, que possuem casas, elas prprias com a sua histria, do realmente nomes s suas casas. Hs-de ver mais propriedades
grandiosas e espero que, a partir de agora, vs conhecendo cada vez mais pessoas dessa classe.
- Mam, sempre quiseste viver em grande estilo, mesmo quando tinhas a minha idade, l no Texas? - perguntei. Eu
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nunca tinha sonhado em viver numa grande propriedade ou ir a festas com aristocratas, cujas casas eram to antigas e famosas que tinham nomes prprios, tal como
Tara em E Tudo o Vento Levou. Era suposto eu desejar essas coisas? Ou seria uma consequncia da idade ou da maturidade? Gostava de saber.
- No propriamente - respondeu a mam e riu-se  conta de outro pensamento ntimo. - Eu queria viver numas guas-furtadas, ser a amante de um poeta pobre, em Paris,
e tornar-me uma artista esfomeada, mostrando o meu trabalho nas margens do rio Sena.  noite, sonhava sentar-me nas esplanadas dos cafs ouvindo o meu amante a declamar
a sua poesia aos amigos, mas quando contei  minha me, ela riu-se e meteu tudo a ridculo. Achava que eu era tola em querer vir a ser artista. Uma mulher s tinha
um propsito na vida: ser esposa e me.
- Mas ela no percebia que tinhas talento? No tinha orgulho nas tuas pinturas e nos teus desenhos? - perguntei eu, apesar de ser muito difcil para mim imaginar
a mam a viver numas guas-furtadas, sem as suas roupas elegantes e as jias e todos os cosmticos dela.
- A minha me nem sequer os queria ver e gritava comigo por passar demasiado tempo a desenhar ou a pintar. As minhas irms tambm no eram melhores. Sabotavam os
meus desenhos ou pinturas. No fazes ideia do quanto eu sofri quando tinha a tua idade, Leigh.
"Que horror", pensei, "a nossa prpria me ignorar-nos e no nos suportar." Pobre mam, a viver com aquelas irms horrveis e uma me que no ligava s coisas que
eram a sua paixo, coisas to importantes para ela. Devia estar mesmo to sozinha at o pap chegar e arrast-la para fora dali, para que ela se pudesse tornar uma
artista e continuar a ter as coisas de que gostava e ambicionava.
- Mas agora s feliz, no s, mam? Tens tudo aquilo que queres, no ? E podes ser uma artista, no ? - perguntei eu pressionando-a para que concordasse comigo.
Ela demorou algum tempo a responder, mas eu fiquei calada, pois pressenti que o faria.
- Eu tenho muitas coisas caras, Leigh, mas sinceramente, pensei que a minha vida ia ser diferente - Sorriu ao de leve. Eu adorava esse seu sorriso, o modo como os
olhos dela cintilavam quando recordava algo que lhe era querido. O pap tinha tanta razo quando disse que as recordaes so mais preciosas do que jias.
- Costumava imaginar que ia assistir a todos os tipos de galas, festas, baptizados de navios, enquanto as cmaras rodavam e os jornalistas me cercavam - confessou
ela.
- Mas tu foste a algumas. Eu vi as fotografias, os recortes de jornais.
- Sim, sim, uma vez por outra assistamos a um evento, mas tinha sempre de convencer o teu pai a ir. Ele foi educado num ambiente to prtico e puritano! Repara
no estado do escritrio dele, em casa. Segundo o teu pai, est tudo no stio certo. Est tudo bastante bem, porque tambm o estava para o pai dele, que  muito provvel
que tenha morrido com o primeiro tosto que ganhou ainda no bolso. Francamente! Tenho de fechar o escritrio dele cada vez que tenho uma visita em casa, mas ele
no se preocupa. Conheces algum que goste mais de trabalhar do que ele? - perguntou-me ela.
- Ele s est a tentar que o seu negcio tenha sucesso, para que ns sejamos felizes - respondi eu, em sua defesa.
- Sim, sim, para que ns sejamos felizes - repetiu ela, deixando diminuir a intensidade da sua voz. - Estamos cada vez mais perto, Leigh. Agora, olha para a direita
e procura uma falha nessa fila de rvores. A primeira viso da Manso Farthinggale  uma imagem para recordar - acrescentou ela, notando-se o entusiasmo na voz.
Via-se o Sol mesmo por cima das rvores e, quando virmos  direita e entrmos numa estrada particular, os seus raios iluminaram um enorme porto de ferro forjado,
arqueado, por cima das nossas cabeas, com uma inscrio ornamentada que dizia MANSO FARTHINGGALE. Sobressaltei-me com os diabinhos, as fadas e os gnomos que espreitavam
por entre as lanas de ferro. Senti-me realmente como se estivesse a entrar num lugar especial, um reino mgico. Mesmo antes de a casa grande surgir perante mim,
percebi a razo do entusiasmo da mam. A nossa casa na cidade era grande e luxuosa; a sensao, porm, era diferente quando se estava rodeado de acres e mais acres
de terra com campos e montes e grandes vedaes. L em Boston, vivamos na parte rica da cidade, mas aqui... aqui teramos a nossa cidade privada, o nosso mundo
privado.
- A Manso Farthinggale... - murmurei. Aquelas palavras produziam um som encantado. Quando as pronunciava, era como se mudasse o mundo  minha volta. Aqui, a relva
parecia mesmo mais frtil, mais verde e espessa. Quase todos os relvados na cidade j tinham comeado a ficar amarelos e
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castanhos. Pelo caminho, tinha observado muitas rvores que j haviam perdido o seu dourado de Outono e as suas folhas castanhas; as rvores nos campos de Farthy
no largavam as suas preciosas folhas e estas tornavam-se ainda mais bonitas pelo modo como a luz do Sol as acariciava e as alumiava como jias iluminadas. Uma parte
de Farthy estava aninhada, abrigada no abrao dos montes cincundantes que protegiam as rvores dos ventos agrestes provenientes do mar. Algumas folhas estavam to
quietas que parecia terem sido pintadas nos ramos.
Vi pelo menos uma dzia de pessoas do campo a trabalhar com o ancinho, a podar e a cuidar de plantas e rvores jovens. Alguns estavam de gatas  volta de fontes
luminosas, cujos centros tinham pequenas esttuas de Cupido, Neptuno e Vnus. Noutro stio, os trabalhadores transportavam carrinhos-de-mo cheios de pedra e areias
naturais para outros lugares. Havia uma sensao to forte de actividade e vida nos- jardins que dificilmente se acreditava que estvamos no fim de Outubro e que
o Inverno se aproximava. Ao longo do caminho, senti como se a mam e eu estivssemos a entrar de novo na Primavera, como se o tempo tivesse voltado para trs ou
como se ns tivssemos penetrado num reino que nunca assistira a um dia frouxo e triste.
Foi ento que olhei para a casa grande e pensei que tinha razo quando descrevi este lugar como um reino dos livros de histrias. O edifcio enorme construdo em
pedra cinzenta parecia mesmo um castelo. O telhado era vermelho e alto, formando torrees e pequenas pontes vermelhas que faziam a juno com as partes mais altas
do telhado que, de outra maneira, seriam inacessveis. Pus-me a imaginar a vista que deviam ter as janelas dos andares superiores. De certeza que dali se podia ver
o mar.
 medida que nos aproximvamos, a casa parecia ficar mais alta e mais larga. Achei que devia ser pelo menos to grande como meio quarteiro de uma cidade. A nossa
casa na cidade caberia l com facilidade e ainda haveria espao para mais algumas. Quando chegmos mais perto, a mam lanou-me um olhar para observar a minha reaco.
Ficou silenciosa, mas continuou a subir em direco aos largos degraus de pedra que conduziam a uma enorme porta de entrada arqueada.  porta parecia to pesada
e espessa que imaginei que teriam sido necessrios dez homens para a trazer.
- Chegmos - afirmou a mam e desligou o motor.
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Quase no mesmo instante, apareceu um criado para lhe abrir a porta. Era um homem alto e moreno, talvez na casa dos vinte e poucos. Vestia um uniforme de motorista
e tirou o chapu quando samos do carro.
- Boa tarde, Miles - cumprimentou a mam. Esta  a minha filha Leigh.
O Miles dirigiu-me um olhar rpido. Achei que ele era bastante tmido, mas engraado, e tentei logo imaginar como seria t-lo como meu namorado. Pensei, nervosa,
se ele me acharia bonita e no consegui deixar de corar. Teria a mam reparado?
- Prazer em conhec-la, Miss Leigh - disse ele e acenou com a cabea. Soava-me to estranho e to enfadonho ser cumprimentada de modo to formal; no entanto, mesmo
antes de pensar em sorrir, a mam lanou-me um olhar de expectativa.
- Obrigada, Miles - respondi eu. - O prazer  todo meu. - O Miles sentou-se prontamente ao volante para estacionar o nosso carro.
- O Miles  o motorista de Mister Tatterton - explicou-me a mam, quando comemos a subir as escadas. - S c est h duas semanas.
Antes de chegarmos  porta, esta foi aberta pelo mordomo, um homem muito alto e magro, com uma expresso triste e a cara profundamente marcada por rugas, e que me
fazia lembrar Abraham Lincoln. Tinha cabelo castanho-escuro ralo, penteado para trs, liso e com um risco quase ao meio. Os seus movimentos eram to lentos e suaves
que me fazia lembrar um cangalheiro.
- Boa tarde, Curtis - cumprimentou a mam. - Esta  a minha filha Leigh.
- Boa tarde. - O Curtis assentiu silenciosamente, sem levantar os olhos, como se estivesse a cumprimentar um membro da famlia real e depois recuou um passo para
nos deixar entrar. - Mister Tatterton aguarda-vos na sala de msica.
- Obrigada - agradeceu a mam e descemos o enorme trio de entrada. - O Curtis ainda no passou da casa dos vinte, mas parece j que  av - segredou-me ela e riu-se.
Nunca tinha visto a mam to excitada; parecia quase uma menina ou uma rapariga da minha idade. Fiquei nervosa, quase assustada, mas no percebia porqu. S sabia
que queria que ela parasse, que agisse de novo como uma me.
Para tentar afastar a minha mente dessa inquietao sem
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sentido, observei as dzias de enormes retratos antigos por que passvamos no caminho, bem como quadros com lindos cavalos, quadros que retratavam o mar, quadros
e mais quadros, e esplndidas tapearias artisticamente dispostas ao longo das paredes de mrmore. Encostadas s paredes encontravam-se mesas de mrmore pretas e
brancas e bancos de pedra decorativos, que, obviamente, eram demasiado desconfortveis e frios para servirem de assento.  nossa frente, estendia-se uma longa escadaria
circular, duas vezes, no, trs vezes mais comprida e mais larga do que a nossa. Por cima de ns pendia um lustre colossal, com tantas lmpadas que me pus logo a
imagin-lo ligado; devia ser to brilhante como o Sol. O cho do trio estava coberto por enormes tapetes persas com um aspecto to asseado e novo que at era pecado
andar por cima deles.
- Vem - apressou a mam, e eu segui a seu lado, enquanto atravessvamos uma enorme sala de estar. Vi, de relance, um piano de cauda. Parmos  porta da sala de msica
e eu olhei para cima e contemplei o tecto em forma de cpula. Havia um escadote alto com andaimes suspensos exactamente no ponto onde a pintura ainda tinha de ser
acabada.
At ao momento, a mam pintara um cu azul-vivo onde voavam andorinhas-do-mar e pombos. No centro, via-se um homem a voar num tapete mgico e, mesmo em frente, o
esboo de um castelo mstico, suspenso no ar, meio escondido por nuvens, que ainda estava por pintar.
Olhei para os murais e reconheci algumas cenas, pois eram desenhos que ela tinha feito para ilustrar vrios livros infantis. A parede oposta consistia por inteiro
na pintura de uma floresta ensombrada, atravs da qual espreitava a luz do Sol, com trilhos sinuosos que levavam a cordilheiras de montanhas enevoadas e castelos
no topo.
- O que  que achas? - perguntou-me, com brandura.
- Oh, mam,  lindo, mesmo lindo. Adoro!
Ficara to fascinada pelos murais e pelas pinturas no tecto que no me havia apercebido do homem sentado no pequeno sof, cuja armao era minuciosamente ornamentada.
O sof estava de frente para a porta, de modo que tnhamos sido observadas, enquanto eu estivera a descrever crculos lentos, com a respirao suspensa, os olhos
esbugalhados, maravilhada.
- Oh - exclamei eu, recuando para mais perto da mam. No consegui deixar de corar de vergonha.
O atraente jovem, dono dos olhos azuis mais brilhantes
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que eu j vira, sorriu. Vestia um casaco de smoking de veludo cor de vinho, calas escuras e o seu cabelo castanho-escuro era espesso e farto. Os seus lbios eram
carnudos; at eu me podia aperceber da sua sensualidade, e a sua face estava to bronzeada como a de uma estrela de cinema. Achei que tinha um aspecto elegante e
um toque de celebridade.
Quando se levantou, observei que era forte e tinha ombros largos. Era alto, talvez tivesse mais dois ou trs centmetros do que o pap, e as suas mos eram longas
e graciosas. Este homem emanava um poder, uma confiana e uma firmeza que parecia demasiado jovem para poder possuir.
- Desculpem - disse ele -, mas tinha de vos observar  vontade por uns momentos. No h dvida de que esta  a sua filha, Jillian. Herdou a sua joie de vivre e os
olhos cintilam com a mesma exuberncia que caracteriza os seus. Olhei para a mam para ver a reaco dela a elogios to generosos. Oh, parecia desabrochar com o
som dos elogios, como uma flor sob chuva quente de Vero. - Sejam bem-vindas a Farthy.
- Leigh, este  Mister Tatterton - apresentou a mam, sem tirar os olhos dele.
Mr. Tatterton? Eu estava parva. Pelo modo como a mam falara dele, eu simplesmente deduzira que era um homem muito mais velho, um homem grisalho. Eu idealizava que,
de alguma maneira, todos os milionrios eram como os homens dos nossos textos de Histria: os Rockefeller e os Carnegie, os bares do petrleo... Velhos enfadonhos,
que s se interessavam por Wall Street ou por cartis e monoplios.
Olhei para a mam e percebi, pelo brilho dos olhos dela, que se estava a divertir com a minha reaco e que gostava muito do Tony Tatterton.
- Como est, Mister Tatterton? - cumprimentei eu.
- Oh, por favor, chama-me Tony. Ento, gostas das pinturas da tua me? - perguntou ele, apontando para o tecto e depois para as paredes.
- So maravilhosas. Adoro!
-  verdade. - Virou-se para mim e fixou-me com um olhar penetrante, que fez o meu corao bater e me provocou calor no pescoo. Eu esperava no ter corado excessivamente.
Desde pequena que o mais pequeno laivo de entusiasmo me fazia corar.
- Eu tambm adoro - concordou o Tony -, e hei-de
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estar eternamente em dvida para com Mistress Deveroe por ter trazido a tua me at aqui. Bem - exclamou, batendo com as palmas das mos. - Primeiro, o mais importante.
Tenho a certeza de que queres dar uma volta para conhecer Farthy.
- Eu tambm quero - ouvi uma voz mida a gritar. Virei-me para a esquerda e deparei-me com um menino de olhos escuros e inquiridores, to grandes como moedas de
meio dlar, a olhar-me fixamente pelo canto do sof. Era bvio que estivera escondido atrs do sof. Tinha o mesmo cabelo castanho-escuro do Tony Tatterton e usava-o
comprido, mas cuidadosamente arredondado nas pontas, tornando-o parecido com um principezinho. Estava vestido com um fato de marinheiro azul-escuro.
- Anda c, Troy - chamou o Tony Tatterton -, e deixa-me apresentar-te como deve ser. Anda.
O rapazinho hesitou e continuou a fitar-me.
- Ol - disse eu. O meu nome  Leigh. Queres apertar  minha mo?
Ele assentiu rapidamente e precipitou-se na minha direco.
- Bem, percebe-se que o Troy j tem bom gosto com apenas quatro anos de idade. O Troy  o meu irmo mais novo - explicou-me o Tony, enquanto eu apertava a mozinha
do Troy. Este olhou-me com ansiedade. - Suponho que se possa dizer que sou mais um pai do que um irmo para ele, j que os nossos pais faleceram - acrescentou o
Tony.
- Oh! - Baixei o olhar para aquele menino to bonito e senti pena dele. Tinha um aspecto to frgil e to pequeno como um passarinho acabado de cair do seu ninho,
perdendo desse modo o calor e o carinho da sua me. Havia ansiedade nos seus olhos, um pedido de calor e amor.
- Troy, apresento-te a filha da Jillian, a Leigh. Leigh, este  o Troy Langdon Tatterton - disse o Tony e riu-se muito, pois o Troy no largara a minha mo. Ajoelhei-me
para olhar para a cara do Troy.
- Tambm queres acompanhar-nos na visita? - perguntei eu e ele assentiu prontamente, estendendo-me os braos para eu lhe pegar ao colo. Abracei-o e ergui-o. Levantei
os olhos e deparei com os intensos olhos azuis do Tony Tatterton a fitarem-me. Os seus olhos fixaram-se nos meus por instantes e eu senti-me pouco  vontade; depois,
riu-se.
- Uma mulher de fora. Eu sabia - disse o Tony. Apesar disso, deves ser uma pessoa muito especial, Leigh.
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Normalmente, ele fica bastante envergonhado quando est ao p de pessoas que acaba de conhecer.
Corei e desviei o olhar. Se havia algum tmido ali, era eu, pensei. O pequeno Troy parecia to delicado que eu no queria fazer nada que o magoasse.
- Oh, ele no vai ser envergonhado ao p de mim, pois no, Troy? - Ele assentiu.
- Excelente - exclamou o Tony. - Vamos ento dar uma volta pela casa e depois damos uma saltada l fora, para ver a piscina e os cavalos. Depois de almoo, vamos
todos dar um passeio pela praia. Mas, Troy, a Leigh no pode andar contigo ao colo para todo o lado. J ests demasiado grande e pesado.
- No faz mal - retorqui eu. - Tenho a certeza de que logo, logo, o Troy h-de querer voltar a andar pelo seu p, no , Troy? - Ele acenou com a cabea e estudou-me
com mincia. Apercebi-me do receio que os seus olhos deixavam transparecer, receio que eu o largasse e ignorasse. - Talvez o Troy me possa explicar algumas coisas
e mostrar-me outras, tambm. Podes, Troy? - Ele assentiu. - Ento, estamos prontos.
O Tony voltou a rir-se e ele e a mam conduziram-nos para fora da sala de msica. Talvez nenhuma das divises da casa grande fosse to impressionante como a sala
de jantar. Era to grande como um salo para banquetes e tinha a mesa mais comprida que eu alguma vez vira. Enquanto l estivemos, o cozinheiro saiu da cozinha e
o Tony apresentou-nos. Apercebi-me de que o Tony tinha muito orgulho nele. Tinha-o descoberto numa viagem a Nova Orlees e trouxe-o para ser o seu cozinheiro privativo.
Chamava-se Ryse Williams. Era um negro muito caloroso e alegre e tinha uma maneira de falar que fazia com que as palavras soassem a msica. Prometeu preparar-nos
"um almoo to especial que os nossos estmagos nos iriam agradecer por muito tempo".
Fiquei com os braos to cansados que pensei que tinham esticado uns centmetros e pousei o Troy no cho para subirmos as escadas de mrmore. Estava desejoso de
que eu visse o quarto dele. Todos os quartos no andar de cima eram suites na verdadeira acepo da palavra, cada um com a sua prpria sala de espera. A sala de espera
do Troy estava to cheia de brinquedos que parecia uma loja.
- A tua me no te falou do meu ramo de negcios? perguntou o Tony, ao ver a minha admirao. Eu fiz que no com a cabea. - Queres dizer que ela no te contou que
ias
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visitar o rei dos brinquedos? - Ele e a mam olharam um para o outro, como se fosse uma piada privada. Voltei a negar, confundida, tanto pela conversa, como pelos
olhares divertidos que a mam trocava com esse jovem forte e atraente.
Porque  que ela haveria de lhe chamar rei dos brinquedos? - perguntei eu, enquanto o Troy ia  pilha de brinquedos buscar qualquer coisa especial para me mostrar.
Foi assim que construmos a nossa fortuna - explicou o Tony. Ele viu como os meus olhos se abriram de interesse e sorriu, um sorriso pequeno e firme... divertido.
- Quer dizer ento que tens sido uma criana privada de um brinquedo Tattertonl Jillian, devia ter vergonha - brincou ele.
- Por amor de Deus, j tenho problemas suficientes para tentar que o pai dela lhe compre coisas adequadas a uma rapariga - contestou a mam, com malcia. O Tony
e a mam fitaram-se por um momento, como se j tivessem tido esta discusso anteriormente, e em seguida ele tornou a voltar-se para mim.
- Os nossos brinquedos so especiais. No so brinquedos comuns, feitos de plstico. Os brinquedos que ns fazemos destinam-se a coleccionadores, a pessoas abastadas
que no conseguem crescer nem esquecer que j no so crianas. Talvez algumas ainda no tenham superado as recordaes do tempo em que eram pobres, quando no havia
praticamente nenhuns presentes sob as suas rvores de Natal ou quando os seus pais no tinham dinheiro para lhes oferecer prendas de anos.
"Ests a ver aquele castelo com o fosso? - perguntou ele, apontando para o canto mais distante do quarto do Troy.
- Foi feito  mo por um dos meus artesos. Se olhares com ateno, reparars no trabalho de pormenor. Cada brinquedo  nico, por isso, cada um  especial e valioso.
As pessoas que tm recursos, constrem o seu prprio reino, por assim dizer.
Fui at l para ver o castelo.
- At tem pessoas em miniatura, empregados, camponeses, senhores e senhoras! - exclamei eu. - Todos os seus brinquedos so assim to perfeitos?
- Sim, so, ou ento no os deixo serem vendidos. A sua manga de veludo roou a minha quando avanou para o meu lado e eu senti o perfume forte da sua gua-de-colnia
e da sua loo de barba dispendiosas. - E tambm fazemos jogos, mas so jogos to difceis que pem mentes mais avanadas a pensar durante horas e horas.
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Tornou a olhar para a mam e sorriram um para o outro como anteriormente, como se partilhassem uma piada ntima.
- As pessoas ricas tm tendncia para se aborrecerem mais depressa. Algumas esto sempre entediadas e  ento que se viram para os artigos de coleco, sejam as
antiguidades ou os meus brinquedos. H pessoas neste pas com tanto dinheiro que no tm tempo para o gastar. Eu forneo-lhes outro escape, um lugar para encontrarem
a fantasia.
"Se viesses comigo a uma das minhas lojas de brinquedos, pensarias que estavas a entrar num pas encantado. Nas minhas lojas, as pessoas podem penetrar no perodo
de tempo que desejarem, seja o passado ou o futuro. Ns achamos que elas esto mais interessadas no passado. Talvez tenham medo do futuro - concluiu ele, em tom
filosfico.
Olhei-o fixamente. Falava dos seus clientes como se devssemos ter pena deles. Achei que, no fundo, ele no os respeitava, apesar de serem a fonte de rendimentos
que lhe permitia sustentar aquela grandiosa propriedade.
- Olha! - O Troy insistia e puxava-me a saia. Baixei o olhar e vi-o a agarrar num carro de bombeiros de metal quase to grande como ele. As peas eram todas mveis
e algumas desmontveis. Os rostos dos pequenos bombeiros estavam moldados e pintados com tanto pormenor, que cada um tinha uma expresso distinta. O Troy premiu
um dispositivo e a sirene disparou.
-  maravilhoso, Troy - exclamei. - Aposto em como te divertes imenso com isso.
- Queres brincar? - perguntou ele.
- A Leigh no pode brincar com os teus brinquedos agora, Troy - explicou o Tony. - Ns amos lev-la a dar uma volta pela propriedade, lembras-te?
O Troy ficou muito desgostoso.
- Brincamos mais tarde - disse eu. - Prometo, est bem?
Ele assentiu e a esperana voltou aos seus olhos.
Do quarto do Troy passmos s outras suites, cada uma mais luxuosa e maior do que a anterior. Todas as salas de espera estavam totalmente mobiladas com peas restauradas
do sculo xix, algumas com aspecto de nunca terem sido usadas. Tambm havia obras de arte por todo o lado. As casas de banho eram grandes e estavam decoradas com
acessrios de bronze e banheiras to grandes como pequenas piscinas. Havia espelhos por todo o lado, o que tornava as casas de banho e os quartos ainda maiores.
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A mam e o Tony Tatterton caminhavam  nossa frente quando samos para dar uma volta pelos jardins. Sempre que conversavam, falavam to baixo que eu no conseguia
ouvir o que diziam, mas provavelmente no teria conseguido ouvir nada na mesma por causa do Troy. Dei-lhe a mo enquanto passevamos pelos atalhos ao longo dos jardins
e do relvado, em direco  piscina e ao caramancho, e o Troy iniciou um monlogo singular para um menino da idade dele. Quando se comeou a habituar a mim, revelou
ento como era encantador.
- O Boris, o jardineiro, vai plantar ali pequenas rvores
- disse ele, apontando para a direita, onde estavam a trabalhar dois homens. - As flores esto mortas mas, passando o Inverno, vo crescer mais e mais, pois o Boris
diz que este ano vai plantar mais flores diferentes.
"Ele tambm  o patro do labirinto - acrescentou o Troy, manifestamente impressionado com o facto.
- O labirinto?
Apontou para a minha direita e eu vi-o. Os muros de sebes tinham pelo menos trs ou quatro metros de altura.
-  muito comprido? - perguntei eu.
- Vai at l ao fundo - apontou o Troy -, e vai dar  casa pequena de pedra.
- A casa pequena de pedra?
- Hum, hum. - Assentiu e depois largou a minha mo e foi a correr at junto do Tony, puxando-lhe a parte de baixo do casaco de smoking.
- A Leigh quer ir ao labirinto! A Leigh quer ir ao labirinto! - entoou ele.
- Sim? - o Tony e a mam voltaram-se para mim.
- Eu no disse isso. Ele  um diabinho. Mas se calhar  divertido - acrescentei, olhando na direco do labirinto.
- Tens de ter cuidado quando l entrares - avisou o Tony. - As pessoas perdem-se mesmo l dentro.
-  grande e profundo? - perguntei eu, curiosa.
- Oh, sim. Eu nunca o medi, verdade seja dita, mas o Boris, o meu jardineiro, acha que mede pelo menos meio acre, se no for mais.
- Vamos entrar no labirinto, Tony! - gritou o Troy. Vamos entrar no labirinto, Tony!
- Talvez mais tarde. Troy, temos de mostrar  Leigh a piscina e as cavalarias e lev-la l abaixo  praia, no ?  de mais para um dia s - acrescentou ele, abanando
a cabea. - Receio bem que tenhas de voltar c muitas vezes, seno o Troy vai ficar muito perturbado.
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Olhei para a mam. Estava a sorrir que nem um gato Cheshire, um sorriso at s orelhas.
- Talvez possas voltar no prximo fim-de-semana - disse o Tony.
- Sim, por favor, por favor - implorou o Troy.
- Eu... ns vamos para fora no prximo fim-de-semana, mas quando voltarmos...
- Vo para fora? - O Tony virou-se bruscamente para a mam. - No me lembro de ter mencionado nenhuma viagem.
- Eu apenas soube disso a noite passada - disse ela. Soava to descontente com o facto, que eu at fiquei surpreendida. "Mas porqu?", pensava eu. Ela queria tanto
fazer aquela viagem. - Mais tarde falamos sobre isso - acrescentou com suavidade, dirigindo-se ao Tony, e virou-se, de maneira a continuarem o passeio. A conversa
deles, apesar de manter o tom, tornou-se mais animada e ambos gesticulavam. Provavelmente, o Tony estava apenas preocupado com os murais por acabar, disse eu para
mim mesma.
O pequeno Troy, comeou outra vez a choramingar por causa do labirinto.
- Est bem - cedi eu. - Depois de vermos a piscina, tu e eu damos l um salto, certo?
- Certo. - Voltou a pegar na minha mo e olhou-me muito satisfeito.
- s um pequeno enfeitiador, no s, Troy Langdon Tatterton?
O Troy encolheu os ombros, como se tivesse percebido exactamente o que eu tinha dito e eu ri-me imenso.
"Que lugar estranho e, porm, maravilhoso,  este", pensei enquanto prosseguamos. Era amplo e bonito e podia oferecer muitas coisas aos seus habitantes, mas Farthinggale
era demasiado imensa s para um homem solteiro e o seu irmozinho mais novo. "Mesmo com um exrcito de empregados  sua volta, eles devem sentir-se muito sozinhos",
supus. Pobre pequeno Troy, lamentei eu, ter perdido os pais com quatro anos de idade. Tremi ao pensamento de poder perder os meus prprios e queridos pais, que eu
tanto adorava. Muitas vezes a mam falava como se o dinheiro pudesse comprar felicidade, mas eu tinha a certeza de que, se o pequeno Troy pudesse escolher, desistiria
de tudo aquilo s para ter de volta os seus pais. Eu sei que eu o faria.
O Tony deixou o Troy correr para dentro da recm-esvaziada piscina olmpica. Ele achava engraado ir para a zona funda, onde anteriormente houvera gua.
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O pirralho sabe nadar, sabias? - sussurrou-me o Tony ao ouvido. - Desde o ano e meio de idade.
- A srio?
Leigh, entra. Entra, Leigh. A gua est ptima! -
O Troy ria-se da sua prpria piada. Parou mais ou menos a meio do caminho e acenou.
- Est frio de mais para ir para a gua - gritei eu. Ele olhou para mim, com uma expresso de espanto, o mais adulta possvel.
- Estava a brincar. A piscina no tem gua - disse ele, esbracejando, como se estivesse a falar com uma idiota chapada. Tive de rir, e a mam e o Tony tambm.
- Est bem - concordei. - vou dar um mergulho. Desci os degraus e fui para dentro da piscina. Ele deu-me a mo e levou-me at ao fundo.
- Eu consigo nadar daqui at aqui - anunciou ele, apontando. Depois de tocarmos na parede mais afastada, voltmos para trs, para sair da piscina. A mam e o Tony
tinham ido  frente para outro stio. Quando subimos as escadas, vi-os junto do caramancho, conversando de novo muito animados e muito prximos. Achei que o Tony
parecia transtornado. A mam reparou que o Troy e eu tnhamos reaparecido e pousou a mo no antebrao do Tony para o interromper.
- Olha, Leigh - chamou ela -, at tem um pequeno palco para a banda tocar enquanto as pessoas tomam banho.
-  verdade - esclareceu o Tony. - Damos festas maravilhosas na piscina durante todo o Vero: comemos com requinte e danamos a noite toda. J alguma vez tomaste
banho sob as estrelas? - perguntou-me, e apontou para o cu, como se estivssemos a meio da noite e as estrelas se encontrassem a brilhar. Eu disse que no com a
cabea; porm, falar sobre aquilo j me parecia maravilhoso.
O Troy puxou-me o brao. Olhei para baixo e vi os seus olhos suplicantes.
- Tony, fazia mal se, a caminho das cavalarias, eu levasse o Troy a dar um passeio pelo labirinto? - perguntei, acenando na direco do Troy.
- Est bem - assentiu, dirigindo-se ao Troy. - Podes levar a Leigh at ao labirinto. Entrem ali mesmo - disse, apontando -, mas no passem da primeira curva - instruiu.
- Diz isso de uma maneira que parece que o labirinto nos pode engolir - exclamei eu.
Ele ficou mais srio e os seus olhos azuis cor do cu diminuram.
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- E pode mesmo - avisou ele. Eu concordei, impressionada com a preocupao dele.
- Pronto, Troy. Podemos ir, mas ouviste o que o teu irmo disse. D-me a mo e no desates a correr l para dentro, percebes?
- Hum, hum - anuiu, acenando a cabea, com nfase.
- Mam? - Pensei que ela talvez quisesse vir connosco.
- Vo vocs - disse ela. - Ns esperamos aqui. Peguei na mo do Troy e caminhmos atravs dos jardins em direco ao labirinto.
Apercebi-me, pelo modo preciso e cuidadoso como o pequeno Troy entrou, que o labirinto o impressionava bastante. A expresso dele tornou-se reverente e receosa.
Segurava a minha mo com firmeza e, por um momento, senti-me como se tivesse acabado de entrar numa igreja. Era to sossegado! At o chilrear dos passarinhos do
jardim soava distante e enfraquecido, e os gritos melanclicos das gaivotas que voavam por cima de ns eram abafados e longnquos. As sebes eram to altas, que,
a uma determinada altura, cortavam o calor do sol e projectavam sombras compridas e escuras no nosso caminho. No entanto, achei o labirinto sereno, de uma tranquilidade
bonita e misteriosa. Quando chegmos  primeira curva e eu olhei para o caminho em frente, que tinha ramificaes para a esquerda e para a direita, apresentando
alternativas que poderiam levar uma pessoa perdida a caminhar em crculos, ou, eventualmente, chegar a um destino, apercebi-me do desafio e no consegui deixar de
ficar um bocadinho excitada e curiosa. Provavelmente era isto que o Tony queria dizer quando avisara que o labirinto nos poderia engolir. Era tentador, atraente;
desafiava qualquer intruso a desvendar os seus segredos. Pensei que ia adorar voltar, um dia, sozinha, e tentar.
- J alguma vez foste mais longe, Troy? - perguntei.
- Oh, claro. s vezes o Tony leva-me at  casa pequena. Ele consegue atravessar o labirinto sem o menor problema - contou-me ele, antecipando os ziguezagues, com
movimentos oscilantes da palma da mo. Depois, inclinou-se na minha direco, com os olhos a rebentar de excitao e sussurrou-me: - Queres experimentar?
- Seu diabinho. Tu ouviste o que o teu irmo disse. Agora, anda, vamos voltar. A seguir quero ver os cavalos.
O Troy retrocedeu e fez um sorriso dengoso, como se fosse um jovem pelo menos quatro vezes mais velho. Logo a seguir, veio-lhe uma ideia melhor  cabea, um pensamento
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mais excitante, e incitou-me a regressar ao stio onde havamos entrado.
Anda, vou mostrar-te o meu pnei, o Sniffles, e podes mont-lo, est bem?
Sniffles? - Segui-o em direco  sada, deixando as minhas gargalhadas para trs, a esmorecerem nas sombras do labirinto.
O Tony e a mam tinham andado a caminhar e estavam de novo envolvidos numa daquelas conversas animadas. Fiquei com o estmago s voltas perante a imagem da minha
mam a atirar para trs a sua amorosa cabea e a rir de qualquer coisa que o Tony lhe havia dito com aquele lindo riso gutural. Tentei convencer-me de que apenas
estava com fome para almoar. No entanto, uma parte de mim estava subjugada por tudo, naquele reino de histrias de encantar, e a outra parte queria fugir do seu
misterioso encantamento.
- TONY! TONY! - gritou o Troy, largando a minha mo e correndo para eles. - A Leigh quer montar o Sniffles. Pode? Pode?
Eu abanei a cabea.
- A Leigh quer montar? Ou tu  que queres que ela monte? - perguntou-lhe o Tony. O Troy encolheu os ombros sem perceber a diferena. - Bem, Troy, tu sabes que leva
tempo a preparar o pnei. Primeiro, temos de avisar o Curly e, de qualquer maneira, a Leigh no est adequadamente vestida para montar, no achas? - perguntou ele.
O Troy virou-se e olhou para mim. Eu trazia uma das minhas camisolas novas de caxemira, mas em vez de usar uma daquelas saias justas novas, vestira uma das minhas
saias com folhos.
A mam estalou os dedos.
- Eu sabia que me tinha esquecido de alguma coisa. Ia comprar-lhe um fato de montar novo pelos anos.
- Pelos anos? - exclamou o Tony. - Ah,  verdade, a Leigh fez anos ontem. - Piscou o olho  mam e deu um passo em frente. - Eu sabia que havia uma razo para carregar
com isto - disse-me ele e tirou uma caixinha do bolso do casaco. Estava embrulhada em papel dourado com uma fita preta  volta.
- O que  isso?
-  bvio que  um presente de aniversrio, Leigh disse a mam, um pouco com maus modos. - Pega nele e agradece.
- Mas... - Devagar, peguei nele.
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- O que ? O que ? - perguntava o Troy. Desatei a fita e desembrulhei a caixinha. A seguir, abri-a
e deparei com um medalho de ouro com a forma de barco e um colar tambm de ouro. O medalho tinha dois diamantes minsculos em cima de cada uma das chamins do
navio.
- Oh, olha - disse eu, tirando-o para fora da caixa. A mam abanou a cabea e sorriu.
- Lindo.
- Eu tambm quero ver. Mostra-me tambm - gritou o Troy. Ajoelhei-me e ele fitou-o com um interesse pouco duradouro.
- No vai flutuar - afirmou.
- No  para flutuar, Troy.  para usar  volta do pescoo, vs? - disse eu. Tirei o colar para fora e segurei-o.
- Repara na parte de trs - pediu o Tony. Virei o medalho e li "A Princesa Leigh".
- Que bonito, Tony - disse a mam, j sem o tom mal-humorado. - Gostava que o pai dela lhe desse presentes desse tipo, em vez de lhe oferecer modelos actuais de
navios, para desmontar e estudar - acrescentou ela.
- Os paps so sempre os ltimos a perceber como as filhas esto crescidas. - Levantei os olhos com brusquido. O Tony fitava-me com aqueles intensos olhos azuis,
o que me fez sentir mais velha. A sensao fez-me corar e, com o corao acelerado, baixei os olhos to rapidamente como os tinha levantado.
- De qualquer maneira, espero que gostes, Leigh - disse o Tony quase num sussurro.
- Oh, adoro. Obrigada. Muito obrigada. - Olhei para a mam, que assentia silenciosamente, e percebi que ela queria que eu lhe desse um beijo. Como tinha acabado
de o conhecer, senti-me estranha por ter de beijar o Tony, apesar de ele me ter oferecido um presente muito caro. A mam olhava para mim como se estivesse  espera
disso e eu queria fazer tudo bem, se no por mim, ento por ela.
O Tony antecipou o beijo de agradecimento. Inclinou-se e voltou a cara para os meus lbios. Dei-lhe um beijo rpido, mas cerrei os olhos e inalei o perfume da sua
loo de barbear. Foi mesmo o primeiro homem que, para alm do pap, alguma vez beijei. No consegui impedir que o meu corao palpitasse furiosamente e que ficasse
um pouco tonta. Tinha esperana de que ele no tivesse notado.
- Obrigada - murmurei.
- Deixa-me ajudar-te a p-lo - disse o Tony e tirou-mo
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das mos. Os meus dedos estavam mesmo a tremer. Ele abriu a corrente e p-la  volta do meu pescoo, enquanto estudava o fecho. - Estas coisas so to minsculas.
Pronto, j consegui. - Recuou um passo, ps-se ao lado da mam e os dois apreciaram-me. O medalho pendia mesmo entre os meus seios.
A mam tinha um ar distante, quase triste, como se, de repente, tivesse ficado um pouco ciumenta.
- ptimo. - O Tony bateu palmas. - Bem, ento prosseguiu ele -, vamos continuar e ver as cavalarias para que saibas o que podes fazer quando tiveres o fato de montar.
Quando chegmos s cavalarias, o Troy chamou o Curly, um escocs pequeno e robusto, que tinha mesmo cabelo ruivo muito encaracolado. Aparentava cerca de cinquenta
anos. Cada uma das suas faces rechonchudas tinha duas rosetas vermelhas, to vivas que parecia ter posto maquilhagem de palhao.
- Imagino que queira dar uma olhadela ao Sniffles disse ele, indicando o caminho.
O Curly abriu a porta do estbulo. Olhei para dentro e vi o pnei Shetland preto e branco. Era to bonito que fiquei logo apaixonada. O Troy ofereceu-lhe um bocado
de feno, ele pegou-lhe delicadamente e comeou a mastigar com os olhos postos em mim.
- Se quiser pode fazer-lhe festas, menina.
- vou fazer. Obrigada. - Afaguei o cavalinho e pensei outra vez no lugar mgico que era a Manso Farthinggale, com os seus lindos jardins, a sua enorme piscina e
o caramancho com o palco, o seu labirinto e agora, as suas cavalarias. Comecei a perceber porque  que a mam estava to encantada. Talvez ela fosse tentar convencer
o pap a sair da cidade e a comprar uma propriedade, pensei.
- Voltas amanh para montar o pnei? - perguntou o Troy. - Voltas?
- Amanh talvez no, Troy, mas em breve.
Ele ficou outra vez desapontado. Oh, como ele precisava desesperadamente de uma me, algum que lhe desse ternura e carinho. O Tony devia ser um bom irmo para ele,
mas no lhe conseguia proporcionar o conforto que uma me lhe
1 Curly: adjectivo que significa "encaracolado" e que normalmente se refere  descrio dos cabelos de uma pessoa; foi adaptado ao nome e/ou diminutivo do tratador
dos cavalos.
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traria. Gostava de poder lev-lo connosco para casa. Sempre quisera ter um irmozinho mais novo.
O Tony e a mam levaram algum tempo a chegar s cavalarias. J tinha comeado a pensar se deveramos voltar atrs e ir  procura deles. Quando por fim chegaram,
o Tony anunciou que era tempo de irmos ver do almoo. A mam tinha decidido que queria ir trabalhar duas horas nos murais depois de comer e o Tony ofereceu-se para
nos levar, a mim e ao Troy,  praia. O Tony apercebeu-se de que eu fiquei desapontada. Queria ver a mam a trabalhar.
- Vou-te mostrar todos os meus lugares especiais na praia - prometeu ele. - Adoro o mar. - A sua expresso modificou-se, entristeceu. -  mgico e misterioso, e
muda todos os dias.
- O meu pai tambm adora o mar - disse eu.
- Tenho a certeza que sim. Mas eu fico contente de no depender do mar para viver - acrescentou. - O mar pode ser to imprevisvel... tal como uma mulher. - Fiquei
surpreendida quando vi a mam a rir. Se fosse o pap a dizer aquilo, tinha a certeza de que ela lhe teria lanado um olhar mal-humorado ou que teria ficado calada.
Contudo, parecia que ela achava que tudo o que o Tony Tatterton fazia ou dizia era maravilhoso. - Belo, todo-poderoso e falso - prosseguiu ele, fazendo um grande
sorriso que parecia no chegar aos olhos. - Mas no h nada mais bonito do que o mar. Excepto, claro, a tua me - acrescentou, olhando para a mam. Virei-me imediatamente
para observar a reaco dela; porm, em vez de se sentir embaraada, estava orgulhosa.
Pensei que devia ser embaraoso para uma mulher casada ser elogiada por outro homem de uma maneira to excessiva.
Era to mais fcil ser apenas uma menina... Quase desejei voltar a s-lo; sabia, porm, que o tempo e o destino no me deixariam voltar atrs.

4 UM LUGAR MUITO NTIMO

O almoo foi to maravilhoso como o Ryse Williams tinha previsto e o Tony transformou-o numa ocasio formal. De repente, estvamos rodeados por empregados, caras
novas que parecia terem surgido do nada - dois empregados e uma empregada. Senti-me como se estivesse num restaurante chique.
- A mesa estava posta com loua de porcelana que parecia muito cara e o Tony explicou que era herdada dos seus avs. Sentmo-nos todos na extremidade da enorme mesa,
o Troy e eu  esquerda do Tony e a mam  sua direita. Cada lugar tinha um copo para vinho, at o do Troy. O Tony piscou-me o olho quando serviu algumas gotas de
vinho no copo do irmo. O Troy portou-se de uma forma muito adulta, no mostrando qualquer surpresa. Reparei, pela maneira como estudava cada movimento do Tony,
que tentava fazer tudo igual a ele. Pegou no guardanapo, desdobrou-o e colocou-o cuidadosamente no seu pequeno colo. Em seguida, recostou-se com a mesma postura
perfeita.
Ao lado da taa da fruta, dentro da qual cada pedao de fruta tinha uma forma estranha, tnhamos uma salada deliciosa com ingredientes que eu nunca havia provado
ou visto anteriormente. Alguns pareciam ptalas de flores, mas sabiam que era uma maravilha. O prato principal era composto por camares sob uma camada de arroz
solto. Estava picante, e delicioso. Como sobremesa, o Ryse Williams trouxe-nos, ele prprio, um gelado pche melba. Fiquei to cheia que ansiei pelo passeio na praia.
- Leigh - chamou o Tony -, porque  que no levas o Troy l para fora que eu j l vou ter convosco? A tua me e eu temos ainda que discutir um ou dois pormenores
sobre os murais.
- Anda, Leigh - gritou o Troy, saltando da cadeira.
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Olhei para a mam. Tinha os cotovelos em cima da mesa, os dedos das mos entrelaados, fazendo presso contra os lbios, mas havia um sorriso de felicidade  volta
dos seus olhos. Aqui, no meio deste encantamento, ela parecia mais do que nunca uma princesa de um conto de fadas, pensei eu.
- vou vestir a minha bata - disse ela, suavemente. Segui o Troy, saindo pela porta da frente.
- Onde vais, Troy? - perguntei eu. O Troy virara  direita e fora para trs de um arbusto. Respondeu-me, mostrando-me o pequeno balde e a p que tinha ido buscar.
- Deixei isto aqui ontem quando estava a trabalhar com o Boris. Precisamos do balde e da p na praia.
- Ah! Sim,  verdade.
- Anda - insistiu ele -, o Tony depois apanha-nos.
- Acho que devamos esperar.
- Estou sempre  espera,  espera,  espera - queixou-se ele e bateu com o p. Atirou-se para a relva e cruzou os braos  volta do peito, amuado.
- Ele no vai demorar, tenho a certeza - disse eu, sorrindo para o tranquilizar.
- Se a tua me vai pintar, ele no vem c para fora. Que palavras estranhas estas, proferidas pelo Troy, pensei. De certeza que o Tony no ficava a olhar por cima
do ombro da mam durante o tempo todo que ela estava a pintar. Ele tambm tinha de tratar dos seus negcios e a mam nunca gostara de pblico enquanto desenhava
e pintava.
O Troy olhou para mim, desconfiado.
- Onde  que est o teu pap? - perguntou. - Tambm morreu e foi para o cu ter com os anjos?
- No, est a trabalhar. Eu queria que ele viesse hoje connosco, mas ele no podia - acrescentei. O Troy continuou a fitar-me com curiosidade. Em seguida, olhou
para a porta principal da manso, com os olhos cada vez mais pequenos.
- OL! - chamou o Tony do topo das escadas. O Troy saltou e ps-se de p. - Pronto, vamos - disse o Tony, descendo a correr, enquanto o Troy disparava a correr 
nossa frente.
- Vais muitas vezes para ao p do mar, Leigh? - perguntou-me ele, enquanto prosseguamos atrs do Troy.
- vou muitas vezes at ao porto, ao escritrio do meu pai, e j fizemos algumas viagens por mar - respondi eu.
No podia acreditar que estava to nervosa sem a mam junto de mim. Tinha tanto medo de dizer ou fazer alguma
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coisa errada e de poder envergonhar no s a mam, mas tambm a mim prpria. O Tony parecia to seguro de si prprio! Sendo dono de uma fortuna to vasta e de um
negcio to grande, tinha de ser um homem muito cosmopolita e sofisticado, pensei. Devido ao ramo de negcios a que o pap se dedicava, eu tinha viajado muito mais
do que a maior parte dos meus amigos e conhecera muito mais pessoas de outros pases; mesmo assim no me sentia segura.
- Oh, claro - exclamou o Tony. - Que estpido fui em perguntar. O que eu queria mesmo saber era se costumas ir  praia, no Vero.
- No muito, no. A mam no gosta de praia. Detesta ficar cheia de areia. Mas uma amiga minha, a Michele Almstead, tem uma piscina.
- Ah! - Continumos a andar. O Troy caminhava tranquilamente  nossa frente, balanando as suas pernitas; o balde seguia, para a frente e para trs, os movimentos
determinados dos seus braos.
- Ele  to esperto - observei eu.
-  verdade - concordou o Tony numa voz triste. Tem sido difcil para o mido. Quando nasceu era muito doente. Houve uma altura em que pensmos que ele no conseguiria
sobreviver.
- Oh! O que  que aconteceu aos...
- Aos nossos pais?
Acenei que sim com a cabea.
- A nossa me morreu um ano e meio depois do nascimento do Troy. Tinha uma doena de sangue rara. O meu pai faleceu, faz um ano no ms que vem, com um ataque cardaco.
- Os seus calorosos olhos azul-celestes tornaram-se frios como o gelo, pois devia estar a lembrar-se da tragdia.
- Aconteceu no labirinto.
- No labirinto!
- Sim, e infelizmente o pequeno Troy estava com ele na altura.
- Oh, no! - lamentei eu.
- Estavam a caminho do outro lado. Temos l uma pequena casa. Ningum a usa agora, mas  um lugar to gracioso e especial, que no o deixamos abandonado, e o Troy
pensa que  um stio mgico tirado de uma das suas histrias infantis. Sabias que ele j era capaz de ler quando tinha cerca de dois anos e meio? Uma ama que trabalhava
para ns na altura, a senhora Habersham, uma deliciosa senhora de idade que vinha de Londres, passou horas a ensin-lo com
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muita pacincia. Ele  muitssimo esperto e est muito avanado para a idade.
- Eu sei, mas deve ter sido horrvel para ele encontrar-se no labirinto quando aconteceu uma coisa daquelas! - exclamei eu. - O que  que ele fez?
- Por mais incrvel que parea, no entrou em pnico. Qualquer outra criana da mesma idade ter-se-ia simplesmente sentado junto do corpo do pai e chorado at algum
os encontrar. Mas o Troy apercebeu-se de que se tinha passado algo muito srio com o nosso pai e descobriu rapidamente o caminho de sada do labirinto. Ainda hoje
consigo ouvir a voz dele a gritar por mim enquanto corria em direco  porta principal. Corremos para junto do meu pai, mas j foi tarde de mais.
- Que pena. Que tristeza - lamentei eu, voltando a imaginar como seria perder o meu prprio pai, mesmo agora, que j estava suficientemente crescida para perceber
o que era a morte.
- Para o Troy tem sido muito mais difcil, claro. Nenhuma ama que eu contrate poder substituir uma me e, por mais que eu faa, no poderei nunca ser o substituto
do pai. No posso passar tempo suficiente com ele, pelo menos no tanto quanto ele precisa.
- E a senhora Habersham, ainda c est?
- No, ficou doente e teve de regressar a Inglaterra. Neste momento, a senhora Hastings exerce funes de ama e de empregada. Chegmos - informou ele -, s falta
passar este monte. O Troy j est na praia.
Logo que subimos um pequeno monte de terra, deparmo-nos com o mar. Era de cortar a respirao, o modo como demos um passo e ele se nos apresentou, o vasto Atlntico,
 nossa frente. O Troy j estava na praia a escavar. A praia era imensa em ambas as direces.
- Tudo isto faz parte da sua praia privativa? - perguntei, fascinada.
- Sim. Ali h uma pequena enseada - explicou ele, apontando para a direita -, um lugar muito ntimo e sossegado onde eu costumava ir quando queria estar sozinho.
- Que maravilha!
- Gostas deste stio, Leigh? - perguntou, fixando-me de novo com aqueles olhos penetrantes.
- Muito.
- Fico contente - disse ele. Sorriu-me e fixou-me com os olhos to cheios de calor que quase me bebia. Que idade
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teria?, pensei. Por vezes parecia um homem, experiente e srio, outras vezes, parecia ser pouco mais velho do que um rapaz do liceu. Voltou a olhar para o mar.
-  mesmo maravilhoso estar aqui - comentou ele. Quando tinha sete anos, mandaram-me para Eton, porque o meu pai achava que os Ingleses sabiam mais de disciplina
do que as nossas escolas privadas. Ele tinha razo, mas eu sonhava sempre com o regresso a casa, a Farthy. - Cerrou os olhos e acrescentou, num tom de voz suave.
- Sempre que tinha saudades de casa, que era quase sempre, fechava os olhos e fingia que conseguia sentir o cheiro dos balsameiros, dos abetos e dos pinheiros, e,
mais que tudo, o perfume salgado do mar; e acordava com dores, com necessidade de sentir o ar matinal, hmido e frio, na minha cara, desejando a minha casa com tanta
intensidade que at me doa fisicamente.
Retive a respirao enquanto o Tony falava. Nunca tinha ouvido ningum a falar da sua casa de uma maneira to romntica. O Tony Tatterton era capaz de sentir uma
paixo muito profunda, pensei. Ficava com formigueiros na espinha s de ouvi-lo. Abriu os olhos subitamente como se lhe tivesse dado um estalo.
- Mas  uma responsabilidade muito grande gerir, sem ajuda, uma propriedade deste tamanho e um negcio que cresce a olhos vistos. E ainda com uma criana para cuidar
- acrescentou.
- Para uma pessoa to jovem - deixei eu escapar. Ele riu-se.
- Que idade achas que tenho?
- No sei... Vinte.
- Vinte e trs.
Vinte e trs, pensei. A mam tinha quase o dobro da idade dele e no entanto parecia pouco ou nada mais velha.
- Anda, vamos deambular pela praia e ouvir o som do mar. No podemos voltar para casa demasiado cedo e interromper a artista. Sabes como so os artistas, sensveis,
temperamentais - disse ele e riu-se.
Demos um passeio agradvel. Contou-me os planos que tinha para expandir os seus negcios e fez-me imensas perguntas sobre a minha escola e a minha vida em Boston.
Mais tarde, o Troy e eu fomos  procura de conchas enquanto o Tony se deitava na areia, com as mos debaixo da cabea e os olhos fechados. Quando regressmos  casa,
a mam j tinha arrumado tudo e mudado de roupa. A maior parte do castelo da cpula j estava pintada.
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- Falta-me um dia ou dois de trabalho - afirmou. - Temos de partir agora para Boston. Gostava de chegar antes de escurecer.
O Troy baixou a cabea, desapontado.
- A Leigh volta outro dia, Troy.  m educao da tua parte comportares-te desta maneira em frente dos convidados - ralhou o Tony. O Troy olhou para mim com as lgrimas
no canto dos olhos. - Agora, agradece a visita e deseja-lhes uma boa viagem de regresso a casa.
- Obrigado - declamou o Troy. - Boa viagem de regresso a casa - repetiu.
- Obrigada eu, Troy - retorqui.
- vou mandar o Miles trazer o carro - disse o Tony e saiu.
- Queres acompanhar-nos ao carro? - perguntei ao Troy. Ele assentiu e deu-me a mo.
Antes de entrar no carro, ajoelhei-me e dei um beijo na face do Troy. Ele tocou na sua bochecha, pensou um pouco e depois deu-me um beijo na minha, antes de se virar
abruptamente e se atirar para as escadas para voltar para dentro de casa. O Curtis abriu-lhe a porta, mas ele hesitou e olhou para trs, ansioso.
O Tony e a mam sussurravam atrs do carro e depois ela entrou e sentou-se ao volante.
- Adeus, Leigh - despediu-se o Tony. Parecia que os olhos dele entravam dentro de mim e liam os meus pensamentos. - Espero que tenhas gostado do dia em Farthy e
que voltes em breve.
Desviei os olhos, na esperana de que a mam no achasse que eu estava a ser mal-educada.
- Adeus e obrigada pelo maravilhoso presente de aniversrio - agradeci, erguendo o medalho de ouro.
- O prazer foi todo meu. - O Tony recuou e fomo-nos embora. Olhei para trs e vi que o pequeno Troy ainda estava  porta, acenando com a sua mozinha. As lgrimas
vieram-me aos olhos. Descemos a longa estrada, tornmos a passar por baixo do enorme arco e eu senti-me realmente como se tivssemos acabado de sair de um reino
mgico, cheio de coisas maravilhosas, mas tambm cheio de mistrio e tristeza. No estava enganada. Acabou mesmo por ser tal como um livro de histrias.
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- O Tony no  maravilhoso? - perguntou a mam mal nos afastmos. - E no foi amoroso da parte dele ter-se lembrado do teu aniversrio e ter comprado um presente
to caro? Eu mencionei por acaso que os teus anos estavam prximos, mas nunca esperei que ele se lembrasse e muito menos que te comprasse uma prenda.
- Foi simptico. - No referi o facto de achar fora do normal um homem que no conhecia de lado nenhum oferecer-me um presente to caro, mesmo sendo muito rico.
- Divertiste-te em Farthy? No foi tudo como te tinha prometido? - As faces da mam ainda brilhavam de excitao.
- Oh, sim. O Troy  to esperto, no ?
- Ele  esperto, mas o Tony estraga-o com mimos. S vai tornar as coisas mais difceis posteriormente. - O tom severo que ela utilizou surpreendeu-me.
- O Tony sente-se mal por ele ter perdido os pais to novinho. No acha que  isso? - Esperei, mas ela no respondeu. De repente, riu-se.
- O Tony jura que parecemos irms e no me e filha. .porque eu trato a minha pele com tanto cuidado. Bebo muita gua, evito comidas gordas e pesadas e levanto-me
sempre da mesa ainda com fome. Nunca te empanturres de comida, Leigh. No  prprio de uma senhora, para alm de arruinar a tua linha.
- Eu sei. A mam est sempre a avisar-me.
- Bem,  verdade. Olha para mim. No sou a prova viva de que  verdade? - Rodou o corpo no assento como se me estivesse a mostrar o seu corpo pela primeira vez.
- .
- H alguma me das tuas amigas que se parea comigo?
perguntou.
- No, mam. - No era a primeira vez que tnhamos esta conversa. No percebia porque  que eu tinha de passar a vida a dizer-lhe que ela era muito bonita.
- Hei-de fazer tudo para nunca parecer velha - afirmou ela, com convico.
- Mas no pode evitar ficar mais velha, no ?
- Eu no posso evitar ficar mais velha de idade, mas posso evitar parecer mais velha - alardeou ela. - Que idade achas que aparento? V, diz-me a tua opinio.
- Eu sei que idade tem, mam. Estava a conversar com o Tony e...
- No lhe disseste a minha idade, pois no? - perguntou, e de repente a sua cara deformou-se, para dar lugar a uma expresso de pnico, com os olhos a brilharem
para mim. - Disseste! - Franziu as suas delicadas sobrancelhas.
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- No. Ele s me disse a idade dele.
- ptimo. ptimo - repetiu, com alvio. - Ele pensa que s tenho vinte e oito anos.
- Vinte e oito! Mas mam, ele sabe que eu tenho doze. Isso quereria dizer que eu nasci quando a mam tinha apenas dezasseis!
- E ento? - Ela encolheu os ombros. - Era muito comum, principalmente no Sul do Texas, as raparigas casarem-se muito novas. Conheci raparigas pouco mais velhas
do que tu que j eram casadas e tinham um filho.
- A srio? - Tentei imaginar-me j casada. Ter um marido j me parecia uma responsabilidade to grande, quanto mais marido e filhos. Como seria o meu marido? Fazia
a pergunta a mim prpria. Nunca tinha pensado nisso a srio. Oh, sonhava e fantasiava com estrelas de cinema e cantores, mas nunca pensara em montar uma casa e viver
todos os dias com o mesmo homem. Claro que queria que ele fosse to carinhoso e atencioso como o pap. No queria que trabalhasse tanto. Por isso, se ele no tivesse
tanto dinheiro, eu no estaria sempre a exigir coisas como a mam; porm, se fosse rico, eu acho que iria querer as mesmas coisas.
Tambm devia ser to jovial e sofisticado como o era o Tony Tatterton, pensei, e, claro, to elegante. E queria que amasse e cuidasse dos nossos filhos tanto quanto
eu. No tinha de ser uma estrela de cinema ou um importante homem de negcios, desde que me amasse mais do que tudo no mundo.
"Mas, e eu?", pensei. Seria capaz de gostar de outra pessoa como gostava de mim? Seria capaz de amar algum como uma esposa deve amar o seu marido? No tinha sequer
terminado o liceu e ainda queria ir para a faculdade. Ultimamente andava a pensar em vir a ser professora e o dia que passara com o pequeno Troy confirmara essas
minhas ambies. Gostava de crianas pequenas, adorava a inocncia e a curiosidade delas. A maior parte das crianas fazia as perguntas que queria, mesmo as mais
embaraosas. Eram imprevisveis, e eu achava isso encantador, por vezes at excitante.
- No me quero casar to cedo - afirmei.
- O qu? Por que no? - perguntou a mam com um sorriso amarelo, como se eu tivesse acabado de afirmar que queria ser ateia.
- Estava a pensar em ir para a faculdade para ser professora, professora de colgio - anunciei audaciosamente.
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A expresso infeliz da mam no se alterou, como eu esperava. Se tal aconteceu, ento foi para pior.
- Isso  ridculo, Leigh. Tu sabes perfeitamente quem escolhe a profisso de professora de colgio... As solteironas, as mulheres parecidas com as minhas irms ou
mulheres atarracadas com a pele estragada. Pensa um pouco. Consegues imaginar algum como eu a dar aulas num colgio? Consegues? Era um terrvel desperdcio, no
era? Pois bem, o mesmo se passaria contigo, pois espero que te desenvolvas e te tornes numa bonita rapariga. Eu j te disse... Vais ser uma "debutante". Vais frequentar
as melhores escolas e conhecer jovens abastados e aristocrticos para que um dia venhas a viver numa propriedade igual a Farthy. Pela minha parte, eu sei que devia
viver numa propriedade assim acrescentou, num tom de voz agoirento.
- Mas mam, eu gosto de crianas. Adorei passar o dia com o pequeno Troy.
- Gostar de crianas  uma coisa. s vezes tambm gosto de crianas. Existe uma hora e um lugar para elas. Mas condenares-te a uma vida com crianas, enfiada numa
escola qualquer, onde no ters oportunidade de conhecer pessoas das classes mais altas... que horror! - observou ela, abanando a cabea, como se eu tivesse sugerido
ir trabalhar numa mina de carvo. - As crianas esto sempre doentes. Fungam e tossem para cima de ti.  por isso que aquelas professoras dos colgios tm um aspecto
to amarelo e anmico.
Pensei em algumas da minhas professoras. No me tinham parecido adoentadas ou plidas. A professora Wilson era uma mulher bonita com cabelo comprido, castanho-escuro,
e olhos verdes calorosos. Adorava o seu sorriso enorme e aberto. Era to simptica que era difcil zangar-se a srio, mesmo quando os rapazes pregavam partidas,
como, por exemplo, pr tachas na cadeira de algum.
- Afasta esses pensamentos da tua cabea. Tu queres estudar arte, msica. Queres viajar mais. Um dia destes - ironizou a mam -, vens dizer-me que queres ser um
dos engenheiros dos navios do teu pai.
- Eu cheguei a sonhar uma vez que seria a primeira mulher a capitanear um paquete - confessei. - E contei ao pap.
- Sim? E qual foi a brilhante resposta do teu pai?
- Ele disse que um dia isso poderia acontecer. H mdicas, advogadas, porque no mulheres a capitanear um navio?
- S ele, para encorajar esse tipo de pensamentos. Um
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dia destes at vo aparecer mulheres electricistas, canalizadoras e empregadas da companhia dos telefones. Oh, mas teramos que as chamar telefonistas, no era?
- perguntou e riu-se. - Francamente, Leigh, receio bem que tenhamos de te afastar dos estaleiros mais cedo do que eu imaginava e mandar-te para um colgio decente
de raparigas. No  saudvel andares por a no escritrio do teu pai ou desceres s casas das mquinas rodeada por todos aqueles homens suados e gordurosos. Vs-me
a fazer isso? Quando foi a ltima vez que fui ao escritrio do teu pai? Nem sequer me lembro. "Agora deixa-me pensar nessa festa que o teu pai quer dar para a partida
do cruzeiro das Carabas. J convidei o Tony Tatterton.
- Convidou?
- Claro. E tambm vou convidar alguns dos amigos abastados dele. Mas deixa-me pensar agora. Se no fizer planos para esta festa, o teu pai vai transform-la num
funeral.
Ficou silenciosa durante a maior parte da viagem de regresso a casa, planeando mentalmente a festa, como havia referido. Pensei em tudo o que me tinha dito e interroguei-me
se eu teria algum problema por no conseguir sentir tanta paixo por algumas coisas como ela. Decidi que s o tempo poderia dizer, e,  velocidade com que me estava
a modificar e a desenvolver, a espera no ia ser longa.
Uma vez que a festa de "boa viagem" ia ter lugar no salo de baile do navio, a mam exigiu que o pap destinasse um navio maior para o cruzeiro das Carabas. Ele
no queria ceder, porque diminuiria os lucros, dado que o barco era demasiado grande para o nmero de passageiros previsto e isso iria requerer uma tripulao muito
maior. No entanto, ela foi insistente.
- Tens de aprender a fazer as coisas em grande, mesmo esbanjar dinheiro, Cleave - observou ela. - O que interessa neste caso,  a impresso que causas no pblico.
Esquece os lucros e os prejuzos. A Imprensa vai estar presente e tu mostraste-me a lista dos convidados. Algumas das melhores famlias vo estar presentes nesta
viagem inaugural. Vale a pena a despesa extra.
No fim, o pap acabou por ceder s exigncias dela e destinou o The Jillian, o seu segundo paquete mais luxuoso. A mam descia diariamente ao barco durante o tempo
que antecedeu a festa, para supervisionar a decorao do salo de baile e para controlar as diverses, a ementa e a lista de
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convidados. Muitos dignitrios de Boston estavam convidados, apesar de no fazerem o cruzeiro. E foi ento que a mam teve uma ideia emocionante.
Estavam a ensaiar um novo musical em Boston para uma estreia final em Nova Iorque e as crticas j eram espectaculares. Chamava-se The Pajama Game. Ns tnhamos
ido  estreia. A mam convenceu o pap a gastar ainda mais dinheiro e a contratar alguns membros do elenco para a festa a fim de cantarem algumas das canes mais
famosas, como Steam Heat, o que nos trouxe mais publicidade a nvel de jornais e revistas.
Acompanhei-a quando foi  tipografia para encomendar os convites que ela prpria elaborara. A capa dos convites tinha uma fotografia de um casal em fato de noite,
de p, no convs, com o olhar sobre um oceano azul-forte e um cu estrelado. Podia sentir-se o calor e o romance que transparecia na fotografia. No verso da capa
vinha a cpia de um anncio recente de uma revista.
AMANH... 1500 MILHAS NO MAR...
Cada dia passado num cruzeiro VanVoreen  um convite aberto. O luxo do pequeno-almoo na cama... jogos ou apenas preguiar nos amplos convs... fazer compras,
danar e divertir-se... tempo para refrescar... e para elaborar o movimentado plano de trabalho, com o qual se ir deparar  chegada.
Quer seja a sua segunda lua-de-mel ou a primeira, haver tnico melhor do que a envolvente paz proporcionada pelo mar, o cu e um barco... os infinitos recursos
da comida e do servio VanVoreen?
BON VOYAGE!
E na pgina interior lia-se ainda o convite:
SOLICITAMOS o PRAZER DA SUA COMPANHIA PARA o BAILE DE "BON VOYAGE"
QUE VAI INAUGURAR O NOVO CRUZEIRO DAS CARABAS
NOS PAQUETES VANVOREEN.
THE JlLLIAN
20 HORAS FATO DE CERIMNIA
Ia ser muito excitante. A mam comprou um original sem ombros Christian Dior preto, com uma faixa de veludo cinzento-carvo,
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que atravessava o corpete na diagonal, e uma saia at aos ps. Ps o seu colar de diamantes ovais Tiffany, com brincos e uma pulseira de diamantes ovais a condizer.
Passou toda a tarde a arranjar-se, rejeitando e alterando por duas vezes os penteados criados pelo seu cabeleireiro particular. Por fim, foi buscar umas revistas
que divulgavam fotografias de membros da famlia real inglesa e escolheu um penteado usado por uma das mulheres bonitas que a estavam retratadas, uma verdadeira
duquesa inglesa. Fez um penteado em que o cabelo estava solto, penteado para trs, deixando a testa livre, passando por detrs das orelhas para que se vissem os
seus lindssimos brincos.
Quando finalmente saiu da sua suite para o baile, achei que estava colossal, como se ela prpria estivesse para ser coroada rainha e eu fosse uma das suas damas
de honor.
No consegui deixar de me sentir constrangida com o vestido que ela tinha escolhido para mim. Tambm no tinha ombros, mas eu no me sentia to segura, mesmo usando
um soutien com armao. Achava que os meus ombros eram demasiado ossudos, que as minhas clavculas eram demasiado proeminentes e que o aspecto artificial dos meus
seios era demasiado bvio para os meus olhos crticos, at disparatado. O vestido era azul-escuro profundo e a saia ia at aos ps, forrada com camadas de crinolina.
A mam havia-me pedido para usar o colar que o Tony me tinha oferecido e emprestou-me dois pequenos brincos que condiziam muito bem com o colar. Pus a pulseira de
ouro que ela e o pap me tinham dado no ano anterior. Tinha o cabelo solto e escorrido,  pajem.
O pap, vestido com o seu smoking, estava no andar de baixo a andar de um lado para o outro, como sempre. Quando comemos a descer as escadas juntas, ele parou
e fitou-nos com um sorriso de admirao.
- Magnfico, magnfico! - Exclamou. - Ests mais linda do que nunca, Jillian. E tu, Leigh, hoje  noite vais certamente ser a princesa da festa. - Deu-me um beijo
rpido na face e ia beijar tambm a mam, mas ela fez-lhe notar que ele lhe borraria a pintura.
- Est bem, est bem. De qualquer modo, j estamos bastante atrasados.
Essa noite, por insistncia da mam, havia uma limusina  porta para nos levar at ao barco. Todas as nossas malas tinham sido transportadas durante o dia e arrumadas
nas nossas suites a bordo. A noite no poderia estar mais perfeita
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para uma festa a bordo de um barco. O cu estava coberto de estrelas e poucas eram as nuvens que se viam passar. At a brisa soprava invulgarmente quente na doca.
Logo que chegmos, ocupmos os nossos lugares no trio de entrada do grandioso salo de baile, para cumprimentarmos todos os convidados. Para alm de ser o maior
navio do pap, o The Jillian era um dos mais luxuosos. O corredor que levava ao salo era forrado com as madeiras mais finas, muito bem polidas e embutidas com mrmore.
Espelhos enormes com molduras douradas revestiam as paredes e havia peas de mobilirio francs antigo - cadeiras almofadadas, sofs e mesas de pinho escurecido
- ao longo do caminho.
O salo de baile era uma sala enorme e as paredes eram forradas com cortinas de veludo cor de vinho a pender do tecto, e havia ornamentos dourados e prateados por
todo o lado.
A sala era iluminada por uma dzia de lustres com falsos castiais rematados por lmpadas elctricas em forma de chama. Ao fundo,  direita, havia um bar que se
estendia at quase metade da sala. Uma dzia de empregados de bar, vestidos com camisas brancas engomadas, laos pretos e calas pretas lustrosas, introduziam os
convidados no estado de esprito das Carabas servindo-lhes margaritas e pinas coladas.
A comida estava disposta em mesas organizadas por pratos: mesas de saladas, mesas de pato, de carne de primeira qualidade, de galinha e de peixe. Uma seco inteira
estava dedicada s sobremesas, pudins, flambs, todo o tipo de tartes de natas e frutas, bolos e petits fours, e gelado. Empregados e empregadas de mesa vestidos
com trajos tpicos das Carabas as mulheres com coroas coloridas na cabea, serviam hors d'oeuvres quentes e taas de champanhe.
No palco actuava um grupo de msicos constitudo por dezasseis membros e uma vocalista. Principiaram a tocar mal ocupmos os nossos lugares e os convidados comearam
a chegar. Alguns convidados entraram directamente para a pista de cho de azulejos que se situava em frente ao palco e comearam a danar. Gerou-se instantaneamente
um ambiente festivo  nossa volta. Nunca tinha visto tanta gente com roupas to chiques, nem sequer nas nossas viagens e festas de bon voyage anteriores. As mulheres
vestiam-se numa quantidade de estilos diferentes, cada qual a tentar ter um aspecto mais encantador e estar mais  moda do que as outras. Muitas envergavam vestidos
de noite bordados e cobriam-se
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de diamantes e de ouro, algumas usavam tiaras de diamantes, mas, na minha opinio, nenhuma estava to bonita como a mam.
O Tony Tatterton foi um dos ltimos a chegar. Parecia to alto e formoso no seu elegante smokingg. Dirigiu-se logo a ns, com um pequeno e divertido sorriso nos
lbios sensuais e os seus olhos azul-celestes a brilhar.
- Miss Leigh VanVoreen - cumprimentou, pegando na minha mo e beijando-a. Eu corei e voltei-me bruscamente para a mam. Adivinhavam-se outra vez no rosto dela vestgios
daquela expresso de menina excitada, uma expresso que acordava logo as borboletas esvoaantes do meu estmago e o fazia andar s voltas.
- Cleave, gostava de te apresentar o Townsend Anthony Tatterton, de quem me tens ouvido falar tanto - disse a mam. O pap examinou o Tony de relance e depois fez
um sorriso to caloroso como tinha feito a toda a gente.
- Prazer em conhec-lo, Mister Tatterton. Obrigado por proporcionar  minha esposa uma ocupao que ela aprecia.
- Oh, eu  que devia agradecer-lhe, senhor, por permitir que ela exteriorize o seu talento nas paredes da minha casa.
O pap assentiu, com os lbios comprimidos e os olhos pequenos. No se percebia se ele estava com vontade de rir ou de chorar. A mam rompeu o silncio assustador
sugerindo ao Tony que se servisse de uma bebida extica e saboreasse os hors d'oeuvres. O Tony voltou-se, como se se tivesse apercebido da festa pela primeira vez.
- Parece ser um acontecimento em grande - elogiou.
- Obrigado pelo convite. Leigh - acrescentou, virando-se na minha direco -, talvez me concedas a honra de danar comigo mais tarde.
Fiquei sem fala. Porqu eu, estando rodeado de todas aquelas mulheres incrivelmente bonitas e sofisticadas? No seria capaz de ir para o salo e danar com ele em
frente de todas aquelas pessoas. No era muito boa a danar. Oh, s pensar nisso j me aterrorizava! O Tony deve ter notado a minha expresso de medo, pois o seu
sorriso abriu-se ainda mais. Acenou com a cabea  mam e ao pap antes de se dirigir ao bar.
- Bem - disse o pap prontamente -, acho que a maior parte dos convidados j chegou. Tenho de me reunir com o capito do navio para discutir o itinerrio e outros
assuntos.
- Agora, Cleave? - perguntou a mam, denotando irritao na voz.
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- Receio que sim. Tu podes perfeitamente aguentar as coisas c em baixo por um bocado, Jillian. Leigh, queres vir comigo? Tens de te familiarizar com o negcio.
Um dia, tudo isto ser teu. Se aguentar at l - acrescentou ele.
- No a vais levar agora para a casa das mquinas - Escandalizou-se a mam -, como fizeste da ltima vez. Ela no tem que saber como funcionam as coisas.
- Claro que tem. Ela devia conhecer as coisas por dentro e por fora e, alm disso - observou o pap -, parece ter inclinao para a mecnica. Aposto em como conseguia
desmontar um motor e voltar a mont-lo num instante. No era, Leigh?
- No  propriamente um feito do qual uma rapariga se possa gabar - interrompeu a mam. - Gostava que a tratasses como ela  na realidade, e no como uma maria-rapaz.
Francamente, Cleave. - Havia uma ponta extra de aborrecimento na voz da mam, como se at se tivesse esquecido de que estava no meio de uma festa chique. Retive
a respirao com medo que fossem iniciar uma discusso naquele momento e naquele lugar.
- Ns no vamos descer  casa das mquinas, mam. Eu no estou vestida para isso.
- Fico contente de, pelo menos, teres esse bom senso. Muito mais do que o teu pai - criticou, lanando um olhar irritado ao pap.
- Bem, vamos j para voltarmos rapidamente - disse-me ele e afastmo-nos em direco  ponte do navio, deixando a mam a ferver, de certeza.
Eu j conhecia o capito do The Jillian, Thomas Willshaw, um ex-oficial da Marinha inglesa, e gostava muito dele, porque se virava sempre e falava para mim quando
eu e o pap estvamos com ele, e parecia que gostava de me ensinar coisas. Enquanto ele e o pap discutiam a viagem, o navegador abriu os mapas nuticos e traou
a nossa rota para eu ver.
- Fico feliz por estas coisas no te aborrecerem - observou o pap. - No h razo nenhuma para que no possas gerir um negcio a srio quando sares da escola.
Assenti, mas fiquei a pensar como a mam e o pap eram diferentes e como viam as coisas de maneira diferente, principalmente, no que me dizia respeito.
Quando voltmos ao convs, a caminho do salo de baile, o pap deu-me a mo e ficmos a olhar l do alto, por cima do grandioso barco.
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- Vs, Leigh, um homem tem de ter uma razo profunda para trabalhar, para se empenhar e construir tudo isto. O seu ego no  suficiente. Tem de acreditar que est
a construir tudo isto por uma razo mais substancial. Eu estou a faz-lo por ti, ou melhor, a batalhar para ti, pois neste momento toda a indstria dos paquetes
de luxo est com problemas.
"Eu sei que trabalho de mais e que acabo por no passar tempo suficiente contigo, mas percebes o que quero dizer, Leigh? - perguntou, com uma expresso to firme
e sria como eu nunca tinha visto.
- Sim, pap.
- Quer dizer, eu no tenho inteno de te afastar de todas as coisas que as raparigas gostam. A tua me pensa que eu estou sempre a tentar transformar-te num filho,
em vez de te ver como uma filha, mas eu apenas quero que tu sejas capaz de ser a proprietria e de dirigir tudo isto. No quero que isto v parar s mos de um administrador,
s porque no te preparei de modo adequado.
- Pap, estou to orgulhosa por considerar que sou suficientemente inteligente e que um dia serei capaz de o ajudar aqui. Para mim, isso  mais importante que todas
as festas e vestidos de baile do mundo.
A sua expresso ficou descontrada e abriu-se num sorriso.
- ptimo - disse. Beijou-me duas vezes, puxou-me para si e eu, pela primeira vez desde h dias, senti-me confortada e segura.
- Bem, minha pequena princesa, temos de voltar para a festa ou a tua me vai encostar-me  parede.
Quando chegmos, a festa estava em pleno auge. A pista de dana abarrotava de gente e estavam todos entregues aos prazeres das deliciosas comidas.
O pap foi logo conversar com as pessoas e eu andei s voltas  procura da mam; porm, no consegui encontr-la. Fui  procura do Tony, mas tambm no o consegui
encontrar. Decidi comer qualquer coisa. Pouco depois, avistei a mam e o Tony a entrarem no salo. O Tony afastou-se para falar com umas pessoas e a mam veio ter
comigo e sentou-se  minha mesa.
- Estive a mostrar o barco ao Tony - explicou, com uma risadinha. - Bem, fico contente por desta vez no teres leo nos cotovelos.
- O pap s quer que eu perceba as coisas.
- As pessoas so pagas para perceberem as coisas por ti.
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 por isso que se  patro - replicou. A mam no parava de olhar na direco do Tony, manifestamente  espera que ele se virasse para ns. No era prprio dela
no circular entre todos os convidados, pensei. Normalmente, e apesar de se queixar tanto, gostava de ser a esposa do anfitrio e ajudar a decidir quem seria convidado
para se juntar, mais tarde,  mesa do capito. A mam notou que eu a estava a observar.
- Porque  que te ests a empanturrar com essa comida toda? - perguntou-me. - Nunca  cedo de mais para nos comearmos a preocupar com a linha.
- Eu no estou a empanturrar-me, mam. Eu no comi quase nada o dia todo  s peguei...
De repente, fez uma cara esquisita, uma expresso fria e os olhos diminuram.
- Diz-me a verdade, Leigh. Como  que eu estou esta noite? Estou mais linda do que qualquer outra mulher nesta sala? Viste alguma que tenha um ar mais jovem ou mais
bonito? - Parecia quase que estava a delirar. Depois, o seu tom de voz mudou. - Podes dizer-me a verdade - sussurrou. Mas os seus olhos ainda demonstravam dureza,
pareciam blocos de gelo. Agarrou o meu brao com tanta fora que at doeu.
- Mam... - ia eu a comear, mas ela nem me ouviu.
- Olha s para estas mulheres - prosseguiu ela, acenando com a cabea em direco  multido da festa. - Algumas tornaram-se to gordas que perderam toda a sua feminilidade.
No  de admirar que os maridos delas andem  minha volta que nem ces com a lngua de fora. - A sua expresso suavizou-se e voltou a ser a me a que eu estava habituada.
Tornou a olhar na direco do Tony e ele voltou-se. Mesmo em lados opostos do vasto salo, parecia que conseguiam comunicar, pois ela virou-se para trs para me
dizer que j vinha e foi a correr juntar-se a ele.
Observei-os durante um bocado. O pap trouxe algumas pessoas para me apresentar e fiquei ento a seu lado at ele me deixar para ir falar com o chefe dos cozinheiros.
Estava sozinha e sentia-me um pouco perdida, quando, de repente, algum me bateu no ombro e eu voltei-me deparando com os olhos azuis do Tony.
- Est na hora da nossa dana - avisou e estendeu os braos.
- Oh, mas eu no sei danar muito bem - implorei, mesmo depois de ele me tomar nos seus poderosos braos e me arrastar para a pista.
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- Que disparate! Deixa-te levar por mim.
Vi a mam de relance, de lado, junto a umas pessoas, a sorrir; sentia-me to nervosa e tensa que tinha a certeza de estar a fazer uma figura ridcula na pista de
dana.
- Fico feliz por teres decidido usar o meu presente hoje  noite - comentou o Tony. - Fica muito bonito em ti.
- Obrigada. - O meu corao estava aos saltos. Tinha a certeza que estavam todos a olhar para mim e a rir, pois devia parecer to desajeitada nos seus braos. O
Tony era to alto, to gracioso e seguro, e os meus movimentos pareciam os de uma aleijada. Era difcil descontrair-me numa pista de dana com todos aqueles adultos
to elegantes  minha volta. No tinha nada a ver com um baile de escola.
- Esta festa  maravilhosa - elogiou. - No consigo imaginar como deve ter sido para ti crescer no meio disto tudo.
- Neste ramo trabalha-se arduamente - retorqui, pensando no meu pai. - Principalmente, hoje em dia.
- Oh, estou a ver. - Sorriu, como se tivesse de me fazer a vontade. - Ento ests a pensar vir a ser uma mulher de negcios?
- No h nenhuma razo que impea uma mulher de tratar de negcios. - Sabia que estava a ser antiptica mas, no sei porqu, no conseguia parar.
- No, nenhuma mesmo. - Os seus olhos iluminaram-se e riu-se. Fiquei contente quando a msica acabou. Ele fez uma vnia e agradeceu-me. Desapareceu no meio da multido
e deixou-me ali especada, a sentir-me ainda mais constrangida. Retirei-me para um canto do salo. Pouco depois, comeou a actuao do elenco da pea The Pajama Game.
Foram to espectaculares como no palco do teatro. A seguir ao espectculo, via-se muitas pessoas a sarem. Quando a sirene comeou a tocar para que os visitantes
partissem, muitos j o tinham feito. A tripulao do navio comeou a tirar algumas mesas. Fui ter com o pap que estava a conversar com o capito e com o primeiro
oficial, quando a banda anunciou que ia tocar a ltima msica, uma valsa.
De sbito, reparei que os olhos do pap ficaram mais pequenos e que os seus lbios se comprimiram de tal maneira que ficaram brancos. Quando me voltei para ver o
que se passava, percebi o que lhe tinha chamado a ateno.  mam e o Tony eram praticamente o nico par que restava a danar, e moviam-se com tanta graciosidade
e to prximos um do outro que os restantes convidados e visitantes tinham todos os olhos postos neles.
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No consegui deixar de sentir pena do pap, pois a mam e o Tony faziam um par to bonito e movimentavam-se como se danassem juntos h anos e anos. A mam parecia
resplandecer nos braos do Tony. Nunca a tinha visto to radiante e essa noite parecia to jovem. No me apercebera de como era jovem, em contraste com o pap. A
diferena de idade entre eles nunca tinha parecido to grande, como de repente se fez notar.
Parecia que o pap tambm sentira isso, pois tinha um ar cansado, resignado, derrotado, como se tivesse envelhecido dez anos. Oh, havia tanta tristeza na bonita
expresso do meu pai. Ele percebeu a maneira como eu o fixava e esboou um sorriso forado. Ento, inclinou-se e abanou a cabea.
- De uma maneira ou de outra, a tua me  sempre o corao da festa, no , Leigh?
Assenti silenciosamente. O tom no era zangado; era melanclico. Suspirei de alvio, quando por fim a msica terminou e a mam e o Tony pararam de danar. O Tony
seguiu a mam de volta  nossa mesa para desejar boas-noites.
- Foi uma festa maravilhosa - disse. - Desejo-lhes muita sorte para a estreia da vossa viagem.
- Obrigado - respondeu o pap, num tom nem amargo nem agradvel. - Ainda bem que se divertiu.
- Leigh - disse o Tony, voltando-se para mim -, no apanhes sol de mais. Boa noite. - Voltou-se para a mam.
- Jillian - proferiu, acenando com a cabea.
- Acompanho-o  sada - ofereceu-se a mam e seguiu-o em direco  porta.
O pap observava-os com um olhar frio. Instintivamente, alcancei-o por cima da mesa e apertei-lhe a mo. Ele sorriu para mim, como se quisesse dizer "estou bem".
Mas eu no conseguia que o meu corao parasse de bater, trazendo consigo os seus agoirentos avisos. Tal como uma velha alma de marinheiro, apercebia-se de uma tempestade
iminente no horizonte, e senti necessidade de reforar as escotilhas.

5 MARES AGITADOS

H pouco mais de um ano, a mam decidiu que, se o pap quisesse que ns fizssemos frias com ele nos cruzeiros, teria que a deixar redecorar as nossas suites a
bordo do paquete. Decorou duas suites em apenas dois barcos antes de perder o interesse, mas um dos dois tinha sido,  bvio, o The Jillian. Numa das suas revistas
de moda a mam tinha visto a fotografia ampliada de um apartamento em Nova Iorque que pertencia a uma celebridade e decidiu adaptar o modelo  sua suite a bordo.
A nossa suite estava decorada em cores serenas e neutras, plidos beges e com madeiras claras, branqueadas, que proporcionavam o ambiente perfeito  beleza fria
e loura da mam.
O paquete era um centro de recursos flutuante. Num dos pisos havia todo o tipo de lojas, incluindo institutos de beleza e cabeleireiros, tabacarias e boutiques que
apresentavam a ltima moda do pas e a ltima moda que chegava do estrangeiro. Havia um plano de actividades contnuas para os convidados, que compreendia aulas
de dana, aulas de ginstica, visitas a galerias de arte e conferncias, chs, refeies interminveis, competies de jogos, shuffleboard1, e, claro, mal entrvamos
em climas quentes, tomar banho numa das trs piscinas do The Jillian. A noite danava-se e havia espectculos com cantores e comediantes, e at se podia assistir
a estreias de filmes.
De manh, a mam dormia at muito tarde. Assim, em geral, o pap e eu tomvamos o pequeno-almoo sem ela. Comamos sempre com o capito ou, quando ele no estava
disponvel, com o primeiro-oficial e convidados. s vezes, a
1 Shuffleboard ou shovleboard: jogo, em coberta de barco, que consiste em impelir pequenos discos que deslizam sobre uma superfcie dividida por linhas. (N. da T.)
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mam s saa da sua suite  tarde e tomava o pequeno-almoo na cama. Por hbito, bebia apenas um copo de sumo de laranja pequeno e comia um ovo escalfado e uma tosta.
Tinha uma disciplina muito rgida em relao ao tempo que estava exposta ao sol, chegando mesmo a cronometr-lo, de maneira a ganhar apenas uma cor muito leve na
cara. Tinha lido em qualquer stio que a luz do Sol provocava rugas e no havia nada que aterrorizasse mais a mam do que a possibilidade de lhe aparecer uma ruga.
O seu toucador estava pejado de todo o tipo de cremes para a pele e para o corpo disponveis no mercado, em especial os que prometiam juventude eterna. A mam passava
a maior parte da manh a pr cremes na cara e a preparar a sua maquilhagem. Ia muitas vezes  sauna e tinha marcaes dirias para massagens corporais, e semanais,
para massagens faciais.
Desde o dia em que deixmos o porto de Boston, a mam queixava-se continuamente do efeito devastador que o ar salgado estava a exercer sobre o seu cabelo. Tinha
de ir ao cabeleireiro quase todos os dias para que o cabelo no "encaracolasse". Dizia que o ar do mar lhe roubava suavidade ao cabelo e que lhe gretava a pele,
uma vez que tinha uma pele demasiado sensvel. Era raro vir ao convs de noite, quando o clima j era mais quente e as noites tpidas. Eu achava que havia poucos
quadros to bonitos como o mar calmo numa noite quente e a luz da Lua reflectida sobre a gua. As ondas, para cima e para baixo, sob um cu nocturno limpo, eram
uma viso to deslumbrante que me cortava a respirao. Estava sempre a tentar que a mam viesse ao convs comigo; porm, ela dizia-me que podia ver a mesma coisa
pelas janelas sempre que queria.
Apesar de o pap estar mais ocupado do que era normal, pois era uma viagem experimental para lanar um cruzeiro novo, fazia todos os esforos para passar mais tempo
com a mam e comigo, prometendo sempre ir ter connosco aqui ou ali. A mam parecia no se importar se ele estava ou no com ela. Sempre que ele arranjava tempo para
fazer qualquer coisa connosco, ela encontrava outra coisa para fazer. O pap e eu passmos muitas noites sem ela, a ver um filme ou a assistir a um dos espectculos.
Ela prometia vir ter connosco, mas nunca aparecia. Quando indagava a razo, respondia que estava demasiado cansada ou que tinha uma dor de cabea. Ia encontr-la
na cama a ler uma das suas muitas revistas ou a escrevinhar cartas. Quando lhe perguntava a
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quem  que estava a escrever, respondia, simplesmente, "a amigos", e punha tudo de lado, como se ficasse logo farta do que tinha estado a fazer.
Mesmo quando me sentava na sua cama e descrevia os cantores, os comediantes e as actividades, ela parecia distrada e no muito interessada, e eu percebia que no
se sentia muito feliz. E ento, uma noite, quase uma semana depois de termos partido, acordei com o som da mam e do pap a gritarem um com o outro.
- Eu fao tudo o que me pedes - lamentava-se o pap -, mas tu continuas a comportar-te como se estivesses a sofrer. Querias redecorar a suite, acedi e gastei o dinheiro.
 um disparate, pensei, mas gastei o dinheiro na mesma. s a esposa do proprietrio, mas ds ateno a algum dos nossos convidados mais importantes? No. E quando
te dignas a vir  sala de jantar e sentar-te comigo, com o capito e um convidado escolhido por ti, o que  que fazes?... Queixas-te do mar e de viveres a bordo
de um barco, como se fosses uma escrava negra acabada de sair de frica, acorrentada no poro.
"O que  que achas que as pessoas vo pensar das viagens em paquetes de luxo... se a minha prpria mulher as abomina!
- No fui feita para estar presa - replicou ela.
- Foste tu que escolheste. No sou eu que te digo que no podes sair deste quarto. Porque  que no desfrutas das actividades, do que o navio tem para oferecer?
- J te disse que o ar do mar me afecta, mas tu no te preocupas comigo, s te preocupas com o teu precioso barco e com o teu negcio. Serias capaz de me sacrificar,
pr em perigo a minha beleza, o meu aspecto e a minha sade, s para me poderes usar como uma espcie de relaes pblicas.
- Isso no  justo! Foste tu prpria quem sugeriu este cruzeiro.
- Eu no sugeri que fssemos nele.
- Mas... eu pensei... tu sempre quiseste que eu te levasse  Jamaica - balbuciou o pap, confuso. - Francamente, Jillian, ests a levar-me  loucura. J no sei
o que queres e o que no queres.
- No quero passar a noite a discutir. Preciso do meu descanso para combater os elementos nocivos - alegou ela, e fez-se um silncio profundo. O pap parecia to
frustrado e zangado. O que  que estava a acontecer com eles? Perguntei-me. Teria a ver com a presso dos negcios?
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Durante os dias que se seguiram houve uma paz inquietante entre eles at quela manh em que fui com o pap  sala das mquinas quando o engenheiro-chefe comunicou
que havia um problema. Estava vestida com um dos novos fatos que a mam me tinha comprado para o cruzeiro: uns cales brancos at aos joelhos com uma blusa  marinheiro,
azul e branca, a condizer. Os bolsos dos cales eram bordados a azul.
Sempre gostara de descer  sala das mquinas e ver os enormes mecanismos que impeliam um navio to grande atravs do oceano. Alguns corredores eram bastante estreitos
e os andaimes tambm, mas eu achava perigoso e ao mesmo tempo divertido. Sabia que os homens que trabalhavam l em baixo achavam engraado eu demonstrar interesse
pelo trabalho deles; eram todos muito simpticos e tinham sempre vontade de me explicar em que consistiam as suas responsabilidades e qual a funo dos indicadores,
das alavancas e das rodas.
Um dos nossos motores teve de ser desligado para reparar, mas os outros conseguiam compensar o tempo perdido. Ouvi as perguntas que o pap fez ao engenheiro-chefe
e andei atrs dele para saber quais eram os problemas. Distra-me com as discusses e no me apercebi de que me estava a encostar a umas grades cheias de leo at
sairmos da sala das mquinas e encontrarmos a mam no corredor junto da nossa suite. Ela tinha acabado de sair para tomar o pequeno-almoo e, pela primeira vez desde
que saramos de Boston, tinha um aspecto fresco e exuberante.
Contudo, mal ps os olhos em mim, ficou gelada, gritou tanto e com tanto dio que me assustou.
- Onde  que estiveste? Olha para os teus braos cheios de leo. E o teu fato! - Apontou e eu olhei para baixo e vi uma mancha espessa de leo de motor nos meus
cales, de lado e  frente. Voltou-se para o pap, acusando-o. - Onde  que a levaste, seu idiota? - intimou ela.
Um arrepio percorreu-me a espinha. Repetia para mim prpria que estava tudo bem. Estava tudo bem.
As faces do pap enrubesceram. Nunca tinha ouvido a mam chamar-lhe um nome e eu sabia que ele tinha ficado ainda mais envergonhado pelo facto de ter sido  minha
frente. Virou a cabea para trs como se ela lhe tivesse realmente dado um estalo na cara, mas a sua reaco no a acalmou.
- Escolhi este fato para ela numa das melhores lojas de Boston - acrescentou ela -, porque queria que ela se vestisse
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 moda, no que parecesse um macaco cheio de leo. Tu ests sempre a sabotar as minhas tentativas de lhe ensinar a ser fina, de a ajudar a perceber o seu potencial
como mulher. E insistes em fazer dela uma maria-rapaz - acusou ela.
- Pra a, Jillian...
- No me digas para parar. Leigh, vai para o teu quarto e limpa-te. vou mandar a empregada levar imediatamente o fato para a lavandaria a ver se ainda se pode salvar.
- Mam, o pap no teve culpa. Eu  que no tive cuidado, eu...
- Claro que a culpa foi dele - insistiu ela, lanando-lhe um olhar de dio. - Se ele no te tivesse levado para onde levou, nada disto teria acontecido.
- Mas eu queria ir, mam. Eu queria ver os motores e...
- Tu querias ver os motores? - Revirou os olhos. V no que  que a ests a transformar - disse ela, apontando na minha direco com as palmas das mos para cima,
como se eu me tivesse transformado numa espcie de criatura, ali mesmo. O pap abriu e fechou os olhos, pacientemente.
- No lhe faz mal nenhum querer aprender um pouco sobre o funcionamento do barco e sobre coisas que podem correr mal. H-de chegar o dia...
- H-de chegar o dia em que tudo isto vai acabar - disparou a mam e empurrou-me para a minha suite, deixando o pap para trs, de boca aberta. Senti tanta pena
dele... Mas a mam estava com um ataque de fria e no parava de divagar sobre como ele me estava a arruinar, a arruinar as hipteses de eu vir a ser uma "debutante",
uma rapariga jovem e desejvel, que ele estava a "sufocar a minha feminilidade".
Tentei defend-lo. Ela, porm, no queria ouvir. Despi rapidamente o meu fato e mudei de roupa enquanto ela saa para entregar os cales e a blusa manchados de
leo  empregada. Quando voltei da minha suite, o pap j se tinha ido embora. Passei o resto do dia maldisposta, porque pensava que a culpa tinha sido minha. Oh,
porque  que no tivera mais cuidado? Porque  que no me preocupara com a minha roupa e com o meu aspecto, como a mam? O meu frgil mundo estava a comear a desmoronar-se
e eu tentava desesperadamente mant-lo unido.
No me lembrava de alguma vez ter visto a mam a gritar com o pap daquela maneira, ou o pap to envergonhado e to zangado. Aquele cruzeiro, que tinha como objectivo
fazer a mam feliz e animar o pap, impulsionando o seu negcio, acabara por ser um desastre para todos ns.
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Nessa noite, as coisas ficaram ainda piores, quando a mam caiu de cama. No s no desceu para jantar, como tambm no saiu para desfrutar de nenhuma das actividades,
que incluam um baile, uma das poucas coisas com que ela se divertia quando estava no barco. Sempre que descia  sua suite para ver como ela estava, encontrava-a
a lamentar-se e a gemer.
- Porque  que eu concordei com isto? Porque  que eu vim neste barco? Quem me dera desaparecer - lamentava-se ela. No podia fazer nada para a ajudar.
O mdico de bordo foi chamado duas vezes. Deu-lhe doses duplas de medicamentos. No entanto, no dia seguinte, no apresentava melhoras, e, mais uma vez, no saiu
da cama. Desci para junto dela para lhe ler e lhe fazer companhia. Estava muito deprimida, porque tinha um aspecto to plido e adoentado que nem a maquilhagem conseguia
esconder.
- Nem quero que os empregados me vejam - choramingava ela. - vou demorar semanas para me recompor queixava-se. - Semanas! - Agarrou num bocado de cabelo.
- V bem o que me est a acontecer. Olha!
- Mas, mam, isto nunca lhe tinha acontecido. Porque  que est a acontecer nesta viagem? - perguntei. Os seus olhos fitaram-me, penetrantes, e, por uns momentos,
ficaram mais pequenos. Ento, deixou-se cair contra a sua enorme almofada de penas e cruzou os braos por baixo do peito, fazendo beicinho.
- Como  que eu ia saber? Tive sorte nas outras viagens.
- Virou-se bruscamente para mim. - Suponho que no te lembras da tua primeira travessia do Atlntico - acrescentou, num tom amargo. Era como se eu a estivesse a
acusar de fingir e ela me quisesse castigar. - Ficaste to maldisposta nos primeiros dois dias que eu pensei que o barco tivesse de dar meia volta e voltar para
Boston. Depois disso, como diria o teu pai, ganhaste o teu andar de marinheiro. Ele ficou to contente. Era como se andar por a a fazer figura de marinheiro de
pernas arqueadas fosse um feito.
Voltou-se para a parede para ganhar flego. As suas faces resplandeciam de emoo, enquanto encorajava a sua prpria fria. Quando voltou a olhar para mim, tinha
uma expresso muito feia, mas determinada.
- Bem, eu nunca quis ter esse andar de marinheiro disse, com um sorriso afectado. - Oh, no sei porque no insisti com o Cleave h anos para deixar este estpido
negcio. Podamos ter um negcio respeitvel na cidade... Talvez
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uma cadeia de lojas, qualquer coisa do tipo do do Tony Tatterton. Assim no estvamos  merc do tempo e deste mar aborrecido - concluiu ela.
- Mas o pap foi sempre um homem ligado aos navios. S sabe fazer isto - protestei, em voz baixa e assustada.
- Disparate. Um homem, se  homem, aprende o que tem de aprender.  mas  mais fcil para o teu pai ficar como est. O que ele   preguioso.
- Preguioso? O pap?
- Sim - insistiu ela. - S porque trabalha muito naquilo que gosta, no quer dizer que no seja preguioso. E no tem muito jeito no que respeita a investimentos.
Devamos ser duas vezes, no, trs vezes mais ricos do que somos...
Fiquei chocada com a maneira como ela falou do pap. Queixava-se muitas vezes disto ou daquilo, mas as suas recriminaes nunca tinham sido to veementes, to maldosas.
Estava to zangada e tinha o olhar to cheio de dio que fiquei com o corao aos pulos a pensar no pap. Ainda bem que ele no estava ali ao p para ouvir tudo
aquilo, mas perguntava-me a mim prpria se ela no lhe teria j dito coisas parecidas. Talvez fosse outra das razes pelas quais o pap andava quase sempre com uma
expresso to triste.
- Mas, mam, no adora ser dona disto tudo? Os grandes navios, os fascinantes cruzeiros, todos estes passageiros cheios de dinheiro e...
- ADORAR? NO! Eu NO GOSTO DISTO! - berrou ela. Graas a Deus que no passo muito tempo nos navios. Quando se faz um destes cruzeiros alargados perde-se toda a
actividade social em Boston. Eu acho que as pessoas que descobriram as viagens de avio  que esto certas. Deslocas-te rapidamente para o local onde vais passar
frias, divertes-te e voltas. Assim no perdes os acontecimentos importantes da tua cidade.
"De qualquer modo - continuou, um pouco mais calma -, no  de mais repetir: nunca te cases com um homem que seja escravo do seu trabalho, mesmo que seja muito rico
e muito atraente. Tu tens de vir em primeiro lugar, mesmo que isso implique que ele tenha de perder algum dinheiro aqui e ali.
- Mas... - A mam tinha acabado de se queixar por no ter tanto dinheiro como desejava, pensei, e agora estava disposta a sacrific-lo. Mas ela no se preocupava
com as suas contradies.
- Um executivo inteligente tem pessoas de confiana para
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fazer o seu trabalho - continuava, divagando. - Mas no
o teu pai..
"O teu pai - prosseguiu, puxando o cobertor at ao queixo -, receio bem,  um campons mascarado de homem rico. - Voltou-se de costas para mim e puxou o cobertor
at  cabea. - Agora, Leigh, tenho de fechar os olhos e imaginar que no estou aqui. Vai l para cima, mas no te ponhas outra vez a brincar com coisas mecnicas
e no voltes  casa das mquinas.
- Sim, mam. Se se sentir melhor, tenta vir jantar hoje  noite?  um jantar especial, porque amanh chegamos  Jamaica - expliquei.
- Graas a Deus. vou ver. Se me sentir melhor - murmurou por entre dentes, com pouco entusiasmo.
Na verdade, a mam no saiu do quarto at atracarmos em Montego Bay e o pap descer para avisar que tnhamos chegado. Estava um dia magnfico, o tipo de dia pelo
qual as ilhas das Carabas so famosas - um cu azul esplndido, via-se apenas uma nuvem passageira; uma brisa quente, voluptuosa, e msica por todo o lado. Eu estava
no convs de cima a jogar tnis de mesa com duas raparigas que tinha conhecido durante a viagem, as irms Spenser, Clara e Melanie, que tinham ambas mais ou menos
a minha idade. Por isso, no soube o que aconteceu l em baixo entre a mam e o pap, mas, quando dei por mim, os porteiros estavam j a transportar as malas da
mam do barco para dentro de um txi.
Observei, incrdula. "Oh, mam, o que  que ests a fazer?", perguntei a mim mesma. Aqui no era suposto irmos para um hotel. O barco ficava na doca do porto trs
dias e trs noites. Os passageiros desembarcavam para fazer compras e para irem comer a restaurantes, e, a seguir, inicivamos a viagem de regresso a Boston.
O pap fez-me um sinal para ir ter com ele.
- A tua me quer falar contigo l em baixo - disse-me. Parecia to cansado e deprimido: olhava para baixo, para o convs, e os seus olhos denotavam tristeza e infelicidade.
As minhas borboletas no estmago voltaram a acordar, mas desta vez no batiam as asas; pareciam pssaros a voar e a embater contra as paredes do estmago. Fiquei
com medo de estar doente.
Quando entrei na suite deles, encontrei a mam vestida com um dos seus conjuntos de seda verde-azeitona, com um alfinete em forma de lrio pregado na parte de cima,
um leno
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de seda e luvas de seda a condizer. Estava a pentear o cabelo para trs e a afast-lo da cara para pr o seu chapu branco em forma de casca de ovo, quando se voltou
e deparou comigo. A suite estava impregnada com o cheiro do seu perfume de jasmim.
A palidez e a tristeza tinham desaparecido da sua cara. As suas faces estavam novamente rosadas, os lbios resplandecentes. Tinha-se maquilhado toda e at tinha
posto rmel nas pestanas. Achei-a com um aspecto to saudvel como sempre tivera. Era uma recuperao miraculosa e que me enchia de ansiedade e receio.
- Ah, Leigh - exclamou ela, quando me viu. - Tomei uma deciso. vou voltar para Boston - anunciou. As suas palavras caram que nem uma bomba e o meu corao parecia
um tambor de chumbo pesado no peito.
- Voltar? Mas como, mam?
- Pedi ao capito do navio para se informar sobre os horrios dos avies e descobri um que vai para Miami, na Florida. Da, tomo outro avio para Boston.
- Mas, mam, e as nossas frias na Jamaica? - No acreditava no que estava a ouvir, e o que me custava ainda mais a digerir, era que ela j tinha feito todos estes
planos de viagem, conspirando aqui, na sua suite, e eu preocupada, a pensar que ela estava fraca e doente. - Porque  que est a fazer isto? - gritei, incapaz de
esconder o meu desapontamento.
- Para mim, isto acabou por ser tudo menos umas frias, Leigh. No me estou a divertir nem um bocadinho, como sabes. - Ajustou os dedos nas luvas. Estava manifestamente
determinada a sair do barco em grande estilo, sabendo que muitas pessoas a estariam a observar e a interrogar-se sobre o que estaria a acontecer, pois era a mulher
do proprietrio.
- Mas, mam, agora estamos ancorados no porto, no vamos para o mar. No vai ficar enjoada.
- E a viagem de regresso, Leigh? Queres-me fazer passar por tudo aquilo?
- No, mas eu queria que ficssemos juntos, que fssemos fazer compras juntos e comer a restaurantes finos juntos e ver os espectculos e tomar banho no mar e...
- De qualquer modo, o teu pai no teria tempo para fazer muitas dessas coisas. Ele no iria sair do barco. No te lembras que tivemos de lhe torcer o brao para
conseguirmos que ele sasse do barco em Londres, e se no tivssemos feito essa excurso, no teramos conhecido nem metade da cidade?
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Ele tomou providncias para fazermos a excurso, mamie e ns passmos uns bons bocados. Tenho todas aquelas fotografias nossas na Ponte de Londres, no Big Ben e
na Torre de Londres. Ns divertimo-nos tanto l. Tambm nos vamos divertir agora. Por favor, mam, fique connosco. Por favor - supliquei, rezando em silncio para
que ela reconsiderasse.
- No posso. - Afastou-se. - Desculpa. No posso mesmo. Mais tarde percebers.
- Porqu? O que  que quer dizer com isso? - O meu corao estava a bater freneticamente. Porqu mais tarde? Que notcias horrveis estariam para vir?
- Por agora, Leigh, no interessa. Goza o resto destas frias. Vou-te buscar  doca quando chegares. - Pegou na minha cabea com as duas mos e beijou-me a face.
- Agora, s uma boa menina e promete-me que no vais fazer nenhumas reparaes enquanto eu no estiver por perto.
- Oh, mam. - Agora chorava, chorava tanto que pensei que nunca mais parava, e no conseguia deixar de a chamar pelo nome que sempre usei durante a minha infncia.
Oh, porque  que no podia voltar quela infncia, em que me sentira feliz e em segurana!
- Deixei-te algumas das minhas jias para usares quando sares  noite. Tem cuidado com elas. - Afagou-me a cabea distraidamente, mas eu sabia que ela estava determinada
a levar os seus planos avante.
- Obrigada, mam. - Baixei a cabea, em defesa. Nada que eu pudesse fazer ou dizer a iria demover. Senti-me to abandonada e s. No entanto, mais do que pena de
mim, tinha pena do pap. Iria ser to embaraoso para ele encarar os passageiros quando soubessem que a sua mulher se tinha ido embora e tomado um avio de volta
para Boston. E ele no podia dar a desculpa de que ela estava doente e que tinha de voltar para casa. Parecia uma estampa quando desembarcou. Facilmente poderia
estar presente um fotgrafo das revistas de moda e ter-lhe tirado uma fotografia, enquanto descia em direco  doca. Por isso, decidi esforar-me para no o envergonhar
e tentar controlar-me.
- S c vais estar trs dias, Leigh, e fizeste alguns amigos a bordo, no foi? Contaste-me das irms Spenser e eu pedi ao capito para averiguar sobre a famlia
delas. So bastante abastados.
"Aqui, s estou a estorvar - acrescentou. - No  justo para ti nem  justo para mim. Percebes?
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Acenei que sim, com relutncia. No podia acreditar que ela estava a inventar aquelas desculpas sem nexo para mim. No percebia. Porque  que ela estava a fazer
aquilo? Porque  que ela estava a fazer uma coisa que nos ia magoar tanto, ao pap e a mim? Parecia que quanto mais velhos, mais difcil era sermos felizes. Ser
que comigo se ia passar a mesma coisa?
- ptimo. Agora, ajuda-me a sair. Traz a malinha dos meus cosmticos, por favor.
Samos juntas. Senti-me to vazia. "Oh, mam, a tua partida  to dolorosa." Ela no se importaria connosco?, pensei. Houve qualquer coisa no modo como a mam, 
porta, se voltou para trs e olhou para a suite, que me deu a impresso de estar a dizer: "Adeusinho."
Fiquei surpreendida por no ver o pap  espera no convs. Como  que ela podia ir-se embora sem lhe dar um beijo de despedida? Nem sequer o procurou com os olhos.
Avanou simplesmente pela prancha de desembarque at  doca, em direco ao txi.
- Mam, onde est o pap? - Percorria o convs com os olhos, mas ele no estava  vista.
- Ns j nos despedimos - replicou bruscamente. Tirou-me a malinha dos cosmticos da mo. - S uma boa rapariga. Vou-te compensar por tudo isto de um modo que nem
podes imaginar, Leigh.
Parecia uma coisa boa, mas fiquei ainda mais assustada.
Beijou-me de novo e entrou a correr no txi, parecendo feliz como nunca quando espreitou pela janela e acenou com a mo. Fiquei ali a v-la afastar-se. Em seguida,
voltei para o barco. L do cimo da ponte, o pap estava a espreitar c para baixo. A cara dele parecia a de uma esttua de pedra, fria, inanimada, abatida, envelhecida
e desgastada por momentos dolorosos. Tinha um aspecto to cinzento e to velho. As lgrimas que escorriam pelas minhas faces pareciam gotas de gelo. O que  que
estava a acontecer  nossa vida feliz e maravilhosa? Costumava acreditar que as palavras "Era uma vez..." tinham sido inventadas para mim. Agora, at tinha medo
de as incluir no meu prprio dirio, medo do significado que elas tinham ganho.
Apesar de estar zangada com a mam por se ter ido embora do barco e por nos ter deixado a mim e ao pap desta maneira, no conseguia deixar de sentir saudades dela.
Sempre que viajramos num cruzeiro do pap, tnhamos feito
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tantas coisas juntas. Era to divertido ir s compras com ela; descobria sempre um lugar em voga para almoarmos, onde quer que estivssemos. Enquanto ficvamos
sentadas, a mamie punha-se a observar e fazia comentrios sobre esta ou aquela pessoa, descrevendo o tipo de pessoa que ela achava que seria, a profisso que teria,
quanto dinheiro faria, se seria sofisticada ou no. Sempre que estava com a mam, as pessoas tornavam-se interessantes.
Quando nos encontrvamos em frias, tinha uma maneira de estar em restaurantes e lojas que levava os empregados, os matres e os vendedores a pensarem que estavam
a servir algum que fosse ou muito famoso, ou membro da famlia real. Falava um bocadinho de francs e de italiano, aprendido nas cassetes "Como aprender uma lngua
sem ajuda" que punha a tocar em casa vezes sem conta. Mesmo quando pronunciava mal ou dizia qualquer coisa totalmente errada, fazia-o de um modo que as pessoas no
a corrigiam. E cada vez que fazia compras ou escolhia alguma coisa num restaurante, fazia sempre questo de se inclinar e segredar-me o que tinha feito, para eu
aprender.
No era de admirar que sentisse esse enorme vazio no corao, quando ela se foi embora. De repente, tudo o que ansiara por fazer havia perdido interesse. E agora,
ainda tinha de animar o pap.
No primeiro dia esteve muito ocupado com todos os preparativos para as excurses que os passageiros iam fazer e com a colocao em doca do navio. As irms Spenser
e os pais delas convidaram-me para ir jantar com eles a Montego Bay, mas eu no queria deixar o pap na sua primeira noite sem a mam, apesar de ele ter insistido
para que eu fosse. Mrs. Spenser tinha-lhe pedido permisso para me levar, por isso ele estava ao corrente. No tivemos oportunidade de falar at ao fim da tarde.
Fui ter com ele  cabina do capito, e depois de ele e o capito terem terminado o que tinham para conversar e de o capito ter partido, ficmos sozinhos.
- Devias ir jantar com as tuas amigas, Leigh. Quero que te divirtas enquanto c ests.
- Mas, pap, pensei que amos jantar juntos.
- Tenho de ficar a bordo e fazer umas coisas - replicou. - Estava a pensar petiscar qualquer coisa.
- Eu petisco consigo e ajudo-o a fazer o que tem para fazer - insisti eu.
- No, isso no - disse o pap e abanou a cabea. Parecia to cansado, to desgastado pelos acontecimentos do
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dia. Sombras profundas e escuras tinham-se instalado nos seus olhos. As paredes do meu corao estremeceram. Reprimi as lgrimas, engoli em seco e tentei encontrar
uma voz que no vacilasse e que soasse a voz de menina.
- Porque  que a mam nos deixou assim, pap? No podia ter pedido ao mdico de bordo para falar com ela?
Ele abanou a cabea.
- No foi s a crise da doena, Leigh. Ela no estava com muita vontade de fazer este cruzeiro, desde o incio.
- Mas porqu, pap? Estava sempre a falar do cruzeiro, no era? Queria vir  Jamaica. Tinham c vindo tantos amigos dela - insisti. - No te lembras de ela uma vez
ter pendurado no seu escritrio aquele anncio de uma revista que dizia "Venha  Jamaica... no h nada como estar em casa"?
O pap acenou com a cabea, lembrando-se. E depois soltou um suspiro.
- Se ela pudesse ser uma passageira em vez da esposa do proprietrio, sentir-se-ia mais feliz - constatou ele, com tristeza.
- Mas porqu, pap? Ela no tinha de trabalhar a srio e ns temos os melhores aposentos que se pode ter. O pap tem feito tudo o que ela queria que fizesse.
- Receio bem que no, Leigh. A tua me continua desapontada comigo.
- Mas porqu? - gritei eu. - O pap d-nos tudo. Temos uma casa linda e podemos comprar tudo o que queremos. Todos os meus amigos tm inveja de mim.
- s vezes, isso no  suficiente - insistiu ele. Fitou-me por um longo momento e depois sorriu-me calorosamente.
- s vezes, principalmente quando ests frustrada, ficas muito parecida com ela, embora sejam to diferentes.
- Somos? - Fiquei surpresa por lhe ouvir dizer aquilo. Nos ltimos tempos estava sempre a dizer que parecamos irms, principalmente ao p da mam. Seria porque
eu ainda no tinha desenvolvido o gosto pelas mesmas coisas que ela, com tanta intensidade como ela?
- Em que  que somos diferentes, pap? Eu sei que ela  to bonita e...
- Oh, no - exclamou o pap prontamente -, no tem nada a ver com isso. Tu vais ser muito mais bonita do que a tua me.
Fiquei chocada por o ouvir proferir aquelas palavras de modo to sincero. "Eu? Mais bonita que a mam?"
- E no vais ter de trabalhar tanto ou tanto tempo para
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isso. No que a tua me no tenha sido abenoada pela beleza natural. Longe disso. Simplesmente, ela est mais envolvida em si prpria do que tu irs estar.
- Como  que pode ter tanta certeza, pap? - Queria mesmo saber, pois, apesar de acreditar que ele estava certo, eu prpria no tinha a certeza.
- Tu tens outros interesses, Leigh. Tens um esprito vido de conhecimento. Vais ser muito impaciente para aprenderes novas coisas. No  que tenhas tendncia para
ser maria-rapaz, como a tua me acha que eu te estou a transformar. No senhor. Toda tu s uma rapariga.
Apesar do nosso tema de conversa ser triste, as palavras que ele proferiu foram directas ao meu corao e encheram-no de calor e de amor.
Recostou-se na cadeira de cabedal do capito.
- A tua me ainda  uma mulher muito jovem, Leigh. H muitos anos, quando a vi pela primeira vez, no levei a srio a nossa diferena de idade, nem pensei que isso
viesse a ser um problema. Talvez por o amor ser cego.
"O amor pode ser assim, sabes, como uma exploso de raios de sol reflectidos na gua. No podes olhar directamente. Tens de proteger os olhos ou mesmo fech-los,
e, quando o fazes, s vs o que queres ver. Percebes? s suficientemente crescida para perceber o que estou a dizer, Leigh? - perguntou ele.
Acenei com a cabea. O pap e eu raramente tnhamos este tipo de conversa sria, adulta. Cada vez que comeava a falar sobre um tema srio, parava e dizia: "Bem,
suponho que a tua me vai falar contigo sobre esse assunto dentro em breve."
- Talvez at percebas - disse ele, a sorrir. - Acho que s muito mais esperta do que a tua me e eu imaginamos.
- Mas, pap, o que  que isso tudo tem a ver com o que est a acontecer agora?
- Bem, como te disse, a tua me era ainda muito nova. Amadureceu rapidamente, claro, mas eu j estava bastante acomodado com as minhas coisas. Quando um homem est
acomodado,  difcil, seno impossvel, faz-lo mudar.  medida que ia ficando mais adulta, a tua me foi querendo que eu fizesse alteraes na minha vida. Queria
que eu fosse uma pessoa diferente em muitos aspectos. Eu tentei, mas receio bem que no esteja dentro da minha natureza, e foi isso que tornou a tua me muito infeliz.
- Em que aspectos, pap?
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- Em que aspectos? Bem, por exemplo, ela adorava que eu a levasse num destes cruzeiros e que agisse como um simples passageiro... Dormir todos os dias at tarde,
comer, ir-me depois recostar no convs ou jogar shuffleboard.  noite, gostaria que eu a levasse a danar e que danssemos toda a noite, at de madrugada, a beber
champanhe, e depois que voltasse a dormir at tarde e que no falasse com a tripulao sobre negcios ou sobre o decorrer da viagem.
Sorriu.
- Por vezes ela consegue ser to criana - acrescentou -, to vida de entusiasmo e de diverso. Nunca vi uma mulher que tivesse o apetite que a tua me tem por
diverso e prazer. Nunca lhe conseguiria oferecer diamantes que chegassem ou lev-la vezes suficientes a restaurantes. Ela  insacivel.
"Oh, mas eu compreendo. A tua me  jovem, bonita, cheia de vida. Por outro lado, aqui estou eu, a trabalhar horas a fio, profundamente envolvido numa importante
empresa familiar, com pouco tempo para frivolidades. Se a tua me conseguisse o que queria - acrescentou, abanando a cabea -, eu estaria a divertir-me cinco horas
por cada hora de trabalho. Tenho pena, mas no posso, e, se pudesse, provavelmente no o faria, no s porque estou velho de mais para isso, mas tambm porque no
faz parte da minha maneira de ser.
"E assim, respondendo  tua pergunta, esta  a razo por que a tua me est desapontada - concluiu e sorriu para mim com ternura.
No consegui conter as lgrimas por mais tempo. Mal apareceu a primeira, o pap levantou-se e veio ter comigo.
- V l, v l, no chores. No me faas arrepender de ter tido esta conversa adulta contigo, Leigh.
- No fao, pap. - Sequei os olhos prontamente e retive o resto das minhas lgrimas. Doa-me o corao, mas sorri. - O que  que vai acontecer agora, pap? - indaguei.
- Vamos ver. A tua me queria ter algum tempo para ela prpria, para reflectir. Entretanto, jovem capito VanVoreen, tu e eu temos um cruzeiro para dirigir, percebes?
- Sim, pap.
- Bem, aqui est a minha primeira ordem. Vais jantar fora com as tuas amigas e com os pais delas e vais-te divertir.
- Mas, e se eles me comearem a fazer perguntas sobre a mam? - perguntei. Ele ficou pensativo por uns momentos.
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Tu dizes que houve uns problemas familiares graves em casa que tinham de ser resolvidos imediatamente. Ningum te vai perguntar muito mais do que isso, e, se o fizerem,
diz-lhes s que os teus pais no te contaram mais nada.
"bom - prosseguiu, batendo com as mos uma na outra -, isso j est resolvido. Amanh podes ir fazer compras ao bazar e comprar uma lembrana para cada um dos teus
amigos l de Boston, se quiseres.  tarde, podes ir tomar banho  praia e,  noite, tu e eu iremos a um autntico restaurante jamaicano comer um prato que se chama
galinha curada. Um dos porteiros, que por acaso  jamaicano, estava a falar-me disso. O que  que achas?
- Maravilhoso, pap.
- ptimo. Agora, vai-te embora. Depois quero um relatrio completo. Como est a ir esse teu dirio de bordo? Est a ser preenchido?
- Oh, sim. Escrevo todos os dias.
- ptimo. - Beijou-me na face, abraou-me com fora e eu inalei os cheiros que me eram familiares: o perfume da sua loo de barbear e da sua gua-de-colnia, o
aroma do seu tabaco de cachimbo e o cheiro fresco e limpo do mar.
Gostava que tivssemos tido conversas destas antes. Por um lado, a mam tinha muita razo em ficar com cimes do tempo que ele passava a trabalhar. Quem me dera
que ele tivesse passado mais tempo comigo e me tivesse falado dele prprio quando era da minha idade ou mais novo. Apercebi-me de que nunca me havia contado a sua
verso da histria da Cinderela entre ele e a mam. Talvez consiga que o faa, um dia. No entanto, o pap era to modesto. Iria mesmo descrever o que tinha sentido
quando vira a mam pela primeira vez? E estaria disposto a descrever a cena em que se declarou de joelhos? Nunca revelara qualquer antipatia para com a av Jana
ou para com as duas irms da mam. Sempre que ela gozava ou dizia mal delas  nossa frente, o pap simplesmente assentia ou desviava o olhar. Eu queria saber tantas
coisas mais. Deus queira que, agora que ele se apercebera de que eu estava mais crescida e mais madura, me falasse disso.
A pequena conversa com o pap na cabina do capito acabou por me animar o suficiente para ir jantar com os Spenser. Levaram-me a um restaurante italiano encantador,
chamado Casablanca. As mesas estavam postas sob as estrelas e havia um grupo de trs msicos e um cantor a trautear canes romnticas. Mr. e Mrs. Spenser danaram
to juntinhos,
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to amorosos e carinhosos, que as minhas amigas at ficaram envergonhadas. Davam risadinhas como crianas da escola primria. Eu percebia porque  que elas se sentiam
constrangidas com o comportamento dos pais, mas achava que era maravilhoso ver marido e mulher to amorosos e afectuosos um com o outro. No consegui deixar de fechar
os olhos e de imaginar que eram os meus pais, imaginar a mam e o pap na pequena pista de dana, as estrelas a cintilar por cima deles e o cantor a cantar serenatas
de amor para eles.
O pap tinha dito que o amor  cego. Quando nos apaixonamos, ser que temos oportunidade de pensar em todas estas coisas? Ser que temos oportunidade de prever como
ir ser daqui a muitos anos? Pela maneira como a mam falava agora do pap, eu sentia que, se ela pudesse ter previsto o futuro quando ele se declarara pela primeira
vez, provavelmente no teria dito que sim, mesmo que isso significasse continuar a viver no Texas, com as suas horrveis irms.
- Quando me apaixonar - confessei s irms Spenser -, quero que seja como os vossos pais. - Olharam ambas para mim, sem saberem se deviam ou no rir. Nesta altura,
j riam por tudo e por nada. Sorriram, apenas, devido  minha expresso sria, apesar de eu poder imaginar que iriam falar sobre mim mais tarde, no quarto.  verdade
que tnhamos mais ou menos a mesma idade; contudo, eu sentia-me to mais velha do que elas...
Era tudo to confuso para mim. Talvez a idade no tivesse influncia no nosso crescimento. Era provvel que o pap estivesse a querer dizer-me no barco que achava
que a mam ainda no crescera, ou, pelo menos, que ainda no crescera em relao quilo que ele tinha esperado.
A msica e as estrelas entristeciam-me agora. Fiquei contente quando chegou a hora de voltar para o barco. O pap viu-nos chegar e falou com Mr. e Mrs. Spenser para
lhes agradecer terem-me levado a jantar fora. Depois, perguntou-me se eu tinha gostado.
- Foi divertido - disse-lhe, a falar meio verdade, meio mentira. - Mas estou desejosa que chegue amanh  noite para estarmos s os dois, pap.
- Oh, meu Deus - exclamou ele -, ter de ser depois de amanh. Desculpa, mas amanh  noite temos um convidado muito importante para jantar -, o governador da ilha.
Entendes, no entendes, princesa?
Engoli rapidamente o meu desapontamento e pus a minha mscara de sorriso, tal como a mam sabia fazer.
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- Sim, pap. Estou cansada - disse-lhe. - vou dormir.
Deu-me um beijo de boas-noites e foi-se embora verificar qualquer coisa na cozinha. Fui a correr para a minha suite e fechei a porta atrs de mim. Ento, ca na
cama e chorei. No estava a chorar por uma coisa, mas por tudo... Chorava por a mam nos ter deixado, por ver os pais de outra pessoa to felizes e apaixonados,
pela frustrao e infelicidade do pap com a mam e pela infelicidade dela com ele, chorava por ele no ser capaz de estar sozinho comigo.
Depois de ter vertido dez oceanos de lgrimas, fiquei finalmente cansada e enrolei-me na minha cama, agarrada ao meu ursinho de pelcia vestido de marinheiro. Ouvia-se
a banda do salo de baile l em cima a tocar msica suave e romntica, e ouvia-se a gua l em baixo a embater contra os costados do navio, e, se me esforasse ainda
mais, conseguia ouvir o bater do meu corao.
Nada me poderia ter feito sentir to s. Ainda bem que adormeci.

6 QUASE UMA RF

Fiz um esforo enorme para me manter ocupada durante o resto do tempo que permanecemos em Montego Bay para no estar sempre a pensar no regresso da mam a casa,
pois, sempre que o fazia, sentia o corao como um tijolo no meu peito. As irms Spenser e eu fizemos finalmente amizade com dois rapazes que, ao princpio, pareciam
muito desinteressados, provavelmente porque eram mais velhos e deviam andar no liceu e achar que no se deviam associar a raparigas mais novas. Frequentavam ambos
uma escola nos arredores de Boston e tinham o nariz empinado. J os tinha visto algumas vezes ao lado um do outro, sentados nas espreguiadeiras do convs ou a jogar
xadrez, mas nunca nos prestaram a mnima ateno, a mim e s irms Spenser.
O mais alto, um rapaz com cabelo muito fino castanho-claro e olhos cor de avel, apresentou-se como Fulton Wittington Jnior. O amigo dele, Raymond Hunt, era muito
mais entroncado e muito menos bonito, mas muito mais informal e descontrado. Acho que simpatizou comigo, porque foi ele que nos aproximou quando nos viu a mim,
a Clara e a Melanie a jogar shuffleboard. Comeou a gozar comigo.
- Tu atiras isso como se estivesses a empurrar uma vassoura - criticou ele. Apesar de no ser muito atraente, pois a sua boca era demasiado grande e o nariz demasiado
fino, tinha um sorriso simptico e caloroso quando se permitia sorrir.
- Como  que eu podia saber. Nunca empurrei uma vassoura - retorqui e voltei-me de costas para eles, o que os fez rir a ambos.
-  melhor no gozares com ela - avisou a Clara, com as mos nas ancas. - O pai dela  o dono do barco.
- A srio? - De repente, o Fulton ficou mais interessado e pouco tempo depois vieram jogar connosco, primeiro
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para nos ensinar e mais tarde s por divertimento. Almonos todos juntos e decidimos ir  praia nessa tarde. As irms Spenser passaram o tempo s risadinhas e aos
segredinhos, o que, na minha opinio, foi muito antiptico e imaturo da parte delas. Ao fim da tarde, foram sozinhas chapinhar e brincar na gua, e deixaram-me sozinha
com os dois rapazes, estendida entre eles numa enorme toalha de praia.
Estava um dia sem nuvens, e a brisa martima fazia com que sentssemos o sol menos intensamente do que estava na realidade; eu tinha comigo todos os leos bronzeadores
e cremes protectores solares da mam. O Fulton, o Raymond e eu falmos sobre muitas coisas, incluindo a escola, os filmes recentes e as novas modas. Na maior parte
das coisas, achei que tinham o mesmo gosto que eu.
A famlia do Fulton tinha uma casa de praia em Cape Cod e quando eu mencionei que estivera recentemente na praia na Manso Farthinggale, fiquei surpreendida por
saber que ele no s tinha conhecimento da sua existncia, como o pai dele tinha comprado dois brinquedos da Fbrica Tattterton, uma rplica da Torre de Londres
e outra da Bastilha.
- So espectaculares! - exclamou o Fulton. - At tem uma guilhotina que funciona. Se pusesses o teu dedo mindinho l por baixo, cortar-te-ia a ponta.
- Acho que posso passar bem sem o fazer - disse eu, fazendo uma careta.
- Alguns amigos dos meus pais tm brinquedos Tatterton de coleco. O meu pai deu instrues ao gerente da Loja de Brinquedos Tatterton para o avisar quando produzirem
uma nova priso famosa.
- A minha me quer que o meu pai compre um brinquedo Tatterton - contou o Raymond. - Ele deve comprar um, este Natal.
- Os meus pais tm muito orgulho neles - acrescentou o Fulton. Queria saber como era a Manso Farthinggale e eu descrevi-lha e falei-lhes do Tony, do Troy e do labirinto.
Pareciam fascinados e eu fiquei muito orgulhosa de mim prpria por ser to interessante e atraente aos olhos de dois rapazes mais velhos, sendo ambos manifestamente
muito ricos e viajados. Pensei que a mam tambm iria ficar muito orgulhosa de mim.
Fartei-me de chamar as irms Spenser e de lhes dizer para porem creme protector, porm, no ligaram importncia e ficaram ambas com um escaldo no ombro e outro
no pescoo antes de voltarmos para o barco.
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- Sabes - comentou o Fulton, enquanto observava as irms Spenser -,  difcil, se no impossvel, acreditar que vocs tm a mesma idade.
- Podias passar por uma rapariga do secundrio - referiu o Raymond, com o que o Fulton concordou. Sob a forte luz do Sol, no dava para perceber que estava a corar;
no entanto, senti uma pontinha de entusiasmo pelo modo como ambos me encaravam agora.
Nessa noite, disse-lhes adeus da mesa do capito onde estava sentada com o pap e o governador da ilha. Encontravam-se todos a discutir a indstria turstica e como
a Jamaica estava a tornar-se um dos locais mais populares das Carabas. Quando o governador expressou o seu desejo de tornar a Jamaica no tipo de paraso de frias
que pudesse ser desfrutado no s pelos mais ricos e famosos, mas tambm pela classe mdia, pensei que era bom que a mam no estivesse ali. Ficaria muito desapontada
em sab-lo, pois andava sempre  procura dos lugares visitados apenas pelos muito ricos e famosos.
Notei que a Clara e a Melanie no tinham vindo jantar. Quando perguntei por elas, Mr. e Mrs. Spenser informaram-me que elas estavam na suite com dores por causa
dos escaldes. Depois de jantar, o Raymond e o Fulton escoltaram-me at ao show das Carabas, que acabou por ser um dos espectculos mais emocionantes que alguma
vez vi em qualquer dos paquetes de luxo do pap. Havia bailarinos de danas populares, vestidos com fatos coloridos e chapus de palha, msicos de calypso, com uma
orquestra de vinte elementos a tocar instrumentos de percusso e a cantar msicas populares sobre o amor nas ilhas.
Depois do espectculo, as pessoas eram convidadas a tentar danar o limbo. Tinham de danar e dobrar-se para trs para passar por baixo de uma vara de bambu, sem
lhe tocar. A vara baixava e baixava at no haver quase ningum a jogar. Nesse momento, entrava em cena um bailarino da ilha que dobrava o corpo at este ficar a
poucos centmetros do cho e movimentava-se por baixo da vara com a agilidade de uma cobra. A audincia adorou.
Passei o dia seguinte com o Fulton e o Raymond. Ensinaram-me a jogar xadrez e fomos novamente tomar banho  praia. Ao fim da tarde, pela fresca, fomos fazer compras
aos mercados de rua, e eu encontrei um leno de seda pintado  mo, lindo, que tinha a certeza que a mam ia adorar. Para o pap, comprei uma bengala decorativa
coberta de peixes esculpidos.
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O Fulton e o Raymond queriam levar-me a dar uma volta pelo porto num barco com fundo de vidro, mas eu estava desejosa de voltar para o navio e de me vestir para
jantar, porque nessa noite o pap ia levar-me a um restaurante jamaicano, em vez de jantarmos a bordo. Esperava, ansiosa, por passarmos os dois uma noite maravilhosa
a falar. Pus algumas das jias que a mam me deixara e sentei-me em frente ao espelho a pentear o meu cabelo como ela costumava pentear o dela, enumerando as cem
escovadelas. Pus o bton como ela me ensinara e pulverizei-me com perfume de jasmim. Vesti uma blusa de seda azul-forte, com uma gola de renda e uma saia plissada
a condizer. Para parecer mais velha e mais sofisticada, desabotoei os dois primeiros botes da minha blusa.
A minha cara estava uniformemente bronzeada, o que os brincos de prata e a blusa de cor forte ainda punham mais em relevo. Achei que estava sensacional e esperava
sinceramente que o pap tambm achasse. Os rapazes mais velhos gostavam de mim e achavam-me interessante e madura. Estava a usar as jias e o perfume da mam e,
pela primeira vez, admiti para mim prpria que havia fortes semelhanas entre ns. Talvez at viesse a ser bonita. Seria vaidade pensar desse modo? No conseguia
deixar de admirar a minha imagem ao espelho, apesar de saber que no devia ser convencida. Mas no estava ali ningum, ningum iria saber, pensei.
Fiquei ali, assumindo vrias poses, tentando imitar algumas expresses e olhares da mam. Belisquei as bochechas, virei os ombros, endireitei-me e puxei os seios
para cima at ficarem mais sados. Imaginei um homem jovem e bonito a fitar-me do lado oposto da pista de dana. Devia retribuir-lhe com um sorriso e encoraj-lo.
Provavelmente era o que a mam faria, pensei, apesar de o pap no gostar. Voltei-me, devagar, e sorri. Depois, ri-me de mim prpria. Contudo at era divertido ser
tola de vez em quando.
Respirei fundo, mirei-me outra vez ao espelho, para ver se o cabelo estava bem, e sa para ir ao encontro do meu companheiro, o pap.
O pap estava  minha espera no convs. De sbito, senti-me a tremer, quando pensei na reaco que teria. Porm, ele olhou para mim, fez um enorme sorriso e ficou
com os olhos a brilhar, tal como ficava muitas vezes quando a mam aparecia toda aperaltada para ir a uma gala ou a um restaurante chique.
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- Estou bem? - Quase que podia ouvir a mam a sussurrar-me: "Procurar elogios no tem nada de mal. Uma mulher deve sempre parecer um pouco insegura, mesmo que seja
muito segura."
- Ests deslumbrante, princesa. - Virou-se para a sua direita. - Hoje temos a companhia mais bonita da Jamaica
- afirmou para o capito Willshaw.
- Sem dvida - confirmou o capito Willshaw, dando um passo em frente. Estava to ansiosa para ver a reaco do pap quando me pusesse os olhos em cima, que nem
tinha reparado no capito, que estava a seu lado.
No consegui controlar a minha expresso confusa, nem o meu desapontamento, quando o pap acrescentou:
- O capito recomendou-nos o restaurante que considera o melhor da Jamaica e concordou em vir jantar connosco, Leigh. No foi amvel da parte dele?
- Jantar connosco? Oh, sim.
"Pap", pensei, "e o nosso jantar ntimo? No percebes o que se est a passar no fundo do meu corao? No reparaste que eu precisava de ti, e s de ti, hoje  noite?
O que foi feito da noite que amos passar juntos na Jamaica, em que era suposto confortarmo-nos um ao outro e ficarmos mais ntimos?" Oh, eu tinha tantas coisas
ntimas e pessoais para lhe contar. Queria falar-lhe sobre o Fulton e o Raymond e sobre os brinquedos Tatterton e descrever-lhe o que tinha comprado para oferecer
 mam. Queria confiar-lhe os planos que tinha feito, para me esforar por no lhe desagradar a ela e de no fazer coisas que pudessem provocar discusses entre
eles.
Mais do que tudo, queria que ele olhasse para mim e se lembrasse dela, e depois queria que ele me dissesse que tinha muitas saudades da mam e que precisava dela.
Tinha esperana que ele me narrasse os primeiros dias que haviam passado juntos, quando o romance entre eles era intenso e verdadeiro, como eu esperava que o amor
viesse a ser para mim, um dia.
Depois de jantar, caminharamos de mos dadas pela noite jamaicana e sentir-nos-amos felizes de novo, sob as estrelas.
Em vez disso, o pap e o capito Willshaw conversaram sobre o cruzeiro. Fizeram um levantamento de tudo, avaliaram cada dia, cada acontecimento, revendo o que iriam
modificar, o que iriam melhorar ou aumentar e nunca mais paravam. Ouvi tudo, bem-educada. Numa ocasio normal,
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ter-me-ia interessado; naquela noite, porm, queria que o meu pai me tratasse como uma mulher. Estava aborrecida e extremamente infeliz. Apesar de a comida ser deliciosa,
perdi o apetite e tive de comer  fora, mas o pap pareceu no ter reparado.
Tivemos de voltar para o navio logo aps o jantar. Era a ltima noite que passvamos na Jamaica e estava programado um espectculo e um baile. Disse ao pap que
tinha de ir  suite por uns momentos e que iria ter com ele mais tarde.
- Tal como a tua me, tens de ir retocar-te, hem, princesa? - perguntou, piscando o olho ao capito.
-  verdade, pap - respondi, com os olhos baixos. Senti duas pequenas lgrimas nos cantos dos olhos, que se detiveram, sem cair.
- Ests bem? A comida no estava picante de mais, ou estava? No ests excessivamente fatigada, pois no? - perguntou, com uma voz plena de preocupao paternal.
- No, pap. - Tive de morder o interior da boca para no desatar a chorar ou a gritar. Porque  que ele estava a falar comigo como se eu fosse outra vez uma criana?
Porque  que ele no conseguia discernir o verdadeiro problema? Ser que os homens eram absolutamente insensveis aos sentimentos das mulheres? Passavam-me tantas
dvidas pela mente, questes s quais acho que s outra mulher me poderia responder.
Quando entrei na minha suite, senti-me to desiludida e sozinha que s consegui sentar-me na cama e chorar. Vi de relance a minha imagem no espelho: o meu cabelo
penteado e brilhante, a minha roupa bonita, as jias da mam e a minha pele uniformemente bronzeada, agora alterada pela tristeza e pelas lgrimas. Achei que tinha
um aspecto pattico e ridculo, como uma menina a tentar imitar a me. Estava na expectativa de que, quando o pap me visse e inalasse o perfume de jasmim da mam,
se perdesse nas recordaes dela e que fosse delicado e refinado comigo. Mas nada disso acontecera.
Nunca sentira antes que precisava tanto da mam. Queria que ela me dissesse o que sentiria se se vestisse a rigor e no deslumbrasse um homem como tinha planeado.
O que  que eu podia fazer? No podia ter uma conversa ntima com ningum a bordo, e muito menos com as irms Spenser ou a me de outra pessoa.
"Deve ser to horrvel para um rfo verdadeiro", pensei, "nunca ter ningum em quem confiar, ningum que lhe
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d amor e que no se ria dele quando este confessa os seus sentimentos mais profundos e sinceros." Essa noite, sentia-me como uma rf, abandonada no meio do mar,
a flutuar sem destino, perdida nas ondas para ser arremessada aqui e ali, sem ningum para ouvir os meus gritos.
Limpei os fios de lgrimas que escorriam das minhas faces e mirei-me no espelho. Talvez o pap e eu fssemos ter a nossa pequena conversa ntima dentro de um dia
ou dois, durante o caminho de regresso. Talvez fosse muito difcil para ele falar sobre este assunto e estivesse deliberadamente a encontrar desculpas para evit-lo.
Tinha a cabea to ocupada, tantas responsabilidades e preocupaes, que no precisava que eu lhe acrescentasse a lista. Teria de ser mais compreensiva e mais paciente,
pensei. Endireitei-me.
- Ningum quer saber de uma pessoa pattica e fraca dissera-me uma vez a mam. - A piedade  o sentimento mais decadente que existe. Mesmo que estejas transtornada,
no ds a ningum a satisfao de o saber. Faz com que se sintam superiores.
- Est bem, mam - sussurrei eu, como se ela estivesse aqui, na minha suite, comigo -, farei o que tenho de fazer. Ningum saber os meus pensamentos secretos e
tristes. F-lo-ei pelo pap e por ti, e f-lo-ei por mim prpria.
Levantei-me com determinao. No meu ntimo, porm, sabia que, quando voltasse para a minha suite ao fim da noite, me enfiasse por baixo dos cobertores e fechasse
a luz, iria soluar que nem um beb no escuro e choraria at adormecer.
A viagem de regresso a casa pareceu-me muito mais comprida, pois estava ansiosa para chegar junto da mam e por v-la cumprimentar o pap. Ajoelhava-me todas as
noites e rezava para que ela estivesse menos zangada com ele. Li muito e estudei as minhas lies a fundo com o meu preceptor, Mr. Abrams. joguei xadrez com o Raymond
e o Fulton, fui ao cinema e assisti a espectculos com eles, e passei mais tempo na companhia das irms Spenser. O pap parecia mais ocupado do que nunca. Mal o
vi no ltimo dia no mar. No almoou comigo e, quando por fim nos sentmos juntos para jantar, foi abordado por muitas pessoas: convidados que passavam por ali para
lhe dizerem que tinham gostado muito do cruzeiro e membros da tripulao e do pessoal que lhe vinham pr questes.
Na noite anterior  chegada ao porto de Boston, o Raymond
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e o Fulton vieram falar comigo em particular para me darem as moradas deles e apontarem a minha. Prometeram ambos escrever e at fazer-me uma visita na primeira
oportunidade que cada um tivesse. Fiquei muito lisonjeada pela ateno deles. O Raymond deu-me um beijo na face, um beijo rpido, afastando-se logo, a corar. Era
a primeira vez que um rapaz mais velho me beijava e eu no consegui impedir que as asas das minhas borboletas batessem por baixo do corao. O Fulton deu-me apenas
um aperto de mo, mas manteve os ombros direitos e os olhos fixos em mim, como se quisesse beber a minha cara e nunca a esquecer.
Quando se foram embora, fui tratar das minhas malas. O pap disse-me para deixar as malas dentro da suite que os bagageiros as viriam buscar enquanto eu estivesse
a tomar o pequeno-almoo. Segundo o horrio, amos atracar pouco depois do pequeno-almoo. Estava to excitada que demorei imenso tempo para adormecer. Escrevi e
escrevi neste dirio, at as minhas plpebras se fecharem, mas, mesmo depois de desligar as luzes e de fechar os olhos, no parava de pensar em tudo o que queria
contar  mam. No queria esquecer-me de nada.
Mal despontaram os primeiros raios de luz matinais atravs da minha janela, saltei da cama e tomei o meu duche. Queria comer um pequeno-almoo rpido e ir l para
fora para assistir do convs  chegada a Boston. Quando, j vestida, estava a acabar de pentear o cabelo, ouvi algum a bater  porta. Era o pap.
Estava vestido com o seu fato escuro, mas no to elegante como era normal. Parecia que tinha estado a p toda a noite e que se vestira s escuras. O n da gravata
no estava bem feito e o casaco do fato tinha um aspecto enrugado. O cabelo estava um pouco desalinhado.
- bom dia, princesa - disse, com ternura. O meu corao comeou a palpitar descompassadamente. Parecia to triste; a cara dele estava to cinzenta como o cabelo.
- bom dia, pap. Est tudo dentro do horrio? - Senti muito medo, de repente, mas tentei convencer-me de que houvera algum problema e que a atracagem fora adiada.
- Sim, sim. - Fez um sorriso frgil e fechou a porta atrs de si. - Queria ver-te antes de ires tomar o pequeno-almoo e antes de entrarmos na doca.
Dei uma volta inteira na cadeira do meu toucador. O pap mostrou-se enervado por um momento e olhou  volta da minha suite, como se no tivesse a certeza de onde
iria sentar-se.
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Por fim, sentou-se aos ps da minha cama. Juntou as mos e inclinou-se na minha direco. Estava bastante preocupado com alguma coisa... Percebia-se bem porque os
pequenos msculos do seu maxilar estavam aos pulos e porque as veias das tmporas faziam tanta presso contra a pele que parecia que iam rebentar. Ficou bastante
tempo em silncio, at que me senti to nervosa que pensei que ia comear a gritar.
- O que  que aconteceu, pap? - Retive a respirao.
- Leigh - comeou ele -, esperei at ao ltimo momento para vir aqui contar-te isto. Queria aguentar o mximo possvel, para evitar a tua tristeza pelo mximo de
tempo possvel.
- Tristeza? - Levei as mos  base da garganta e sentei-me, to quieta, sem conseguir respirar,  espera que ele continuasse. Ouvi o palpitar do meu corao e senti
o leve balano do navio na gua. Por cima de ns e  nossa volta, ouvia-se o som dos convidados e da tripulao a prepararem-se para a ltima manh a bordo: pessoas
a falar alto, excitadas, a caminho do pequeno-almoo, bagageiros  espera de instrues, portas a fechar, crianas a rir e a correr. Chovia excitao e algazarra
 nossa volta, o que tornava o nosso silncio ainda mais profundo e perturbador. Por dentro, senti-me gelar, transformando-me numa princesa de gelo, em vez de uma
princesa de carne e osso.
- Lembras-te, quando tu e eu tivemos aquela pequena conversa logo aps a tua me nos ter deixado na Jamaica, que eu te disse que ela se tinha ido embora para pensar
recomeou ele.
- Sim? - A minha voz soou to frgil, to assustada.
- Eu disse-te que ela estava desapontada comigo, desapontada pelo modo como as coisas corriam entre ns. - Engoliu em seco. Acenei com a cabea, para que ele continuasse,
pois parecia que estava a desdizer-se. - Bem, h alguns dias, Leigh, recebi um telegrama a bordo. Era da tua me, a informar-me de que tinha levado avante uma das
suas possveis alternativas.
- Que alternativas? O que  que ela fez? - bradei, desanimada.
- Em Miami, apanhou um avio para o Mxico, em vez de ir directamente para Boston, e instaurou um processo de divrcio - disse ele, bruscamente, como um mdico a
transmitir ms notcias a um paciente, para no arrastar mais o sofrimento.
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As suas palavras ficaram a pairar no ar, como se se tivessem congelado ali. O meu corao palpitava sob o meu peito, tornando-se depois num tambor a rufar. Os meus
dedos ficaram entorpecidos pela fora com que eu os tinha encerrado nas mos.
- Divrcio? - Era uma palavra to proibida, to estranha. Eu tinha lido coisas sobre divrcios de estrelas de cinema e de outros artistas. No caso deles, parecia
o curso natural dos acontecimentos, quase que esperado, mas eu no tinha nenhuns amigos cujos pais se tivessem divorciado, e os colegas de escola que tinham pais
divorciados eram considerados diferentes; s vezes, os outros at os evitavam, como se tivessem lepra.
- No fundo - acrescentou o pap, suspirando -, sinto-me quase um pouco aliviado. J esperava isto h meses. Era raro o dia em que a tua me no dizia que estava
infeliz comigo ou que no trocssemos palavras desagradveis, amargas, entre ns. Fiz o possvel e o impossvel para esconder de ti isto tudo, tal como penso que
a tua me ter feito.
"Afundei-me ainda mais no meu trabalho para no estar sempre a repisar os problemas em casa. Por um lado, todas estas crises financeiras e os problemas nos negcios
foram uma espcie de bno. Afastaram a minha mente dos problemas conjugais. - Forou o regresso de um sorriso, que pouco durou. Por ateno a ele, reprimi as minhas
prprias emoes e socorri-me delas para poder falar.
- A mam ainda est no Mxico?
- No, j regressou a Boston. Est em casa. Mandou-me o telegrama de Boston. Contudo - prosseguiu, depois de respirar fundo -, eu prometi-lhe que concordaria com
o que ela decidisse. No vale a pena forar uma pessoa a ficar connosco se ela j no o quer.
- Mas porque no? - inquiri eu. - Como  que ela pode querer deixar-te depois de todos estes anos?
O que eu queria mesmo saber, era como  que um amor que tinha comeado de um modo to esplendoroso, to romntico, podia ter morrido. Como  que duas pessoas podiam
ter tanta certeza uma da outra, num momento, e mais tarde terem tanta certeza de que j no queriam estar juntas? Ser que era isto que o pap queria dizer quando
me explicou que o amor era cego?
Ento, como  que uma pessoa pode saber se ele ou ela est apaixonado ou apaixonada de verdade? Se os sentimentos nos traam e as palavras eram como irrealidades
que apareciam
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e desapareciam na nossa memria, o que  que se podia fazer para ter a certeza? Promete-se a uma pessoa, e essa pessoa tambm nos promete a ns, que iremos ficar
juntos at que a morte nos separe e depois... outra coisa qualquer separa-nos. Qual seria o valor de uma promessa? E de uma promessa que vinha acompanhada por um
beijo?
- A tua me ainda  muito jovem. Ela acha que ainda tem oportunidade de viver uma vida mais feliz e eu no me vou atravessar no caminho dela. Por mais irnico que
parea, amo-a demasiado para o fazer - confessou ele. - Eu sei que isto no faz sentido para ti, agora. Nada disto... Mas mais tarde talvez penses no que eu te disse
e talvez percebas a razo pela qual digo que a amo demasiado para impedir que ela me deixe.
- Mas, pap, o que vai ser de ns? - Estava frentica agora, e fiquei bastante surpreendida por a minha voz no sair aos guinchos. No fundo, a minha pergunta era:
"O que vai ser de mim?" Ele percebeu.
- Vais ficar com a tua me. Vo viver as duas na nossa casa pelo tempo que a tua me desejar. - Fez uma pausa, soltou um suspiro e depois prosseguiu: - Tenho muito
com que me ocupar neste momento. Na verdade, aps uma pequena estada em terra, partirei novamente, para explorar a hiptese de fazer um cruzeiro para um lugar chamado
ilhas Canrias. Tenho de procurar locais novos e exticos para atrair a minha clientela e manter o nvel de competio.
"Acho que a tua me tem razo numa coisa, Leigh... Gosto de mais do meu negcio. No consigo encostar-me e deix-lo morrer - confessou.
- Quero ir contigo, pap - consegui dizer, enquanto soluava.
- Ento, ento, meu amor. Isso seria impossvel e incorrecto. Tu tens a tua escola e os teus amigos e deves ficar com a tua me na tua casa, onde te sentirs confortvel.
No temos problemas a nvel financeiro, apesar de,  velocidade com que a tua me gasta dinheiro, este nunca seja suficiente
- acrescentou secamente.
No havia lgrimas nos olhos do pap. Se ele chorara por causa disso, fizera-o sozinho e pusera esse assunto de lado. At num momento como este ele conseguia ter
as suas emoes sob controlo, quando eu nunca o tinha conseguido. Percebi que o romance de amor entre ele e a mam j estava morto e enterrado, enterrado num cemitrio
pleno de momentos felizes de outrora, de coisas felizes. A cabea dele j divagava por outros caminhos. O funeral j fora.
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A sua expresso cansada estava to carregada de resignao que bastava um olhar para apagar a pequena vela de esperana que eu tentava guardar acesa e viva no meu
corao. Fiquei chocada por saber que o amor entre a mam e o pap h muito tempo que tinha comeado a morrer, aos poucos, devagar. No entanto, agora que ele me
tinha contado isso, comecei a pensar no passado e lembrei-me de coisas que a mam havia dito sobre ele e do tom que ela tinha utilizado para as dizer. Quando comecei
a recordar as suas palavras, elas apareceram-me no seu verdadeiro sentido, e consegui perceber a infelicidade e os avisos que me tinha recusado a ouvir anteriormente.
A partir de agora, j no podia continuar a ignor-los.
- Pap, nunca mais o vou ver? - supliquei eu. Tive de molhar os meus lbios que haviam ficado secos. As minhas mos traram-me e comearam a tremer; tive ento de
as juntar e fazer presso contra o meu colo.
- Oh, claro que vais. Claro, claro. Esta viagem s vai demorar cerca de um ms e depois passo por l.
- Passa por l? - Estas palavras soavam to idiotas quando proferidas pela boca do meu pai. Ele "passaria por l"? Pela sua prpria casa? Como uma visita, um estranho,
iria tocar  campainha e ser recebido pelo mordomo e depois anunciado?
- E hei-de telefonar-te e escrever-te sempre que puder
- acrescentou. Inclinou-se para alcanar a minha mo. Ests a crescer muito rapidamente agora, Leigh. s uma jovem e tens preocupaes de jovem mulher. Precisas
da tua me mais do que alguma vez precisaste, precisas dos conselhos dela e da sua companhia. Vais comear a interessar-te cada vez mais por rapazes e eles por ti.
"Talvez a tua me tenha razo num aspecto: eu no devia encher-te a cabea com negcios e matrias de mecnica, nesta altura da tua vida.
- Oh, no, pap, eu nunca me importei com isso. Eu gostava - protestei eu, com fervor.
- Eu sei. - Acariciou a minha mo. Ansiava por que me abraasse com tanta fora que eu no conseguisse respirar, que me aquecesse os lbios com os seus beijos e
que me fizesse sentir que estava tudo bem.
- Oh, pap, eu no quero que se v embora. Eu no quero que apenas passe por l - disse eu, por entre soluos. As lgrimas corriam agora livremente pelas minhas
faces. Por muito que tentasse, no conseguia conter os soluos. Os
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meus ombros tremiam. Por fim, o pap abraou-me e apertou-me nos seus braos com mais fora do que nunca, beijou-me no cabelo e afagou-me.
- V l, v l, minha querida princesa. Vai ficar tudo bem. Vais ver. Quando ultrapassarmos esta depresso, vai ficar tudo bem. - Abraava-me e limpava as minhas
lgrimas.
- s a filha do patro. Vais fingir uma cara feliz e vais l para cima despedir-te das pessoas a meu lado. Fazes isso por mim?
- Claro que fao, pap. - Engoli os meus gritos de choro, mas comecei com soluos ritmados. O pap riu-se. vou conter a respirao - disse eu. - Costuma dar resultado.
- Assim  que ! - Ps-se de p. - Leva o tempo que precisares e depois sobe e vem tomar o pequeno-almoo comigo. A seguir, iremos para a ponte observar o capito
Willshaw a entrar com o navio no porto. Est bem? E, acontea o que acontecer, princesa, lembra-te sempre que eu te adoro. Prometes?
- Prometo, pap. E eu tambm o adoro.
-  esse o esprito, o esprito do mar. Espero por ti l em cima. - Depois de ele fechar a porta, fiquei sentada, de olhos fixos.
O meu corao era uma runa de sofrimento, mas j estava emocionalmente to exausta que as lgrimas j no saam, apesar de uma parte de mim prpria querer berrar
e berrar at ficar seca. Nesse momento, fiquei zangada, furiosa com a mam pelo que ela fizera. Como era egosta! Agora via quo egosta ela sempre havia sido. Como
 que ela podia pensar s nela prpria a este nvel? Como  que ela podia fazer-nos isto, a mim e ao pap? Quem  que estava preocupado se ela era jovem ou se parecia
jovem? Ela no iria ser jovem para sempre e nunca iria encontrar nenhum homem que a amasse tanto como o pap, e que ainda a amava.
Oh, era to ingrata, virando-lhe as costas agora, que os anos tinham passado por ele. Ele tinha-a salvo de uma vida horrvel. Eu ouvira estas palavras da sua prpria
boca, e agora, punha-o de parte, s porque se queria divertir mais. Talvez no fosse demasiado tarde. Talvez conseguisse convencer a mam a mudar de ideias, pensei.
"Ningum tem de saber que ela foi ao Mxico para tratar daquele horrvel divrcio!" Podia regressar e voltar atrs. Quando desse conta de que tinha arruinado a minha
vida...
O meu corao afundou-se como uma rocha num lago,
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pois eu sabia que era evidente que a mam j tinha considerado todos estes aspectos, e que isso no a tinha impedido de continuar. Tinha-me deixado na Jamaica, no
tinha? Isto era demasiado importante para ela. No iria ouvir nada do que eu tinha para lhe dizer, pensei, e nem que eu chorasse muito, nem mesmo se eu derramasse
litros e litros de lgrimas, conseguiria convenc-la de que estava errada.
O pap tinha aceite o facto; no tinha esperanas nenhumas. Levantei-me, devagar, e olhei para a minha imagem no espelho. Estava com um aspecto horrvel: a minha
cara manchada, os meus olhos injectados de sangue. Ainda estava com soluos, para alm disso. Acontecia tudo to depressa e com tanta intensidade que a dor tornava-se
fsica. Bebi um copo de gua e retive a respirao; os soluos no pararam at lavar de novo a cara e estar pronta para ir ter com o pap  sala de jantar. No tinha
apetite, mas faria o que ele me pedisse.
Depois do pequeno-almoo, o pap e eu fomos para a ponte, tal como ele tinha prometido, e ficmos junto do capito Willshaw a observar como ele e os outros oficiais
dirigiam a entrada em doca do The Jilllan. Pensei como seria triste agora, para o pap, pensar no nome do navio. Recordei o dia em que ele me tinha levado a mim
e  mam a dar uma volta, sem nos dizer a razo. Virara em direco  doca, fingindo ter um pequeno recado para dar e, de repente, ali estava ele  nossa frente...
o novo paquete nos preparativos para o baptizado. Tanto eu como a mam ficmos entusiasmadas, mas s quando o pap virou  direita, para a lateral do barco,  que
percebemos porque  que ele tinha insistido tanto para virmos dar essa volta. Ali estavam as palavras, reluzentes, pintadas nas laterais do novo paquete: The Jillian.
Como a mam tinha dado gritinhos de satisfao e coberto as faces do pap de beijos. Tudo isso parecia to longnquo, to distante.
A esta altura,  medida que nos aproximvamos da doca, j conseguia distinguir a multido que se tinha formado para saudar os que regressavam. Havia uma fila de
txis paralela s limusinas e aos veculos privados. L em baixo, no convs, os passageiros acenavam e gritavam para as pessoas que acenavam com chapus e lenos,
tirando fotografias e chamando por eles. Procurei a mam com os olhos, mas no a vi em lado nenhum. Por fim, avistei um dos nossos carros, mas s l estava o Roberts,
um motorista que trabalhava para ns com frequncia,  espera, junto do carro.
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- A mam no me vem buscar, pap?
- Eu imaginei que era provvel que ela mandasse o Paul com o carro. No deve ter muita vontade de me ver.
- Mas, e eu?! Ela devia c estar como os parentes de todas as outras pessoas.
- Ela s est a evitar uma cena - disse o pap. Continuava a defend-la, mesmo agora, pensei. Se ela soubesse como ele a amava de verdade. Estava decidida a contar-lhe.
- No vem mesmo para casa, pap? - perguntei calmamente. Eu sabia que ele contava comigo para no chorar e no expor os nossos problemas ntimos  frente dos passageiros
e dos tripulantes.
- No. Ainda tenho coisas para fazer. Vai andando. Eu passo por l mais tarde.
L estava aquela expresso de novo: "Passo por l." Acenei com a cabea prontamente. Quando por fim o navio j estava atracado e as pessoas tiveram autorizao para
desembarcar, voltei-me para o pap. Ele apenas fechou e abriu os olhos e depois assentiu silenciosamente.
- Vai-te embora - disse, com suavidade. - Eu fico bem.
- Pap. - A minha garganta ficou bloqueada. Voltou a acenar com a cabea, em direco  porta. Percebi que ele tambm estava a esforar-se ao mximo para se controlar.
Deu-me um beijo rpido na face. Comecei a tentar abra-lo, mas ele afastou-me e ento eu dirigi-me para a porta e desci para o convs.
A manh estava parcialmente nublada, mas a mim parecia-me triste e cinzenta. Sentia a brisa do mar contra as minhas faces, como o hlito do boneco de neve, a gelar
instantaneamente as minhas lgrimas quentes. Enrolei-me mais no casaco e comecei a andar em direco  prancha de desembarque, quando senti algum a puxar-me o brao.
Era a Clara Spenser e a sua irm Melanie. Os pais encontravam-se mesmo atrs delas e estavam todos to juntinhos, a me descansando a mo na mo da Melanie. Era
como um retrato de famlia, por cima da legenda A FAMLIA FELIZ.
- Adeus, Leigh - despediu-se a Clara. - Escrever-te-emos.
- Adeus. Eu responderei - prometi e comecei a afastar-me. Queria fugir delas.
- Leigh! - gritou a Clara. - Foi divertido, mas no  maravilhoso estar outra vez em casa?
Acenei apenas com a mo e fui a correr para o carro, to
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depressa quanto consegui. As minhas malas j haviam sido carregadas.
A minha me est bem? - perguntei eu ao Roberts.
Talvez estivesse to preocupada pelo que tinha feito, que cara doente na cama, em casa, pensei, com esperana.
Oh, sim. Ela telefonou-me hoje de manh e parecia ptima. Teve sorte em estar fora. Esta semana tem estado tanto frio. Divertiu-se? - perguntou ele, quando viu que
eu no respondia.
- Sim - respondi e virei-me para trs enquanto o carro arrancava. Consegui ver o pap na ponte a falar com o capito Willshaw, mas ele parou a meio da conversa e
olhou na minha direco. Disse-lhe adeus da janela. Ele levantou a mo devagar e manteve-a levantada, como uma bandeira de capitulao e derrota.
O Clarence saiu para a rua para me receber e para levar a minha bagagem mal o carro comeou a aparecer; a mam nose via em parte nenhuma. Entrei dentro de casa
a correr e chamei por ela, exigindo a sua presena.
- MAM! MAM! ONDE ESTS?
O Clarence subiu atrs de mim carregando as minhas malas.
- Mistress VanVoreen foi dar uma volta  praia hoje de manh - informou o Clarence. - Ainda no voltou.
- O qu?  praia? Mas... ela no sabia que eu voltava esta manh? - descarreguei eu em cima do Clarence. Este parecia espantado pela fria com a qual eu exigia respostas
s minhas perguntas.
- vou levar as malas para o seu quarto, Miss Leigh. Comeou a subir as escadas. Confusa, fiquei ali parada por uns momentos. O meu olhar fixou-se na porta do escritrio
do pap. No iria us-lo mais, pensei, com dores na garganta. O que  que a mam iria fazer agora? Encerr-lo? Eu sabia como ela detestava aquele aposento.
No entanto, para mim, tornou-se de repente to importante como uma igreja. Entrei no escritrio e fiquei a observar as coisas do pap. Inalei os cheiros... Ainda
se sentia o aroma do tabaco dele, tal como o cheiro da madeira, da moblia antiga e da velha carpete. Apesar de muitas destas coisas estarem desgastadas e desbotadas,
eram bonitas aos meus olhos, pois eram do pap.
Na minha mente conseguia imagin-lo, inclinado sobre a sua secretria, a tnue coluna de fumo proveniente do seu cachimbo trabalhado, o primeiro cachimbo que o seu
pai lhe
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havia oferecido. No canto direito da frente da sua secretria estava um modelo do The Jillian. Tinha tanto orgulho nele, ficara to orgulhoso de lhe dar o nome da
mam. O resto da sua secretria estava to desordenada e desorganizada como sempre, mas agora, essa imagem animava-me, pois significava que ele teria de voltar brevemente
para levar os papis mais importantes.
Sa dali, devagar, e foi devagar que subi as escadas. O Clarence estava a descer. Parecia ansioso por se afastar de mim.
- Est tudo no seu quarto, Miss Leigh.
- Obrigada, Clarence. Oh, Clarence - chamei eu, depois de ele ter passado por mim.
- Diga?
- A minha me no deixou nenhum recado em relao  hora em que voltava?
- No.
- Obrigada, Clarence. - Continuei a subir as escadas e fui para o meu quarto.
Como o meu mundo se me afigurava diferente agora. Estivera numa nsia enorme por voltar depressa para casa, por voltar para o meu precioso quarto e por adormecer
na minha prpria cama, a afagar os animais de pelcia que me tinham oferecido ao longo dos anos. Estivera desejosa de telefonar s minhas amigas e de saber todas
as novidades sobre o que se havia passado enquanto eu tinha estado no cruzeiro. Quisera ter-lhes falado sobre o Fulton e o Raymond, e os espectculos e os bailes,
e que tinha sido beijada por um rapaz e que havia trocado moradas com os dois. Mas nada disso importava agora; nada disso voltaria a ter importncia.
Senti-me como se tivesse sido hipnotizada. Desfiz as malas mecanicamente, examinando as minhas roupas e separando o que tinha de ir para limpar e lavar do resto.
Depois, sentei-me em cima da minha cama, como que ofuscada. Por fim, movida por curiosidade e pelo aborrecimento, levantei-me e fui  suite da mam.
Ainda no tinha voltado. Estava tudo na mesma. O seu enorme toucador continuava atafulhado de cremes e cosmticos, de escovas e pentes.
E no tinha guardado a fotografia do seu casamento com o pap! Ainda l estavam os dois, enquadrados por aquela moldura de ouro macio, ambos com um aspecto jovem
e feliz, a mam to bonita e o pap to bem-parecido e distinto.
A palavra "divrcio" soava-me to mstica. Tinha imaginado
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mais ou menos, que, agora que a mam estava divorciada do pap, a prpria casa estaria sob o efeito de um encantamento, como se o divrcio nos tivesse posto nas
mos de algum feiticeiro. A casa estaria diferente; os empregados estariam diferentes; a mam e o pap estariam certamente diferentes; e eu... eu ainda receava o
que podia vir a acontecer-me.
Comecei a andar em direco  sada da suite; parei na sala de espera, quando qualquer coisa em cima da escrivaninha da mam me chamou a ateno. Parecia uma pilha
de cadernos de amostras de uma tipografia. No havia nenhuma ocasio para festejar brevemente, nenhum aniversrio e, de certeza, nenhuma comemorao. O que  que
a mam estava a fazer? A planear anunciar o seu divrcio? Aproximei-me da escrivaninha e abri o primeiro caderno de amostras.
Ao princpio, no fez nenhum sentido, mas o meu corao apercebeu-se mais depressa do que a minha mente, pois comeou a palpitar com tanta fora que me cortou a
respirao. As palpitaes ressoavam que nem tambores na minha cabea. Engoli as minhas lgrimas, as lgrimas que ameaavam romper desde o momento em que entrara
em casa, e continuei a vasculhar os cadernos. Eram todos iguais.
Todos continham amostras de convites de casamento.

7UMA NOVA CONFIDENTE

A mam s chegou a casa horas depois. Fui para o meu quarto e esperei, esperei, at que a ouvi entrar em casa. As suas gargalhadas precediam os seus passos na escadaria.
No podia imaginar como, ou porque  que ela estaria to bem-disposta. O mundo desmoronava-se  nossa volta e a voz dela ecoava como uma melodia, como se fosse a
manh do dia de Natal ou a manh do dia do seu aniversrio. Sa do meu quarto no preciso momento em que ela alcanou o fim da escadaria.
Estava to bonita como sempre, talvez a sua beleza tivesse florescido desde que me deixara a mim e ao pap. Parecia tonificada, plena de vida e energia, os olhos
cintilavam, o cabelo dourado e suave brilhava sob o gorro branco de pele. Vestia o seu casaco branco de pele de marta, que o pap tinha importado da Rssia. As faces
estavam rosadas, tendo sido acariciadas pelo ar fresco de Novembro. No me tinha apercebido, at a ver, de como desejara v-la adoentada e plida, arrasada pela
deciso que tomara.
A sua exploso de exuberncia e o seu brilho confundiram-me. Era capaz de ficar ali especada a olhar para ela. Mas a sua cara no estava deformada, os seus olhos
no estavam vermelhos, muito pelo contrrio, parecia que tinha acabado de ser libertada de uma masmorra escura e triste, dentro de um castelo, que lhe tinham tirado
as correntes e que estava livre para voltar a ser jovem, encantadora e viver de novo. Interpretou mal a minha expresso de surpresa e tristeza.
- Oh, Leigh, desculpa no estar c quando chegaste, mas no podes imaginar o trnsito que estava. - Sorriu, como se estivesse  espera que eu esquecesse instantaneamente
todas as coisas horrveis que se estavam a passar.
- Porque  que no foi ao cais? Onde esteve?
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Onde estive? Em Farthy - cantarolou e comeou a andar em direco  suite dela. - Sabes que no se pode confiar nas horas de chegada dos barcos... um atraso de meia
hora de uma hora. H sempre alguma coisa que corre mal. Estava mesmo a ver-me encafuada naquele carro abafado,  espera,  espera,  espera. - Voltou-se para trs
para esboar um sorriso rpido. - Achei que no te irias importar, e, alm disso, hoje estava-se muito melhor na praia - prosseguiu, enquanto tirava o chapu e o
casaco. - L, o cu  completamente azul - acrescentou e atirou o casaco de pele para cima de uma das cadeiras estilo rococ. - Mas, para mim, o cu  sempre azul
naquele lugar, mesmo quando est cinzento - sussurrou, fazendo com que a sua frase soasse como palavras de uma cano de amor.
Ento, ainda com o chapu na cabea, caiu sobre a cama dela e atirou com os braos para o lado, enquanto se balanava em cima do colcho. Nunca a tinha visto to
alegre. Parecia anos mais nova, como uma das minhas amigas, tola e sempre a dar risadinhas. Os seus olhos cintilavam conforme sorria para o tecto. Fiquei ali de
boca aberta, fitando-a. Seria possvel que ela no soubesse que o pap me tinha contado tudo?
- O pap contou-me do seu telegrama - proferi eu, abruptamente.
Ela olhou-me, o sorriso a esmorecer lentamente, o brilho dos seus olhos a morrer. O vigor e o brilho apagaram-se do seu rosto. Era como se estivesse a voltar  terra,
a voltar  realidade. Os seus olhos esfriaram, a sua boca comprimiu-se. Respirou fundo e soergueu-se, devagar e com muito esforo. Ento, tirou o chapu, desprendeu
o cabelo e abanou a cabea para deixar o cabelo solto.
- Era suposto ser eu a contar-te - disse ela, com uma calma notvel. - Mas no me surpreende nada. Tenho a certeza de que ele contou tudo destorcido, como se se
tratasse da falncia de uma companhia. O que  que ele te disse, que o nosso casamento tinha aberto falncia?
- Oh, no, mam, o pap est com o corao despedaado - gritei eu. Ela fez um sorriso afectado, levantou-se e dirigiu-se para a mesinha do toucador. - Foi mesmo
ao Mxico conseguir o divrcio? - Uma parte estpida e infantil de mim mesma ainda tinha esperanas de que talvez no fosse tudo verdade.
- Sim, Leigh, fui. E no me arrependo. - senti as palavras dela como agulhas a espetarem-se por todo o corpo.
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- Mas porque  que fez isso? Como pde fazer semelhante coisa? - berrei eu, furiosa com a minha me. Detestei o pouco que parecia preocup-la o facto de eu ter sido
afectada pela sua deciso egosta. Sentou-se e voltou-se para mim.
- Leigh, estava  espera que tivesses uma reaco adulta em relao a tudo isto - disse, com calma, mas com firmeza. - J h algum tempo que tenho vontade de tomar
esta deciso, mas aguentei at achar que tinhas idade suficiente para lidar com este assunto de um modo mais maduro. Passei por meses, anos de sofrimento, at seres
suficientemente crescida para poderes perceber porque  que eu estava a dar este passo - acrescentou ela, e abanou a cabea, como se tivesse conseguido escapar de
baixo de uma carga pesada qualquer.
- Mas eu no percebo - disse eu, cortando-lhe a palavra. - Nunca hei-de perceber. Nunca. - Esperava que a mam sentisse as minhas palavras como punhais. Ela endireitou
os ombros e os seus olhos dilataram-se, flamejantes.
- O que  que o teu pai te contou exactamente?
- Que a mam nos deixou para pensar na sua vida e que recebeu um telegrama seu, dizendo que tinha ido de avio at ao Mxico para tratar do divrcio.
- E explicou-te porqu?
- Disse que estava muito desapontada com ele e que ainda era jovem e queria uma oportunidade para ser feliz. Mas porque  que no pode ser feliz com o pap? - perguntei
eu, num gemido.
- Ora, Leigh, tens de tentar perceber o meu ponto de vista. Devia ser mais fcil para ti perceber, agora que tu prpria te ests a tornar numa mulher.
"Tu no sabes, no podes imaginar o que estes ltimos anos tm sido para mim. Sempre que o teu pai me levava num desses cruzeiros, era porque queria dar uma boa
impresso... usar-me para seu prprio benefcio. Tenho-me sentido como um pssaro na gaiola, encerrada numa gaiola dourada, sim, mas no obstante, aprisionada.
Aprisionada! O que  que ela queria dizer? Ela podia ir e vir como queria, comprar tudo o que queria, fazer o que queria. Tnhamos uma casa to bonita; no conseguia
imaginar ningum que considerasse a nossa casa uma priso.
- Os outros passageiros tm pena de mim, Leigh. Eu vejo esse sentimento nas suas caras. - Passou com os dedos furiosamente pelo cabelo. - Eles sabem que eu raramente
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posso fazer o que eles passam a vida a fazer. Odeio a pena que eles me dispensam! Odeio!
Cerrou os punhos e deu socos nas coxas.
Tem sido assim desde h anos - prosseguiu -, e eu tenho tentado manter a minha sanidade mental para que pudesses crescer no seio de um lar feliz mas no consigo
fazer mais sacrifcios. No fao! No vou abdicar do que me  to precioso e efmero: a minha juventude e a minha beleza. No vou murchar como uma flor afastada
do sol.
"O meu lugar  l fora, nas pistas de dana, nas peras e nos teatros, nas estncias de frias balneares, nas festas, com fotgrafos a tirarem fotografias minhas
para as colunas da sociedade.
"Fazes ideia da quantidade de acontecimentos sociais aos quais tive de faltar porque o teu pai estava demasiado ocupado para ir comigo? Fazes? - Nesse momento, respirou
fundo. As suas faces estavam escarlates e os olhos rolavam nas rbitas, de tal modo que me assustei. Fiquei aturdida com o ataque dela. Nunca imaginara que ela pudesse
acolher tanto ressentimento e desespero.
Queria odi-la pelo que estava a fazer ao pap e a mim, mas, ao v-la nesse estado, com os olhos a saltarem para fora das rbitas, o cabelo solto, o rosto vermelho
de frustrao, a nica coisa que me vinha  cabea era que esta criatura assustadora no era a minha me.
- O pap est arrependido disso tudo. Est mesmo.
- Tenho a certeza que sim... neste momento, mas amanh, uma crise qualquer nos negcios vai voltar a roubar-lhe toda a sua ateno e ele esquece-se do que aconteceu
entre ns.
- No, mam, ele no se esquecer. No pode deix-lo tentar de novo? Pode? - supliquei eu.
- J o deixei tentar de novo, Leigh. Muitas, muitas vezes. Esta histria no  recente. Comeou quase mal nos casmos.
"Oh - disse ela, a suspirar, encostando-se -, no foi to mau nos primeiros anos, pois tu nasceste logo e eu tive de cuidar de ti. O teu pai era muito atencioso
e bastante dedicado.  bvio que era doze anos mais novo ento, mas tens de ter em conta que, j nessa altura, ele tinha uma idade avanada. Aposto em como nunca
te apercebeste de que ele tem idade suficiente para ser meu pai.
A ideia era to ridcula e estranha que quase me ri, mas ela nem esboou um sorriso. O pap, pai dela? Meu av?
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- A idade pesa-lhe. Admito que, em parte, a culpa  minha, por ter concordado em casar com ele, mas eu era to jovem e infeliz que nem pensei como seria no futuro.
"E o teu pai fez-me todo o tipo de promessas... promessas que nunca cumpriu... promessas que nem se lembra de ter feito!
- Mas a mam estava to apaixonada... Foi mesmo a mam que me disse. - O meu pequeno salva-vidas de esperana estava-se a afundar rapidamente. Cada frase que ela
dizia abria mais buracos.
- Eu era jovem. Nessa altura no sabia o que era o amor. - Ela sorriu. - Mas agora... agora sei. Plenamente
- prosseguiu, e as suas faces retomaram o brilho e o fulgor.
- Oh, Leigh... Leigh - gritava ela -, no me odeies, mas eu estou apaixonada, apaixonada de verdade, profundamente apaixonada.
- O qu? - Olhei para trs, em direco  sala de espera da suite e lembrei-me dos convites. - Apaixonou-se por outro homem? Aquelas amostras de convites... - balbuciei
eu, caindo em mim, como se estivesse a levar um banho de chuva gelada.
- Tu viste-os? Assenti silenciosamente.
- Bem, j agora conto-te tudo - disse, endireitando-se com firmeza. - Estou apaixonada pelo Tony Tatterton e ele est doido de paixo por mim, e vamo-nos casar no
Natal e viver em Farthy! - Nesse momento as feies que me tinham parecido uma verso monstruosa da minha linda mam descontraram-se. Ento sorriu, com os olhos
plenos de felicidade.
Apesar de eu ter previsto qualquer coisa deste tipo, ouvi-la de facto proferir aquelas palavras, teve um efeito devastador. Senti a minha cara branca e vazia. Uma
combinao de choque e sofrimento enfraqueceu-me as pernas e prendeu-me os ps ao cho. No conseguia falar, no conseguia engolir. Acho que fiquei sem respirao
e o meu corao gelou. Era como se duas mos gigantescas constitudas por gelo me tivessem apertado o peito.
- No deves odiar-me, Leigh, e tens de tentar perceber. Leigh, por favor. Estou a falar contigo de mulher para mulher.
- Mas, mam, como  que pde apaixonar-se por outra pessoa? - A minha mente estava a funcionar a mil  hora, tentando entender. Quando recordei a maneira como a
mam
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e o Tony tinham danado juntos no baile de bon voyage; cada momento em que ele a tivera nos braos, cada olhar que ele lhe dirigira, todos aqueles sinais tinham
uma acepo diferente, a sua verdadeira acepo. Eu sentira qualquer coisa quando fora a Farthy com ela e reparara no modo como caminhavam juntos e sussurravam,
mas no me tinha apercebido do que sentira. "Porque ser que o corao se apercebe das coisas muito mais rapidamente do que a mente?", pensei para mim mesma. Talvez
eu no quisesse saber, no quisesse perceber. Agora, no tinha hiptese.
- No  difcil perceber porqu ou como isto tudo aconteceu, Leigh. O Tony adora-me, venera-me. Ele diz que eu sou como uma deusa mtica que desceu dos cus para
fazer com que a vida dele no seja em vo, pois at os homens com todo aquele dinheiro e poder se sentem incompletos se no tm uma mulher a quem amar e que os ame
a eles.
"O amor, o verdadeiro amor,  que enche a nossa vida, Leigh. Hs-de perceber isto, e, quando perceberes, vais valorizar tudo o que estou a dizer-te.
"Posso contar-te mais? Vais ouvir como uma confidente, como uma amiga ntima? Nunca tive uma boa amiga a srio. Cresci com duas horrveis irms que tinham tantos
cimes de mim... Eu nunca lhes diria alguma coisa boa ou partilharia um sentimento bom com elas. Leigh?
- Eu sou a sua melhor amiga. Eu... s...
- Ah, bom - exclamou ela e os seus olhos ganharam um olhar distante. - A primeira vez que vi o Tony e que ele me viu, foi como se as nuvens tivessem sido afastadas
do cu azul. Tudo  minha volta se tornou mais vvido, mais claro. As cores brilhavam com mais fora, os pssaros cantavam, e a brisa, mesmo fria, era refrescante
e suave. Ansiava por acordar todas as manhs e ir para Farthy, s para estar ao p dele, ouvir a sua voz e sentir os seus olhos em mim.
"Isto  que  amor, Leigh, o verdadeiro amor.
Estendeu-me os braos. As suas palavras eram to mgicas, os seus pensamentos to maravilhosos, que eu no consegui deixar de me aproximar at ela pegar na minha
mo e olhar-me nos olhos.
- Eu sabia que ele me tinha aberto o seu corao e que eu havia encontrado um lugar nesse mesmo corao. Sempre que ele me dirigia a palavra, a sua voz tornava-se
to terna, to amorosa. Via-se desejo nos seus olhos, o que me emocionava - prosseguiu ela, confessando-se como uma adolescente que tinha acabado de encontrar o
seu primeiro amor.
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No entanto, quem estava a falar era a mam... a mam... e para mim!
- Oh, ao princpio tentei resistir, Leigh. No fui infiel ao teu pai. Disse para mim prpria vezes sem conta que era uma mulher casada, que tinha de pensar no meu
marido e na minha filha, mas,  medida que o Tony e eu nos amos aproximando um do outro, o meu autodomnio foi-se tornando mais fraco at eu no poder continuar
a negar o que estava a acontecer.
"Aconteceu uma noite, depois de ter terminado o meu trabalho e de me ter arranjado para voltar para casa. Estava um dia quente, um fim de tarde quente. O Tony pediu-me
para ir dar uma volta com ele para espreitar o mar. Eu hesitei, mas ele suplicou, prometendo que no demorvamos nada. Eu cedi e caminhmos at uma pequena colina,
de onde ficmos a ver o mar. O Sol estava a pr-se e era vermelho, o fundo tocava o oceano. A imagem era de cortar a respirao. De repente, senti a sua mo na minha,
e, quando ele me tocou, o meu corao gritou... no... exigiu que fosse ouvido.
"Confessei-lhe a minha infelicidade, mas disse-lhe que no podia precipitar-me. Ele foi muito compreensivo; porm, estava determinado.
"Tentei por trs ou quatro vezes explicar as coisas ao teu pai, mas ele ou ignorou, ou nem sequer ouviu. S pensa nos negcios. Por fim, no baile de bon voyage,
fiz uma promessa ao Tony. Mesmo assim, tentei quebr-la. Sofri tanto naquela viagem para a Jamaica, mas o amor no nos  negado, quando  verdadeiro e sincero, como
o  entre o Tony e eu, e no fim percebi que tinha de agir drasticamente ou definharia na escurido como uma flor.
"Vais fazer um esforo para perceber? Vais, Leigh? Pode acontecer contigo um dia e podes precisar que algum que ames, e que te ame a ti, perceba. - Apertou-me a
mo e suplicou-me com os olhos.
- Oh, mam. Est a acontecer tudo to depressa. Para si pode no ter sido de um dia para o outro, mas para mim foi.
- Eu sei disso, Leigh. Eu entendo o que ests a passar, mas tambm vou precisar de ajuda. Preciso do teu apoio e do teu amor. Podes ser mais do que minha filha?
Podes ser a minha melhor amiga, tambm?
Os seus olhos estavam vtreos, cheios de lgrimas, mas calorosos. No consegui deixar de me chegar mais perto. Ela beijou-me na face.
- vou tentar. Mas, mam, o que  que vai acontecer ao pap?
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- No lhe vai acontecer nada, Leigh. Acredita em mim. Ele tem o negcio dele que o mantm ocupado dia e noite. Tu vais v-lo e ele vai ver-te tantas vezes como agora,
o que no  muito - acrescentou, secamente.
Eu no disse nada. Ela at podia ter razo em relao a isso, mas, mesmo assim, quando ouvi aquelas palavras da boca dela, senti-as como uma espada a atravessar-me
o corao.
- E, Leigh, mais importante que tudo, vais tentar gostar do Tony? Vais dar-lhe uma oportunidade? Se o fizeres, vais ver como ele  amoroso e vais perceber porque
 que eu o amo tanto.
No conseguia controlar os meus sentimentos. Sempre que ela dizia que amava o Tony, eu pensava no pap e em como toda esta situao era cruel. Quando pensava no
Tony, as minhas borboletas no estmago batiam as asas, despertavam do seu sono inquieto. E foi ento que, sentada ali, fez-se luz para mim, a ideia afundou-se em
mim como gua no cimento: o Tony era o culpado de tudo isto. Eu odiava o Tony
"Oh, porque  que este homem rico e atraente teve de se intrometer na vida da mam e arrebat-la to depressa e to profundamente?" O meu maior desejo era faz-lo
arrepender-se por ter despedaado o meu mundo feliz, o meu mundo de amor.
- Leigh, fazes isso? - repetiu a mam; a sua voz j soava um pouco desesperada. Hoje, mais uma vez, os desejos dela entravam em combate com os meus e iam ganhar.
Eu assenti. - Obrigada. Oh, muito obrigada, querida.
- Abraou-me e eu estava to faminta por essa afeio, to necessitada do calor que o contacto dela me proporcionava que sabia que, se ela me pedisse qualquer coisa
nesse momento, eu acederia. Mas no conseguia deixar de me sentir fria, inanimada, nos seus braos. Era horrvel da minha parte concordar com aquilo. Estava a trair
o pap.
- E h ainda outra coisa que tenho de te pedir, Leigh, s uma coisa... Um segredo que deve ser guardado entre duas grandes amigas como ns agora somos, e eu confio
em ti para o guardares. Prometes manter segredo? Um segredo entre amigas do peito - acrescentou ela, pondo a mo sobre os seios.
"O que  que poderia ser?", pensei.
- Prometo, mam.
- ptimo. - Inclinou-se para mim e segredou-me, como
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se estivessem outras pessoas no quarto. - O Tony no sabe a minha verdadeira idade, mesmo agora, que ele se declarou e eu aceitei. No quero que ele saiba. Tal como
te disse no caminho ao regressarmos de Farthy, ele pensa que eu tenho vinte e oito anos.
- Nunca vai dizer-lhe a verdade?
- Um dia, mas no agora. Est bem?
Eu acenei que sim, mas pensei: se eles estavam to apaixonados, qual era a necessidade de mentir? Estarmos apaixonados, amarmos de verdade, no queria dizer que
no haveria mentiras entre ns, que confiaramos um no outro to cegamente que nada nos poderia afastar?
- Obrigada, Leigh. Eu sabia que ias perceber. Eu sabia que eras adulta. Eu disse ao Tony. A propsito, ele gosta muito de ti. Est sempre a falar de ti, de como
s amorosa, de como o Troy gosta de ti e de como ele gostou do tempo que passaram juntos, quando foram passear os trs para a praia.
"Mal posso esperar para estarmos todos juntos em Farthy.  uma vida de sonho a tornar-se realidade, Leigh. Vais ver. Vais ser uma princesa, uma verdadeira "debutante".
Ps-se de p. Eu fiquei calada.
- vou tomar um banho de espuma quente, pois j posso descontrair-me, agora que sei que a minha menina  compreensiva e gosta muito de mim. Depois, vamo-nos sentar
e conversar e vais contar-me tudo o que se passou na Jamaica e tudo o que andaste a fazer. Est bem? - Eu fiz sinal que sim e lembrei-me da prenda dela.
- Comprei-lhe uma prenda no mercado da rua, mam.
- A srio? Foi amoroso da tua parte pensares em mim, mesmo depois de eu te abandonar daquela maneira. s uma criana to calorosa e maravilhosa, Leigh. Tenho tanta
sorte em ter-te.
- vou busc-la - exclamei e fui a correr ao meu quarto.
- No  muito - disse-lhe, quando voltei -, mas achei que era bonito.
Ela desembrulhou-o rapidamente.
- Adoro prendas, adoro surpresas, independentemente do preo. O Tony tambm  assim. Quer oferecer-me qualquer coisa nova e bonita todos os dias da nossa vida em
comum - disse ela, aos gritnhos. Tendo em conta as promessas que tinha feito, tentei ao mximo no me tornar insensvel  sua recm-adquirida felicidade. Ela observou
o leno de seda pintado  mo. - Oh,  ptimo, Leigh. Foi de
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bom gosto teres escolhido este. Condiz com tantos fatos meus. Desculpa no ter l estado contigo, mas compensar-te-ei de mil maneiras. Vais ver.
Ofereci ao pap uma bengala esculpida  mo - comentei eu, com brandura.
- Que bom.
E foi para a casa de banho a correr. Fiquei ali parada por um momento a ouvi-la cantarolar por entre dentes e depois sa.
O pap chegou pouco antes do jantar. A mam ainda estava na suite dela a falar ao telefone com as amigas e a arranjar as unhas e o cabelo. Ainda no tinha tido oportunidade
de conversar com ela sobre as irms Spenser e sobre o Fulton e o Raymond, mas esperava contar-lhe tudo ao jantar. De repente, ouvi a porta da frente a abrir e a
voz do Clarence: "Boa tarde, senhor VanVoreen."
" o pap!", pensei. E saltei da cama. Quando desci, ele j estava no escritrio a juntar uns papis.
- Pap!
- Ol, Leigh. J ests instalada?
- Sim. A mam est c. Est l em cima.
- Estou a ver. - Voltou-se bruscamente para os papis.
- Vai c ficar algum tempo? - Senti pena dele. Tinha um aspecto cansado e desgastado, mais velho do que nunca e eu s pensava em como ele ficaria ainda mais em baixo
quando descobrisse que a mam estava apaixonada pelo Tony Tatterton. Talvez ainda tivesse uma rstia de esperana, como eu, mesmo sabendo que ela tinha conseguido
o divrcio.
- No, Leigh. Tenho de voltar para o meu escritrio e preparar-me para a prxima viagem.
- Mas onde  que vai dormir hoje  noite?
- H quartos no Hilton. No te preocupes comigo. Quero que tomes bem conta de ti e... - Elevou os olhos, como se pudessem ver atravs do tecto a suite da mam. -
E da tua me. - Tornou aos papis, seleccionou dossiers, abriu gavetas de mveis de arquivos e comeou a encher uma pasta.
Eu estava sentada no sof de cabedal a observ-lo e sentia-me muito mal. Era como se estivesse a tra-lo por no lhe contar o que sabia sobre a mam e o Tony.
Sentia-me dividida ao meio. Se sorria para a mam ou me sentia bem com ela, no conseguia deixar de me sentir culpada
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por sentir que estava a magoar o pap, e o mesmo acontecia se eu sorria para ele e me sentia bem com ele. A mam odiar-me-ia. E seria ainda pior, de certeza, se
eu desvendasse ao pap qualquer segredo dela. O que  que eu devia fazer?
O pap reparou na minha expresso preocupada.
- Ento, ento - confortou-me ele. - No deves consumir-te a ti prpria. J te disse que, uma vez ultrapassada esta tempestade, voltaremos a navegar com visibilidade.
Luta contra o vento. S forte. Estiveste no meio de marinheiros e de homens do mar tempo de mais para te comportares de maneira diferente.
- vou tentar, pap.
- Assim  que se fala. Bem - disse ele olhando  sua volta -, acho que j tenho o que preciso por agora. - Fechou a pasta. O meu corao comeou a pulsar. Achava
que no tinha fora suficiente nas pernas para me levantar. Quando comeou a contornar a secretria, parou, abruptamente, e a expresso terna e amorosa da sua cara
alterou-se bruscamente, dando lugar a um olhar firme, zangado at. Girei sobre mim mesma. A mam estava  porta.
- Ol, Cleave - saudou ela.
- S passei por aqui para vir buscar alguns dos meus papis.
- Ainda bem que o fizeste - disse ela. - Gostava de discutir alguns assuntos contigo. Ia deixar para mais tarde, mas talvez este momento seja to bom como qualquer
outro.
- Sim - concordou ele.
- Leigh, ds-nos licena por um momento, por favor? pediu a mam e depois sorriu com frieza. Olhei para o pap. Ele assentiu com a cabea e, de sbito, as minhas
pernas, que h pouco sentira como dois bocados de esparguete cozido de mais, reencontraram a sua firmeza, e levantei-me, saindo apressadamente do escritrio. Virei-me
para ver a mam a fechar a porta.
Queria voltar para trs e pr-me  escuta junto  porta; porm, tinha medo que me descobrissem.
Parecia que estava  espera h horas, mas, por fim, a mam veio buscar-me. Olhei para trs dela,  espera de ver o pap. Talvez se tivessem entendido e decidido
dar uma nova oportunidade  nossa famlia. Talvez o pap tivesse proferido as palavras mgicas e tivessem recordado ambos os primeiros tempos que haviam passado
juntos, quando estavam muito apaixonados. Esperava por aquelas palavras; rezava por elas.
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Aposto em como ests esfomeada - disse a mam. -
Eu c estou.
O pap vai jantar connosco? - perguntei, com esperanas..
No,  como nos tempos antigos - retorquiu ela, secamente. - J se foi embora para os estaleiros.
- Embora? Ele foi-se embora? - gritei eu. "Oh, de certeza que ele no saiu sem se despedir de mim, sem me dar um ltimo beijo..."
- Sim, ele j se foi embora. Vamos jantar. - Ela afastou-se.
"Mas ele no pode ter-se ido embora", gritava eu na minha cabea. Fui a correr atrs dela, mas em vez de ir directa  sala de jantar, dirigi-me ao escritrio dele.
A porta encontrava-se fechada e, quando a abri, olhei para dentro de uma sala escura. A mam esperava no trio de entrada. Dei meia volta com as lgrimas a correrem
pelas minhas faces abaixo.
- Onde  que ele est?
- J te disse, Leigh. Saiu.
- Mas ele no... ele no me deu um beijo de despedida
- berrei eu.
- Ele no estava com disposio de beijar ningum. Agora por favor, querida. Domina-te. Vai lavar a cara. Hefresca-te. No queremos mostrar aos empregados que estamos
infelizes, pois no? Depois de teres alguma coisa no estmago, vais sentir-te logo muito melhor. Tenho a certeza.
- No tenho fome - gritei e corri para a escadaria.
- Leigh!
No me voltei. No conseguia. Subi as escadas a correr e fui para o meu quarto. Precipitei-me para a janela, com esperana de ainda ver o meu pai a sair de casa;
a rua l em baixo, porm, estava vazia, os candeeiros da rua projectavam sombras compridas, escuras e solitrias nos passeios.
Cerrei os punhos para afastar os meus olhos dali e depois olhei  volta no interior do meu quarto. Olhei para todas as coisas que eu tinha e que me faziam lembrar
o pap, olhei para a sua fotografia, para os modelos de barcos. Estava tudo acabado. Esta vida que eu tinha conhecido seguira o seu caminho por essa noite vazia
fora.
O pap, quando conhecia algum, em especial algum de quem gostava, costumava dizer esta frase:
"No sejamos como dois barcos passageiros na noite. Volte sempre. Passe por c."
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"Oh, pap", pensei, "ser que ns agora nos vamos tornar dois barcos passageiros na noite?"
Os dias passaram. Eu voltei para a escola e descrevi o meu passeio  Jamaica a todas as minhas amigas. Estavam todas interessadas nas minhas histrias sobre o Fulton
e o Raymond, e, uma semana depois da minha chegada, recebi uma carta simptica do Raymond. Levei-a comigo para a escola para mostrar s minhas amigas, principalmente
quelas que tinham ficado mais cpticas quando lhes contara dos dois rapazes mais velhos que diziam que eu podia passar por uma rapariga do secundrio.
A maior parte da carta do Raymond falava sobre o trabalho dele na escola, tambm referia que tinha gostado muito de estar comigo e, no fim, assinara: "Afectuosamente,
Raymond."
Perto do final da primeira semana, o pap telefonou-me para me contar os seus planos para a prxima viagem. Havia muito barulho  volta dele no escritrio, e, apesar
de a conversa ter sido curta, fomos interrompidos vrias vezes. Ele disse que ia tentar escrever ou telefonar logo que chegasse s ilhas Canrias. Oh, como sentia
a falta dele e como tentara no odiar a mam por o afastar da minha vida.
Algumas noites mais tarde, a mam veio ao meu quarto anunciar que amos celebrar o dia de Aco de Graas na Manso Farthinggale.
- Vai ser o jantar de Aco de Graas mais espectacular que j tivemos. Vo estar presentes muitos dos amigos abastados do Tony e ele convidou o Patrick e a Clarissa
Darrow, os editores das minhas ilustraes, e, claro, a Elisabeth Deveroe, a decoradora, e o marido dela. Assim, estaremos com pessoas que j conhecemos. No  bom?
- Mas, mam, ns sempre celebrmos o dia de Aco de Graas aqui. - No me tinha ocorrido at esse momento que o pap no estaria em casa, connosco, nesse dia. Seria
a primeira vez, pois, por onde quer que estivesse em negcios, ou fosse o que fosse que estivesse a fazer, arranjava sempre maneira de estar em casa para o jantar
de Aco de Graas.
- Eu sei, mas eu quero estar com o Tony e ele todos os anos d uma grande festa. Comeremos faiso em vez de peru, champanhe e sobremesas que ultrapassam a nossa
imaginao. Lembra-te de como o cozinheiro dele faz coisas boas.
- Mas sem peru, no ser Aco de Graas.
- Oh, haver tantas outras comidas deliciosas, que nem
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dars pela falta do peru. J sei o que faremos - prosseguiu - vamos comprar vestidos novos para esta ocasio.
Mas eu ainda no estreei a maior parte da roupa que me ofereceu pelos anos.
- Isto  diferente - replicou ela, voltando-se devagar, pensativa. - Ns temos de sobressair... Vai buscar o teu casaco - ordenou bruscamente, enquanto a sua cara
se iluminava de excitao. - Vamos  Boutique Andre's escolher um vestido original para ambas.
- Mas, mam... - Eu sabia que o preo dos vestidos e dos chapus no Andre's custavam, no mnimo, oitocentos dlares e alguns chegavam aos dez mil. - Temos dinheiro
para isso, agora que o pap... que o pap no est c?
- Claro que temos. O teu pai ainda  responsvel pelas nossas despesas - replicou, com firmeza. - At eu voltar a casar. A, ser apenas responsvel pelas tuas despesas,
apesar de no teres de te preocupar. O Tony  muito generoso. Anda - incitou ela, fazendo-me sinal. - Vamos l.
A mam comprou um vestido preto de veludo com tiras fininhas e um cinto de seda cor de carvo. Calava luvas pretas de cetim at aos cotovelos. Ps o seu maior colar
de diamantes e brincos de diamantes em forma de pra a condizer.
A mim, comprou-me um bonito vestido verde-azulado, de um tecido leve. Nunca me senti to chique para assistir a um jantar de Aco de Graas.
O Tony mandou o Miles vir-nos buscar na sua limusina ao princpio da tarde, mas ele teve de se sentar no trio de entrada e esperar mais quarenta e cinco minutos
para que a mam acabasse de arranjar o cabelo e de se maquilhar. Vestida com o seu casaco de marta-da-sibria, desceu finalmente as escadas. O seu cabelo nunca parecera
to macio ou brilhara com tanta intensidade. Percebi pelo modo como o Miles se levantou da cadeira que estava fascinado com a sua beleza. Eu achei que ela parecia
uma estrela de cinema.
Gostava tanto que o pap pudesse estar aqui para a ver, pensei, mas ento lembrei-me de que seria ainda mais doloroso para ele, pois ela estava to bonita e tinha
sado da vida dele.
- Estou bem? - perguntou-me, girando sobre si prpria.
- Mais linda do que ningum.
- Oh, meu amor, obrigada. E tu tambm ests bonita. Vamos deslumbrar toda a gente - acrescentou ela e saiu em direco  limusina.
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Durante o percurso at Farthy, a mam falou-me de alguns dos amigos do Tony que tinha conhecido. Parecia que todos eles se evidenciavam pelo negcio que tinham ou
pela sua profisso.
- E espera at veres as mulheres deles - dizia ela. - com toda aquela riqueza e a posio que ocupam, no sabem muito sobre moda e maquilhagem. Tu e eu iremos sobressair
como... como rosas num canteiro de ervas daninhas.
- Deu um risinho e abraou-me.
Mesmo sentindo toda aquela tristeza por ir celebrar um jantar de Aco de Graas sem o pap, no conseguia deixar de ficar fascinada pelo modo como a mam falava
comigo. Senti, talvez pela primeira vez na vida, que ela me estava a tratar como a sua amiga mais ntima.
- Agora no fiques nervosa s porque estas pessoas tm muito dinheiro. Vais ver que elas no so muito inteligentes no que toca a estar em sociedade. Quando te fizerem
uma pergunta, responde com educao, mas no lhes ds informaes extras, s o que te perguntarem. Os homens apreciam as mulheres que no so muito faladoras e mexeriqueiras
 mesa. Os homens gostam de dominar a conversa com discusses sobre poltica e negcios.
- Mas o pap nunca foi assim. - Pobre pap, pensei, a festejar o dia de Aco de Graas com estranhos, sem a famlia  volta dele, l fora, no meio do mar, num dos
seus barcos.
- No faas essa expresso triste - aconselhou a mam.
- Tu s to linda quando sorris.
Mrs. Deveroe, o seu marido e os Darrow j l estavam quando chegmos. Todos diziam que a mam e eu parecamos duas irms. Os homens fizeram-me sentir muito adulta
com os seus elogios e olhares de aprovao e a mam entrou na manso como se se tratasse da chegada da prpria rainha. Havia empregados por todo o lado, s ordens
dela... para levar os nossos casacos, para nos conduzir  sala de msica, onde os outros j estavam reunidos e servir-nos um ponche de champanhe.
- Jillian! Finalmente chegaste - exclamou o Tony e veio a correr  porta da sala de msica cumprimentar-nos. Pegou na mo dela e bebeu-a com os seus olhos azuis,
ardentes de amor e considerao. - Tu s, sem sombra de dvida, a mulher mais linda que alguma vez vi. Acho que nunca me cansarei de dizer isto. - Eu tinha passado
a manh a matutar no dio que sentia pelo Tony; porm, neste momento,
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um sentimento quente e elctrico atravessava o meu corpo. Nunca tinha estado to perto de uma cena to romntica. Era como se tivesse entrado no meio de um filme,
e no conseguia desviar os meus olhos dos dois. Ningum na sala conseguia. Houve uma pausa enorme, como se estivssemos todos a suspirar, e, em seguida, desataram
todos a conversar. O Tony virou os seus divinos olhos azuis para mim.
- Leigh, tu tambm ests muito bonita. Tenho tanta sorte por vos ter aqui, s duas. A Manso Farthinggale cintilar como nunca. - Deu-nos o brao, colocando-se no
meio de ns, mas eu fiquei o mais rgida possvel, toquei-lhe o menos possvel,  espera de poder mago-lo quando ele nos apresentasse a toda a gente.
O pequeno Troy estava sentado a um canto numa poltrona almofadada enorme, com os ps suspensos a balanarem no ar. Parecia perdido e s, mas to engraado no seu
minsculo smoking com gravata preta. Mal me viu, os olhos dele iluminaram-se.
- Ol, Troy. Feliz dia de Aco de Graas. - Apertei-lhe a mozinha.
- Ol. O Tony diz que vens viver aqui e que vais ser a minha irm mais velha. Vais? Vais mesmo? - Tive de sorrir perante o seu entusiasmo, apesar de as palavras
proferidas por ele ainda me soarem to estranhas e assustadoras.
- Sim, parece que sim, Troy.
- ptimo. Tenho tantas coisas para te mostrar, coisas secretas - acrescentou ele, em segredo, olhando  volta para ter certeza de que ningum tinha ouvido.
Quando chegou a hora de irmos para a enorme sala de jantar ocuparmos os nossos lugares  volta da mesa colossal, o Troy e eu ficmos sentados ao lado um do outro.
A mam estava sentada  direita do Tony e eu  sua esquerda com o Troy  minha esquerda. Estavam trinta e trs pessoas  mesa para jantar. Nunca tinha visto tanta
gente a jantar na mesma mesa.
No centro estava um pat de fgado de cisne s fatias. Havia taas largas para o vinho e a loua era de porcelana Wedgwood, com motivos de pequenas figuras e de
cenas campestres. A prata era pesada, mas reluzente, com desenhos florais. Os pesados guardanapos azuis tinham as letras M.. bordadas a branco.
Pouco depois, a mam comeou a anunciar os planos para o casamento dela e do Tony.
- Ser como uma coroao real - disse, desatando depois
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a rir. Mas ento prosseguiu na revelao dos pormenores. - O convite vai-se tornar num artigo para coleccionadores, pois eu prpria vou desenh-lo, com base numa
das ilustraes que fiz para as Publicaes Darrow - acrescentou ela e acenou com a cabea em direco ao casal Darrow.
- Teremos uma orquestra constituda por vinte e seis elementos a tocar para ns e flores trazidas de avio da frica do Sul, e o Tony teve uma ideia espectacular,
que dar ao casamento um cunho especial. Conta-lhes, Tony.
- Bem, ests a estragar a surpresa - comentou ele amavelmente e sorriu. - Mas suponho que no faz mal, uma vez que hoje  noite estamos entre amigos especiais. vou
criar um brinquedo Tatterton comemorativo da ocasio para cada um dos convidados, que ter a data da nossa boda gravada.
-  uma ideia maravilhosa. - O rosto da mam irradiava alegria. - Duas figuras feitas a partir da nossa imagem...
- Agarrou a mo do seu atraente jovem futuro marido - a danar no topo do mundo.
Toda a gente emitiu um "ooh!", mostrando o seu apreo. At eu tinha sido apanhada de surpresa, pois era a primeira vez que ouvia falar disso. O Tony tentou ir ao
encontro do meu olhar com os seus olhos intensos, mas eu desviei os meus. Como era fcil para a mam captar a ateno da mesa toda, pensei eu. Pareciam todos invejosos...
Os homens, com inveja do Tony por ir t-la como mulher; as mulheres com inveja da beleza e da exuberncia da mam.
Estes planos para o casamento soavam realmente emocionantes e fascinantes; porm mesmo nesse momento, mesmo sentada  mesa de jantar em Farthy que parecia to distante
dos nossos ntimos jantares familiares de Aco de Graas do passado, eu no conseguia deixar de me sentir s e perdida.
O resto da conversa ao jantar foi dominada pelos planos e pelos pormenores do casamento. O pequeno Troy ficou com a cara cheia de natas batidas quando atacou a tarte
de chocolate. Eu ri-me e limpei-lhe a boca.
Depois de jantar, voltaram todos para a sala de msica. O Troy pediu-me para ir com ele para o quarto de brincar ajudar a colorir os seus desenhos. Quando l chegmos
e eu me apercebi que os desenhos tinham sido feitos por ele, fiquei a olhar para eles de boca aberta. Era invulgarmente dotado para uma criana. Havia desenhos da
manso e dos jardins e alguns desenhos de pessoas.
- Este  o Henderson e esta  a Margaret Stone e este  o Edgar. - Apontava para os diferentes desenhos.
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Esto maravilhosos, Troy. Muito, muito bons - elogiei eu. Os olhos dele brilharam.
Toma - disse ele, dando-me um lpis castanho para a mo..- O Edgar usa sempre uma camisa castanha. Tu pintas o Edgar.
Eu ri-me e comecei a pintar. Perdi a noo do tempo, ali sentada a pintar e a ouvir o Troy tagarelar sobre os empregados e a piscina e o labirinto, e sobre o Tony;
mas, talvez urna hora depois, pareceu-me ouvir a voz da mam ao fundo do corredor do quarto de brincar do Troy. Depois, ouvi a voz do Tony. Parecia aborrecido. O
Troy no deu conta, pois estava demasiado absorvido pelo seu trabalho. Percebi como ficava concentrado quando estava embrenhado a fazer alguma tarefa criativa e
pensei que era notvel que um rapazinho conseguisse alhear-se do mundo desse modo. Nem sequer reparou quando me levantei e fui at  porta.
O Tony e a mam estavam a cerca de cinco metros. O Tony, de p, alto e viril, tinha as mos nas ancas dela, tentando mant-la junto dele. No se tinham apercebido
de que eu estava ali, em silncio, a observar.
- V l, Jillian. - Os seus lbios carnudos pareciam carrancudos. - Estamos praticamente casados.
- Mas no estamos casados. Ainda no.  por essa razo. E tambm temos de pensar na Leigh.
- Eu ponho-a do lado oposto da casa. Ela nem sequer vai saber que vieste ao meu quarto. - Inclinou a sua cabea escura para a aconchegar no pescoo dela.
- No, Tony. - A mam afastou-o. - J te disse que no, at nos casarmos. E alm disso, amanh tenho umas coisas para resolver em Boston. No podemos passar c a
noite e est decidido. Agora, no compliques.
- Est bem - cedeu ele, abanando a cabea -, mas ests-me a torturar... e no dia de Aco de Graas - gracejou ele, meio a srio meio a brincar, pensei. Sentia uma
coisa esquisita no fundo do estmago e sentia-me mal por estar ali a observ-los, mas no conseguia afastar-me. Mesmo antes de se voltarem para se irem juntar aos
outros, o Tony apanhou-me a espreitar pela porta do quarto de brincar do Troy. Por um longo momento, os olhos dele incendiaram-se nos meus e eu senti como se ele
tivesse afagado o meu cabelo ou o tecido delicado e airoso do meu vestido. Voltei para junto do Troy por mais ou menos meia hora e depois a mam veio-me buscar.
- Est na hora de nos retirarmos para Boston.
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O pequeno Troy fez uma careta.
- Quando  que vais ficar c para sempre e sempre?
- Daqui a muito pouco tempo, Troy - respondeu-lhe a mam. - J  tarde e tambm est na hora de ires para a cama.
- No estou cansado - choramingou ele.
- No te cabe a ti decidir - disse ela. - Tens estado adoentado e precisas de descansar. Anda, Leigh. - Virou-se e saiu com rapidez.
- Voltarei dentro em breve e acabaremos isso tudo assegurei-lhe eu. Ele no se acalmou, mas a sua expresso carrancuda apagou-se quando eu lhe dei um beijo de despedida
na face.
Fui ter com a mam e com o Tony ao trio de entrada. A maior parte dos convidados j se tinha retirado.
- Obrigada por entreteres o Troy hoje  noite, Leigh agradeceu o Tony. - Ele adora-te.
- Ele  muito talentoso.
- . - Os lbios do Tony estavam enrolados formando um sorriso divertido. - Num instante estar a desenhar brinquedos Tatterton. - Aproximou-se o suficiente para
me dar um beijo na testa. - Boa noite, Leigh - disse, detendo a sua mo no meu ombro. Senti-me a tremer. Como  que eu alguma vez poderia considerar este jovem atraente
como meu padrasto?
- Boa noite - murmurei e sa rapidamente pela porta. A mam deixou-se ficar para trs por uns momentos aos sussurros com o Tony. Ento, ele beijou-a suavemente nos
lbios e ela voltou-se e veio ter comigo. Descemos as escadas e ocorreu-me, que, dentro em pouco, isto seria o meu lar. Contudo, ainda me parecia tudo to estranho.
Havia tantos quartos vazios, tantas sombras escuras. Gostava de saber se alguma vez conseguiria chamar a um lugar destes a minha casa.
A mam, aparentemente, no sentia nada disto. Estava a rebentar de to excitada.
- No foi o melhor jantar de Aco de Graas que alguma vez tiveste? Todas aquelas pessoas... toda aquela comida. Viste as jias da Lillian Rumford?
- No me lembro de quem ela era, mam.
- No te lembras? Oh, Leigh, como  que pudeste no reparar naquela tiara de diamantes e naquelas pulseiras e naquele camafeu?
- No sei. Acho que me falhou - disse eu, bruscamen-
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Ela apercebeu-se da tristeza na minha voz e o seu sorriso esmoreceu. Fiquei contente, por maldade. De sbito, o meu corao endureceu contra ela... contra a minha
bonita me e a sua nsia de diverso e de um marido rico e bonito.
No ia falar mais com ela. Virei-me para olhar a noite atravs da janela. Ela tambm se calou por um bocado, mas depois comeou a tecer consideraes sobre a roupa
que as outras mulheres traziam vestida, sobre as coisas fantsticas que lhe tinham dito e as coisas que ela dissera, como o Tony a adorava e que o casamento deles
ia ser o motivo de conversa da cidade...
Enquanto fixava o olhar na escurido atravs da janela, quase que no a ouvia. Havia um corte na paisagem e podia-se ver o mar. A noite no tinha nuvens e estava
fresco. Ao longe, observei as pequenas luzes de um barco e pensei no pap, algures l fora, na escurido... uma luz solitria, no fundo aveludado da noite escura,
como uma estrela solitria no cu nocturno.
PERDIDA
Duas semanas aps o dia de Aco de Graas, estava a caminho de Farthy para um ensaio da cerimnia do casamento. Dois dias antes tinha nevado muito por toda a costa
da Nova Inglaterra. A paisagem por onde passmos no caminho para Farthy estava coberta por um manto branco cintilante, que parecia puro e limpo  luz matinal do
Sol. Quando entrmos na rea florestal, mesmo antes de chegarmos  propriedade, reparei que muitas rvores tinham mudado de configurao, ou estavam curvadas, como
homens velhos, devido ao peso da neve, ou erguiam-se, geladas sob o pano de fundo do cu azul, e os seus ramos mais pareciam ossos pois a neve colava-se a eles.
Algumas tinham pingentes de gelo pendurados nas extremidades dos seus ramos. Pareciam lgrimas enormes congeladas no ar.
A mam no estava muito interessada na Natureza. Tinha assumido a liderana do casamento, planeando cada momento, cada pequeno detalhe, como se o casamento fosse
mesmo tornar-se o acontecimento social mais importante da dcada. O Tony cedera-lhe uma das suas secretrias, Mrs. Walker, uma mulher muito alta, muito magra, de
cabelo escuro, que era toda trabalho e nada de sorrisos. Na minha opinio, ela pura e simplesmente no tinha ficado muito contente com a tarefa que lhe tinha sido
imposta. Estava sentada  nossa frente na limusina a tomar notas,  medida que a mam se ia lembrando de coisas que ainda queria acrescentar ou alterar. A leitura
da lista de convidados abria as actividades de todas as manhs. Mal entrmos para a parte de trs da limusina e inicimos a nossa viagem para Farthy, a mam pedira
a Mrs. Walker para refazer a lista.
A mam tinha decidido que, logo que ela e o Tony se casassem, nunca mais voltaria a conduzir para lado nenhum. Dali em diante seriam motoristas e limusinas e, sempre
que
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Miles no estivesse disponvel por estar ao servio do Tony, a mam, pura e simplesmente, alugaria uma limusina e um motorista temporrios.
Nos dias que se seguiram ao jantar de Aco de Graas na manso Farthinggale, verifiquei tambm outras mudanas nela. Por mais incrvel que parea, a mam passava
ainda mais tempo a preparar o cabelo e a maquilhar-se, pois acreditava que agora tinha responsabilidades acrescidas em relao ao seu aspecto.
- As pessoas sabem que eu sou a futura Mistress Tony Tatterton. Observam-me, agora, mais de perto, com maiores expectativas. Actualmente fao mesmo parte da sociedade,
Leigh.
Eu no achava que o tempo extra que ela passava a arranjar-se fizesse alguma diferena. O seu cabelo no podia ser mais macio, a sua pele no podia ficar mais cor
de pssego e cremosa do que j estava. Porm, no lhe disse nada, pois percebia o quanto tudo aquilo era importante para ela. O que me fazia sentir mal era o modo
como ela falava dos seus antigos amigos, mesmo de alguns como a Elisabeth Deveroe. Eu sabia que ela achava que eles eram bons conhecimentos enquanto tinha sido casada
com o pap, mas, agora, que ia ser a futura Mrs. Tony Tatterton, j no eram suficientemente bons. At porque a Elisabeth Deveroe era uma pessoa para a qual ela
tinha trabalhado mas que agora iria trabalhar para si.
Hesitava sempre que passava pelo nome dela ou de alguns amigos antigos quando Mrs. Walker lia a lista.
- Tenho pena de os ter convidado - dizia. - Vo sentir-se fora do ambiente deles.
A caminho do ensaio em Farthy, acabou mesmo por riscar o nome de um casal ao qual ainda no tinha enviado convite e, em seu lugar, acrescentou o nome de outro casal,
os Kingsley, porque a Louise Avery lhe tinha dito: "O Martin Kingsley, editor do Globe, acabou de regressar de Moscovo, e ele e a mulher so dois dos convidados
para jantar mais requisitados da cidade." A mam acrescentava estas pequenas explicaes sempre que mandava Mrs. Walker apontar um nome novo; Mrs. Walker, porm,
no parecia ficar muito impressionada. A mam ou no notava ou no se preocupava. Estava no seu prprio mundo, mais feliz do que alguma vez a tinha visto.
Quando atravessmos os portes de Farthy, ela estava a rever a ementa, perguntando-se em voz alta se seria preciso
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uma seleco extra de hors d'oeuvres quentes. Apesar de no ter estado a prestar ateno  tagarelice dela ao longo da viagem para Farthy, respondi-lhe que me parecia
que havia quantidades suficientes de tudo. Cometi o erro de acrescentar: "Vai haver mais comida do que num dos barcos de cruzeiros do pap." Ela olhou-me de soslaio
e fez uma careta com a boca, como se lhe tivessem dado um estalo.
- Leigh, no h comparao possvel. Ns no estamos a preparar-nos para empanturrar as pessoas de comida, para lhes dar a impresso de que o dinheiro delas est
a ser bem gasto. Eu contratei alguns dos melhores cozinheiros de Boston, cada um com a sua especialidade. E repara que o francs que est a preparar o consom de
lagosta  muito conhecido e...
- Mas o Ryse Williams  um cozinheiro to maravilhoso, mam. Ele no podia ter confeccionado tudo?
- Confeccionado tudo? - Riu-se e fez um sorriso para Mrs. Walker como se eu tivesse cinco anos. - Dificilmente. H trabalho suficiente para manter ocupados dez cozinheiros
do calibre do Ryse Williams. No te preocupes com estas coisas - acrescentou, fazendo-me festas no joelho. - Preocupa-te apenas em pareceres bonita dentro do teu
vestido.
Tinha de admitir que estava nervosa com tudo aquilo. Como era uma das damas de honor, eu ia vestir um vestido de chiffon sem ombros, rosa-claro, com uma faixa branca
debruada, atravessada no corpete, e uma saia at aos ps. Todas as outras damas de honor da mam eram mulheres feitas. Nenhuma delas teria os meus ombros estreitos,
os ombros que eu continuava a considerar demasiado ossudos, e nenhuma delas teria de depender de um soutien com forro de espuma para ter uma figura feminina. Eu
tinha a certeza de que iria fazer figura de parva naquele vestido quando estivesse no meio das outras, mas a mam tinha-o escolhido, ela prpria, como complemento
ao seu vestido de noiva. A nenhuma das damas de honor era permitido usar nem colares nem brincos. A mam queria que as suas jias sobressassem e ter a certeza de
que ningum brilharia mais do que ela, pois muitas dessas senhoras eram muito ricas e possuam diamantes famosos.
Quando a limusina estacionou junto dos primeiros degraus da manso Farthinggale, o pequeno Troy estava na rua com Mrs. Hastings, a ama dele. A senhora at era simptica,
mas as poucas vezes que tinha estado com ela, tivera a sensao de que estava um tanto sobrecarregada de responsabilidades.
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O Troy era muito perspicaz para a idade dele e j tinha descoberto maneiras de levar a melhor sobre ela e de conseguir aquilo que queria. Percebi pela posio de
Mrs. Hastings a seu lado, enquanto o Troy tentava construir um boneco de neve, que estava a alici-lo a voltar para dentro de casa.
Tambm percebi, pela expresso de intensidade que transparecia na cara dele, que estava demasiado envolvido na sua criao para sequer a ouvir. A sua expresso era
idntica quela que eu tinha visto quando estvamos os dois a colorir os desenhos que ele tinha feito: os olhos fixos, a cara to quieta como uma esttua de granito.
Estava a trabalhar os pormenores do rosto do boneco de neve, esculpindo as feies com a parte de trs de uma colher de prata.
- Leigh! - gritou ele no momento em que sa do carro.
- Anda ver o meu boneco de neve. Anda ver.
- Tens de ir j l para cima e vestir-te - avisou-o a mam. Mrs. Walker tinha ido  bagageira do carro com o Miles para trazer as compras. O Curtis j vinha a descer
as escadas para ajudar, com pequenas bolhas de ar a sarem-lhe pela boca enquanto caminhava. Nunca o tinha visto movimentar-se com tanta rapidez. No tinha posto
um casaco e, vestido com a sua farda, camisa e calas, parecia um espantalho mal engomado.
-  o melhor boneco de neve que alguma vez vi - observei ao Troy. Ele endireitou-se, orgulhoso, e lanou um olhar a Mrs. Hastings. Esta tinha enfiado as mos enluvadas
com tanta fora dentro dos bolsos do casaco que parecia que os ia arrancar. - Mas agora vamos todos para dentro e vamos preparar-nos para o ensaio do casamento.
Tu tambm
- acrescentei, enquanto os olhos de Mrs. Hastings se iam tornando cada vez mais calorosos e apreciativos a cada palavra que eu proferia. - Lembra-te de que s o
padrinho.
- Eu sei. O Tony j me disse que eu tinha de levar o anel.
- Ento anda. Vamo-nos vestir. Mais tarde vimos c para fora e brincamos com a neve.
- Prometes?
- Prometo - assegurei eu, estendendo a minha mo. Ele agarrou-a com rapidez e seguimos a mam e Mrs. Walker para dentro de casa, com Mrs. Hastings mesmo atrs de
ns a fazer um enorme sorriso.
O casamento propriamente dito seria celebrado no enorme trio da entrada. A mam desceria a escadaria enquanto
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o pianista tocaria a marcha nupcial e toda a gente seria forada a olhar para cima e v-la descer como um anjo. Mesmo por baixo da escadaria, o pastor ocuparia o
seu lugar e o Tony e o Troy esperariam. J tinham colocado cadeiras almofadadas para os convidados no ptio de entrada. O Tony contou  mam que esta seria a quarta
cerimnia de casamento a realizar-se ali. O seu bisav, o seu av e o seu pai tinham-se casado em Farthy. O trio de entrada iria transpirar tradio com os enormes
retratos dos ancestrais do Tony a olharem para baixo e a mam e o Tony a pronunciarem os juramentos de amor e de lealdade um ao outro.
O Tony surgiu do seu escritrio logo que a nossa chegada foi anunciada. Vestia as calas do seu smoking e camisa branca sem gravata, ainda com as mangas da camisa
abertas sem botes de punho. Era a primeira vez que o via vestido de modo to informal. Por alguma razo, assim, ele fazia-me lembrar ainda mais uma estrela de cinema...
parecia to alto e fogoso.
Incomodava-me o facto de o Tony ser to bem-parecido. O pap no era um homem feio, mas era muito mais velho e tinha a cara cheia de rugas, exposta s intempries
de horas, dias e meses passados no mar. Ele no tinha um aspecto to encantador, nem era parecido com uma estrela de cinema, e eu no o adorava menos por isso. Porm,
quando o Tony e a mam estavam ao lado um do outro, eram o centro das atenes de toda a gente. Era como se tivessem sado da capa de uma revista. Tornava-se-me
muito doloroso admitir que estavam perfeitos um para o outro. Fazia-me pensar no pap como cada vez mais distante, a diminuir como uma estrela longnqua que morreu
h um milho de anos. Eu esperava desesperadamente casar um dia com um homem igual a ele, excepto talvez menos obcecado pelo seu trabalho.
- Querida. - O Tony pegou nas mos da mam e deu-lhe um beijo rpido nos lbios. Sorriu, com um olhar malicioso. - Ests pronta para o ensaio?
- Claro.
- A tua suite est preparada. - Voltou-se para mim. Ol, Leigh. Aposto em como no ests to nervosa como eu.
- Claro que estou - disse eu bruscamente. No consegui evit-lo. Como  que ele podia pensar que eu no iria estar nervosa... mais que nervosa... transtornada? Eu
no queria ter nada a ver com este casamento e para evitar p-lo ao corrente desse facto a gritar, desviei os meus olhos dos dele.
- Eu no estou nervoso - arengou o Troy, o que fez toda a gente rir, excepto eu.
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Isso  porque no s tu que te vais casar - disse-lhe o Tony. O Troy apenas encolheu os ombros, mas continuava a agarrar com fora a minha mo. - Bem, agora  uma
altura to boa como outra qualquer para mostrar  Leigh a suite de quartos dela - exclamou o Tony, dando uma palmada com as mos uma na outra.
Sim, isso seria maravilhoso, no , Leigh?
- Redecorei tudo para te fazer uma surpresa - revelou o Tony, lanando-me um olhar penetrante. Deu-me o brao para eu me apoiar.
Olhei para a mam. Ela acenou com a cabea e fez-me sinal com o olhar para eu dar o brao ao Tony. Dei-lho prontamente.
- Tambm posso ir? - pediu o Troy.
- Tu tens de te vestir, jovem. Para este ensaio temos de estar vestidos a rigor - explicou o Tony. - Excepto a noiva, claro - acrescentou ele. - D azar o noivo
ver o vestido de noiva antes do casamento.
- Eu quero...
- Agora, Troy - interrompeu o Tony e olhou para Mrs. Hastings.
- Anda, Troy. Eu ajudo-te a vestir.
- Eu no preciso de ajuda - replicou ele, com petulncia. A mam lanou-lhe um olhar carrancudo e abanou a cabea.
- Por aqui - indicou o Tony, e subimos a escadaria. Estar de brao dado com ele punha-me nervosa, no sei porqu. As borboletas do meu estmago esvoaavam por todo
o lado e tinha a certeza que estava a corar.
O Tony conduziu-me para a esquerda no segundo andar e parou ante um conjunto de portas duplas.
- Aqui estamos - anunciou, abrindo com mpeto as duas portas. - Leigh - comeou. Elevou a mo e eu pensei que iria tocar no meu cabelo, mas afastou-a bruscamente.
Tentei tornar estes quartos femininos, mas no infantis. Espero que gostes deles - acrescentou, a voz quase num sussurro. A cabea dele estava numa posio que me
impediu de lhe ler os olhos. A luz do Sol atravs do plido tecido transparente cor de marfim era enevoada e dbil, o que concedia  sala de estar uma caracterstica
irreal. As paredes estavam forradas com um delicado tecido de seda cor de marfim, entrelaado, com subtileza, por tmidos motivos orientais em verde, violeta e azul;
os dois pequenos sofs estavam forrados com o mesmo tecido e as almofadas num azul-suave para condizer com o tapete chins do cho.
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No obstante o meu desejo de no gostar de qualquer coisa que proviesse daquele homem, tinha de admitir para mim prpria que este era o quarto mais gracioso que
alguma vez vira. Podia facilmente imaginar-me neste quarto, aninhada  frente da pequena lareira.
- O que  que achas? - Encostou-se contra a parede e disps as mos em forma de templo por baixo do queixo. Parecia que me estava a estudar.
-  um quarto muito bonito. Nunca tive a minha prpria sala de estar - acrescentei eu, arrependendo-me depois de o ter dito. Parecia que tinha passado privaes.
- bom, agora j tens - disse o Tony, levantando-se de repente. Um sorriso rasgou os seus lbios carnudos e sensuais. - Anda, vem ver o teu quarto. Passou  minha
frente e abriu as portas do quarto.
O que  que eu podia fazer? Eu no queria gostar ou ficar impressionada, nem ficar entusiasmada e excitada, com a minha nova casa, mas deparei-me com uma cama de
casal com quatro colunas, to amorosa, to linda, e que ainda por cima tinha um dossel arqueado de renda pesada. Os dois quartos estavam decorados nas minhas duas
cores favoritas: azul e cor de marfim.
Havia um canap azul e trs cadeiras a condizer com as da sala de estar. Deambulei pela rea do quarto de vestir e da casa de banho. Parecia que havia espelhos e
luzes por todo o lado. E viam-se lustres e luzes escondidas que iluminavam todos os armrios. Um deles era quase to grande como o meu quarto em Boston.
Senti o Tony mesmo atrs de mim e voltei-me. Ele estava to perto. Senti-lhe o hlito na minha testa e senti o perfume da sua loo para a barba.
- Espero que consigas ser feliz aqui, Leigh. Para mim  quase to importante como fazer a tua me feliz - declarou ele, ternamente. Calou-se e eu levantei os olhos.
Queria responder-lhe a gritar. Queria exigir que me dissesse como  que ele podia esperar que eu viesse a ser feliz. Ele tinha conquistado o corao da minha me
ao meu pai e tinha destrudo a nica vida, a nica famlia que eu conhecera. O pap andava algures a vaguear pelo mundo, desorientado e entristecido pela velocidade
vertiginosa com que os acontecimentos se estavam a suceder. A beleza e os modos requintados do Tony, a sua enorme fortuna e o nome de famlia, tinham roubado a minha
me do meu pai, e agora, por cima de mim, choviam todo o tipo de luxos, como se isso
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bastasse para o tornar to importante para mim como o meu pai como se eu pudesse perdoar tudo em troca de um quarto bonito. Cerrei os punhos e voltei a abri-los,
para no lhe bater pois naquele preciso momento eu devo t-lo odiado mais do que nunca.
O Tony continuava a olhar-me nos olhos fixamente. Acho que leu a minha fria que se detinha  superfcie, pois a sua expresso ficou mais suave e afastou-se.
- Eu sei que este momento no  fcil para ti, mas eu vou tentar fazer com que nos dmos bem. Vai demorar, eu sei, mas com o tempo, espero que me consideres mais
do que um simples padrasto. Tambm quero ser teu amigo.
Antes que eu pudesse responder, ouvi baterem  porta. Era Mrs. Walker que vinha trazer o meu vestido, os meus sapatos, e a minha roupa interior para usar no ensaio.
Tambm ouvi a voz da mam no corredor a dar ordens enquanto subia para a sua suite.
- Sim, sim - disse o Tony, aborrecido pela interrupo.
- Traga tudo c para dentro. - Tornou a voltar-se para mim. - Mais tarde acabaremos a conversa. Teremos muito tempo para falar e para nos conhecermos bem. Se deixares.
- Virou-se e saiu.
- Que quarto to bonito! - exclamou Mrs. Walker. Pousou as roupas sobre a cama e girou sobre si prpria. Tem muita sorte em viver num lugar destes.
- Muito obrigada, Mistress Walker, mas ns vivamos muito bem em Boston - repliquei eu, incisivamente. Viu a minha expresso e foi-se embora para dar assistncia
 mam.
Fiquei ali sozinha, a olhar  minha volta. Isto iria ser o meu novo mundo, o lugar onde iria pensar e sonhar, construir as minhas esperanas, o lugar onde iria chorar
e rir, sentir-me s e triste, e, talvez um dia, voltar a sentir-me feliz. Adorava-o e detestava-o ao mesmo tempo.
O pap nunca entraria por aquelas portas para me dizer "boa noite" ou para me cumprimentar quando chegasse a casa aps um longo dia de trabalho no escritrio, nas
docas. De certa maneira, estava contente por ele nunca ter oportunidade de ver aquele quarto. Iria entristec-lo, pois pensaria que eu me tinha afastado dele em
troca de toda aquela riqueza.
No deixaria que nada disto me fizesse esquecer o pap, gritava o meu corao. Alinharia na mesa do toucador todas as minhas molduras com fotografias: aquela em
que eu estava
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sentada no joelho do pap, aquela em que eu e a mam estvamos sentadas e o pap em p atrs de ns. Quando tinha cinco anos, escrevi: "O pap, a mam e eu", por
baixo da fotografia. Rodear-me-ia de todas as minhas recordaes felizes... fotografias dos nossos passeios, fotografias no jardim zoolgico, fotografias a bordo
dos navios do pap, como aquela em que o pap estava a tentar ensinar-me a danar. Nunca, mas nunca, deixaria que materiais suaves e caros, moblias ricas e acolchoadas,
quartos enormes e luxos, me fizessem esquecer o pap. E, mais importante que tudo, o Tony Tatterton iria perceber, de imediato, que no tinha nenhuma hiptese, nenhuma
hiptese, no mundo, de tomar o lugar do meu pai.
Comecei a despir-me com pouco entusiasmo. Vesti um soutien sem alas especial e depois entrei no vestido. Ficava-me confortvel na cintura, mas cada vez que tentava
alcanar as costas para correr o fecho, a parte de cima descaa. Era uma coisa muito esquisita para fazer sozinha. Frustrada, calcei os sapatos do conjunto e comecei
a caminhar em direco  porta, com tenes de ir at  suite da mam para ela me ajudar. Quando sa do meu quarto de dormir, fui de encontro ao Tony. J tinha posto
a gravata, os botes de punho e a faixa, mas ainda no tinha vestido o casaco do smoking. Dei um passo atrs, surpreendida, e segurei a parte da frente do meu vestido.
- Desculpa incomodar-te, mas a tua me pediu-me para verificar se estava tudo bem contigo.
Por um momento, no consegui responder; tinha a respirao atravessada na garganta. H quanto tempo estaria ele  porta do meu quarto? Seria possvel que ele tivesse
voltado e tivesse assistido a tudo, a observar-me? E porque  que a mam o teria mandado? Ela nunca mandara o pap fazer uma coisa dessas.
- Eu... eu estou a caminho da suite dela para me ajudar a correr o fecho do meu vestido - expliquei e comecei a andar.
- Deixa-me ajudar-te.  por isso que vocs, as mulheres bonitas, nos querem ao p de si... s para estas coisas. Ps as mos nos meus ombros para impedir que eu
me fosse embora. Quase sufoquei e senti uma onda de calor a subir pelo meu pescoo acima. Se ele percebeu o meu constrangimento, ignorou-o e fez-me dar meia volta.
- Agora, deixa-me ver... Ah, este  fcil.
Correu o fecho devagar, com muito cuidado, para no o
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prender na minha pele, e, quando acabou, plantou-me um beijo no alto da cabea.
- j est - anunciou. - Precisas de ajuda para mais alguma coisa? No - respondi eu bruscamente, to bruscamente que lhe provocou um sorriso nos lbios e uma gargalhada
nos olhos. Permiti que os meus olhos se encontrassem brevemente com os dele antes de fugirem para se fixarem no cho. Tenho de arranjar o meu cabelo - informei e
voltei para o meu quarto. Sentei-me no toucador para recuperar a respirao. Quando me olhei ao espelho, reparei que ainda estava agarrada  parte de cima do meu
vestido, apesar de j no ser preciso. Larguei-o e olhei para trs, para a porta, meio  espera que ele ainda l estivesse.
J se tinha ido embora.
A minha mente comeou a perseguir os meus sentimentos. Havia tantas sensaes diferentes para tentar perceber. Detestei o tom com que ele falou, tentando soar como
um pai, e aninhei-me quando me beijou na cabea, como o pap me beijaria, mas tinha de admitir para mim prpria que, quando os seus dedos tocaram nos meus ombros
e os seus lbios roaram no meu cabelo, eu sentira um arrepio de prazer pelo corpo.
E os olhos dele! Quando ele os dirigiu para os meus, o azul reluzira como se tivesse percebido o arrepio que eu sentira. Oh, eu tinha de ter cuidado com um homem
to sofisticado como o era o Tony, pensei. Devia pensar mais no que os meus olhos podiam revelar. No fim de contas, ele era o homem que tinha conquistado o corao
da mam, o corao de uma mulher to bonita que a maior parte dos homens daria o seu brao direito para estar na posio dele. Eu no podia competir por um homem
com tanto poder.
E, no obstante, os seus afveis olhos azuis e a sua bonita cara detinham-se em mim, imploravam compreenso e amor, suplicando-me para que eu o considerasse o meu
novo pai. Como  que eu alguma vez podia conceber uma pessoa to jovem como um pai e, quando ele descobrisse a idade real da mam, sentir-se-ia a fazer figura de
parvo, pensei.
A vida, outrora simples e agradvel como uma histria infantil, era agora to complicada e difcil. Detestava estar aqui. Detestava! Detestava estar a preparar a
minha roupa para este ensaio, detestava a ideia de ser uma dama de honor no casamento da minha prpria me, detestava esta casa, os seus empregados e os jardins
e...
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- Ol. Ests pronta?
A minha raiva crescente foi interrompida. Virei-me e deparei com o pequeno Troy no seu smoking, com a sua minscula gravata e o cabelo penteado com cuidado,  porta
do meu quarto. Usava um anel de ouro rosado na mo esquerda e parecia uma verso em miniatura do seu bem-parecido e elegante irmo. Toda a minha fria esmoreceu.
- Quase - respondi eu.
- O Tony diz que podemos voltar a vestir as nossas roupas "boas" logo que o ensaio tiver acabado - informou o Troy, ansioso. Ri-me pela maneira como abriu os olhos
e acenou com a cabea.
- Roupas boas?
- Eu tenho de ter muito cuidado quando estou vestido desta maneira, no que toco e onde vou - recitou ele. Tapou o nariz para mostrar como detestava aquilo. Era to
engraado que me dava vontade de o agarrar como se fosse um dos meus ursinhos de pelcia.
- Claro. Eu tambm estou desejosa de voltar s minhas roupas "boas". - Levantei-me, mirei-me uma ltima vez no espelho e comecei a sair. Ele deu-me a mo e fomos
l para baixo para comear o ensaio.
Durante todo o ensaio, senti como se estivesse a movimentar-me num sonho. Rodeada por todos aqueles estranhos, observando a mam e o Tony a representarem a sua futura
cerimnia de casamento, no conseguia evitar olhar em volta, de vez em quando,  procura do pap, sempre  espera de o ver entrar de rompante pelas imponentes portas
principais. Deixei que a minha imaginao me levasse. No meu sonho, a msica parava e toda a gente se voltava para o pap.
- Jillian - gritava ele. - No podes fazer isto. E tu dizia ele, apontando para o Tony -, tu tens de pr termo a este feitio que lanaste sobre a minha mulher.
- Neste meu sonho acordada, o pap estava maior e mais poderoso do que nunca. Erguia o brao e apontava o dedo acusador na direco do Tony, que retrocedia por respeito
a tanta fora. De sbito, a mam pestanejava. Olhava do pap para o Tony e de novo para o pap.
- Cleave? Oh, Cleave, Cleave, graas a Deus que vieste. No sei o que me deu. No sei o que estou a fazer aqui.
Ela corria para os braos dele e eu corria atrs dela. Ento, o pap tambm punha o brao  minha volta, saamos os
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trs deste castelo e amos para casa, sos e salvos, para todo o sempre.
O meu devaneio acabou, rebentou como uma bolha, quando o pequeno Troy puxou a minha mo para reclamar a minha ateno. Eu estava de p, atrs das outras damas de
honor. Tnhamos descido a escadaria  frente da mam e ocupado as nossas posies enquanto o pastor revia a cerimnia. Nesse momento, aparentemente tudo aquilo tinha
terminado e o pequeno Troy estava a lembrar a promessa que eu lhe fizera de ir para a rua com ele.
- Voltem dentro de mais ou menos meia hora para o almoo - avisou o Tony.
Foram os dois para o escritrio do Tony. Eu fui mudar de roupa e estava meio despida quando o pequeno Troy me veio chamar novamente, muito bem agasalhado e pronto
para ir para a neve.
- Vai precisar de mim? - perguntou Mrs. Hastings, com a resposta que esperava estampada na cara.
- No, Mistress Hastings. Ficaremos bem - respondi eu. Ela fez uma expresso como se eu lhe tivesse concedido a suspenso de uma pena de dez anos de trabalhos forados.
Os midos deviam dar muito trabalho, pensei, rindo-me sozinha. Vesti o meu casaco, calcei as minhas luvas e dei a mo ao Troy. Descemos as escadas e fomos para junto
do boneco de neve.
Apesar de ainda estar bastante luz, o cu mostrava-se carregado de nuvens e a neve caa. Observei o trabalho aplicado do Troy nos dedos do boneco de neve e ouvi-lhe
a tagarelice sobre os brinquedos que o Tony lhe iria oferecer pelo Natal. Saltava de um assunto para o outro e, a dada altura, contou-me uma histria que o Ryse
Williams lhe tinha contado sobre um rapazinho de Nova Orlees que tinha uma flauta mgica. Sempre que falava do Ryse, chamava-lhe "Rye", e quando lhe perguntei a
razo, disse-me que tinha ouvido os outros empregados a tratarem-no assim.
- Eles disseram-me que o nome dele era Rye Whiskey1 e no Ryse Williams.
- Rye Whiskey? Tu no o tratas assim, pois no?
- Hum, hum - assentiu ele e depois olhou na direco da porta principal e acrescentou -, quando o Tony no est por perto. Ele no gosta.
1 A palavra rye: significa "centeio" e Whiskey refere-se  bebida alcolica, o que explica a confuso de Leigh e nos d a entender que ele  conhecido por gostar
de beber.
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- Ah, estou a ver. Bem, ento talvez no devesses fazer isso.
Ele encolheu os ombros. Nesse momento, os seus olhos luziram, pois tinha tido uma ideia nova. Deixou cair a colher de prata no cho e deu um passo atrs.
- Temos de arranjar ramos de sebes para fazer as roupas do boneco de neve. Temos de arranjar, Leigh.
- Ramos de sebes?
- Hum, hum. O Boris passa a vida a aparar o labirinto e h l ramos de sebes. Temos de ir buscar alguns, est bem? Por favor. Est bem?
Eu soltei um suspiro. Estava frio, ali, em p, os flocos de neve caam com mais intensidade e eram cada vez maiores. Um passeio far-nos-ia bem aos dois, pensei.
- Est bem.
Ele agarrou na minha mo enluvada e comemos a afastar-nos de casa.
- Eu mostro-te. No tenhas medo. Eu mostro-te.
- Est bem, est bem. Tem calma, Troy. O teu boneco de neve no vai derreter. Isso  certo.
Olhei para trs em direco  casa, pois ouvi duas senhoras dos escritrios do Tony em Boston que iam servir de damas de honor a falarem sobre a mam, enquanto caminhavam
em direco ao carro delas.
- Ela era casada com um homem que tinha idade suficiente para ser av dela - dizia uma. - Ouvi dizer que ele est praticamente senil e que nem sequer tem noo de
que ela o deixou.
- A nica razo pela qual uma mulher daquelas casaria com um homem daquela idade  por dinheiro.
- J no vai precisar de se preocupar mais com dinheiro
- disse a primeira mulher. - E agora tambm tem um homem jovem, devastadoramente atraente. A est uma mulher esperta. - Riram-se ambas e entraram no carro.
Apesar do ar frio e da neve a cair, a minha cara ficou quente de raiva. Estava com vontade de passar por cima do carro delas e de lhes esmurrar os vidros. Elas estavam
a gozar com o meu pai. Como se atreviam? Quem  que lhes tinha contado uma histria daquelas? No mereciam participar na festa do casamento. Mexeriquices por cime,
por inveja, por maldade...
- Anda, Leigh - dizia o Troy, puxando-me para continuar.
- O qu? Ah, sim. - Segui-o, olhando uma vez para trs para ver o carro delas a arrancar.
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 entrada do labirinto parmos.
- Eu no estou a ver nenhuns restos de sebes aparadas, Troy. Vamos voltar.
No, h sempre alguns. Vamos entrar um bocadinho e ver, est bem? - implorou ele.
- O teu irmo no quer que entremos l, Troy.
No faz mal. Eu sei entrar e sair.
- Tens a certeza? - s vezes parecia to maduro para a criana que era, to seguro de si.
- O Tony no vai ficar zangado. O Tony agora vai ser o teu pap.
- No vai, no senhor - interrompi eu, com rudeza. O pequeno Troy olhou para cima, confuso. - Ele vai casar com a minha me, mas isso no faz com que ele seja meu
pap. Eu tenho um pap.
- Onde est ele? - perguntou o Troy, elevando os seus pequenos ombros.
- Ele trabalha com barcos grandes e est no meio do mar.
- Ele tambm c vem?
- No. A minha me j no quer viver mais com ele. Ela quer viver com o teu irmo. Por isso, ns vamos viver aqui e ele vai morar noutro lugar. Chama-se a isto um
divrcio. As pessoas que esto casadas deixam de estar casadas. Percebes?
Ele abanou a cabea.
- Para te dizer a verdade - confessei eu, com amargura -, nem eu. - Voltei a olhar para trs, para a casa. Um grupo de amigos do Tony vinham a sair, rindo e dando
palmadinhas nos braos e nos ombros uns dos outros. - Est bem - assenti eu -, entramos no labirinto e procuramos ramos de sebes aparados. No nos vamos perder de
certeza acrescentei -, pois no regresso s temos de seguir as nossas pegadas na neve.
-  verdade. - E disparou  minha frente para dentro do labirinto. Eu hesitei, por um momento, e depois segui-o.
Na verdade, at acolhia com agrado a serenidade que o labirinto me proporcionava. Queria estar desligada de todo aquele barulho e de toda aquela actividade. Sentia-me
muito irritada; o meu estmago estava agitado e o meu corao palpitava. Lembrei-me do som do piano a tocar a Marcha Nupcial e isso ia-me tornando cada vez mais
furiosa.
Mas,  medida que dvamos a curva no labirinto e caminhvamos cada vez mais para o fundo, em direco s suas
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entranhas, sentia o mundo a ficar para trs, cada vez mais longe. As altas sebes serviam de paredes enormes, desligando-nos dos sons que provinham da parte da frente
da casa. Os flocos de neve que caam, cada vez mais espessos, eram levados pelo ar para dentro dos corredores, colando-se s sebes. O Troy vagueava  frente, olhando
para trs a todo o momento para se certificar de que eu ainda o seguia. Perdi a conta de quantos ngulos, oblquos e rectos, passmos. Cada corredor era igual ao
outro, principalmente desde que estavam cobertos pelos recm-formados mantos de neve. Apesar de tudo, ainda bem que estvamos a caminhar sob neve, pois agora compreendia
como era fcil uma pessoa perder-se. O labirinto era, de facto, profundo e aparentemente infinito.
- Troy - chamei eu, por fim. - Era melhor voltarmos para trs. No h nenhumas aparas de sebes e acho que s estamos a andar por aqui s voltas.
- No, no estamos. Vamos a caminho da casa de pedra.
- O que  essa casa de pedra? Quem  que vive l?
- Agora, ningum.  um dos meus lugares secretos sussurrou ele.
- Era melhor no tentarmos encontr-la - disse eu, olhando para trs.
- S mais um bocadinho, por favor. Por favor, Leigh implorou ele.
- Est bem - acedi eu. - S mais um bocadinho, mas se no a encontrarmos depressa, vamos ter de voltar, est bem?
Ele assentiu prontamente e largou a correr  minha frente, desaparecendo a seguir a uma curva. Movimentava-se com tanta rapidez atravs dos corredores que eu tinha
de segui-lo pelas pegadas na neve.
- Troy, no andes to depressa - gritei. - Troy. Acelerei o passo, mas ele estava a ser maldoso e mantinha sempre uma curva de avano. - Troy.
Por fim, dei uma curva e dei comigo fora do labirinto, do lado oposto. E ali estava ela - tal como o Troy tinha dito, uma casinha que se parecia com um desenho que
a mam poderia ter feito numa das suas ilustraes para livros infantis. Um mgico qualquer tinha tocado nas pginas do livro e tinham-se tornado realidade. Rodeada
por pinheiros altos, encontrava-se uma pequena casa de pedra com telhas vermelhas. Havia um carreiro de laje que conduzia  porta da frente.
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Anda, Leigh - chamava o Troy, a correr atravs do carreiro at  porta.,.-...
Espera - gritei, mas ele j tinha aberto a porta e entrado. Segui-o e encontrei-o sentado numa slida cadeira de balouo de carvalho silvestre junto  lareira. Exibia
um sorriso enorme de auto-satisfao. Olhei em volta da pequena sala e pensei que podia ser muito acolhedora quando a lareira estivesse acesa. Tinha apenas alguns
mveis simples, um sof velho, uma poltrona, um tapete rectangular castanho, algumas mesinhas e prateleiras de pinho vazias. As delicadas cortinas brancas de algodo
pendiam tristemente nas janelas geladas. Estava tanto frio dentro da casa que eu conseguia ver a minha respirao e a do Troy. Abracei-me a mim prpria para me manter
quente.
- Ningum vive aqui agora? - perguntei, enquanto vagueava pela casa e observava um quartinho e uma pequena cozinha. No quarto havia uma cama individual e um pequeno
armrio, mas no havia tapete no cho nem espelhos. A cozinha tinha um fogo a carvo antigo, uma pequena pia para lavar a loua e, em vez do frigorfico, havia
uma geleira, cujas portas estavam abertas de par em par. Porm, estava vazia. O Troy saltou da cadeira para me seguir.
- O Boris vive aqui no Vero, s vezes, mas, na verdade,  o meu lugar secreto - explicou o Troy.
- No vens para aqui sozinho? Como  que encontraste o caminho atravs do labirinto? - perguntei-lhe.
Ele encolheu os ombros. Percebi que tinha tido sorte.
- Sorte a nossa que s temos de seguir as pegadas para voltar. - Continuei a olhar  volta. - Mesmo assim, isto deve ser agradvel na Primavera e no Vero.
- Vamos voltar mais vezes? Vamos, Leigh?
- Acho que sim - disse eu. Talvez tambm viesse a ser o meu lugar secreto, pensei, principalmente quando as coisas se tornassem difceis de mais para mim l na manso.
- Eu posso trazer alguns troncos da pilha de lenha l de fora -, disse o Troy. - E podemos acender a lareira.
- No, no, acho que  melhor voltarmos. J samos h muito tempo. Vo estar todos sem saber para onde fomos e est a comear a nevar com mais fora.
- No queres acender a lareira e ficar quentinha primeiro? H aqui fsforos - incitou ele, desatando a correr  minha volta e entrando na cozinha. Puxou uma cadeira
para junto do fogo e subiu para cima dela para chegar s prateleiras de cima e voltar para baixo com uma caixa de fsforos na mo. - Ests a ver?
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- Sim.
- Vamos acender a lareira e vamo-nos aquecer, Leigh. Eu tambm vou buscar a lenha - afirmou ele, largando os fsforos em cima da mesa e correndo l para fora.
- Troy. - J estava na rua. Abanei a cabea e ri-me do seu entusiasmo. No achei que estivssemos fora h muito tempo. Talvez fosse bom aquecermo-nos na lareira.
E tambm parecia divertido. O Troy voltou a correr com uma mo-cheia de lenha. Limpou-lhe a neve de cima.
- Queres que eu faa ou sabes fazer? - perguntou ele.
- Tu sabes?
- Claro que sei. O Boris mostrou-me um monte de vezes. - Colocou a lenha dentro da lareira e disps os ramos secos com cuidado. Em seguida, abriu a portinhola do
respiradouro e, com muito esforo por ser a primeira vez, acendeu alguns pequenos ramos dispostos sob outros maiores. Pouco depois, j tinha conseguido manter acesa
uma pequena lareira. Correu l para fora, trouxe dois troncos bem grandes e colocou-os com cuidado na fogueira.
- Muito bem, Troy. - Eu estava admirada. - s muito crescido.
- Aqui, fao o papel de pap - afirmou, com orgulho.
- Tu podes fazer de mam e fazer o jantar e limpar.
Ri-me e pensei como desejava poder recriar uma famlia feliz dentro daquela pequena casa. No me importava de ficar sem os quartos grandes e sem as coisas encantadoras.
- E o que  que farias para alm de acender a lareira? Ele encolheu os ombros.
- Comia o jantar.
- S isso?
- No sei. Que mais devia fazer? Que mais faz um pap?
Pobre Troy, pensei, nunca teve oportunidade de conhecer o pai dele e saber como um pap era importante. Puxei a cadeira para perto da nossa pequena lareira. O Troy
veio ter comigo e eu sentei-o ao meu colo.
- Um pap faz-te sentir protegido e seguro. D-te tanto amor como uma mam, e, quando se  menino como tu, joga  bola contigo ou ensina-te coisas e leva-te a passear
expliquei.
- E se for uma menina?
- Ele torna-te a sua princesinha e compra-te coisas e faz-te sentir especial porque gosta muito de ti.
- E o pap ama a mam e a mam ama o pap?
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- Sim, muito. Para eles, no h pessoa mais importante no mundo inteiro. Porque o amor os junta, ests a ver,
amor ... o amor ... - No consegui continuar. Dei por mim a soluar, com os ombros a tremer.
O qu? - Ele levantou os olhos para mim. - Leigh,
porque  que ests a chorar?
- Eu choro, s vezes, quando penso no meu pap.
Porqu? Porque ele no est c?
Hum, hum. - Funguei vrias vezes para tentar parar de chorar.
Eu serei o teu pap quando ele no estiver c, est bem?
- Oh, Troy. - Apertei-o nos meus braos. - Tu s muito querido e amoroso, mas receio bem que no possas ser o meu pap, porque... Oh, no.
- O qu?
- Olha a intensidade com que neva! - exclamei eu, apontando para a janela. Era quase impossvel reconhecer os pinheiros atravs do dilvio de pesados flocos de neve.
 melhor irmos andando. - Pu-lo no cho. - Anda, depressa.
Peguei na mo dele e deixmos a pequena casa de pedra. A laje parecia j estar coberta com quase trs centmetros de neve. Apressei-o a descer o carreiro em direco
ao labirinto e corremos para dentro dele, com a neve a cegar-me os olhos com a sua fria. Fomos a correr at ao primeiro ngulo recto, demos a curva e comemos
ento a descer o corredor de sebes seguinte... E depois... Eu parei.
- Oh, no - exclamei, olhando para o desdobramento de caminhos com que nos deparmos, um para a direita, outro para a esquerda.
- Qual  o problema? - perguntou o Troy.
- As nossas pegadas! Desapareceram! A neve que tem estado a cair cobriu-as e eu no consigo lembrar-me se viemos aqui ter pela direita ou pela esquerda.
- No faz mal - afirmou o Troy, com valentia. - Havemos de encontrar o caminho. - Comeou a descer o corredor e voltou-se para trs. - Anda - instigou, fazendo sinal
com a mo.
- No sei. Tenho medo - disse eu, hesitante. O Troy observou o caminho  nossa frente. A neve caa to depressa que at era difcil ver onde comeava a prxima curva.
O que  que vamos fazer? - perguntei para mim prpria. Pensei em voltar para trs, mas a neve podia continuar a cair
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por muito tempo e ningum sabia que tnhamos atravessado o labirinto. com alguma relutncia, comecei a caminhar com grande esforo, peguei na mo do Troy e virei
 sorte. Depois, virei outra vez e outra e mais outra. A neve no abrandou nem por um segundo e, pouco depois, todas as curvas e todos os corredores pareciam iguais.
Quando voltei a dar outra curva e me deparei com as nossas pegadas frescas, apercebi-me de que tnhamos descrito um crculo.
- Estamos perdidos - gritei eu. O Troy comeou a soluar. - No chores, Troy. Algum nos h-de ajudar. Havemos de sair daqui brevemente. - Peguei nele ao colo e
comecei a caminhar por outro corredor, com os flocos de neve a colarem-se s minhas faces e  minha testa. Os meus ps estavam muito frios. No vinha preparada para
uma jornada atravs de neve profunda. O pequeno Troy agarrou-se a mim com fora e eu a ele.
E, como dois rfos perdidos numa tempestade implacvel, procurvamos um sinal de casa.

8 MENTIRAS, MENTIRAS E MAIS MENTIRAS

Ouvi uns gritos e berrei o mais alto que pude, esforando as minhas cordas vocais at me doer a garganta. Ouvi outro grito e ainda mais outro. Reconheci a voz do
Tony e depois ouvi-o a gritar umas ordens. De repente, atravs do dilvio de neve, apareceu  nossa frente um homem entroncado, de certa idade.
- Boris! - exclamou o pequeno Troy.
O amvel e preocupado jardineiro veio ter connosco a correr.
- Est bem, menina?
- Sim, s... com frio, muito... frio - disse eu, a tremer.
-  natural. D c, deixe-me pegar no menino - ofereceu-se ele e o Troy agarrou-se logo aos braos dele. - Siga-me, menina. No se afaste - avisou o Boris. No teve
de repetir. Eu quase que me colei ao casaco dele, enquanto ele nos levava pelo labirinto fora, em direco  sada. O Tony e o Miles estavam  espera na entrada.
- O que  que aconteceu? Porque  que foram para dentro do labirinto? - protestou o Tony com brusquido. Em vez de responder, comecei a chorar. A expresso dele
suavizou-se instantaneamente. - Ests bem?
- Estou gelada - respondi eu. Sentia as minhas pernas entorpecidas e doam-me os dedos dos ps. Uma espcie de combinao entre calor e frio subia nas minhas faces
e isso assustou-me.
- Vamos lev-los l para dentro - ordenou o Tony. Ps os braos dele  volta dos meus ombros, e ele e eu, o Miles e o Boris com o Troy ao colo, regressmos a correr
para a manso atravs da tempestade de neve. A mam estava a sair da sala de msica no momento em que o Curtis abriu as portas. Estava furiosa e confusa.
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- Perderam-se no labirinto - explicou o Tony, o mais depressa possvel.
- No labirinto! - A cara dela contorceu-se com uma expresso de dor.
- Mistress Hastings, por favor, leve o Troy para a suite dele e ponha-o dentro de um banho quente - ordenou o Tony. - Ele  muito sensvel ao frio. - A mam olhava
fixamente para mim, ainda com a cara contorcida, no acreditando no sucedido; tinha um olhar feroz e a boca ligeiramente aberta. Abanou a cabea como que para negar
o que estava a acontecer. - Jillian - disse o Tony, pegando-lhe na mo com firmeza -, tambm devias pr a Leigh dentro de um banho quente. Ela no estava vestida
com roupa adequada para permanecer no meio de uma tempestade de neve durante horas.
- No posso acreditar. Porque  que entraste no labirinto, Leigh? - atormentou-me ela.
Os meus dentes ainda rangiam. As minhas luvas estavam encharcadas, tal como os sapatos e as meias, e a neve derretida escorria do meu cabelo pelas minhas faces,
pela minha testa e pelo meu pescoo abaixo. Parecia que o boneco de neve do Troy se tinha animado e percorria o meu corpo com as pontas dos seus dedos para me atormentar.
- Eu... ns... fomos  procura de ramos de sebes aparadas e...
- Jillian, devias met-la dentro de um banho quente repetiu o Tony.
- Mas o Tony avisou-te para no ires para dentro do labirinto e esta no era a altura prpria para fazerem uma coisa destas. com todas estas pessoas aqui - disse
ela, dando uma volta como se estivssemos rodeados de convivas. Andvamos desesperados  vossa procura. Que vergonha disse ela, pondo as mos  frente da cara como
se se quisesse esconder por detrs delas.
- A rapariga est gelada - incitava o Tony.
- O qu?
- Jillian, pe-na dentro de gua quente e muda-lhe a roupa.
A mam abanou a cabea.
- No posso acreditar que me fizeste isto, Leigh. No posso acreditar - repetia ela, com um tom de voz cada vez mais agudo.
O Tony agarrou no cotovelo do meu brao esquerdo e levou-me em direco  escadaria. Olhei para trs para a mam
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que ainda estava de boca aberta. Uma das damas de honor, Ceclia Benson, estava mesmo atrs dela. A mam voltou-se.
Acreditas nisto? - perguntou-lhe. Cecilia olhou na minha direco, mas no disse nada, enquanto o Tony me apressava pelas escadas acima. Empurrou-me para dentro
da minha suite e, na sala de estar, ajudou-me a tirar rapidamente o casaco que estava gelado e molhado. Depois, arremessou-o para cima do sof e foi de imediato
para o quarto em direco  casa de banho.
No teu armrio tens um roupo de veludo com o smbolo da manso Farthinggale - disse ele, gesticulando. Tira essas roupas molhadas o mais depressa possvel.
Pouco depois, j estava a pr a gua do banho a correr. Os meus dedos tremiam enquanto tirava as luvas encharcadas. O calor que estava dentro de casa fez-me tomar
conscincia do frio que eu tinha passado e de como ainda estava gelada. Tremi ainda mais e ouvi os meus dentes a ranger. Comecei a tirar a camisola, mas os meus
braos tremiam tanto que no conseguia articular bem os movimentos. Quando j tinha conseguido pux-la at  altura da cara, senti o Tony a agarrar na camisola e
a ajudar-me a tir-la.
- Ests bem? Os teus lbios esto to roxos.
Eu acenei que sim com a cabea, desorientada com tudo o que estava a acontecer e to depressa. Agora, a mam odiava-me. Estava certa de que eu tinha feito de propsito
e eu ainda estava to gelada que no conseguia pensar bem nem falar suficientemente rpido para explicar.
- Senta-te na cama - ordenou o Tony. Depois de eu me sentar, ps-se de ccoras  minha frente e tirou-me os sapatos e as meias. - Os teus ps esto encharcados e
os dedos dos ps esto to vermelhos - disse ele. Segurou no meu p direito entre as suas mos e friccionou vigorosamente, fazendo depois o mesmo ao p esquerdo.
- Tens de ir depressa para dentro de gua ou apanhas uma pneumonia. - Levantou-se e foi  casa de banho verificar a gua do banho.
Desabotoei a minha saia humedecida e tirei-a com cuidado. A minha combinao tambm estava fria e hmida. Doam-me os braos e ainda tinha dificuldade em controlar
os dedos, mas consegui despi-la e voltei a sentar-me em cima da cama. Onde estava a mam? Porque  que ela no subia para me ajudar? Porque  que ela estava a deixar
esta tarefa para o Tony? Seria para me castigar?
- Est pronto - anunciou o Tony da porta da casa de
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banho. Levei os meus dedos  blusa mas os botes eram to grandes e to duros, e as pontas dos meus dedos faziam uma comicho doida pelo que fui incapaz de os desabotoar.
- Deixa-me ajudar-te - ofereceu-se o Tony.
- No, eu...
- Eu sei.  embaraoso. Mas eu dou-te s uma ajuda e tu fazes o resto.
Fitei os seus calorosos olhos azuis e a sua bonita cara. Ele estava to perto de mim que o meu hlito frio era instantaneamente aquecido pelo dele. Desabotoou o
boto de cima da minha camisa e depois o seguinte e o outro a seguir, fazendo tudo com graciosidade, mas com rapidez. Quando a camisa estava totalmente desabotoada,
ele parou e olhou-me nos olhos. O meu corpo ainda tremia todo, mas no era s de frio. Ele sorriu ternamente, pegou na minha mo direita e depois esfregou-a com
rapidez.
- Vais ficar boa - confortou ele. - Logo que estejas enfiada dentro da banheira.
- A minha me...
- Ela est s transtornada. Eu acalmo-a e mando-a j para cima. No te preocupes - disse ele. Parecia to atencioso, to meigo. Senti que o muro de dio que eu tinha
construdo entre ns se comeava a desagregar, mas continuava a lutar contra isso. Queria o meu pap. Mais do que nunca, precisava do meu pap, mas ele no estava
ali. Estava longe, muito longe, longe de mais at para ouvir a minha voz pelo telefone.
- V l - apressou ele. Levantou-se, ainda a agarrar a minha mo. Eu desci os meus ps ao cho e levantei-me. Enquanto isso, ele levou os dedos ao colarinho da minha
camisa e puxou-a devagar para trs por cima dos meus ombros e pelos braos abaixo. De um momento para o outro, estava de cuecas e soutien. - Vai - sussurrou ele,
e eu senti o seu hlito quente no meu pescoo. Sem olhar para trs caminhei at  casa de banho.
A enorme banheira estava cheia e a fazer bolhas. No podia parecer mais convidativa. Voltei-me e comecei a fechar a porta. Ele estava l, de p, ainda a segurar
a minha camisa nas mos, com um sorriso forado nos lbios.
Depois de fechar a porta, despi o soutien e as cuecas e entrei dentro da gua quente e azulada. Ao princpio, doam-me os tornozelos, mas pouco depois de mergulhar
por completo, senti uma maravilhosa onda de calor que afastava a sensao de frio. Gemi de prazer e fechei os olhos. Depois,
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veio a sensao de alvio, alagando-me, inundando-me de maneira a conseguir respirar, descontrair e at esboar um tnue sorriso. Ouvi baterem  porta e abri os
olhos.
"A mam subiu finalmente", pensei.
A porta abriu-se, mas no era a mam. Era o Tony. Espreitou com a cabea.
Esqueceste-te do roupo - disse ele e abriu mais a porta. Submergi o meu corpo o mximo que pude. A espuma do sabonete escondia parte da minha nudez, mas ainda me
sentia muito exposta e extremamente perturbada quando ele entrou e pendurou o roupo num gancho. - Como est a gua?
- Est boa.
- Eu sabia que estaria - afirmou ele, fitando-me. No percebia como  que ele podia ser to insensvel ao meu pudor, mas comportava-se como se fosse mesmo o meu
pai. No te sintas mal, o Troy vai ficar bem - disse ele, como se achasse que era essa a razo da minha expresso desconfortvel.
- Eu no pensei que nos podamos perder, porque conseguamos seguir as nossas pegadas na neve, mas comeou a nevar to depressa que cobriu tudo e...
- No faz mal.  srio - insistiu ele, ajoelhando-se ao lado da banheira. - A gua ainda est suficientemente quente? - Mergulhou o dedo a centmetros da minha coxa.
- Sim, est boa. bom, vais ficar bem, agora?
- Sim - respondi eu prontamente. Cruzei os braos por cima dos meus seios.
- Eu podia lavar-te as costas. Sou perito em lavar costas
- acrescentou ele, aumentando o seu sorriso.
- No. Estou quase a sair.
- No te apresses. No ests envergonhada, pois no? Agora somos uma famlia - prosseguiu ele. - Seremos to ntimos e chegados quanto possvel, como se tivssemos
vivido juntos a vida inteira. Vais ver. - Inclinou-se para a frente para me beijar a testa com ternura, agarrando a minha cara entre as palmas das suas mos. Manteve
a sua cara prxima da minha e olhou-me nos olhos, transparecendo nos seus luminosidade e afecto.
- bom, ainda bem que j c tens a maior parte das tuas coisas. Queres que te v buscar alguma coisa? Tambm sei fazer de criado de quarto, sabes - acrescentou com
um sorriso divertido.
- No. Ficarei bem.
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Ele acenou com a cabea, mas continuou a olhar para mim.
- Est bem - disse ele por fim. - vou ver como est a tua me e o Troy.
Soltei um suspiro profundo quando ele saiu. O meu corao palpitava com tanta fora que pensei que iria fazer com que a gua por cima do meu peito esguichasse. Nenhum
homem, nem o pap desde os dez anos, me tinha visto nua e ali estava eu, coberta apenas pela gua quente e pela espuma, com o Tony a poucos centmetros de distncia.
Tinha sido humilhante; mas tambm me tinha excitado de um modo que eu nunca esperara. Iria ser tudo to confuso, com ele a pensar que podia ser o meu pai. Voltei
a fechar os olhos e, no momento em que o fiz, imaginei os seus olhos azuis a perscrutar a minha cara, quase a tocar-me com o seu olhar intenso.
Quando passei a esponja ensaboada pelos seios, fiquei surpreendida por os meus mamilos terem ficado to duros. Seria devido ao frio e ao calor ou teria alguma coisa
a ver com a vibrao que eu sentia a subir pelas minhas coxas acima e a descer pelo estmago abaixo, quando pensava nos dedos do Tony dentro de gua, a dois ou trs
centmetros do meu corpo desnudado?
Antes de conseguir pensar sobre o assunto, a mam entrava de rompante pela casa de banho adentro. Tinha recuperado a sua calma, mas ainda estava muito zangada.
- Como pudeste fazer uma coisa to estpida, Leigh? Tu, uma rapariga inteligente, que tem umas notas to altas na escola? - perguntou ela, a andar para a frente
e para trs.
- Pensei que no fazia mal. Podamos seguir as pegadas e...
- Mistress Hastings foi l fora procurar o Troy e depois voltou para dentro e perguntou se algum vos tinha visto entrar. Por isso, o Tony mandou os empregados irem
 vossa procura e eles voltaram dizendo que no havia sinal de vocs os dois.
"Tu sabes como  o Tony em relao ao seu irmozinho, j de si imoderado e obviamente superprotector, mas quando ouviu dizer que tu e o Troy tinham desaparecido,
ficou doido de preocupao. Formou-se um grupo para ir  vossa procura pelo meio da tempestade. E eu, com todas aquelas pessoas c dentro.
Zs. A mo dela caiu sobre o balco de mrmore.
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Mas quando eles vos trouxeram para dentro e o Tony disse que se tinham perdido no labirinto...
- Mam, oia s...
Nada mais nada menos do que ir l para dentro no meio de uma tempestade. Em que  que estavas a pensar? Fizeste isto de propsito para me tentar envergonhar porque
tens pena do teu pai? Ou talvez hoje no te esteja a prestar ateno suficiente,  isso? Talvez no fosse suficiente o Tony ter-te oferecido esta suite e a princesa
teve de causar alguns problemas para que toda a gente reparasse nela!
NO! - gritei eu. - Aconteceu por acaso. Comeou a nevar to depressa que no nos apercebemos de que as nossas pegadas ficariam cobertas.
- Porque  que entraste no labirinto? - perguntou ela, com o olhar firme, o mais desconfiada possvel.
- O Troy queria-me mostrar a casa pequena e eu pensei
- Oh, aquela criana.  to mimado.
- No, mam, ele sente-se s e...
- Aquele menino precisa  de disciplina. Tens de ser mais firme com ele, Leigh. Insisto. Tens de te pr no lugar de irm mais velha, que sabe mais, percebes? Se
tiveres dvidas sobre alguma coisa que ele queira fazer, perguntas-me a mim ou ao Tony, mas no alimentes os caprichos dele. Oh, meu Deus - exclamou ela, vendo a
sua imagem no espelho.
- Olha como eu estou. E isto tudo a acontecer precisamente antes do meu casamento.
- Desculpe, mam. - Voltei a submergir na gua.
- Bem... e deves mesmo pedir desculpa. Este casamento  a coisa mais importante que alguma vez me aconteceu... ou a ti, minha jovem. Vai ser perfeito. No queres
adoecer precisamente antes do casamento, pois no? Ests a imaginar o aspecto que daria tu atrs de mim a fungar, a espirrar e a tossir durante o cortejo nupcial?
- Fez uma careta como se aquilo estivesse a acontecer nesse preciso momento.
- Est bem, mam. Eu vou para a cama mal saia do banho.
- ptimo. Oh, Leigh - disse ela, premindo a palma da mo contra o peito -, que susto. - Suspirou e depois sorriu como se algum tivesse fechado o livro nessa cena.
- Mais tarde virei c acima e teremos uma conversa ptima sobre a minha lua-de-mel. Contar-te-ei todos os pormenores e depois discutiremos o meu guarda-roupa, o
que devo levar, as jias, a maquilhagem, est bem?
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"Pobre querida. Tenho a certeza que ficaste aterrorizada l fora. Mas j passou - acrescentou de repente, acenando com a mo como se estivesse a enxotar moscas.
- Vamos esquecer o assunto. Temos demasiadas coisas maravilhosas em que pensar, no ?
- Sim, mam.
- ptimo. No quero ter mais nenhum dia triste depois do que se passou, nem mais um. Porqu eu? Tenho tudo o que algum pode desejar: juventude, dinheiro e um marido
bonito e extremoso. - Baixou o olhar para mim. - Tenho a certeza de que um dia ters o mesmo. Bem, sai da e seca-te ou vais ficar como uma ameixa seca - acrescentou
ela e riu-se. - vou mandar arranjar um ch quente.
Foi-se embora e eu sa da banheira. Sequei-me e vesti o roupo de veludo. Depois, fui para o meu quarto e escolhi a camisa de noite mais quente que encontrei. Enfiei
a camisa  pressa e rastejei para dentro dos cobertores.
Estava muito cansada. Adormeci mal fechei os olhos e nem sequer ouvi a empregada a trazer o ch.
A mam no faltou  sua palavra. Recusou-se a ouvir falar mais sobre o incidente no labirinto, como lhe chamou. Logo que o Tony e ela vieram  minha suite ver se
eu estava melhor e ele trouxe o assunto  baila, a mam interrompeu-o com uma veemncia surpreendente.
- Por favor, Tony, no falemos mais sobre este assunto. Aconteceu e j passou. Graas a Deus esto todos bem.
Uma das consequncias do incidente foi que a mam e eu amos passar a noite em Farthy. Quando o Tony nos deixou a ss, ela informou-me e explicou-me porqu.
- Dei razo ao Tony - disse ela. -  melhor ficarmos por c hoje  noite. Ainda est a nevar com muita intensidade e  melhor no te levar de novo para o meio da
tempestade. Amanh de manh, depois do pequeno-almoo, voltamos para Boston e acabamos os preparativos da mudana para Farthy. O Tony promete honrar os meus desejos
e no sair da sua suite hoje  noite - prosseguiu ela, com um sorriso coquete e um virar de ombros. A situao era fascinante.
- Tambm vo ter quartos individuais depois de se casarem?
- Claro.
- Mas nunca teve quartos individuais em Boston. Sempre partilhou o quarto com o pap - aleguei eu. Se ela estava apaixonada pelo Tony, pensei, porque  que queria
ficar
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separada? Quando me apaixonasse, sabia que nunca iria querer o meu prprio quarto. Iria querer dormir com o meu marido todas as noites, em todos os momentos.
Eu sempre desejei ter a minha suite, mas o teu pai nunca conseguiu perceber. Uma mulher precisa da sua privacidade. No quero o meu marido em cima de mim enquanto
estou a efectuar os meus rituais de beleza. H coisas que prefiro que ele no saiba - acrescentou ela, mirando-se num dos espelhos do meu toucador. - Tenho os meus
mtodos secretos para manter a minha pele sem rugas, mtodos esses que partilharei contigo quando chegar a altura, claro, mas um marido no precisa de saber.
"Uma mulher tem de manter a sua urea de mistrio. Se um homem souber tudo sobre ns, vai perder o interesse. Mas se conseguirmos surpreend-lo uma vez por outra,
ele vai considerar-nos excitantes para sempre.  por isso que h coisas que eu hei-de ensinar-te, mas que ns nunca haveremos de contar aos homens, mesmo queles
que amamos. Percebes? - perguntou ela, sorrindo.
- Sim. - Eu sabia que um dos segredos que ela queria manter bem guardado era o da sua idade. Possivelmente, se o Tony a visse  frente do toucador todas as noites,
haveria de calcular que ela era muito mais velha do que pretendia ser, pensei eu.
- E alm disso - continuou, a passear calmamente ao lado da minha cama, como se fosse uma professora e estivesse a dar uma aula -, h momentos em que no nos apetece
ter contactos ntimos com o marido. Os homens conseguem ser to insistentes, to incmodos com os seus impulsos e as suas necessidades. Importunam-nos at  exausto
e s param quando cedemos aos seus apetites.
"Se tivermos quartos separados, s  preciso fechar a porta e deixar do lado de fora todos aqueles comportamentos incmodos, irritantes e insuportveis. Se quiseres
permanecer jovem e bonita, tens de ser um pouco egosta, Leigh. Pensamos que um homem pode ser delicado e perceber, principalmente um homem que diz que te ama, mas
s vezes os homens no conseguem controlar-se. O desejo sexual deles  muito mais exigente.
"Mas - observou ela, acenando com a mo no ar -, de certeza que a esta altura j sabes muitas dessas coisas.
- Oh, no, mam. No sei.
- A srio? Como s inocente e amorosa - disse ela, olhando para mim como se estivesse a ver-me pela primeira
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vez. - Quando eu tinha a tua idade... - Fez uma pausa e mordeu o lbio inferior. - bom, esses tempos eram diferentes. Eu no tinha nem uma quarta parte do que tu
tiveste e estava  merc de companhias diferentes. Ns crescamos mais depressa.
"De facto - prosseguiu ela depois de soltar um profundo suspiro -, eu desperdicei metade da minha infncia, perdi aquele momento de inocncia maravilhoso em que
o mundo parece cor-de-rosa e em que no h nada mais trgico do que no sermos convidadas para uma festa ou termos uma borbulha na cara.
Comecei a rir; depois pensei que, se a mam encontrasse agora uma borbulha na cara, ia achar que era o fim do mundo. Nesse ponto de vista, ela no era assim to
diferente das minhas amigas.
- Pronto! - exclamou ela, voltando ao presente. - Fica na cama, confortvel e quentinha. O Tony vai mandar servirem-te o jantar c em cima.
- Eu posso vestir-me e ir ter com vocs  sala de jantar. Sinto-me ptima - protestei eu.
- No, no. Estiveste em estado de choque. Eu passo por c depois do jantar e teremos aquela conversa sobre a lua-de-mel. - E saiu.
Pouco depois, trouxeram-me o jantar por ordem do Tony, que transformou o jantar numa produo grandiosa, s para me divertir, tenho a certeza. Cada prato era servido
por uma empregada diferente e o Curtis trouxe a entrada. Depois, apareceu o Tony em pessoa com a sobremesa e uma pequena toalha no brao, como um empregado de mesa.
Vi-me impossibilitada de resistir e ri-me.
- Ah,  essa a cara que eu preciso de ver - reagiu ele. Retrocedeu, depois de pousar a tarte de leite-creme sobre a minha mesa-de-cabeceira. Senti-me corar. - Ainda
bem que ests a sentir-te melhor. A comida foi suficiente?
- Oh, sim, obrigada. Mas eu podia muito bem descer.
- No faz mal. Tens de te habituar a ser estragada com mimos. Agora vais viver como uma princesa - explicou ele, com uma voz terna e sedutora. - Farthy  um palcio.
Os Tatterton so um imprio. - Tinha uma expresso to sria, que eu nem esbocei um sorriso. - Queria comprar-te um guarda-roupa totalmente novo e disse  Jillian
para nem sequer ter o trabalho de emalar as tuas coisas de Boston, mas ela insistiu em trazer algumas.
- Eu tenho imensa roupa nova, roupa que ainda nem sequer
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estreei - repliquei eu. - No preciso de um guarda-roupa novo.
- Veremos. De qualquer modo, precisas de mais alguma
No, obrigada. O Troy est bem?
Quase a dormir, mas conto que seja um dos primeiros a acordar de manh. Por isso, no te admires se ele te entrar pela porta adentro quando descobrir que dormiste
c. Eu no lhe disse, mas ele  um Tatterton e, tal como eu, pressente tudo o que acontece de novo e de diferente em Farthy. Farthy faz parte de ns e ns fazemos
parte dela. Existe uma ligao estranha, quase misteriosa, entre os Tatterton e a sua casa - explicou ele, olhando  sua volta, como se a casa pudesse realmente
sentir, ouvir e saber as coisas que aconteciam no seu interior e o que era dito dentro dela. - Esta casa absorve-nos, a nossa histria, as nossas paixes, os nossos
desejos e sonhos - prosseguiu ele, num tom de voz pouco mais alto do que um murmrio.
O seu olhar parecia sonhador e longnquo e deu-me a impresso de que se tinha esquecido que eu estava no quarto com ele. O amor que nutria pela sua casa era to
intenso, quase assustador.
-  por isso que eu espero que esqueas a m experincia por que passaste hoje no labirinto - referiu ele, olhando para mim com os seus olhos azuis semicerrados.
- No culpes Farthy. Quero que venhas a gostar deste lugar tanto como eu.
- Eu no culpo ningum nem nada. Foi s um erro estpido - reconheci eu.
Ele calou-se, o que me ps nervosa, e senti que devia dizer mais qualquer coisa.
- Desde o primeiro momento que a vi, achei que Farthy era linda... Era como um reino de contos de fadas.
-  verdade - concordou ele. - Um reino de contos de fadas - sussurrou, com o olhar embaciado, longe dali. Voltou a haver um longo momento de silncio entre ns
e ento ele bateu com as palmas da mo uma na outra. Pronto. Deixo-te para comeres a tua deliciosa sobremesa. J a vir algum para levar os pratos. Dorme bem,
Leigh disse ele, vindo na minha direco. - Posso dar-te um beijo de boas-noites?
Eu hesitei. Seria isto outra traio ao pap? Sempre que estava em casa, vinha-me dar um beijo de boas-noites. O Tony, porm, parecia to sincero e arrependido que
no consegui
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dizer que no. Tinha-se preocupado tanto comigo. Tambm no era justo para ele, pensei. Acenei que sim com a cabea e ele inclinou-se e beijou-me ternamente na testa,
detendo os lbios um bocadinho mais do que eu esperava.
Depois, foi-se embora.
Os empregados vieram e levaram os meus pratos. Fiquei com o olhar fixo na porta vazia, a ouvir os sons vagos que vinham l de baixo. Acordava e adormecia, passava
pelas brasas uns minutos, num momento, e depois acordava, de repente, apercebendo-me de onde estava e do que tinha acontecido.
A mam veio ao meu quarto mesmo antes de ir para a suite dela, como tinha prometido. No entanto, em vez de conversar sobre os planos para a sua lua-de-mel, contou-me
tudo o que se tinha passado ao jantar, falou sobre alguns dos convidados, divagando sobre o servio, sobre a loua, sobre os vrios tpicos de conversa. O seu monlogo
ps-me ainda mais sonolenta e, quando os meus olhos se fecharam no meio de uma das suas frases, declarou que j estava na hora de ela ir dormir tambm.
- Queremos tomar o pequeno-almoo cedo e partir para Boston, no ? - disse ela e deu-me um beijo de boas-noites.
 porta, voltou-se e riu-se, um riso agudo, num tom alto.
- Que dia to estranho, ainda que maravilhoso, foi este
- disse. - Tenho a sensao de que a partir de agora todos os nossos dias iro ser to excitantes como este. Vais ajudar-me a tratar disso, no vais, Leigh?
Abri os olhos e olhei para a mam, perplexa. Que quereria ela dizer com isto? O seu casamento com o Tony no era a realizao dos seus sonhos? Qual era o meu papel
na felicidade dela?
- No vais, Leigh? - No era uma pergunta, mas uma exigncia feroz.
Aps um dia exaustivo, s queria era dormir.
- Claro, mam - concordei eu, com fraqueza, incapaz de encontrar foras para recusar, antes de entrar num sono profundo.
Partimos para Boston logo a seguir ao pequeno-almoo, tal como a mam tinha planeado. A tempestade de neve havia terminado pouco depois da meia-noite, mas tinha
cado uma quantidade to grande e com tanta intensidade que havia quase meio metro de neve. Farthy parecia um pas das
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maravilhas de Inverno  cintilante luz matinal do Sol. Era como se alguns dos pinheiros estivessem cobertos por lenis brilhantes, pois quase que no se via verde.
Durante a viagem de volta a Boston, a mam finalmente desvendou os pormenores dos planos para a sua lua-de-mel. Ela e o Tony iriam de avio at St. Moritz, ficariam
instalados no Hotel Palace, um sonho que eu sabia que ela tinha h muito tempo e, visto que o Tony esquiava to bem e j l tinha estado, este concordou prontamente.
 um lugar maravilhoso para passar a lua-de-mel -
contou-me ela. - Vo l estar membros da aristocracia europeia e tu sabes que eu sempre tive muita vontade de ficar instalada no Hotel Palace.
"Nunca tive uma lua-de-mel no verdadeiro sentido da palavra - prosseguiu ela. - Depois do casamento, o teu pai e eu viemos directos para Boston. Ele tinha prometido
levar-me a Havana, mas, como era de prever, logo que chegmos a Boston, alegou que havia surgido uma grave crise no seu negcio, em parte devido  sua estada prolongada
no Texas. Podes imaginar? Estava indirectamente a culpar-me por ter ficado no Texas mais tempo do que o previsto, para pedir a minha mo em casamento.
"Agora, finalmente - concluiu ela -, vou ter a lua-de-mel que mereo. Infelizmente, estaremos fora no Natal e no Ano Novo, mas ters tudo  tua disposio em Farthy
e montanhas de prendas. Se quiseres que o Miles te leve a algum stio, ele leva-te. Entendes, no entendes? - perguntou ela, sem parar para respirar. Estava quase
a implorar a minha aprovao.
- Sim, mam - respondi eu, mas no consegui deixar de me sentir infeliz por iniciar a minha vida em Farthy, que em parte ainda me era um lugar estranho, sem o pap
ou sem ela.
- Compensar-te-emos quando voltarmos. J sabes que o Tony est a mexer influncias para poderes frequentar o melhor colgio particular para raparigas das redondezas,
no ?
- acrescentou ela, repentinamente. Eu no tinha conhecimento de nada, pelo menos at esse preciso momento. Partira do princpio de que iria para uma escola oficial
perto de Farthy.
- No, no sabia. Que colgio, mam?
- Chama-se Winterhaven1. No  um nome maravilhoso
1 A traduo de Winterhaven seria "Refgio de Inverno", o que pode ser uma aluso ao facto de ser um colgio interno. (N. da T.)
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para um colgio particular? Soa a classe e riqueza, no soa? Sabes que  um colgio especial, porque tem uma lista de espera enorme, mas o Tony tem a certeza que
consegue mexer os cordelinhos e conseguir que tu entres, principalmente sendo tu uma aluna to boa.  interno - acrescentou ela bruscamente.
- Interno? Quer dizer que eu fico a viver l... como num colgio interno?
- O Miles leva-te de carro todos os domingos  noite e podes voltar todas as sextas-feiras, se quiseres. No te parece maravilhoso? Pensa em todas as amigas novas
que ters e todas elas provenientes de famlias conhecidas e abastadas. E tambm vais conhecer rapazes de boas famlias. Organizam bailes e encontros com uma escola
secundria s de rapazes. Vais estar finalmente rodeada de pessoas da tua classe, Leigh... finalmente - acrescentou ela, de um s flego. E depois, como se no houvesse
mais nada a discutir sobre este assunto, afastou-se e comeou outra vez a rever os planos para o casamento.
Eu recostei-me, estupefacta. Todas estas mudanas a precipitarem-se sobre mim! Ia passar o Natal e o Ano Novo sozinha em Farthy. Ia para um colgio s de raparigas,
interno, e teria de fazer novas amigas. A minha vida estava mesmo de pernas para o ar. Eu devia ter previsto isso, pensei, devia ter-me apercebido do que me iria
acontecer; contudo, tinha continuado a iludir-me, sonhando que iria tudo voltar ao que era. Agora que ouvia os pormenores mais complicados, os meus sonhos rebentavam
como bales. E no podia fazer nada.
Senti-me ainda mais triste e deprimida quando chegmos  nossa casa em Boston. Visto que o pap ia estar tanto tempo fora e ns nos amos mudar para sempre, os nossos
empregados tinham de ser despedidos. De quem eu gostava mais era do Clarence e do Svenson e eles simpatizavam comigo. Estavam connosco desde que eu me lembrava.
Aquela viagem a casa podia ser a ltima vez que nos vamos uns aos outros.
No entanto, fiquei contente quando soube que o pap os ia contratar para trabalharem num dos navios dele. Nos paquetes, havia sempre lugar para um bom cozinheiro
e, como o Clarence era um empregado to perfeito, ia ser nomeado para servir o capito do barco.
Uma segunda coisa que me fez feliz foi descobrir uma carta do pap. Tinha acabado de chegar das ilhas Canrias. O Clarence trouxe-a ao meu quarto, pouco depois da
nossa
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chegada. Percebi pela expresso dele que no tinha contado  mam. Talvez fossem essas as instrues que o pap deixara Eu no gostava de ter segredos com a mam,
mas pensei que assim talvez fosse melhor. No teria que se sentir mal com nada.
Abri a carta rapidamente e li-a.
Minha muito querida Leigh,
Espero que esta carta te encontre a salvo e bem de sade. Eu sei que no podes estar a sentir-te feliz com todas estas reviravoltas que a tua vida deu, mas espero
que, de algum modo, as coisas tenham acalmado e que, com o tempo, venhas a ser outra vez feliz. Eu, claro, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que tal acontea.
A minha viagem para as ilhas Canrias no teve incidentes de maior. Porm, o stio  bonito e estou contente por me terem convencido a inclu-lo no meu projecto.
Definitivamente, vai mesmo fazer parte das nossas rotas.
Partiremos dentro em breve para Miami, na Florida, onde irei trabalhar os meus itinerrios das Carabas com peritos em viagens, entre outras pessoas. Parece que
passarei l as festas, mas telefono-te na noite da passagem de ano. Sei onde estars.
 verdade, Leigh. Eu conheo os planos da tua me em voltar a casar. Foi um dos temas da nossa conversa naquele dia em que ela veio ao meu escritrio e te pediu
para nos deixares a ss. Eu sabia que isto s iria contribuir para aumentar o teu sofrimento, por isso no quis tocar no assunto. Talvez agora a tua me encontre
esse mundo de felicidade com o qual sonha. Ela tambm me contou que planeava mandar-te para uma das melhores escolas secundrias da costa leste. Fico mais descansado
sabendo que, pelo menos, desfrutars de todos os confortos materiais que a vida tem para oferecer.
Prometo ir visitar-te sempre que possa. Durante algum tempo gostava de me enterrar no trabalho. Tem-me ajudado a superar a crise emocional e a tragdia. No entanto,
 um consolo para mim saber que estars a quando voltar.
Neste momento s a nica parte suave e bonita da minha vida que me resta. No quero dizer nada que
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te faa chorar, por isso, fecha as escotilhas e espera que o meu barco regresse. Prometo que voltar.
com amor, do teu pap
As paredes do meu corao estremeceram. Retive as lgrimas c dentro e engoli os gritos que tentavam emergir da minha garganta latejante. O pap no queria que eu
chorasse; no queria que esta carta me deixasse triste, nem perturbada, mas era to difcil ler as suas palavras e no ouvir a sua voz, no ver a sua barba grisalha,
as suas faces rosadas, os seus olhos plenos de orgulho e de amor. Era difcil ouvir as palavras na minha mente e no o imaginar l em baixo, no seu escritrio, a
escrevinhar na sua velha escrivaninha. Queria gritar "No, NO, NADA DISTO ACONTECEU!" Queria que os meus gritos apagassem todos os momentos infelizes e que nos
trouxessem de volta os momentos felizes. No vou tolerar isto, no vou, no vou!
O meu corao palpitava com fria e frustrao; porm, os meus punhos frgeis e fracos aterraram insignificantemente em cima da mesa. Quem iria ouvi-los? Quem se
importaria? Deixei cair a cabea nos braos, em cima da carta do pap, e afoguei os meus gritos respirando fundo. Depois, ergui a cabea, dobrei a primeira carta
do pap com cuidado e pu-la dentro do meu dirio. Sabia que iria ficar cada vez mais fina e estragada nas pontas, comigo a abri-la e a fech-la constantemente, depois
de a ler e reler.
Quando a mam passou pelo meu quarto, j estava recomposta e ocupada a empacotar as ltimas coisas que queria levar para Farthy. Claro que amos deixar muitas coisas
ali, em Boston. A mam tinha decidido que algumas coisas no tinham qualidade suficiente para irem para Farthy; outras, ela iria comprar novas para as substituir.
- No vais acreditar nisto - disse ela, perdida de riso. Acenava com uma carta. - A minha me decidiu que afinal vinha ao meu casamento, apesar de as minhas horrveis
irms no comparecerem.
"Alis - continuou ela, fitando a carta -, se no houve alteraes de horrio, ela deve chegar hoje a Boston.
- Quando? A que horas? - Uma visita da av Jana era sempre uma ocasio especial. As suas visitas no eram frequentes porque ela detestava viajar e no gostava do
Norte, principalmente do Nordeste. No entanto, quando chegava,
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ausava sempre bastante rebulio. A mam no ficava muito contente quando ela vinha e soltava sempre um suspiro de alvio quando a av se ia embora. A mam olhou
para o relgio.
- pode ser a qualquer momento.  melhor avisar os empregados, em especial o Svenson. Sabes como ela costuma ser meticulosa com a comida. Oh, raios. Estava  espera
que ela e as minhas irms com cara de bruxas chegassem juntas no dia do casamento, que assistissem e se fossem logo embora. Neste momento, no tenho tempo para lhe
dar ateno. Tens de me ajudar, Leigh. Ela gosta mais de ti do que de mim.
- Oh, mam, no gosta nada - protestei eu.
- Gosta, sim, mas no faz mal. Eu no me importo. At  milagre ela gostar de algum. Agora, por favor - pediu-me a mam -, no ponhas uma cara infeliz. J vou ter
de a ouvir a dizer cobras e lagartos sobre o meu divrcio e o meu segundo casamento to rpido. Se ela te v para a a fazer caretas...
- Eu no vou andar para a a fazer caretas - protestei eu, voltando-me rapidamente, para ela no reparar nos meus olhos.
- ptimo. Assim  que , minha menina, minha querida menina - exclamou. - Bem, o que  que ia fazer? Ah, sim, avisar os empregados - disse ela e saiu do meu quarto
a correr.
A av Jana chegou realmente pouco menos de duas horas mais tarde, queixando-se amargamente dos avies, dos comboios e dos txis, ao mesmo tempo que entrava em casa
atrs da sua bagagem. Ouvi-a a gritar com o taxista que se debatia com a bagagem e que arranhou uma mala na porta,  entrada. O Clarence foi a correr ajudar o pobre
homem.
Era difcil acreditar que uma senhora de idade, com pouco mais de um metro e meio de altura, uma pequena amostra de mulher, conseguisse pr homens feitos num rodopio
e a tremer daquela maneira, mas a voz dela soava como um chicote quando estava zangada e os seus olhos pequenos e penetrantes faziam fascas. Tinha o seu cabelo
dourado-prateado apanhado num carrapito to apertado que at parecia que a pele do canto dos olhos e a testa estavam deformadas, o que apenas contribua para o seu
comportamento furioso e impetuoso. At a mam parecia aterrorizada e recuou, com as mos entrelaadas contra o peito, enquanto a av Jana balanava a sua bengala
ameaadoramente na direco
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do taxista que estava desejoso de passar o testemunho ao Clarence. Fiquei parada, na escadaria, a observar.
- Aquelas malas sobreviveram nas mos de monos no aeroporto. No pretendo que se estraguem a caminho da casa da minha prpria filha - guinchava ela, enquanto o taxista
fugia a sete ps.
- Ol, me - cumprimentou a mam. Deu-lhe um abrao desastrado, durante o qual a av Jana no tirou os olhos do Clarence, que tentava, aflito, carregar as malas
pela escadaria acima, com o mximo de cuidado possvel. Os olhos dela encontraram-me.
- No fiques a especada, rapariga. Cumprimenta a tua av - ordenou ela. Desci a correr os degraus que faltavam. A av Jana deu-me um abrao verdadeiro e um beijo
que me aqueceu o corao e depois afastou-me. - Deus meu, olha para ti. Cresceste quase trinta centmetros, e de outras maneiras tambm, pelo que vejo.
- No cresci tanto assim, av - disse eu a sorrir. Ela grunhiu e virou-se para a mam.
- Antes de me instalar, quero saber o que se est a passar... com todos os pormenores - informou ela. Os lbios da mam tremeram enquanto forava um sorriso. A av
olhou em volta. - Imagino que o Cleave j no esteja nesta casa - acrescentou.
- No, est numa das suas viagens.
- Hum! - resmungou a av. Foi directamente para o escritrio do pap e abriu as portas com um empurro, apontando para dentro com a sua bengala. A mam lanou-me
um olhar rpido, rezando para que eu pensasse em alguma coisa para dizer em sua ajuda, mas eu estava to chocada como ela com a rudeza da av Jana.
- No quer uma chvena de ch ou lavar-se primeiro, me?
- Absolutamente no. Usaremos o escritrio do Cleave
- insistiu ela e entrou. - JILLIAN! - chamou a av.
- Est bem, me. - A mam abanou a cabea, impotente, e seguiu a av ao escritrio do pap. O que  que a mam lhe teria contado sobre o divrcio e o segundo casamento
que a tinha posto to nervosa?
- Fecha a porta atrs de ti - ordenou a av, no momento em que a mam estava a entrar no escritrio. A mam fechou a porta, mas ficou mal fechada e eu conseguia
ouvir as vozes delas. Dei uma vista de olhos  escadaria quando o Clarence vinha a descer, limpando o suor da cara. Ele sorriu-me
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e depois foi-se embora. No havia mais ningum no trio de entrada. No conseguindo controlar a minha curiosidade, sentei-me no banco colonial que estava colocado
mesmo  esquerda da porta do escritrio do pap, a fingir que estava  espera que elas sassem.
Ento, que histria  essa de o Cleave no te amar -
comeou a av Jana. - No estavas preocupada com isso quando eu consegui que ele se casasse contigo, a correr, no Texas. Tiveste uma sorte danada em encontrar algum
to bem instalado na vida que te quisesse.
- Tu sabes que eu nunca me resignei com esse casamento. Sabes que nunca amei o Cleave e nunca o consegui. Eu no era capaz de acreditar no que estava a ouvir. Nunca
amara o pap? Nunca conseguira? Mas a histria... as estrelas cadentes... a Cinderela...
- Nunca conseguiste? - bufou a av. - Suponho que terias sido mais feliz agora, se eu te tivesse deixado casar com aquele intil do Chester Godwin, depois de ele
te ter engravidado, hem? Sim, suponho que a ele conseguiste tu amar. A esta hora estariam os dois a viver numa simptica barraca, no bairro da lata, e a Leigh andaria
por a esfarrapada.
"Mas em vez de me agradeceres por te ter arranjado um homem rico e decente, que te iria proporcionar uma vida mais do que confortvel, o que  que fazes?... Detestas-me
e ainda deitas tudo a perder por um homem quase vinte anos mais novo!
As palavras dela feriram-me os ouvidos: "... depois de ele te ter engravidado..."? O que  que a av Jana estava a dizer? A mam j tinha estado grvida uma vez
antes de me ter a mim? Fizera um aborto? Havia outra criana?
- Eu no estava  espera que tu percebesses alguma coisa - replicou a mam, hesitante -, e muito menos que te importasses com os meus sentimentos, com as minhas
necessidades e os meus desejos. O Cleave agora  um velho. No se interessa por nada que no seja o seu negcio. Sou jovem de mais para me enterrar e tive a sorte
de ter encontrado um homem como o Tony Tatterton. Espera at veres a manso Farthinggalle, espera at veres...
- O que  que este jovem sabe do teu passado? Sabe a verdade? Contaste alguma vez a verdade ao Cleave, ou ele ainda pensa que a Leigh  filha dele? - perguntou a
av Jana.
Foi como se um par de mos gigantescas, invisveis, me
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tivessem agarrado pela cintura e me comprimissem. Inclinei-me sobre os joelhos, de agonia, abraando-me a mim prpria. Que dizia a av Jana...? O pap no era o
meu pai verdadeiro? Houvera outro homem que a engravidara e o pap casara com ela sem saber? Quem era eu? Como  que ela podia ter escondido um segredo to horrvel,
to horrvel, do pap e de mim!
- Porque  que eles tm de saber essas coisas? - interrogou a mam, com a voz a enfraquecer.
- Bem me parecia. - Podia imaginar os olhos da av Jana a fulminarem a cara da mam. - Esse Tony Tatterton sabe a tua verdadeira idade?
- No - respondeu a mam, baixinho. - E por favor, no lhe digas. No me estragues a vida.
-  repugnante. Outra vida construda sobre mentiras. A minha cabea est no seu lugar e eu devia era dar meia volta e ir directamente para casa, mas vim e ficarei,
por ateno  Leigh. Aquela pobre criana, a ter de passar por situaes atrs de situaes, arrastada por uma me egosta, vaidosa, insensata.
- Isso no  justo - gritou a mam. - Tenho feito tudo o que posso para que a Leigh tenha uma vida feliz, mais feliz do que a minha, que foi uma desgraa. Agora
vai viver como uma princesa e frequentar as melhores escolas e conhecer a nata da sociedade, e tudo graas a mim, graas  minha beleza e graas ao estado em que
a minha beleza pode deixar um homem!
- Daqui no provir nada de bom - predisse a av Jana, numa voz bblica. - Ouve o que te digo. Tu s uma pecadora, Jillian! - pronunciou a av Jana num tom de voz
apocalptico. - E muito pior, s uma pecadora muito mais estpida do que eu alguma vez imaginei!
- bom, est tudo feito, assinado e selado, e no h mais nada que possas fazer ou dizer sobre este assunto. J no diriges a minha vida como o fazias no Texas, e
no quero que andes por a a escarnecer de tudo. Isto vai ser o casamento mais maravilhoso, talvez o acontecimento social mais importante do ano, em Nova Inglaterra.
- Hum! - resmungou novamente a av.
A mam comeou ento a descrever os planos para o seu casamento. Levantei-me do banco devagar, parecendo uma sonmbula a subir as escadas, ainda agarrada a mim prpria.
Nunca contaria ao pap, pensei. Nunca partiria o corao dele, e estava-me nas tintas para o que era verdade e o que
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era mentira... Na minha mente e no meu corao, ele seria sempre o meu pap. Mas a mam, todas aquelas mentiras, aquelas histrias. Era como se estivessem a rebentar
bolhas  minha volta, luzes a estilhaarem-se, bandeiras a esvoaarem pelo ar, o meu mundo a ruir como uma casa feita de cartas de jogar, ou, como a av Jana disse,
uma vida de mentiras.
E a mam a viver a maior mentira de todas. O conselho dela veio-me  boca como leite azedo. Ainda conseguia visualizar a cara dela quando mo disse, com a sua mscara
de sinceridade, falsa sinceridade:
"Lembra-te disto, Leigh: as raparigas decentes no vo at ao fim. Pelo menos, enquanto no se casarem. Promete-me que no te vais esquecer disto."
No esquecerei, mam.
No topo da escadaria voltei-me. Queria gritar c para fora, queria que ela soubesse que eu tinha ouvido.
NO ESQUECEREI, MAM!

9A MARCHA NUPCIAL

Nada fiz para que a mam percebesse o que eu tinha ouvido casualmente, enquanto estava sentada  porta do escritrio do pap; mas agora, sempre que olhava para ela,
via algum diferente da mulher com quem eu tanto tinha desejado parecer-me. Era quase como se a minha verdadeira me se tivesse ido embora, deixando em seu lugar
esta ssia, esta mulher que tinha o cabelo da mam, os olhos da mam e a linda pele da mam, mas que, por dentro, era vazia.
De qualquer modo, passmos a maior parte do nosso tempo a discutir os ltimos preparativos para o casamento. Vendo bem, era o nosso nico tema de conversa. At a
av Jana era arrastada para as discusses quando a mam, inteligentemente, lhe perguntava a opinio sobre isto ou aquilo. E depois Farthy, com os seus poderes mgicos
e a sua presena mstica, dominou a av por completo. Apesar do sentimento que nutria em relao  mam deixar o pap e casar-se com um homem to mais jovem, a av
Jana ficou impressionada. O tamanho e a opulncia da Manso Farthinggale deixaram-na sem flego. Quando atravessmos os portes, a expresso dela era de espanto,
perguntando-se em voz alta, tal como eu o tinha feito, como era possvel um nico homem possuir tanta coisa.
O Tony tambm lhe dera a volta com o seu charme, tratando-a como se ela fosse um membro da famlia real. Se ele tivesse um tapete vermelho para lhe estender sobre
os degraus e sobre a neve, t-lo-ia feito. Colocou a mo direita dela sobre o seu brao esquerdo, escoltou-a atravs dos enormes quartos, explicou-lhe quem era a
pessoa neste e naquele retrato ancestral, passou bastante tempo a rever a histria desses antepassados e falou-lhe dos seus pais e avs.
Ao almoo, ps os empregados e as empregadas a servirem  volta dela como abelhas. Mal a av pensava em levantar
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uma colher ou em ir buscar um prato, aparecia logo um empregado que se antecipava aos seus desejos e o fazia por ela E enquanto isso, a mam deixou-se ficar em segundo
plano, sossegada, a fazer o seu sorriso tipo Mona Lisa. Qualquer resistncia ou reserva que a av Jana trouxesse  chegada desaparecera. Depois de assistir  maneira
como o Tony Tatterton a apaparicara, a adulara, a encantara com os seus modos, a sua aparncia e a sua fortuna, percebi porque  que um homem deste tipo conseguia
roubar o corao de qualquer mulher, especialmente o de uma mulher como a mam.
- Eu tinha a certeza que o Tony Tatterton conseguia dom-la - sussurrou a mam ao meu ouvido quando fomos para a nossa casa de Boston pela ltima vez, pois no dia
seguinte seria o casamento e, quando voltssemos, seria para sempre.  noite, mesmo antes de ir dormir, empacotei todas as minhas fotografias e lembranas importantes.
Deixara esta tarefa para o ltimo momento, pois tinha esperanas de que nada disto fosse acontecer. Agora, porm, o meu destino estava traado.
De manh, a casa zumbia de actividade. A mam voava de uma diviso para a outra como uma abelha num campo de flores selvagens. Estava to agitada e excitada que,
quando eu lhe fazia a pergunta mais simples do mundo, entrava em pnico e implorava-me para que eu resolvesse o problema sozinha. Recusou-se a comer ao pequeno-almoo.
Eu tambm no tinha muito apetite, mas comi o que consegui. Esta seria a minha ltima refeio preparada pelo Svenson; a ltima servida pelo Clarence. S quando
entrmos na limusina  que me apercebi de que a mam no tinha convidado nem o Svenson nem o Clarence para o casamento. Encontravam-se os dois  porta, lado a lado,
enquanto o Miles arrumava as malas na bagageira.
- Boa sorte para si, menina - desejou-me o Clarence, com a lgrima ao canto do olho.
- E no se esquea de nos vir ver quando for a bordo do paquete do seu pai - disse o Svenson.
Murmurei um adeus e entrei a correr atrs da mam. Sentia as minhas prprias lgrimas latentes nos olhos. A mam olhou para a minha cara e gemeu.
- Oh, Leigh, por favor, no ponhas essa expresso to deprimida no dia do meu casamento. O que  que as pessoas iro pensar?
- Deixa-a sossegada - replicou a av Jana. - No  o dia do casamento dela. Ela pode ter a expresso que quiser.
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- Bem, eu no posso passar o tempo a tentar anim-la Hoje no. Tenho demasiadas coisas para fazer - afirmou a mam com petulncia. Depois, fez beicinho e olhou para
o outro lado. Nunca me tinha apercebido de que ela podia ser to mimada quando no lhe faziam tudo exactamente como queria.
Olhei para trs e contemplei a nossa casa de Boston. O Clarence e o Svenson ainda estavam nas escadas a ver-nos a partir. Recordei os tempos em que era pequena e
sabia que o pap devia estar a chegar a casa a qualquer momento de uma das suas viagens. Brincava na sala de estar, mantendo sempre um ouvido  escuta na direco
da porta principal. Logo que ouvia o Clarence a abri-la, ia a correr saudar o pap e, por muito cansado que estivesse, ele abria-se sempre num enorme sorriso alegre
e estendia os braos para que eu corresse para eles. Eu dava-lhe um beijo enorme e sonoro na face.
-  assim  que se d as boas-vindas a um marinheiro!
- exclamava ele. - Hem, Clarence?
Ainda agora conseguia ouvi-lo. Depois da primeira curva, a casa desapareceu de vista e deu-me a impresso de que a minha infncia tinha acabado num instante.
Desta vez, quando passmos por baixo do eminente arco dos portes de Farthy, senti o significado deste acto. Esta enorme propriedade era agora a minha casa, pensei,
quer eu quisesse quer no. Os trabalhadores estavam ocupados a limpar todos os flocos de neve remanescentes no caminho e nas escadas. Duas empregadas estavam absorvidas
na limpeza de cada resduo de bronze e de ferro  vista, e meia dzia de homens, a limpar as portadas e os vidros.
Os preparativos para o casamento junto com as decoraes da poca natalcia criavam uma atmosfera extremamente festiva. Havia luzes espalhadas pelas sebes, lanternas
a balouar, suspensas nas rvores sempre verdes, e enfeites prateados e dourados por todo o lado. O boneco de neve do Troy, apesar de ter diminudo consideravelmente
por causa da luz do Sol, ainda se erguia em frente da manso. Ele tinha-lhe posto uma cartola na cabea e uma gravata preta  volta do pescoo. A viso do boneco
provocou-me um sorriso de boas-vindas, apesar de a mam achar que algum j devia ter mandado aquilo abaixo.
- Oh, o Troy vai ficar desolado. Teve tanto trabalho com o boneco.
- Existe um tempo e um lugar para estas coisas, Leigh.
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O Tony tem de deixar de alimentar os caprichos do irmozinho!
Fez um sorriso rpido para a av Jana. - Agora que
eu estou aqui, tudo isso vai mudar.
L dentro, a orquestra ensaiava no salo de baile; o pessoal da cozinha punha a comida nas mesas gigantes. Os arrumadores estavam reunidos  volta do chefe deles
como jogadores de futebol  volta do treinador, para receber as ltimas indicaes. A mam subiu directamente  sua suite para dar os ltimos retoques com a ajuda
do seu cabeleireiro. Havia um trfego ininterrupto de pessoas nos corredores: damas de honor, acompanhantes, floristas e fotgrafos. Um redactor da coluna social
do Globe estava  porta da suite da mam a tentar que ela lhe concedesse uma entrevista.
O Troy estava muito excitado. Sempre que tinha oportunidade, levava as pessoas a verem a sua coleco de brinquedos. Passaram por l parentes, primos, tias e tios.
Nunca pensei que uma casa daquele tamanho pudesse ficar to cheia. Pensei que o casamento ia ser uma confuso, mas, quando chegou o momento, tudo e todos estavam
no lugar certo.
Fui ter com as outras damas de honor ao corredor do primeiro andar. Deram a cada uma um bouquet de rosas para levarmos. O Troy, bonito como sempre no seu smoking
e gravata preta, foi arrastado pelas escadas abaixo para ocupar o seu lugar no altar, junto do Tony. Por fim, fez-se silncio. Ouvimos as primeiras notas do piano.
Uma onda de emoo passou pelas faces de todos.
A mam surgiu da sua suite com um ar anglico no seu vestido de noiva vitoriano coberto de prolas. Sorria atravs do vu e parou para me apertar a mo, quando passou
por mim. O meu corao comeou a bater com tanta fora e a minha cara estava to quente que pensei que ia desmaiar. Senti-me horrvel, pois sabia que lhe devia dizer
qualquer coisa terna, qualquer coisa amorosa, mas doa-me a garganta de engolir as lgrimas.
- Deseja-me boa sorte - pediu-me ela.
Sorte? O que  que a sorte tinha a ver com o amor e com o casamento? A mam ficara grvida de mim por azar ou apenas por estupidez? O pap viera ao Texas naquela
noite fatdica por azar ou por manipulao da av Jana? A Elisabeth Deveroe lembrara-se da mam para fazer o trabalho em Farthy e tinha-a levado l para conhecer
o Tony por sorte ou por azar? Ele apaixonara-se por ela ao primeiro olhar por sorte ou por azar? Teria o pap pensado que tudo tinha sido um grande azar? Estaria
a pensar isso agora?
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Onde estaria o pap nesse momento?, pensei. A meio caminho da Florida, talvez de p, na ponte do seu navio, a olhar para o mar e a pensar em ns, aqui em Farthy?
Estaria a pensar em mim?
- Boa sorte, mam - murmurei rapidamente, enquanto ela continuava em direco ao fim do grupo.
Ouvimos a Marcha Nupcial e a procisso comeou. Enquanto descamos a enorme escadaria, baixei o olhar para o mar de rostos que se me deparavam, para aqueles homens
e mulheres elegantemente vestidos, todos eles a olhar para cima, a contemplar-nos, e senti-me como se fizesse parte de um grandioso espectculo. A mam, obviamente,
era a estrela. Eventualmente, estariam todos de olhos postos nela. Eu j me encontrava no meu lugar; por isso, quando ela fez a curva no fim da escadaria, conseguia
ver-lhe a cara. Estava linda e esttica. Encontrava-se pura e simplesmente no lugar que sempre desejara, pensei, no centro das atenes.
E, de repente, apeteceu-me gritar "PRA!", de acabar com tudo e de revelar bem alto o meu desconforto e a minha agonia. "Como  possvel que estejam todos to alegres
e excitados! Como  possvel que queiram todos fazer parte disto?" Sonhei que gritava. Queria contar a verdade a todas essas pessoas ricas e sofisticadas. "A minha
me nunca contou ao meu pai a verdade sobre mim. Temos vivido uma mentira durante todo este tempo e agora ela afastou-me dele e trouxe-me para aqui, para viver com
um homem vinte anos mais novo do que ela. Mais falsidades. Tudo mentiras, mentiras, mentiras!"
No entanto, cobarde como sou, engoli as palavras do meu sonho. A potncia da msica, das luzes, da emoo e a viso do Tony, to alto e elegante, de p, junto ao
altar, e o pequeno Troy com uma expresso to adulta e sria ao seu lado, tudo isso me deteve. Senti-me totalmente impotente perante aquela loucura, levada nas suas
ondas. Avistei a av Jana sentada na fila da frente e vi-a acenar e sorrir para mim. A esta altura, at ela tinha sido absorvida pela cerimnia. Os acontecimentos
fluam, transcendendo-nos. No conseguamos sust-los.
O pequeno Troy espreitou por detrs do Tony  minha procura. Quando me viu, sorriu e acenou-me com a mo. O Tony fitou-o e ele, diligente, retomou o seu lugar. A
seguir, a mam ocupou o seu lugar no altar; a msica parou e as palavras comearam. O meu corao palpitava ao som das palavras, principalmente ao som de "... e
prometo ser-te fiel
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e amar-te e honrar-te, tanto na prosperidade como na provao at Que a morte nos separe."
A mam pronunciara o mesmo voto com o pap e fora em vo. Qual era o valor de proferir essas palavras, at mesmo perante o altar? Observei a expresso do Tony para
desvendar o que lhe ia na cabea. Teria pensado o mesmo que eu... que ela pronunciara as mesmas palavras com outro homem e que quebrara esse voto? Desta vez seria
a srio?
O Tony olhava para os olhos da mam, enquanto ela falava. Parecia enfeitiado. De uma maneira subtil e misteriosa, ela havia conseguido penetrar nos seus reinos
e agora controlava tudo, pensei. Parecia que ele estava pronto para aceitar ou dizer qualquer coisa s para a possuir. Detestava-o por estar to apaixonado por ela.
Chegou o momento em que o pequeno Troy tinha de exibir a aliana. No meio daquela excitao, precipitou-se a tir-la do bolso e deixou-a cair. O som metlico pareceu
ecoar pelo colossal trio de entrada e houve um sobressalto simultneo de todos os espectadores, assemelhando-se a um suspiro conjunto de gigantescas dimenses.
Percebi que o Troy estava prestes a chorar, mas o Tony apanhou rapidamente a aliana e deu-lha para ele lha devolver. A mam fulminou o Troy com o olhar, retomando,
logo a seguir, o seu sorriso.
As alianas foram apresentadas, as derradeiras palavras pronunciadas e o pastor declarou-os unidos pelo matrimnio. Beijaram-se e o pblico aplaudiu. A mam lanou
o seu enorme bouquet na direco das damas de honor e foi cair directamente nas mos da Nancy Kinney, a dama de honor com o aspecto mais singelo. A seguir, ela e
o Tony atravessaram a multido imensa e deu-se incio  recepo.
Levei um copo de ponche e hors d'oeuvres  av Jana, que estava sentada na sala de msica a cumprimentar pessoas. O Troy, um pouco assustado pela multido e pelo
alvoroo  sua volta, no se afastou de mim a maior parte do tempo. Andavam dois fotgrafos pela casa a tirar fotografias para o lbum do casamento. Tiraram algumas
a mim e ao Troy, ao p um do outro, em que estvamos ambos com os olhos esbugalhados e um pouco desconfortveis, comigo ainda agarrada ao bouquet de rosas.
Pouco depois, abriram as portas do grandioso salo do banquete e os convidados foram entrando, aliciados pelo som da orquestra. Quando j estavam quase todos no
salo, o maestro mandou parar a orquestra e foi ao microfone anunciar a festa do casamento. Primeiro entraram todas as
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damas de honor seguidas do Troy. Aps um rufar de tambores, a mam e o Tony entraram de brao dado, e a cara dela resplandecia de excitao. Os aplausos foram aumentando
em crescendo e ouvia-se o rumor de mquinas fotogrficas. A mam e o Tony deslocaram-se para o meio da pista de dana e a orquestra comeou a tocar uma valsa. Danaram
como se tivessem danado juntos a vida toda.
Enquanto eles davam voltas e se movimentavam com graciosidade, no conseguia deixar de imaginar o dia do meu casamento. Iria ser um acontecimento grandioso como
este, com uma orquestra completa, centenas de convidados, toneladas de comida e uma horda de empregados? Se a mam levasse a sua avante, iria ser assim. Talvez at
me casasse aqui, seguindo a tradio dos Tatterton, que se ia tornar agora a minha. E o meu marido, seria to bonito e to jovial quanto o Tony? Iria estar profundamente
apaixonada ou iria a mam encontrar-me um aristocrata rico qualquer e convencer-me a casar-me com ele?
E quando vestisse o meu vestido de noiva, ficaria de algum modo parecida com a mam? Reparei no respeito e na inveja que transpareciam nos olhos das outras mulheres
enquanto ela e o Tony danavam. No havia um fio de cabelo fora do lugar; a sua pele era perfeita. Parecia uma deusa, uma esttua de Afrodite ressuscitada.
Pouco depois, outros casais foram juntar-se ao Tony e  mam na pista de dana, e a recepo entrou em pleno ritmo. Eu sentia-me rodeada de champanhe a borbulhar.
Bebi dois copos e senti-me um pouco tonta.
Fiquei contente quando o Troy me encontrou e me puxou pela mo, insistindo para que eu o seguisse para "ver uma coisa". Escapmo-nos do salo de baile, atravessmos
o som da msica, das conversas, do tinir dos copos de champanhe, o som estridente dos risos e percorremos o corredor at uma sala de estar nas traseiras. O Troy
abriu a porta dupla com um empurro. O cho da sala estava inundado de prendas de casamento, algumas empilhadas a uma altura de quase um metro.
- Olha para isto! - exclamou ele. - O Tony disse que podamos abrir tudo mais logo.
Eu s conseguia acenar com a cabea, de espanto. Havia tanta coisa. O Troy caminhou atravs dos corredores de prendas, tocou em algumas, deu pancadinhas leves em
outras e depois encostou o ouvido s caixas para ver se descobria o seu contedo. Eu ri-me e abanei a cabea.
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- Ests feliz, Troy? Feliz por o teu irmo estar casado e por a minha me vir viver para c com ele? - Ele parou de
inspeccionar os presentes de casamento e virou o olhar para mim, com uma expresso sombria. - No ests feliz, Troy?
Continuou silencioso.
- Mas porque no?
- A tua me no gosta de mim - disse ele, com um ar de quem estava prestes a chorar.
O qu? Porque  que dizes isso, Troy? - Ele encolheu os ombros. - Diz-me, por favor.
Ela olha para mim com rosnidos nos olhos - respondeu ele de rompante.
- Rosnidos? O que  isso? Ele rosnou como um co.
- Ah! - Comecei a rir, mas percebi que ele estava muito srio. - Oh, tenho a certeza que no  a inteno dela, Troy.  s porque...  que ela nunca teve um menino.
Ela s me teve a mim e no est habituada a meninos. Daqui a algum tempo, vai-se habituar a ti e tu a ela.
Ele voltou a encolher os ombros; percebi pela sua expresso que no tinha muitas esperanas.
- Tenho pena que no estejas contente por o teu irmo se ter casado, Troy.
- Eu estou contente. Tu agora ficas aqui, no ?
- Sim. Agora fico aqui.
- Ento, estou contente - repetiu ele, batendo palmas com as suas mozinhas.
- Ainda bem - disse eu. - Vendo bem,  tambm o que mais me agrada nesta situao. - Ajoelhei-me e abracei-o.
- Anda - chamou ele, dirigindo-se para a porta. - Vamos voltar para a festa, seno perdemos o bolo.
Dei uma olhadela  montanha de prendas e depois voltei com ele para o salo de baile.
Tinham montado uma mesa especial ao centro da sala. Sobre a mesa, encontrava-se um bolo de casamento que ia at ao cu, com as figuras do noivo e da noiva a danarem
sob a palavra PARABNS. A mam e o Tony foram at  mesa para a tradicional cerimnia do corte da primeira fatia. A mam cortou-a com cuidado e deu-a a comer ao
Tony, que tentava desesperadamente manter alguma dignidade enquanto ela lhe enfiava a enorme fatia pela boca abaixo, mas a cobertura cremosa espalhou-se pelo queixo
dele e caiu sobre o smoking. Todos riram e aplaudiram. Quando ia ter
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com a av Jana para receber o meu pedao de bolo, a mam agarrou-me o brao.
- Correu tudo bem, no correu? - Olhou em volta, orgulhosa. - Estas pessoas jamais se esquecero. Vai ser um eterno tema de conversa. E a tua av? - perguntou, olhando
na direco da av Jana, que estava embrenhada numa conversa com outra senhora da idade dela.
- Parece estar a divertir-se.
- Ficarei mais descansada quando a av voltar para o Texas. Sabe-se l o que ela anda para a a dizer a estas pessoas. - Perguntei-me a mim prpria se a mam estava
com medo que a av Jana me contasse a verdade sobre o seu passado. Virou-se para mim. - O que foi?
- Nada, mam.
- Pareces triste. Como  que algum pode estar triste numa ocasio destas? - Fez uma pausa e suspirou. - Ainda ests preocupada, no ? No tens culpa de sair ao
teu pai, suponho. - Estremeci. Ela mentia com tanta sinceridade. Talvez por mentir h tanto tempo, pensei. Quanto tempo conseguiria eu esconder o que sabia? - Vem
comigo - disse ela, de repente.
- O qu?
- Segue-me. Depressa. Quero-te mostrar uma coisa. Pegou-me na mo e conduziu-me para fora do salo de dana. Dirigimo-nos para a escadaria e subimo-la a passo rpido.
- Onde vamos?
-  minha suite - respondeu. Quando chegmos, foi ao cofre na parede. - Pedi ao Tony que me instalasse este cofre para guardar as minhas jias - explicou. Em seguida,
acrescentou, voltando-se para mim com um sorriso perverso.
- E... os meus documentos.
- Documentos?
Ela persistiu no seu sorriso maldoso e abriu o cofre. Depois, meteu l a mo e tirou uma pasta com uma aparncia imponente. Dentro da pasta estavam trs folhas grandes
de papel agrafadas. Passou-ma para a mo e eu li o ttulo: "Acordo pr-nupcial".
- O que ? - perguntei.
-  um contrato entre o Tony e eu - explicou ela com orgulho. - Mandei o meu advogado prepar-lo.
- Um contrato?
- Sim. Se nos divorciarmos por alguma razo - disse ela enquanto apontava para umas frases no segundo pargrafo da primeira pgina -, eu fico com metade do que ele
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tem. Metade! - repetiu ela. - Metade de tudo isto - disse, estendendo os braos. - Est escrito aqui - prosseguiu, apontando para os papis que se encontravam nas
minhas mos. Eu olhei para eles, mas as palavras no me diziam nada no s porque no entendia os "No caso de..." e os "Tendo em conta...", mas tambm pelo efeito
do choque de descobrir que o caso amoroso da mam e do Tony estava escrito no papel em linguagem jurdica como se fosse a escritura de uma casa.
- No percebo, mam. Porque  que precisa disto?
- Por segurana - referiu ela, pegando nos papis, obviamente descontente com a minha confuso. Voltou a coloc-los no cofre da parede. Depois de o fechar, voltou-se
para mim. - No h nenhum homem no mundo em quem eu confie. Nem um. Pensava que j te tinha ensinado isso.
- Mas no est apaixonada pelo Tony?
- Claro que estou apaixonada por ele. O que  que uma coisa tem a ver com a outra?
- Mas se est apaixonada, porque  que precisa de um contrato destes? - Eu ainda estava perplexa.
- Sinceramente, Leigh. Para uma aluna com to boas notas, s vezes consegues fazer perguntas muito estpidas. Eu j te disse... Nunca confies num homem, por nenhuma
razo. Eu amo o Tony e ele ama-me a mim, mas isso no quer dizer que daqui a algum tempo ele no faa alguma coisa que me desagrade ou invente que eu fiz qualquer
coisa que lhe desagradou, s para me levar  certa. Isto  uma segurana - disse, apontando para o cofre. - Ele sabe que no me pode despachar sem perder metade
do que tem e isso ajuda a manter um homem sob controlo.
"Queria mostrar-te isto agora, para te sentires melhor em relao ao teu futuro. A partir de agora vais ter tudo, Leigh. No tens de te preocupar com mais nada.
- Mas o Tony no ficou aborrecido quando lhe pediu este contrato?
- Ficou, mas ama-me tanto que reprimiu quaisquer sentimentos que este acordo lhe tenha provocado - contou ela, com orgulho. -  por isso que o amo. Eu sou a coisa
mais importante da vida dele. Percebes?
No sabia o que dizer. Pensava que amor significava confiana. Seria possvel estarmos apaixonados com a sombra de advogados e juizes  espreita?
- bom, agora que sabes tudo, tambm podes sentir-te feliz - concluiu ela. - Vamos. Temos de voltar para a recepo.
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Dei instrues aos empregados para entregarem as lembranas dos Tatterton nesta altura e quero ver as caras deles quando cada um receber a sua.
"Pe uma cara feliz, Leigh. Por favor. Afasta os maus pensamentos s por um dia e fica contente por mim.
- Eu vou ficar contente por si, mam. - Roou-me na cara um beijo rpido e depois descemos as escadas a correr. Estava estupefacta com as revelaes da mam. Seria
que as coisas boas, verdadeiras e honestas s aconteciam nos livros de histrias? Nada parecia ser o que era na realidade. A vida era to complicada como... como
o labirinto l fora. "No admira que seja to fcil perdermo-nos", pensei.
A av Jana foi-se embora antes do fim da recepo. Estava ansiosa por voltar para a casa dela, no Texas, apesar de aqui todos a tratarem como uma rainha. O Tony
tinha tomado providncias para que o Miles a levasse de carro at ao aeroporto. Acompanhei-a l fora  limusina, uma vez que a mam estava demasiado ocupada para
se despedir convenientemente.
- Adeus, av - disse eu. - Boa viagem at casa. Ela ficou ali, parada, com um olhar pensativo, fixo em mim e depois abraou-me com tanta fora que quase me tirou
a respirao. Contemplou-me, e depois os olhos dela diminuram e endureceram. Por um momento, pensei que me ia contar tudo, que ia deixar escapar a verdade sobre
todas as mentiras terrveis da mam e explicar porque  que tinha ficado transtornada, quando soubera do divrcio da mam e do seu novo casamento; o seu olhar, porm,
retomou a sua ternura e ela aliviou a fora que estava a fazer nos meus ombros.
- Espero que sejas feliz aqui, Leigh, mas, se por alguma razo no fores, lembra-te sempre que podes vir ter comigo. Eu no vivo neste luxo, mas vivo bastante confortvel
- disse, parecendo bem diferente do papo que a mam muitas vezes fazia dela. Naquilo que a mam me contara sobre o seu passado no Texas, quanto havia de verdade?,
perguntei a mim prpria.
- Obrigada, av.
Ela voltou a beijar-me e entrou na limusina. Vi-a desaparecer de vista e depois voltei para dentro. Pouco depois comearam a sair os convidados.
Ouvi a mam chamar o meu nome e vi ela e o Tony a descerem a escadaria juntos. Os saltos dela em contacto com as escadas de mrmore produziam um rudo seco. Como
parecia
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experiente e confiante, a descer a escadaria em passo vagaroso, de brao dado com o Tony. Vestia o seu fato preto de crepe de l, enfeitado com uma gola e punhos
de pele de marta. Visto de baixo, o casaco dela deixava entrever uma blusa branca de chiffon que brilhava. Contrastando com o tom escuro do fato, a cara da mam
sobressaa, deslumbrante que s visto. Parecia um conjunto de diamantes sobre veludo preto.
O Tony vestia um casaco de cabedal preto e um leno branco lustroso. Tal como a mam, tinha um aspecto fresco e cheio de vida. Imaginei que ainda estariam animados
pela excitao do dia e pela que ainda estava para vir. Pareciam ambos to jovens, plenos de vivacidade e to felizes juntos.
- Acreditas que j acabou? - perguntou a mam. Ests perante Mister e Mistress Tony Tatterton. Como  que ficamos ao lado um do outro, Leigh? - Apertou-se contra
o Tony.
- Maravilhosos - respondi eu, tentando que a minha voz soasse o mais excitada possvel, mas a mam no ficou satisfeita. O seu sorriso esmoreceu.
- bom, estamos de sada. Tens tudo o que necessitas e sabes tudo o que precisas de saber. Gostava de poder estar aqui contigo na manh do dia de Natal, quando abrires
os teus presentes, mas sei que tu entendes a situao.
- Tenta impedir que o Troy abra os presentes at  noite de Natal - disse o novo e atraente marido da mam, que me seguia com os olhos por todo o lado e fazia aquele
seu sorriso que parecia escarnecer e saber tanta coisa.
- O Tony prometeu-lhe que ele podia abrir os presentes de casamento - lembrei eu, quebrando com os meus olhos o seu olhar fixo em mim.
- Tnhamos combinado fazer isso quando voltssemos da nossa lua-de-mel - lamentou-se a mam. - Ele ter de esperar.
- Oh, no sei qual  o mal de ele desembrulhar alguns
- compadeceu-se o Tony. - No deixes  que ele estrague nada.
- De certeza que vai estragar,  uma criana - queixou-se a mam. - Oh, deixa l, neste momento no quero pensar em nada que seja minimamente desagradvel. Adeus,
Leigh, querida. - Abraou-me, e mesmo com a fria mal contida, devolvi-lhe o abrao forte, com uma ferocidade que acho que a surpreendeu. De repente, no queria
que ela se fosse embora, precisava dela, no fundo do meu corao, precisava
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que fosse minha me e que me aquecesse com abraos, beijos e pequenas carcias.
- bom Natal e feliz Ano Novo na tua nova casa. No tenhas medo de explorar o territrio - disse o Tony. - Vais demorar quase tanto tempo como ns na nossa lua-de-mel
- Mas, por favor... afasta-te do labirinto - avisou a mam.
- Est bem, mam. Divirta-se - disse eu, quase sem fala.
- Posso dar um beijo de despedida  minha enteada? perguntou o Tony. - Adeus, Leigh. At breve. - Os seus longos braos agarraram-me e, mesmo atravs do cabedal,
sentia-os fortes e musculosos. Beijou-me na face, mas muito prximo do canto da boca. A mam pareceu ter ficado impressionada com o tempo que ele me teve nos braos
e por ele me ter beijado com tanta ternura e afecto. Depois, enfiou o seu brao no dele e saram. O Curtis abriu-lhes as grandes portas e depois fechou-as atrs
deles. Acenou-me com a cabea e foi-se embora.
Ouvi as vozes de alguns empregados e o eco do pessoal no salo de baile a carregarem as coisas de volta para a cozinha. Fecharam as portas e, de repente, fez-se
silncio total no enorme trio de entrada. Olhei  minha volta. Era como se todos os espritos dos antepassados Tatterton tivessem sido sorvidos de novo aos seus
retratos e lugares eternos. O recm-surgido silncio tornou-se ensurdecedor. Olhei atravs de uma janela da fachada da frente e vi que as luzes de Natal estavam
acesas. Os jardins, as sebes e as rvores resplandeciam em vermelhos, verdes e azuis. Parecia que um arco-ris se esmigalhara e que tinham chovido pedaos dele por
toda a manso Farthinggale.
Mrs. Hastings desceu e disse-me que o Troy estava quase a dormir. Foi-se juntar aos outros empregados que estariam agora, deduzi eu, na cozinha a fazer a festa deles
e a celebrar com os restos da recepo.
Fui  sala de msica onde o Tony tinha mandado colocar e decorar a rvore de Natal de trs metros de altura. Tinham-lhe acendido as luzes, e a rvore estava encantadora,
com o seu anjo de vidro a brilhar no topo. Havia presentes espalhados e empilhados  sua volta. A lareira de mrmore estava acesa. O quarto parecia preparado, pronto
para acolher uma famlia.
Mas, onde estava a famlia? E quem tinha feito tudo aquilo? Era quase como se a casa tivesse vida prpria e como
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se cada uma das suas salas renascesse  sua maneira quando chegava a sua hora. Perguntei a mim prpria se estaria tudo ligado a um interruptor automtico. No dia
de Natal, a rvore iluminar-se-ia a si prpria espontaneamente e a lareira acender-se-ia sozinha. De repente, como se a casa estivesse mesmo a brincar comigo, comeou
a ouvir-se msica de Natal atravs dos altifalantes embutidos nas paredes.
Eu ri. Senti-me to tonta de sbito... Teriam tambm programado um Pai Natal a descer pela chamin na noite de Natal? O Curtis devia estar nas redondezas e provavelmente
teria ouvido a minha gargalhada, porque logo a seguir apareceu  porta, pondo uma expresso confusa quando percebeu que eu estava sozinha...
- Precisa de alguma coisa, Miss Leigh?
"Sim", era o que eu queria dizer. "Traga-me o meu pap e a minha mam. Traga-me a felicidade que j vivemos. Ponha-nos juntos nesta sala quente, a rir e a sorrir,
a dar beijos e abraos ternurentos uns aos outros. Transforme-me este Natal num Natal verdadeiro."
- No, Curtis. Agora no. Obrigada.
- Muito bem, menina. Se quiser alguma coisa,  s tocar  campainha.
- Obrigada.
Ele assentiu com suavidade e desapareceu. Olhei para a rvore de Natal e para os presentes e depois contemplei os murais feitos pela mam. Sentia o meu corao pesado
como chumbo e doa-me a garganta de reprimir os soluos. Sa depressa e subi para a minha suite. Estava to cansada. Vesti a minha camisa de dormir e enfiei-me por
debaixo dos cobertores da minha nova cama. Depois de apagar o candeeiro da mesinha-de-cabeceira, olhei atravs das cortinas transparentes de uma das minhas janelas
e vi a Lua a espreitar por detrs de uma nuvem, o que me fez ir at  janela.
Contemplei a vastido que constitua a manso Farthinggale. Dali podia ver o longo caminho sinuoso l em baixo. Nessa noite, sob o efeito da neve derretida, o caminho
reluzia como uma banda de prata. Era mais fcil sentirmo-nos sozinhos num lugar to grande e to rico como Farthy, pensei eu. Os meus amigos de Boston nunca pensariam
dessa maneira, mas eu no me lembro de alguma vez me ter sentido to pequena e to s como me estava a sentir nesse momento.
Olhei para cima, vi a Estrela Polar e recordei-me do pap, quando me explicou que os marinheiros dependiam dela
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quando estavam perdidos. Poderia eu depender dela? A estrela difundiria o seu brilho reflectindo-o de volta para mim. Talvez o pap estivesse algures tambm a olhar
para ela. Talvez me tivesse atirado um beijo e esse beijo tivesse ressaltado da Estrela Polar e tivesse descido at mim, ali, em Farthy.
- Boa noite, pap - sussurrei eu.
- Boa noite, princesa - disse, fingindo que estava a ouvi-lo.
Voltei para a cama e, pela primeira vez na vida, no estava ansiosa por que a manh de Natal chegasse nem tive dificuldade em adormecer.
Acordei com algum a sacudir-me e abri os olhos para deparar com o Troy a puxar-me a mo.
- Acorda, Leigh. Acorda!
- Qu? - Esfreguei os meus olhos com os punhos e olhei em volta. Iria demorar algum tempo at me habituar a acordar num quarto to grande.
-  Natal. Vem. Temos de ir l para baixo e abrir os nossos presentes. Anda l. Despacha-te.
- Oh, Troy - gemi eu. - Que horas so? - Olhei para o meu relgio. Eram s sete da manh.
- Despacha-te - implorou ele.
- Est bem. Est bem, Troy. D-me uns minutos. As raparigas demoram mais tempo a levantar-se do que os rapazes
- disse eu,  espera de uma pequena prorrogao.
- Porqu? - Virou os seus olhos cpticos para mim.
- Porque tm de arranjar o cabelo e a cara e ter um aspecto apresentvel. Bem vistas as coisas, os rapazes tambm fazem a mesma coisa.
Ele pensou um pouco e baixou o olhar para se observar a ele prprio, que ainda estava de pijama, roupo e chinelos.
- Est bem. Eu vou pentear o cabelo e venho ter contigo daqui a uns minutos! - exclamou ele e saiu a correr. Eu ri-me e levantei-me da cama. Lavei o sono da minha
cara e dei um jeito ao cabelo, consciente de que a mam nunca sairia do quarto assim. Mas a mam nem sempre tinha razo, pensei. Mais do que nunca, agora era esta
a minha opinio. Vesti o roupo e encontrei o Troy impaciente  minha espera na sala de estar. Mal cheguei, deu-me a mo e conduziu-me pelas escadas abaixo. A seguir,
precipitou-se sobre os presentes. Mrs. Hastings apareceu atrs de mim a rir.
- Feliz Natal - desejou ela.
- Feliz Natal.
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- vou tratar do pequeno-almoo, se desejar - ofereceu-se ela.
- Obrigada, Mistress Hastings. Espero que consigamos afast-lo dos presentes o tempo suficiente para comer acrescentei eu. Ajoelhei-me ao lado do Troy e ajudei-o
a desembrulhar primeiro os presentes dele.
O presente maior era uma televiso s para ele. Havia uma no gabinete, mas agora ele teria uma no seu quarto.
Tenho de lev-la para o meu quarto - disse ele, excitado.
Espera. H tempo para isso, Troy. V primeiro os outros presentes.
- Est bem. E tu desembrulha os teus tambm. Eu ofereci-te um.
- A srio? - A mam e eu tnhamos ido s compras de Natal e passramos metade do tempo a tentar conseguir alguma coisa "adequada" para o Tony, uma vez que ele tinha
tudo. Ela decidiu oferecer-lhe um alfinete de gravata em ouro macio e com diamantes nas pontas. Depois, mandou gravar "com amor, Jillian", na parte de trs. Eu
tive alguns problemas em imaginar uma prenda suficientemente boa para o pap. Luvas e gravatas de seda, loes para a barba caras, luvas de camura, uma boquilha
nova para o cachimbo... Nada tinha significado prprio para um pap que no iria abrir a prenda comigo ao lado.
Por fim, numa das lojas, reparara numa prenda que no era to cara como as outras em que eu tinha pensado, mas que me encheu o corao de prazer e de calor s de
imaginar o pap a desembrulhar e a ver a prenda. Era uma fotografia especial, que se tirava ao lado de uma rvore de Natal. Em baixo, o fotgrafo gravava em relevo
as palavras "Feliz Natal". E tambm podamos gravar o nosso nome e a data. Comprei tambm uma bonita moldura de pinho para pr a fotografia l dentro.
Quando posei para a fotografia, fiz o sorriso mais caloroso e mais amoroso que consegui, pois sabia que seria o sorriso que o pap veria sempre, principalmente quando
estivesse sozinho e tivesse vontade de pensar em mim. Mandei embrulh-lo e deixei-o na secretria do pap na casa de Boston, para que ele a encontrasse mal voltasse
da sua viagem.
Decidi comprar um kit de montagem para o Troy, uma vez que ele era to bom a trabalhar com as mos. Era um brinquedo, mas ele tambm podia fazer dali qualquer coisa
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criativa. At tinha um motor elctrico, por forma a que, Se ele quisesse construir uma roda gigante, ela rodaria mesmo. Ficou muito excitado quando abriu a caixa
e viu o que era. Para minha surpresa, o Troy sabia exactamente do que se tratava. Levantou-se logo e deu-me um grande abrao e um beijo.
- Obrigada, Leigh. Agora v o presente que tenho para ti - pediu ele. - Fui eu que o fiz e embrulhei.
Abri o pequeno embrulho e no acreditei no que estava perante os meus olhos. Tinha sido feito por ele? Era um cavalinho de cermica com uma amazona. A amazona era
removvel.
- Este  o Sniffles - explicou o Troy -, o meu pnei. E esta s tu, a mont-lo.
- Foste tu que fizeste?
- A rapariga, no - confessou ele. - O Tony mandou fazer na fbrica, mas fui eu que fiz o Sniffles. Tirei-lhe uma fotografia, decalquei, modelei e cozi. Depois pintei-a
acrescentou ele, com orgulho.
-  lindo, Troy.  um dos melhores presentes de Natal que alguma vez recebi. Obrigada. - Dei-lhe um beijo na face. Os olhos dele reluziram e depois continuou a desembrulhar
as prendas. Que rapazinho to maravilhosamente talentoso, pensei. Como  que a mam no ficava seduzida por ele?
- Tens mais presentes - disse ele, apontando. Havia pelo menos uma dzia de caixas diferentes embrulhadas em papel brilhante, com o meu nome escrito, alguns da mam,
outros do Tony, mas saltou-me logo  vista uma caixinha em especial, porque reparei no logotipo da companhia de transatlnticos do pap no envelope do carto.
com cuidado, levantei a caixa e percorri a tampa amorosamente com os dedos. O Troy ficou impressionado com a maneira reverente com que eu a tratava. Pousou a prenda
e chegou-se para junto de mim.
- O que ? - perguntou num sussurro.
- A prenda de Natal do meu pap. No sei como, apareceu aqui.
- Porque  que no abres? - Os olhos dele oscilaram da caixinha para mim e de novo para a caixa.
- Eu vou abrir. - Delicadamente, com muito cuidado para no rasgar o papel, desembrulhei o presente e encontrei uma caixinha de veludo azul. Abri-a e tirei de l
um medalho de ouro pesado em forma de corao, com um fio de
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ouro. premi o boto de desengate e o medalho abriu-se. L dentro estava uma fotografia minscula do pap e de mim no The Jillian. Estvamos ambos bronzeados e felizes.
Lembreime porque  que manifestava uma expresso to feliz na fotografia. Estvamos a caminho de casa e pensava que ia encontrar a mam  minha espera no cais.
Posso ver? - perguntou o Troy. Tirei o medalho para fora, pegou nele cuidadosamente da palma da minha mo e ficou a olhar para a fotografia. Vi os olhos dele a
aumentar e depois a diminuir. - Eu tenho uma fotografia grande do meu pap - disse ele. - Mas no est a sorrir. Falei nisso ao Tony e ele disse que o pap estava
a sorrir no cu e que sorriria sempre, desde que eu fosse bom.
- Ento tenho a certeza de que o teu pap estar sempre a sorrir - disse-lhe eu. Deixei que ele me ajudasse a pr o medalho ao pescoo e depois voltmos para a
nossa tarefa de abrir os presentes.
Passei o dia de Natal a ajudar o Troy a organizar os brinquedos dele e a guardar a roupa que recebera de presente. Ao fim da tarde, estivemos a ver uns programas
na sua nova televiso. Comemos um delicioso peru ao jantar e o Rye Whiskey preparou legumes com molhos que eu nunca tinha provado antes.
O Troy manteve-me to ocupada que fiquei contente quando chegou a hora de ele ir dormir. Nessa noite tambm fui dormir cedo. Tinha-lhe prometido que amos andar
no seu pnei de manh, e foi o que fizemos. Na verdade, havia tanta coisa para fazer em Farthy - nadar na piscina interior, praticar esqui em corta-mato, fazer caminhadas
de ida e volta at ao mar, andar a cavalo e andar de tren - que a primeira semana passou num instante.
O Tony tinha uma biblioteca enorme, e o meu livro preferido de todas as suas recheadas prateleiras era Lolita, a histria do amor de um homem mais velho por uma
rapariga de doze anos, uma rapariga da minha idade! Custava-me a acreditar nas coisas que ela fazia e dizia. Havia excertos que eu lia e relia, partes que me faziam
corar e me aceleravam o corao. Pus o romance por baixo dos outros livros para que os empregados no descobrissem que eu o andava a ler, no caso de algum deles
saber do que  que tratava.
Prometi ao Troy que passaramos a noite de Ano Novo no quarto dele a ver televiso. Estava decidido a ficar acordado at  meia-noite e a ver as pessoas a celebrar
na Times
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Square em Nova Iorque. Aguentou quase at s onze, mas a essa hora os seus olhos j se tinham fechado e o pequeno peito subia e descia ao ritmo da sua respirao
calma.
Pouco depois das onze e meia, o pap telefonou da Florida. Soava to baixo e to longe. A linha telefnica crepitava.
- Adorei o teu presente de Natal, pap. O meu est  tua espera na tua secretria em casa.
- vou l na semana que vem e telefono-te depois de o abrir - disse ele. - Como ests?
- Estou bem, pap, mas tenho saudades tuas - respondi eu, com a voz quase a soluar.
- E eu tambm tenho saudades tuas. Dentro de algumas semanas, vou a e passaremos um dia juntos em Boston.
- Nessa altura j estarei na escola, pap. Ters de ir a Winterhaven. Mas no  longe daqui. - Contei-lhe as vrias coisas que tinha andado a fazer.
- Parece um stio ptimo - referiu o pap, num tom triste.
- Eu preferia estar em casa contigo, pap.
- Eu sei, meu amor. Em breve estaremos juntos. Prometo. bom, agora deixa-me desejar-te um feliz Ano Novo. Eu sei que este ano que passou no foi muito feliz, mas
esperemos que o prximo seja.
- Feliz Ano Novo, pap. Adoro-te.
- E eu adoro-te a ti, princesa. Boa noite.
- Boa noite, pap.
Depois de ele desligar, comprimi o auscultador contra o meu peito com tanta fora que at doeu. No o pus no lugar at ouvir o apresentador da televiso comear
a contagem decrescente: "Dez, nove, oito.." o Troy gemeu no seu sono e depois virou-se de lado. "Sete, seis, cinco..."
Reparei que tinha comeado outra vez a nevar. Os flocos de neve eram grandes e bonitos. Eram to fofos e alguns colavam-se  janela por momentos, antes de se transformarem
em lgrimas e escorrerem pelo vidro abaixo.
"Quatro, trs, dois..."
Comprimi o meu novo medalho contra os lbios e beijei-o, dizendo para mim prpria que estava a beijar o pap.
"Um... FELIZ ANO NOVO PARA TODOS."
A cmara filmou tantas caras diferentes... pessoas a bater palmas, pessoas a rir, pessoas a gritar, pessoas a chorar. Gostava de estar ali com eles, perdida numa
multido de estranhos.
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J escrevi quase metade das pginas do meu dirio.  um
bom stio para me desejar a mim prpria um "Feliz Ano Novo.
Claro que para mim  mais do que um ano novo,  uma
Leigh VanVoreen.
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A LUA-DE-MEL ACABOU

No dia de Ano Novo, o Troy acordou com uma forte constipao. Era o dia em que a mam e o Tony regressariam da sua lua-de-mel. s oito da manh, ele estava cheio
de febre e Mrs. Hastings teve de mandar chamar o mdico. Eu tinha a certeza de que ele estava muito doente, porque no fez nenhum esforo para se levantar da cama
para ir brincar. Enquanto era examinado pelo mdico, fiquei  espera no corredor. Depois, ouvi Mrs. Hastings e o mdico a conferenciarem no quarto exterior da suite
do Troy. O mdico foi o primeiro a sair, com um olhar carregado e as rugas da cara marcadas pela preocupao e pelo pesar. Seguiu-se-lhe Mrs. Hastings com os olhos
cheios de lgrimas. Segurava o leno contra a boca e abanava a cabea, olhando para mim.
- O que ? O que  que ele tem? - perguntei, inquieta.
- O mdico acha que ele est a desenvolver uma pneumonia. Oh, valha-me Deus, valha-me Deus. Foi chamar uma ambulncia. Quer que ele v imediatamente para o hospital
para ser radiografado e fazer o tratamento adequado. Mister Tatterton avisou-me de que o Troy tem muito pouca resistncia aos micrbios; mas ele estava to bem,
to feliz e cheio de energia que eu no pensei que tinha sido demasiado branda e que ele tinha exagerado - choramingou ela.
- Ora, Mistress Hastings, a culpa no  sua. Sempre que ele mostrava o mnimo sinal de frio na rua, ns trazamo-lo para dentro e, com excepo da noite passada,
que  a noite mais especial do ano, ele foi sempre cedo para a cama. E tambm tem comido bem - acrescentei eu. - Ele no ficou doente depois de nos perdermos no
labirinto. A senhora fez milagres para impedir que isso acontecesse, lembra-se?
- Sim, sim. Mesmo assim, sinto-me to mal. Volto j. Tenho de tomar algumas providncias. Mister e Mistress Tatterton
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s chegaro a meio da tarde, mas o mdico diz que no podemos esperar por eles. - Abanou a cabea de preocupao.
Posso ir v-lo?
Sim, mas no se chegue perto de mais. Ai, valha-me Deus, valha-me Deus - murmurava ela, correndo em direco s escadas.
O pequeno Troy parecia ainda mais pequeno na sua grande cama com os cobertores puxados at ao queixo. Eu tinha bonecas, cuja cabea era maior do que a cabecinha
dele, ali, deitada na almofada branca, grande e fofa. As suas orelhinhas, o seu nariz minsculo, os seus olhos fechados, que no pareciam maiores que berlindes,
e a sua boca pequenina, levemente aberta pela dificuldade que tinha em respirar, faziam-no parecer um brinquedo frgil.
As mas do rosto estavam escarlates da febre e os lbios pareciam inchados. As suas mos estavam cerradas em punhos minsculos; o resto do corpo estava enterrado
dentro do enorme edredo. Fiquei  sua cabeceira a observ-lo. No o queria acordar. De repente, comeou a delirar com febre.
- Pap, acorda, acorda - dizia ele. Depois, ainda com os olhos fechados, esboou um sorriso. - Tony... Tony. A sua cara contorcia-se de agonia. Cheguei-me a ele
e peguei na sua mo pequenina e quente.
- Est tudo bem, Troy. Est tudo bem. Eu estou aqui.
- Tony... Eu quero o Tony...
-  a Leigh, Troy. Queres beber um gole de gua?
- Tony - murmurava ele e abanava a cabea. Depois, fechou os olhos ainda com mais fora, como se estivesse a tentar afastar uma imagem da sua mente. Toquei no seu
rosto a escaldar e fiquei chocada e assustada por sentir a pele dele to quente. O meu corao comeou a bater. Olhei com expectativa para a porta. Onde estava o
mdico? Como  que eles o podiam deixar sozinho, mesmo por um momento?
Ele balanava a cabea de um lado para o outro, gemendo baixinho.
- Troy - gritei eu, com as lgrimas a virem-me aos olhos. - Ai, meu Deus - murmurei. Sa a correr do quarto para tentar encontrar Mrs. Hastings. Ela e o mdico estavam
no andar de baixo com o Curtis e o Miles.
- Doutor, ele est a arder de febre na cama! E geme como se estivesse a sofrer! - exclamei eu. O mdico olhou para mim e depois para Mrs. Hastings, tentando perceber
quem eu era. Ela segredou-lhe rapidamente qualquer coisa ao ouvido.
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- Ah! - Acenou com a cabea e virou-se para mim.
Sim, ns sabemos, minha querida. Acabmos de decidir que no vamos esperar por uma ambulncia. Vamos levar o Troy imediatamente para o hospital na limusina. Mistress
Hastings ia agora mesmo prepar-lo para a viagem.
- Posso ajudar?
- No, acho que  melhor ficar bem afastada dele. No quero ter dois pacientes de uma vez s - disse ele, a sorrir. Como  que podia brincar numa altura daquelas,
pensei. Mrs. Hastings comeou a subir as escadas. Sentia-me to inquieta e nervosa. S podia esperar para ver o que ia acontecer. Pouco depois, o Miles apareceu
com o Troy enrolado em cobertores, mal se vendo a sua cara rosada, e carregou-o em direco  escadaria. Mrs. Hastings vinha mesmo atrs, dizendo:
- Ai, valha-me Deus, valha-me Deus.
Passaram-se horas antes de o Miles e Mrs. Hastings voltarem, mas, logo que os ouvi a entrar, vim a correr.
-  mesmo pneumonia - declarou Mrs. Hastings, com os lbios a tremer. E comeou a soluar. - Ele est a levar oxignio.  um quadro to triste. Oh, meu Deus.
Tentei confort-la.
- Devia comer qualquer coisa e beber uma bebida quente, Mistress Hastings, e pare de se culpar. Ningum tem a culpa.
- Sim - concordou ela. - Beber qualquer coisa quente
- murmurou. - Tem muita razo. Obrigada, querida. E foi para a cozinha.
- Qual  realmente o estado dele, Miles? - perguntei eu. No sei porqu, tinha a certeza de que ele me diria a verdade nua e crua.
- Est com febre muito alta. O Troy tem uma histria clnica com vrias doenas nos seus antecedentes e uma baixa resistncia. Receio bem que seja muito srio.
O corao caiu-me aos ps. Senti o sangue a vir-me  cara. As borboletas no meu estmago explodiram num frenesim, s voltas e s voltas, e as pontas das suas asas,
to finas como papel, faziam-me comicho l dentro.
- No significa que ele possa morrer, pois no, Miles?
- Retive a respirao at ouvir a resposta.
-  muito grave, menina - disse ele, olhando para o relgio. - Tenho de ir para o aeroporto. Mister e Mistress Tatterton devem estar a chegar. Presumo que os levarei
directamente ao hospital - acrescentou.
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- Pobre Tony e pobre mam. Vo ter um choque - disse eu. Ele assentiu e saiu a correr.
Passei o resto da tarde  espera, perturbada. Cada vez que ouvia o telefone a tocar, o meu corao parava. Contudo nenhum dos telefonemas tinha alguma coisa a ver
com o Try. Incapaz de esperar mais tempo, pedi a Mrs. Hastings para telefonar para o hospital e pedir notcias  enfermeira do piso dele. No havia melhoras. De
facto, pela maneira como Mrs. Hastings ouviu e assentiu, com os olhos abertos e a boca descada, percebi que, se havia novidades, eram para pior.
Por fim, ouvi alguma agitao na porta de entrada e sa da sala de msica, deparando-me com a mam a fazer uma entrada espectacular: empregados a carregarem a bagagem
dela, ela a gritar ordens e queixando-se ao Curtis do tempo frio e da longa viagem. O Tony no vinha com ela.
- MAM! - gritei eu. - GRAAS A DEUS, CHEGOU!
- Aleluia! - exclamou a mam, explodindo em seguida numa longa e aguda gargalhada. Descalou as luvas. Apesar de estar a queixar-se do frio e da viagem, tinha um
aspecto fresco e bonito. As suas faces estavam brilhantes e rosadas, tinha um chapu preto novo, de marta-da-sibria, e um casaco da mesma pele, luvas pretas de
veludo e calas de esqui. Das orelhas pendiam brincos de ouro em forma de prola. Desviou-se para que o Miles conseguissse trazer para dentro o equipamento de esqui.
Deu-me um abrao rpido e segredou-me:
- Nunca pensei que uma lua-de-mel pudesse ser fatigante, Leigh, mas acredita que esta foi. Estou completamente exausta, a minha energia esgotou-se. Estou doida para
entrar na minha cama macia e fechar os olhos.
- Mas, mam, onde est o Tony? Sabem o que aconteceu ao Troy, no sabem?
- Claro que sabemos. O Tony foi directamente para o hospital. Deixmo-lo l - disse ela. - Espera at veres algumas das coisas que eu comprei na Europa, Leigh -
continuou ela, sem parar para tomar flego. - Depois de estar bem descansada, mostro-te tudo e conto-te tudo. - Inclinou-se outra vez para mim e sussurrou: - Tudo
mesmo. Depois comeou a andar em direco  escadaria. - Mas por agora... um banho quente... descanso...
- Mas mam, e o Troy? - Voltou-se nos primeiros degraus com um ar baralhado.
- O que  que tem?
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- Ele est to doente e...
- Bem, ele est no hospital, Leigh. Que mais podemos fazer?
- Viu-o?
-  bvio que no - afirmou, abanando a cabea. Uma pessoa s se expe a essas doenas se tiver de ser.
- Mas...
- Tu no estiveste ao p dele, estiveste? Era s o que me faltava agora - prosseguiu antes que eu pudesse contestar -, tu ficares tambm doente. Eu, pura e simplesmente,
no tenho fora nem energia para aguentar isso. Pelo menos neste momento. - E comeou a subir as escadas. - Chamar-te-ei mal esteja mais descansada - acrescentou
ela.
Como  que ela podia ser to insensvel e s se preocupar com ela prpria num momento daqueles? Teria sido sempre to egosta? Interrogava-me a mim prpria. E porque
 que a lua-de-mel tinha sido to cansativa? No era suposto ser o momento mais maravilhoso da nossa vida, principalmente quando ficamos instalados num stio to
luxuoso como o hotel onde ela e o Tony tinham ficado, onde podiam divertir-se e estar juntos dia e noite, em jantares romnticos e rodeados de msica? Pensava que
os recm-casados se recolhiam num mundo  parte e desfrutavam da companhia um do outro e do milagre do seu amor mtuo.
Como  que ela podia deixar o Tony sozinho no hospital, mesmo estando muito cansada? Apesar de me ressentir profundamente da presena do Tony na minha vida, a afeio
que nutria pelo seu irmo fora aumentando rapidamente de dia para dia. E o Troy agora era quase como um enteado da mam. O Tony estaria certamente muito preocupado
e transtornado. No era esse o momento em que a esposa devia estar perto do seu marido para o confortar e apoiar? Em vez disso, ela viera para casa, ia tomar um
banho quente e dormir. Estava preocupada com o seu sono de beleza. Talvez aquele casamento no fosse melhor do que o casamento dela com o pap, uma vez que tambm
era construdo com base numa mentira.
A mam estava muito diferente, pensei eu; depois, perguntei a mim prpria se ela no teria sido sempre assim e eu  que simplesmente no me havia apercebido, porque
a vira com olhos de criana. Contudo, naquele dia em que ouvira a conversa entre ela e a av Jana, eu tinha crescido mais depressa do que alguma vez sonhara. A tinta
cor-de-rosa fora raspada do meu mundo. Muitas das coisas que haviam sido
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to brilhantes e coloridas como o arco-ris eram agora cinzentas..
Subi para o meu quarto e sentei-me na cama a olhar para o cavalinho que o Troy me tinha feito pelo Natal. "No interessa se somos muito ricos, muito bonitos ou poderosos.
No fundo somos to frgeis e delicados como este pequeno brinquedo de cermica que o Troy me fez", pensei. Cingi o cavalinho contra mim e rezei em silncio.
Adormeci ali sentada, e j passavam das seis da tarde quando acordei.  luz do crepsculo, o meu quarto tornava-se triste e ensombrado. Senti um arrepio, como se
um vento de Inverno se tivesse infiltrado na manso pelo friso das portas e tivesse aberto caminho atravs das salas, subindo a escadaria directamente para o meu
quarto. Envolvia-me como um cobertor cosido com linhas de gelo. Eu estremeci e abracei-me. Sentia que era um mau pressentimento.
"Troy", pensei eu com inquietao, e saltei rapidamente da cama. O corredor estava sombrio e silencioso. O meu corao comeou a bater. A casa parecia muda, como
se todos, excepto os seus fantasmas, tivessem desertado.
Receando o pior, deslizei pelo corredor como uma sonmbula at  suite da mam e pus-me  escuta  porta. Estava to silenciosa como o resto da casa. Abri a porta
exterior, atravessei a sala de estar em pontas dos ps e fui espreitar o quarto dela.
Ainda estava na cama, quase a dormir. Tinha um cobertor espesso a tap-la e o seu cabelo dourado estava solto sobre uma almofada grande e fofa. O cho estava coberto
de caixas e embalagens. O casaco novo de pele de marta-da-sibria, o chapu, as calas de esqui e as botas ainda estavam no mesmo lugar, dobrados em cima de cadeiras
e bancos, onde ela os tinha deixado quando se despira para tomar banho. Como  que ela conseguia estar ainda a dormir? Seria possvel que no sentisse nada em relao
ao pequeno e querido Troy?
Nas salas do andar de baixo tambm no encontrei ningum. At que fui  cozinha e descobri os empregados todos reunidos  volta da mesa numa conversa amena. Voltaram-se
para mim mal entrei. Tinham todos a mesma cara: olhos tristes e um semblante sombrio e preocupado.
- Houve notcias? - perguntei eu, a recear pela resposta que me iriam dar.
- Oh, meu Deus! - exclamou Mrs. Hastings. - Mister Tatterton telefonou h pouco mais de uma hora e disse que a
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febre ainda estava mais alta e que ele estava a respirar com muita dificuldade. O estado dele  crtico.
Ficaram todos a olhar para mim,  espera da minha reaco.
- Quero ir ao hospital, Miles - pedi eu. Pode levar-me?
O seu olhar passou por mim, por Mrs. Hastings e por todos os outros empregados, sem saber como reagir ao meu pedido.
- A sua me pode no querer que a menina v - disse ele, por fim.
- A minha me - repliquei eu, realando a palavra est a dormir. Estarei pronta dentro de cinco minutos. Por favor traga o carro para a porta principal - instru
eu e fui-me embora, para no dar azo a mais conversas.
Encontrei o Tony a falar com uma enfermeira na sala de espera do Hospital Geral de Boston. Tinha o sobretudo de caxemira dobrado no brao. Pela primeira vez no
senti raiva, dio ou ressentimento em relao a ele... Nesse momento, todas as minhas emoes estavam canalizadas para o Troy. Alis, at achei que nunca tinha visto
o Tony to bronzeado e atraente.
- Leigh! - gritou ele, mal me viu. Atravessou a sala de espera a correr para me vir cumprimentar. - A Jillian veio contigo? - Espreitou por cima da minha cabea
em direco  entrada.
- No. Est a dormir - respondi, incapaz de conter a minha desaprovao. Ficou com uma expresso abatida e a luminosidade que lhe enchera os olhos desapareceu num
instante.
- Ah!
- Houve alguma alterao no estado de sade dele?
- Leve, para melhor. A temperatura baixou meio grau. Foste muito simptica em ter vindo fazer-me companhia. Obrigado.
- Oh, Tony, eu estou to preocupada com ele. Divertimo-nos tanto juntos, enquanto o Tony e a mam estiveram fora, mas acredite que no fizemos nada que pudesse t-lo
posto doente. Brincmos muitas vezes ao ar livre, mas o Troy estava sempre bem agasalhado, e, mal notvamos que ele estava a comear a ficar com frio, amos logo
para dentro de casa. E tinha imenso apetite e...
- Calma... calma. - O Tony segurou-me nos cotovelos com as mos. - J no  a primeira vez que o Troy est assim
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- Faz Parte da natureza dele. Ningum pode prever. Ningum tem a culpa, muito menos tu. Pra de pensar nisso. Olhou para o relgio. - Vai demorar algum tempo at
que
o mdico possa adiantar alguma coisa sobre o estado de sade do Troy e est na hora de jantar. Conheo um pequeno restaurante italiano muito simptico aqui ao p
- disse. Tens fome?
- Eu...
- Claro que deves ter. Eu ainda no comi nada desde hoje de manh. No tem sentido ficarmos aqui sentados. Anda - instigou ele, vestindo o casaco, dando-me em seguida
o seu brao. Tive de hesitar. Eu no tinha pedido para me trazerem a Boston para jantar. Eu queria estar perto do Troy.
Mas, pensei, se o Tony achava que no fazia mal sair por um bocado para comer qualquer coisa, ento estava bem.
- O Troy est a receber o melhor tratamento possvel informou o Tony, depois de nos sentarmos numa pequena mesa junto  janela. - Aquele piolho arranja sempre maneira
de ultrapassar as crises quando quer, e agora que ests a viver connosco em Farthy, eu sei que mais do que nunca ele tem vontade de viver e de ficar bom. - Debruou-se
sobre a mesa para me afagar a mo e me tranquilizar.
- Espero que sim - disse eu, prestes a soltar um soluo.
- Vamos comer. Aqui fazem uma massa maravilhosa. Deixa-me encomendar para os dois - props ele. Como era requintado a pronunciar as palavras italianas com tanta
perfeio! O empregado apercebeu-se imediatamente de que se tratava de um conhecedor e ficou logo impressionado. Percebi isso pelo modo como ouvia e assentia. Depois,
o Tony virou-se e fitou-me por momentos. Reteve o seu olhar azul, impetuoso e penetrante, em mim, com profunda considerao.
- s uma rapariga desconcertante, sabias, Leigh? Num segundo ests positivamente radiante de felicidade e no outro toda a felicidade desaparece e tens lgrimas nos
olhos. Acho que s to intrigante, ou melhor, to complexa como a tua me. Receio bem que nenhum homem possa competir com vocs - acrescentou, num tom mais resignado
com o seu destino do que amargo.
- Divertiram-se na lua-de-mel? - perguntei, pressentindo um resduo de amargura. - A mam foi directamente para a cama. Por isso, no tive oportunidade de lhe perguntar
nada. - Os olhos azuis do Tony estreitaram-se, com um certo ar de desconfiana.
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- Eu sei que eu me diverti - respondeu ele fazendo um sorriso forado. Esperei quase sem flego que continuassse.
- A tua me disse-me que gostava de praticar esqui e de andar de patins no gelo. Disse que adorava desportos de Inverno mas, quando chegmos a St. Moritz, decidiu
que estava frio de mais para ir esquiar. Acreditas? - Riu-se. - Frio de mais para esquiar. bom, de qualquer maneira, eu passei os dias nas encostas e ela passou
o tempo a fazer compras ou  lareira, no hotel.
"Um dia, l consegui lev-la at s encostas, mas ela queixou-se tanto e caiu tantas vezes que a deixei voltar para o hotel. Quanto a ir patinar no gelo  noite
naquele lindssimo lago... - Acenou com a mo e abanou a cabea. - No demorou nem dez minutos a dizer que no.
"No parava de se queixar do efeito que o ar frio exercia sobre a sua pele e descobri que detesta suar. E a lua-de-mel a praticar desportos de Inverno foi por gua
abaixo. Ou qualquer tipo de desporto, diga-se de passagem - acrescentou ele, com os olhos muito abertos.
- Mas devem ter ido comer a restaurantes europeus maravilhosos - observei. Eu sabia que a mam estava cheia de vontade de o fazer.
- Oh sim fomos. Mas a tua me come que nem um passarinho.  um desperdcio encomendar uma poro para uma criana, quanto mais pedir um prato completo. Acabei por
comer a comida dela e a minha todas as noites. Sorte a minha que andava a fazer muito exerccio, hem? - disse, recostando-se a acariciar a barriga.
- No, est... Est bem - disse eu. Ia-me saindo "maravilhoso".
- Obrigada. E esta  a histria das nossas frias e da nossa lua-de-mel de Inverno - finalizou, desapontado.
O empregado de mesa trouxe-nos o po e as saladas. No tinha dado conta da fome que sentia at comear a comer. O restaurante acolhedor, a conversa casual do Tony
sobre a mam e a lua-de-mel, e a comida deliciosa contriburam para que me acalmasse. Descontra-me pela primeira vez desde que descobrira que o Troy estava doente.
Conversmos mais sobre a Europa e eu contei-lhe as nossas viagens a Londres. Depois, descrevi-lhe tudo o que tinha feito enquanto ele a mam haviam estado no estrangeiro.
No me apercebi de que estava a falar tanto e h tanto tempo, porque ele ouvia com muita ateno e com os olhos fixos em mim.
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Oh, desculpe estar a falar tanto. No sei o que me
- No faz mal. Estou a gostar. Foi o mximo que conversaste comigo desde... desde que nos conhecemos.
Um pouco envergonhada, afastei os olhos para observar umas pessoas que iam a entrar no restaurante.
Ests com ptimo aspecto - elogiou ele. - V-se que passaste muito tempo ao ar livre.
- Obrigada.
No consegui controlar-me e corei. Ainda no tinha aprendido a aceitar elogios com ar de indiferena como a mam conseguia, apesar de ela contar sempre com eles.
Para mim, os elogios eram ainda um imprevisto e qualquer coisa de muito especial, principalmente quando eram proferidos por um homem to atraente como o Tony Tatterton.
Conseguia fazer com que os elogios soassem sinceros. Entusiasmou-se e fez-me vibrar. Depois, fiquei com remorsos de estar a sentir-me to bem, enquanto o pequeno
Troy, to doente, se encontrava estendido numa cama de hospital.
- No est na hora de regressarmos? - perguntei eu. Ele ainda me fitava intensamente, com um olhar muito penetrante e directo.
- O qu? Oh, sim. Imediatamente. - Fez sinal ao empregado.
Quando chegmos ao hospital, o Tony foi directo ao quarto do Troy, enquanto fiquei  espera no corredor. Pouco depois, apareceu com o mdico e fez-me sinal para
me aproximar deles.
- A febre baixou - anunciou ele, feliz. - E est a respirar com muito menos dificuldade. Vai ficar bem.
Fiquei to aliviada que comecei a chorar. Ele e o mdico olharam um para o outro e riram-se e depois o Tony abraou-me.
- Obrigada, Leigh - sussurrou ele -, por te preocupares tanto com ele. - Beijou-me na testa e eu olhei para cima, para dentro dos seus calorosos olhos azuis, com
a mente baralhada de tanta confuso. Tinha herdado uma famlia totalmente nova to depressa. Sempre que me sentia bem, principalmente com o Tony, sentia que estava
a trair o pap, mas, por outro lado, o Tony parecia afectuoso, preocupado e solcito. Ele e eu tnhamos sido atirados um para o outro pelo capricho da mam e talvez
ele, tanto quanto eu, estivesse a tentar adaptar-se e a organizar os seus sentimentos. Descontra-me nos braos dele e encostei a cabea ao seu ombro.
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"No posso odi-lo", pensei. "Perdoa-me, pap, mas no posso odi-lo."
- Queres entrar para v-lo, Leigh? - perguntou o Tony.
- Ele no est acordado, mas podes ficar  porta por uns momentos.
- Sim. Obrigada.
O Tony abriu a porta e eu observei o pequeno Troy, que parecia ainda mais pequeno do que me parecera de manh. A cama do hospital, a mscara e a garrafa de oxignio
tornavam-no to pequenino, to frgil. O meu corao chorou por ele. No consegui conter as lgrimas que se tinham formado de novo ao canto dos meus olhos. O Tony
tirou um leno e limpou-me as lgrimas.
- Ele vai ficar bem - assegurou-me, num tom tranquilizador, e abraou-me outra vez. Eu acenei com a cabea. Vamos para casa - disse. Desta vez, quando atravessmos
o enorme porto de Farthy, as palavras do Tony soaram verdadeiras: "Vamos para casa."
Eu estava de facto em casa, pois a nossa casa no era s um edifcio, ou uma casa, ou um lugar numa rua qualquer; era onde tnhamos amor e calor  nossa espera e
onde viviam as pesssoas de quem gostvamos. Eu amava o pap, mas ele estava embarcado no mar e agora j ningum vivia na nossa casa em Boston. Eu amava a mam, apesar
de todas as suas mentiras e de ser to egosta, assim como o pequeno Troy, e eles viviam ali, em Farthy.
Perguntei a mim prpria se alguma vez viria a gostar do Tony Tatterton. A maneira como me dava a mo enquanto subamos os degraus da entrada fez-me pensar que era
provvel que sim.
A mam acordara finalmente. O Tony e eu encontrmo-la sentada  frente do toucador a escovar o cabelo. Tinha acabado de sair da cama e vestia apenas um longo roupo
de seda verde, uma das muitas compras que fizera na Europa.
- Leigh, chamei-te h mais de uma hora. Onde estiveste? - perguntou ela. O Tony parou  porta, atrs de mim, e trocmos um olhar de desapontamento.
- Estive no hospital com o Tony, mam, para ver como estava o Troy.
- Eu pedi-te para no te expores  doena. J ests a ver como vai ser educar uma adolescente, Tony - disse ela, com brusquido. - So tal e qual cavalos selvagens,
teimosos e imprevisveis.
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Ela no esteve exposta  doena - retorquiu o Tony.
- Manteve a distncia necessria e eu achei que foi maravilhoso da parte dela ter querido ir.
- Podias ter telefonado. Como  que me pudeste deixar aqui sem saber o que estava a acontecer... onde estavam todos...
- Eu telefonei - protestou o Tony -, mas os empregados disseram-me que tu tinhas dado ordens para no seres perturbada.
- Ora, tu, mais que toda a gente, sabias que eu estava exausta. De qualquer modo, agora que chegaram, digam-me, como est ele? - perguntou ela, voltando-se para
o espelho para alinhar uma madeixa de cabelo.
- A febre baixou. Est a restabelecer-se.
- Ests a ver - disse ela, apontando para mim. - Enquanto ele estivesse no hospital, no havia nada a fazer. A partir do momento em que deu entrada, tudo dependia
dos bons mdicos, das enfermeiras e dos milagres da medicina - recitou ela, como se tudo tivesse sido uma histria da carochinha.
- Ele ainda est muito doente - disse o Tony -, mas a fase crtica j passou.
- ptimo, graas a Deus. Podemos ir jantar agora? Acordei faminta.
O Tony e eu voltmos a trocar um olhar rpido. A mam apanhou a nossa troca de olhares.
- O que foi?
- Eu levei a Leigh ao Leone's enquanto estvamos  espera de notcias do estado de sade do Troy - confessou o Tony.
- J comeram os dois? E sem mim? - gritou ela.
- Bem, tu estavas em casa e...
- Est bem - interrompeu ela e a sua expresso desapontada desapareceu. - Pede aos empregados para me trazerem qualquer coisa leve para comer aqui no quarto - entoou
ela. O seu humor mudara to rapidamente que me ps a cabea a andar  roda. - De qualquer modo, eu tambm no estou em condies de descer e sentar-me  mesa. vou
precisar de pelo menos mais um dia para me recompor prosseguiu, como se tivesse estado no hospital, em vez de ter regressado de uma maravilhosa lua-de-mel na Europa.
- ptimo - exclamou o Tony. Deu um passo em frente e inclinou-se para lhe dar um beijo; ela, porm, afastou-se, pois ele podia despente-la. O Tony sentiu-se embaraado.
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- Ainda estou muito cansada - foi a desculpa dela. Ele acenou com a cabea e saiu rapidamente.
Mal ele tinha sado, a mam fez-me sinal para que me aproximasse, abrindo os olhos para dar mais nfase.
- Ai, Leigh, no podes imaginar como foi difcil.
- O qu? - No fazia ideia do que ela queria dizer.
- Passar estes ltimos dias com um homem to jovem e to forte como o Tony. Ele nunca precisa de descansar e veste-se num pice - disse ela, irritada e com uma ponta
de inveja. As suas sobrancelhas delicadas elevaram-se como que em sinal de desespero.
- Ento no se divertiu na lua-de-mel? - perguntei, para confirmar o que o Tony me havia contado.
- Sim e no. Ele  to atltico, levantava-se de madrugada contando que eu j estivesse vestida e pronta para tomar o pequeno-almoo, e, quando eu me queixava, ficava
aborrecido. Ests a ver a falta de considerao? Como  que ele podia esperar que eu descesse  sala de jantar sem estar devidamente pintada e vestida? Mandava-o
o descer sozinho e at ficava feliz por me ver livre dele e por poder arranjar-me sem ele me ver. Estava sempre arranjado e pronto para sair em menos de metade do
tempo do que eu precisava. Ficava aborrecido e ento eu dizia-lhe para no esperar por mim. Dizia-lhe para ir  frente e para deslizar para cima e para baixo naquelas
montanhas geladas.
"Pensava que um dia daquela actividade, que requer esforo, o deixaria exausto. Mas, no... Ele voltava todas as tardes verdadeiramente fortalecido e podes imaginar
do que  capaz um homem com a juventude e a vitalidade do Tony quando est cheio de fora.
Ela viu a minha expresso confusa e fez um sorriso malicioso.
- Faz amor como se fosse a ltima vez, praticamente a violar-me - explicou ela.
Ao ouvi-la fazer referncia a um assunto to ntimo, o sangue subiu-me ao rosto.
- E quando acaba e tu ests  espera de conseguir retomar o flego, ele volta ao ataque. Senti-me como uma prostituta.
"E v l que, at a meio da noite, ele me dava cotoveladas para eu acordar, traumatizava-me, interrompendo o meu sono descansado, querendo entrar em carcias. O
facto de eu estar meio a dormir no era relevante para ele. Ficava zangado porque eu no correspondia como ele estava  espera.
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"Bem, eu no conseguia. No queria. No vou sacrificar a minha sade e a minha beleza para satisfazer o apetite animal de um jovem - acrescentou ela, com determinao.
Eu no sabia que dizer. A mam dava a ideia de que fazer amor era uma tortura; porm, no era assim que estava descrito nos livros que eu tinha lido.
Oh, Leigh - choramingou ela, voltando-se para mim
e pegando nas minhas mos -, tens de ser a minha melhor amiga, a minha aliada, agora mais do que nunca. Vais ser? Vais ser?
- Claro que vou - repliquei eu, embora no fizesse ideia do que ela estava a falar.
- ptimo, porque o Tony gosta de ti e no se importa de estar contigo. Eu j percebi isso. Foi bom teres ido jantar com ele em Boston. vou precisar que me ajudes
a mant-lo divertido e feliz. Ele precisa de tanta ateno e exige tanta afeio.  absolutamente esgotante! - lamentou-se ela.
Mantive-me calada.
- No  que no o ame. Eu amo-o. Eu adoro-o. S que nunca esperei que ele fosse to... to viril... to faminto de sexo. Se no encontrar maneira de o manter  distncia,
ele vai esgotar-me, vai roubar-me a minha energia.
" verdade - confirmou, antes que eu pudesse reagir. J vi isso acontecer a outras mulheres. Os maridos delas so to exigentes que elas se tornam velhas antes de
tempo, e depois eles vo  procura de satisfao noutros lugares. Uma mulher tem de resguardar a sua beleza, como uma jia preciosa, mant-la numa redoma, protegida,
permitir que os homens olhem para ela, a contemplem de longe, mas raramente lhe toquem, pois cada contacto fsico absorve, tira, diminui.
"O Tony quer-me a seu lado constantemente. Quer que eu l esteja, sempre que tem vontade de me beijar, de pegar na minha mo, de me abraar e, depois, de me possuir.
Eu achei que devia ser maravilhoso... ter um homem que precisa de ns e que nos quer tanto. E afinal, no era ela que se estava sempre a queixar do pap, porque
ele no passava tempo suficiente com ela, porque ele no gostava tanto dela como do seu negcio? Agora tinha encontrado um homem que lhe era dedicado, que a adorava,
e ela sentia-se ameaada por isso. Era to confuso.
Ficou calada por uns instantes a contemplar uma linha por baixo dos olhos. Depois suspirou e mergulhou o dedo numa embalagem de creme para a pele.
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- Oh, Leigh - suspirou ela, ao mesmo tempo que passava o creme pelo rosto e olhava para o espelho -, receio bem que tenhas de vir passar fins-de-semana a casa, quando
estiveres em Winterhaven, com mais frequncia do que eu tinha pensado. O Tony quer fazer fins-de-semana a praticar esqui e viagens de pequenas luas-de-mel regularmente.
Est  espera que eu v de avio com ele passar trs dias aqui, trs dias ali. Um ritmo to activo vai envelhecer-me.
Voltou a virar-se para mim e a pegar-me nas mos.
- Vais ajudar-me, no vais? Tambm vais passar tempo com ele e mant-lo ocupado. Uma rapariga tem muito mais energia. Talvez consigas estaf-lo de tal maneira que
ele de noite no se venha atirar a mim tipo Casanova. Oh, por favor, Leigh, diz que sim.
Eu no sabia que dizer. com que  que eu estava a concordar? Mas eu sabia que ela queria muito que eu dissesse que sim.
- Sim, mam, eu virei a casa frequentemente.
- Obrigada, Leigh. Obrigada. Eu sabia que tu eras suficientemente crescida para entender a minha situao. Deu-me um abrao rpido. -  to bom ter uma filha com
esta idade que possa ser como uma irm para mim. E prosseguiu: - Agora, deixa-me mostrar-te as coisas todas que comprei na Europa. Comprei algumas camisolas lindas
para ti tambm. Gostaste dos teus presentes de Natal? perguntou ela, sem parar para respirar.
Nem consegui falar.
- Vi que o teu pai te mandou uma prenda. O que era?
- perguntou, estreitando os olhos a transbordarem de desconfiana.
- Este medalho - respondi eu e tirei-o para fora. Ela deu-lhe uma vista de olhos, mas no me pediu para o abrir.
- Muito bonito - disse e voltou-se para as coisas que tinha trazido da Europa.
A sade do Troy continuou a fazer progressos e no dia seguinte estava muito melhor. Acompanhei mais uma vez o Tony  visita, antes de comear o meu ano lectivo em
Winterhaven. A mam cumpriu com todas as suas decises. A beleza tinha-se tornado a sua religio; venerava a sua prpria imagem no espelho e prosseguia com um furor
renovado na recuperao da vitalidade que insistia ter perdido durante a lua-de-mel. No s se recusava a ir ao hospital, como tambm comeou a levantar-se de manh
cada vez mais tarde, e
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depois passava horas  frente do toucador, antes de descer para tomar o pequeno-almoo e para se encontrar com amigas.
Apercebi-me de que o Tony estava cada vez mais aborrecido com ela: de manh, subia as escadas furioso para tentar que ela descesse e viesse tomar o pequeno-almoo
connosco e depois voltava, com uma expresso desanimada e com os olhos murchos, derrotado. Ento, na noite antes de iniciar a minha vida em Winterhaven, ouvi-os
a terem a primeira discusso. No tive inteno de escutar  porta, mas estava a caminho do quarto da mam para falar com ela sobre a roupa que ia levar para a escola.
Passava pouco das nove da noite; a mam j tinha subido  sua suite para descansar e para ler um dos seus romances, uma coisa que ela andava a fazer cada vez mais
nos ltimos tempos. Tinha acabado de entrar na sala de estar, quando ouvi o Tony a dizer:
-  como se no estivssemos casados.
Fiquei gelada. Ele implorava mais do que gritava. - Eu no vou deixar que o teu apetite sexual me ameace a sade - replicava a mam.
- Mas, Jillian, fazer amor no vai ameaar a tua sade. Se tiver algum efeito  o de te sentires mais completa, mais realizada como mulher.
- Ah, tretas. S um homem  que se lembrava de dizer isso. Sinceramente, Tony, ests-te a comportar como um menino de escola que acabou de descobrir o sexo. Estou
desapontada com a tua falta de autocontrole.
- Falta de autocontrole! - vociferou o Tony. - Ficaste demasiado cansada a meio da nossa lua-de-mel e, cada dia que passava, ias arranjando uma desculpa diferente
e agora, que j estamos em casa h trs dias, tu ainda no tens fora suficiente para fazer amor, e eu  que sou acusado de falta de autocontrole.
- Fala mais baixo, por favor. Queres que os empregados nos ouam? - disse a mam baixinho. - J te disse - insistiu ela num tom mais ameno -, s preciso de mais
algum tempo. Por favor, Tony, por favor, s compreensivo. Hoje  noite dormes outra vez no teu quarto. Talvez amanh...
- Receio bem que amanh tenhas outra desculpa - proferiu ele, em tom de derrota. - No sei para que  que ests a guardar-te - disse ele, de sbito. - Ou ests 
espera de um dia ter outro marido ainda mais novo?
Antes que eu pudesse dar meia volta e sair dali, ele apareceu de rompante, sado do quarto da mam. Parou, quando
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me viu ali em p com uns olhos enormes. As suas feies ficaram um pouco mais suaves, mas no disse nada. Continuou simplesmente a andar. Eu esperei uns minutos
e depois entrei para discutir o meu guarda-roupa com a mam, a fingir que no tinha ouvido nada.
- Lembra-te do que me prometeste, Leigh - avisou ela antes de eu sair. - Vem a casa tantas vezes quantas conseguires e passa o mximo de tempo que puderes com o
Tony. Preciso de ajuda, pelo menos nestes primeiros tempos deste meu novo casamento.
- Mas, mam, ele no vai querer estar comigo. Ele casou consigo. Vai querer estar consigo.
- Ele s precisa de companhia. Vais ver. Oh, valha-me Deus - disse ela, a contemplar a sua imagem no espelho. Toda esta tenso fez-me olheiras.
Eu no vi olheiras nenhumas.
- Preciso de uma boa noite de descanso. Dorme bem, querida, e que tenhas um bom primeiro dia na escola.
- Mas a mam no vem comigo? - O meu corao bateu mais depressa com medo.
- Por amor de Deus, Leigh. Tu no precisas de mim. O Tony vai tratar de tudo como prometeu. Ele vai levar-te, falar com a directora e verificar se ficars confortvel
e em segurana. Depois vai para o seu escritrio. Tudo correr bem.
- Mas...
- Tenho de descansar. - E desligou a luz de ler. - Boa noite, Leigh.
Afastei rapidamente os meus olhos, desgostosa, zangada... Talvez mais do que o Tony. Eu sabia porque  que ela no queria vir comigo. No queria que as pessoas soubessem
que ela tinha uma filha da minha idade. Queria prosseguir nesta charada da juventude. Estava to decidida a que eu fosse como uma irm para ela que na mente dela
eu era a sua irm, no a sua filha. No faria as mesmas coisas que as outras mes faziam; pelo menos o que estivesse ao seu alcance evitar. Neste momento, eu desprezava-a,
desprezava-a por tudo: pela dor e sofrimento que tinha trazido ao pap e a mim com o divrcio, por ser to egocntrica e por me ter mentido ao longo de todos estes
anos. Estava to zangada que demorei imenso tempo a adormecer.
Quando abri os olhos, deparei-me com o Tony  minha cabeceira, olhando-me fixamente, a sorrir. Parecia que j ali estava h algum tempo. Tinha-me mexido e virado
ao longo
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da noite e o cobertor estava enrolado  volta da minha cintura e a camisa de dormir pendia, quase que expondo os meus seios.
- bom dia - disse ele. - No queria assustar-te, mas sabia que ainda no estavas levantada e esta manh temos um horrio para cumprir. Quero sair dentro de mais
ou menos uma hora, est bem?
Assenti prontamente, puxando o cobertor at ao pescoo.
Dentro de vinte minutos vou mandar o Miles c acima para levar as tuas malas. Vejo-te ao pequeno-almoo - acrescentou ele e saiu.
Levantei-me apressadamente, tomei um duche e vesti-me. A caminho do pequeno-almoo, reparei que as portas da suite da mam ainda estavam bem fechadas. Nem me preocupei
em entrar e dizer adeus.

11 WINTERHAVEN

O cu estava limpo, naquela manh em que partimos para Boston e para a minha nova escola, mas o cu azul-claro iludia pois, quando sa da manso, o ar estava to
frio que parecia que tnhamos acabado de entrar num frigorfico. A luz do Sol brilhante reflectida na neve compacta fez-me fechar os olhos. O Tony riu-se da careta
que fiz e deu-me os seus culos de sol.
- Toma. Pe estes. Tenho outros na limusina - disse ele.
- Mas estes culos de sol so de homem.
- No, eu comprei-os na Europa, so unisexo e muito caros, diga-se de passagem. A tua me comprou dois, apesar de eu no perceber para qu. Ainda no saiu de casa
desde que chegmos - murmurou ele, por entre dentes, e fez-me sinal para entrar no carro  sua frente. Havia um Wall Street Journal e uma espessa pasta com papis
em cima do banco.
- Normalmente leio e trabalho no caminho para a cidade explicou ele. - Mas hoje vou p-los de lado uma vez que tenho uma companhia to bonita.
Desviei rapidamente o olhar. Eu sabia que ele estava a tentar ser simptico, pois tinha visto como eu ficara perturbada por a mam no vir tambm, mas no estava
a sentir-me nem bonita, nem de bom humor. Sentia mais que tinha cado numa armadilha, forada a ir para lugares para onde no queria ir e fazer coisas que no queria
fazer, s porque isso fazia a mam feliz. Ela parecia conseguir sempre o que queria, e sem qualquer dificuldade ou esforo. Estava l em cima, confortavelmente instalada
na cama.
- Vais adorar Winterhaven - disse ele, quando o Miles arrancou. - O edifcio principal foi anteriormente uma igreja e o campanrio ainda l est. Toca o sino hora
a hora, e ao fim da tarde ouvem-se melodias.
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"Todos os edifcios tm nomes e constituem um semicrculo. H uma passagem subterrnea que liga os cinco edifcios As alunas usam-na quando a neve dificulta a passagem.
Vais ficar instalada no edifcio principal, Beecham Hall.  onde esto situados os dormitrios e os refeitrios, e as reunies tambm so feitas l.
Se  uma escola s para raparigas, como  que conhece tantas coisas? - perguntei eu bruscamente. No tinha inteno de despejar a minha fria sobre ele, mas no
consegui controlar-me. Ele sorriu e olhou pela sua janela por algum tempo. Pensei que no ia explicar-me a razo, mas depois voltou-se para mim com os olhos a brilhar.
- Eu conheci uma rapariga que frequentava Winterhaven - respondeu ele, com suavidade.
- Oh! Era uma namorada? - perguntei eu, petulante. Ele, ou ignorou, ou no ouviu o meu tom sarcstico. O seu sorriso reacendeu-se e ele assentiu.
- Sim. Era uma rapariga muito bonita, muito doce... quase angelical, achava eu. Estava sempre contente, mas albergava tanta compaixo e amor, que, se um rato fosse
apanhado numa ratoeira, at chorava. - Os olhos dele tornavam-se mais sonhadores  medida que ia recordando mais coisas relacionadas com ela. - Tinha uma voz suave
e um rosto pequeno e perfeito, em forma de corao. Era como uma criana, inocente e muito dcil. Mesmo que estivesse muito triste ou deprimido, quando a via, voltava
a sentir-me feliz e cheio de vida.
- O que  que lhe aconteceu? - perguntava a mim prpria porque  que ele no tinha casado com uma pessoa to maravilhosa.
- Morreu num acidente de automvel na Europa quando estava em frias com os pais dela... numa daquelas estradas traioeiras das montanhas. Eu conheci-a por pouco
tempo, mas... Bem - disse ele, mudando rapidamente de assunto -, ela frequentava Winterhaven e eu encontrava-me l com ela, por isso  que conheo bem o stio.
"Na verdade, a Jillian faz lembrar muito ela. Tem o mesmo rosto perfeito, a mesma expresso suave, a expresso que os artistas procuram obter. Tu tambm tens essa
expresso, Leigh - disse ele, voltando-se bruscamente para mim.
- Eu no, eu no sou muito parecida com a mam. Os meus olhos esto demasiado juntos e o meu nariz  muito maior.
- Que disparate - insistiu ele. - Tu s muito modesta.
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Parte dessa modstia devia ser canalizada para a tua me
disse ele com uma amargura surpreendente. - Ela est a pr-me maluco, sabes. Mas - continuou -, esse problema  meu. Hoje temos de tratar da tua felicidade e do
teu bem-estar. - Recostou-se para apreciar o passeio.
Seria eu demasiado modesta? Estaria mesmo a ficar bonita ou o Tony s estava a dizer aquilo para me animar? Para alm do pap, nenhum homem me tinha elogiado tanto.
Seria por eu ainda ser nova ou porque s os paps e os padrastos  que nos diziam essas coisas?  certo que o meu cabelo estava a tornar-se to brilhante e to macio
como o da mam e os nossos olhos eram da mesma cor. Seria errado da minha parte ter esperanas de um dia ser to bonita como ela, talvez at mais?
- Olha - exclamou ele, apontando, quando estvamos a chegar  escola -, ests a ver o que eu dizia?
Wintherhaven tinha realmente uma aparncia elegante e especial. Estava confortavelmente aninhado no seu prprio pequeno territrio de rvores despidas, devido ao
Inverno, com pequenos focos de verde a aliviar a tristeza que causava. O edifcio principal era feito em ripas brancas que brilhavam  luz matinal do Sol. Estava
 espera de um edifcio de pedra, com tijolos.
Logo que chegmos, um empregado da escola veio buscar a minha bagagem e levou-a em cima de um carrinho de mo. O Tony fez um gesto na direco dos servios administrativos.
Reparou na minha expresso temerosa. Era uma escola nova, com professores novos e amigas novas. No conseguia deixar de me sentir nervosa. Era este o momento em
que uma rapariga precisava da me ao seu lado, para a confortar, a minha, provavelmente, ainda estaria na cama, com o rosto coberto de cremes de noite, pensei eu,
com desdm.
- No fiques to assustada. Vais dar-te bem aqui. Eu vi as tuas notas da escola e, no que respeita a fazer amigas, todas as raparigas neste lugar vo tropear umas
nas outras para tentar ter-te como companhia. Excepto aquelas que sentirem inveja e raiva por a nova aluna ser to bonita - acrescentou. O sorriso dele deu-me a
fora que precisava para subir os degraus.
Fiquei surpreendida. Estava  espera de qualquer coisa estilo entrada de hotel de luxo, mas o que vi era muito austero. Estava tudo muito limpo e o cho era de madeira
dura, muito bem encerada. As paredes eram quase brancas e os acabamentos trabalhados e escurecidos. Fetos em vasos e outras
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plantas domsticas estavam espalhadas aqui e ali sobre mesas ou ao lado de cadeiras de costas direitas com um aspecto pesado, para aliviar a nudez das paredes brancas.
Da sala de estar eu podia ver a sala de visitas, que era um pouco mais acolhedora, com a sua lareira e os seus sofs e cadeiras forrados a chita, cuidadosamente
dispostos.
O Tony conduziu-me ao gabinete da directora, Miss Mallory, uma mulher robusta e afvel, que nos dirigiu a ambos um sorriso aberto e caloroso.
Bem-vinda a Winterhaven, Miss VanVoreen - disse ela. -  uma honra e um privilgio ter a filha do dono dos paquetes de luxo mais famosos do pas a frequentar a nossa
escola.
Continuou a sorrir para o Tony. Segundo a minha estimativa, devia ter entre vinte e cinco e trinta anos, talvez fosse um pouco nova de mais para o cargo que ocupava,
mas a sua voz aguda e os culos tipo avozinha faziam-na parecer mais velha. Tinha o cabelo castanho-escuro apanhado num carrapito e no usava maquilhagem, nem sequer
bton. Parecia um pouco insegura; no entanto, pela maneira como a mam tinha descrito a influncia que o Tony tinha na escola, presumi que o parecer dele poderia
ter efeito sobre o futuro dela. As propinas da escola eram caras, mas, o fido, existia graas s contribuies de pessoas abastadas como o Tony.
- Eu sei que Mister Tatterton  uma pessoa ocupada, portanto vamo-nos despachar. Presumo que queira dar uma vista de olhos aos aposentos da Leigh - disse ela, sorrindo
para o Tony. - Eu prpria vou mostrar o quarto - prosseguiu -, e depois ns as duas podemos conhecer-nos melhor quando eu lhe explicar o programa. Fui eu que o desenvolvi
pessoalmente - acrescentou ela, elevando as sobrancelhas para impressionar o Tony.
A expresso dele no se alterou.
- Por aqui - indicou Miss Mallory com a mo. - Pedi  sua companheira de quarto, a Jennifer Longstone, para ficar no quarto esta manh, em vez de ir s aulas, para
vos poder apresentar. No fao isto com toda a gente. E, claro disse ela voltando-se para mim -, se houver algum problema entre si e a Jennifer, qualquer que seja,
no hesite em dizer-me e eu mud-la-ei de aposentos. - Voltou a sorrir para o Tony e levou-nos atravs do corredor que ligava os servios administrativos ao dormitrio.
Havia vrios quadros de informaes ao longo do caminho e, apesar de a maior parte estarem cheios de avisos de
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clubes e de chamadas de ateno para datas de testes e coisas afins, havia tambm muitas advertncias sobre o regulamento dos dormitrios que proibia o armazenamento
de comida nos quartos e lcool, incluindo cerveja e vinho. A hora de estudo era das sete s oito e, depois das oito, as alunas podiam ir para a sala de estar ver
televiso ou jogar jogos de mesa ou de cartas at  hora de recolher, mas eram interditos os jogos de azar de qualquer tipo. Nenhuma das alunas podia ter um aparelho
de televiso no quarto e tambm no era permitido ouvir msica alta. Claro que era proibido fumar em qualquer lado.
Reparei que cada interdio era acompanhada por ameaas de demritos. Miss Mallory notou que eu estava a ler os quadros informativos  medida que amos andando.
- Sim, como v, temos regras muito rgidas aqui em Winterhaven - explicou ela. - Orgulhamo-nos das nossas raparigas, do procedimento e do comportamento exemplar
delas. Uma vez por outra surge um problema, mas resolvemo-lo rapidamente. Se alguma d provas de ser incorrigvel, o sistema de demritos por fim  sua frequncia.
"Por razes bvias - prosseguiu ela -, esperamos que a Leigh chegue a horas s salas de aulas, que no se atrase nas suas tarefas e que seja pontual  hora das refeies.
Foi-lhe atribuda uma mesa e no  permitido mudar de lugar, a no ser que seja convidada pelas ocupantes de outra mesa. Claro que tambm pode convidar algum para
a sua mesa. Cada aluna tem de servir  mesa durante uma semana em cada semestre. O servio  rotativo e a maior parte das alunas no o considera desagradvel.
"Mas - acrescentou ela, detendo-se  porta -, tenho a certeza de que uma rapariga da sua classe e educao no ter qualquer dificuldade em adaptar-se. - Dirigiu
novo sorriso ao Tony e abriu a porta.
Fiquei surpreendida com a simplicidade do quarto, pois estava  espera que raparigas de famlias to ricas e to conhecidas tivessem aposentos luxuosos. E o quarto
tambm era muito mais pequeno do que eu tinha imaginado. O cho era de madeira dura polida, havia tapetes ao comprido, estendidos junto s camas individuais simples
com uma estrutura em carvalho de cor clara. Ao centro, entre as camas, havia dois roupeiros iguais; nos cantos, duas secretrias com candeeiros e, sobre elas, ao
lado de cada uma, prateleiras de pinho escuro. A meio do tecto estava pendurado um candeeiro em forma de bacia. As paredes eram brancas e os acabamentos
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trabalhados e escurecidos, tudo igual  entrada do edifcio. Por detrs de cada uma das cabeceiras da cama, havia uma janela rectangular com persianas amarelo-plidas
e finas cortinas brancas.
A Jennifer Longstone estava sentada  sua secretria, no canto direito. Levantou-se imediatamente e sorriu. Era pelo menos sete centmetros mais baixa do que eu,
tinha um rosto redondo com grandes olhos escuros e, pareceu-me, uma linda cabeleira preta, preta como alcauz. Gostei do sorriso dela e da maneira como o seu nariz
achatado se contorcia. Vestia uma camisola branca e uma saia azul com sapatos de cabedal e soquetes.
- Jennifer - apresentou Miss Mallory -, a Leigh VanVoreen e o seu padrasto, Mister Anthony Tatterton.
- Prazer em conhec-los - disse Jennifer, estendendo a mo, primeiro ao Tony e depois a mim, sob o olhar perscrutador de Miss Malory.
- A Jennifer  da sua turma - prosseguiu Miss Mallory.
- Achei que ambas iam gostar disso. Depois de se acomodar, a Jennifer vai dar uma volta consigo para lhe mostrar o lugar, e a seguir apresentar-se- no meu gabinete
para discutirmos o seu horrio. Jennifer, depois disso pode retomar as suas tarefas.
- Sim, Miss Mallory - replicou a Jennifer, mas havia um brilho nos seus olhos quando olhou para mim. Gostei logo dela.
- Mister Tatterton - disse Miss Mallory -, espero que tenha ficado satisfeito.
- Bem, a Leigh  que tem de ficar satisfeita - respondeu o Tony, fitando-me com o seu caracterstico sorriso.
- Eu acho bem - afirmei eu.
- Pronto - exclamou Miss Mallory. - Deixamo-las sozinhas para se conhecerem. Logo que acabem a vossa volta pela escola, Leigh, por favor, apresente-se de imediato
no meu gabinete.
- Sim, Miss Mallory.
- At ao fim-de-semana - despediu-se o Tony, - Telefona se precisares de alguma coisa, pois eu vou estar na cidade todos os dias.
- Obrigada, Tony. E mande um beijo ao Troy.
- Mandarei. - Deu-me um beijo rpido na testa e foi atrs de Miss Mallory. A Jeniffer no se mexeu nem disse uma palavra at a porta estar fechada. Depois, explodiu
com uma energia que me confundiu e me divertiu.
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- Ol. Estou to contente por ter uma companheira de quarto. Chamas-te Leigh? Eu sou de Hyannis Port. J alguma vez foste l? Oh, claro, j deves ter ido, quanto
mais no seja, j deves ter passado por l. Queres ajuda para desfazer as malas? Este  o teu armrio, mas se precisares de mais espao podes utilizar o meu, que
ainda tem lugar. Aquele era o teu padrasto?  to bonito. Quantos anos tem?
Parou para respirar e eu ri-me.
- Oh, estou a falar de mais - acrescentou. - Desculpa. Deves ter um milho de perguntas para me fazer. Podes comear, desata a perguntar - disse ela, cruzando os
braos e recuando.
- H quanto tempo ests em Winterhaven?
- A vida toda. No, estou a gozar. H trs anos.  uma escola primria e secundria, sabes. Eu estou condenada a fazer o liceu aqui todo. Em que escola  que andavas?
- Era uma escola oficial em Boston.
- Uma escola oficial! Que sorte... Turmas com rapazes, rapazes nos corredores e no refeitrio. Aqui s vemos rapazes quando a madre superiora autoriza que se realize
um baile.
- A madre superiora?
- Sim, Miss Malory. Sabes, ela s tem vinte e seis anos, mas a Ellen Stevens contou-me que ouviu dizer que Miss Mallory fez votos, como uma freira, para se dedicar
 educao. Nunca se casar. Vive aqui e nunca sai com ningum!
- A Ellen Stevens?
- Sim. Oh, vais conhecer toda a gente ao almoo. Temos a melhor mesa da ala do secundrio. H a Ellen e a Marie Johnson, cujo pai faz todas aquelas peas para automveis,
e a Betsy Edwards, cujo pai administra a pera de Boston, e a Carla Reeve, cujo...
- Aqui toda a gente  conhecida pelo que os pais fazem?
- interrompi eu. Roubei-lhe o vento que soprava as velas da sua excitao.
- Oh, desculpa. Pensei que quisesses saber. Pelo menos, a maior parte das raparigas que vm para c querem saber estas coisas.
- Eu no - repliquei, bruscamente. A cara dela descaiu. - Est bem - acedi eu -, o que  que o teu pai faz?
- Era advogado, um dos melhores da Nova Inglaterra disse ela, com orgulho. E depois o seu sorriso tornou-se frgil como vidro da espessura do papel. - Mas morreu
o ano passado.
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- Oh, que pena.
Acho que  por isso que eu falo dos pais de toda a
gente - Baixou os olhos e depois elevou-os rapidamente quando uma ideia nova lhe passou pela cabea e lhe restituiu a disposio entusistica. - Mas porque  que
tens um padrasto e ainda por cima to jovem? - Eu tinha a certeza de que ela pensava que o meu pai tambm tinha morrido e que tnhamos muito mais coisas em comum,
para alm da idade e da turma.
- A minha me divorciou-se do meu pai - disse eu, abruptamente. Achei que no havia razo para esconder. Mais cedo ou mais tarde, toda a gente iria descobrir. Os
olhos dela aumentaram.
- Que triste - lamentou ela. -  difcil conseguires ver o teu pai verdadeiro?
- Sim. Ele trabalha imenso. Dirige um negcio de paquetes de luxo. Mas esta semana vem c ver-me - acrescentei, sem esconder a minha felicidade e emoo. - Vai levar-me
a jantar fora.
- Isso  bom - disse ela. - O meu pai costumava fazer isso comigo - acrescentou melancolicamente.
- Desta vez no, porque h muito tempo que no o vejo, mas talvez da prxima vez eu te leve comigo, se quiseres.
- A srio? Adorava. E no direi nenhuma estupidez nem nada que possa ser embaraoso. Tu explicas-me o que tenho de fazer e de dizer, E no conto nada a nenhuma das
outras raparigas. Prometo, juro, juro a ps juntos - disse ela, juntando os ps. Tive de me rir.
- Est bem, eu conto-te, mas primeiro vamos arrumar as minhas coisas, antes que a madre superiora venha  minha procura.
A Jennifer deu gritinhos de prazer e abraou-me. Em poucos minutos, ela tinha conseguido afastar os pensamentos inquietos que se haviam instalado nos recantos mais
sombrios da minha mente. Sabia que era o princpio de uma grande amizade.
A Jennifer levou-me a dar uma volta pela escola, mostrando-me o refeitrio, a sala de reunies, os tneis subterrneos e o ginsio. Depois, ensinou-me o caminho
mais curto para cada uma das minhas salas de aula.
- Os nossos professores costumam dar muita importncia  pontualidade na sala de aula. Portanto, tem cuidado com isso... Se no... - Passou o indicador direito pela
base
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do seu pescoo. - Tens uma reunio com a madre superiora e apanhas com um dos longos sermes dela sobre compostura e sobre a necessidade de disciplina e de ordem.
Uh!
- Presumo que j tenhas tido algumas?
- Algumas - confessou -, mas ela tem sido simptica para mim desde que... desde que... - Era suficiente. Eu percebi. -  melhor ires ter com ela agora. Tenho de
tentar chegar a tempo  aula de Cincias. Depois vamos almoar e vais conhecer toda a gente.
- Obrigada, Jennifer. Ela encolheu os ombros.
- Ainda bem que ests c. s a minha primeira companheira de quarto.
- A srio? Mas pensei que tinhas dito que j c estavas h trs anos.
-  conforme a mar - respondeu ela e foi-se embora para a aula. Era definitivamente o que a av Jana chamaria de "uma lufada de ar fresco". Apressei-me para o gabinete
de Miss Mallory a fim de receber o meu horrio e o meu primeiro sermo. Agora que o Tony j no estava presente, notava-se distintamente uma alterao na atitude
dela. Era muito mais formal e a expresso perdera a sua suavidade. Atravs de clculos rgidos, examinou-me, pesou-me, mediu-me, julgou o meu carcter, as minhas
fraquezas, os meus pontos fortes.
- Quando a campainha toca s sete da manh, deve levantar-se e vestir-se o mais depressa possvel. Como o pequeno-almoo  s sete e meia, no se pode perder muito
tempo em pinturas e a pentear o cabelo.
"Tenho que a informar que aqui todas so iguais. Ter de ganhar o respeito dos seus professores e das suas colegas de turma.
"Muito importante: em Winterhaven no se exibe a fortuna das famlias. Espero que no se esquea disso. Como j lhe disse h pouco, tenho muito orgulho nas minhas
raparigas, nesta escola e na reputao que ganhou.
"Tenho a certeza de que far jus ao nome da escola disse, para finalizar. - bom, estou a ver que est mesmo na hora do almoo, portanto  melhor ir directamente
para o refeitrio. Venha ter comigo se tiver alguma pergunta ou problema. A minha porta estar sempre aberta.
- Obrigada, Miss Mallory - agradeci e sa prontamente.
Mal entrei no refeitrio, a Jennifer levantou-se e acenou-me.
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A nossa mesa era a mais afastada  direita, perto das janelas grandes. Por isso, tnhamos uma vista para a fachada da frente da escola. Apressei-me at l. A Jennifer
havia guardado o meu lugar mesmo ao lado dela.
- Ol - saudei eu. As raparigas todas examinaram-me cuidadosamente, tal como eu examinaria uma rapariga nova na minha antiga escola... Observaram a minha roupa,
o meu aspecto, como  que eu usava o cabelo. Porm, tinha a certeza de que a Jennifer j as tinha posto ao corrente de algumas coisas.
- vou apresentar-te toda a gente - afirmou a Jennifer.
- Leigh, esta  a Ellen Stevens, a Toby Krantz, a Wendy Cooper, a Carla Reeve, a Betsy Edwards e a Marie Johnson.
Todas as raparigas acenaram com a cabea e disseram "ol". Achei que a Marie Johnson era a mais bonita e percebi que era a lder do grupo.
- Como foi a tua reunio com a madre superiora? perguntou Jennifer.
- Bem - respondi eu. - Deu-me o meu horrio. - Tirei-o para fora e a Jennifer confirmou que tnhamos todas as disciplinas juntas. Algumas das outras raparigas tambm
partilhavam algumas disciplinas comigo.
- Ela no te disse quo distinto e respeitvel Winterhaven era e como ns todas ramos cidads modelo? - perguntou a Marie, pestanejando. As outras raparigas riram-se
 socapa. - Bem, ns somos, quando queremos - prosseguiu a Marie, com um ar manhoso.
- Quando nos d jeito... - Depois, acrescentou: -  melhor ires buscar depressa a tua comida. No temos muito tempo para almoar.
Levantei-me e fui para a fila do almoo. A comida era muito melhor do que eu estava habituada na minha antiga escola. Finalmente um indcio que reflectia a despesa
que os nossos pais tinham com a escola, pensei eu.
- A Jennifer disse-nos o nome do teu padrasto - comunicou a Ellen Stevens, quando voltei para o meu lugar. Ele tem alguma coisa a ver com a Fbrica de Brinquedos
Tatterton?
- Ele  a Fbrica de Brinquedos Tatterton - retorqui eu, surpreendida por ter soado to orgulhosa.
- Eu sabia - disse alegremente a Carla Reeve. A minha me conhece-o. Ns temos trs peas Tatterton de coleco.
- A srio?
- Ele  to bonito como a Jennifer diz? - perguntou a
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Marie, estreitando os olhos. Tinha um ar muito mais maduro do que as outras todas.
-  muito bonito, se no, a mam no tinha casado com ele - respondi eu, sem inteno de soar to afectado como soou.
- A mam? - repetiu a Betsy. A Marie lanou-lhe um olhar incisivo e a Betsy desfez o sorriso de troa. Depois, virou-se para mim.
- Tens sorte - disse ela. - Ests sentada na mesa do melhor grupo de raparigas da ala da escola secundria. Temos o nosso clube especial privado. Estamos sempre
juntas. Hoje  noite, depois do recolher, vou dar uma festa no meu quarto. Podes vir tambm.
- Mas, e o regulamento?
- O que  que tem? No me digas que acreditaste nas coisas que a madre superiora te disse. s nove da noite j ela est quase a dormir e quanto a Mistress Thorndyke,
a vigilante do nosso dormitrio, podamos explodir uma bomba  porta do quarto dela que no parava de ressonar.
Todas riram.
- No te preocupes - disse a Jennifer. - Eu levo-te comigo.
S tive tempo de acabar de comer quando a campainha tocou, e fui para a minha primeira aula. Cedo descobri que a escola era mais ou menos igual em todo o lado. Pginas
para ler, perguntas para copiar do quadro. No estava to atrasada na matria como receava. Os professores foram simpticos comigo: pediram-me para lhes enumerar
as disciplinas que tinha tido na minha antiga escola e depois passaram algum tempo comigo para me mostrar o que tinha de estudar e de rever. Como as nossas turmas
eram pequenas, os professores dedicavam muito mais ateno a cada uma de ns individualmente do que na escola oficial.
Nessa noite, quando eu e a Jennifer fomos para o refeitrio jantar, havia uma rosa sobre a mesa, no meu lugar. Quando chegmos, as raparigas estavam todas a conversar
sobre a rosa.
- O que  isso? - perguntou a Jennifer, excitada.
-  para a Leigh - informou a Wendy num tom invejoso.
- Para mim? - Olhei para o carto, que tinha a certeza j ter sido lido por elas. Dizia: "Boa sorte, Tony." -  do meu padrasto - expliquei eu.
- Que amabilidade! - exclamou a Jennifer.
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Que romntico - disse a Marie e olhou para mim,
piscando-me o olho. - Porque  que a assinatura da tua me no vem a tambm? - As outras viraram-se para ouvir a resposta.
Deduzo que esta ideia lhe tenha vindo  cabea enquanto estava a trabalhar no escritrio, em Boston - respondi eu.
A Marie sorriu para as outras, e todas elas, excepto a Jennifer, deram risadinhas.
- Qual  a piada? - Ningum disse nada, mas via-as a olharem para a Marie.
- Pensei que ele assinava "Pap" - disse a Marie.
- Mas ele no  o meu pai. O meu pai no morreu. Os meus pais esto divorciados - anunciei eu. Fiquei contente por a Jennifer no ter bisbilhotado sobre o assunto,
mas todas as raparigas ficaram a olhar para mim de boca aberta, como se eu fosse uma apario directa do cemitrio do mau gosto. Todas elas provinham de famlias
abastadas, da classe alta, famlias preocupadas com as suas linhagens. Algumas tinham provas de que os seus antepassados tinham vindo para a Amrica no Mayflower.
Os divrcios no eram aceites.
Quando a Jennifer e eu voltmos com os nossos tabuleiros de comida, a conversa tinha-se tornado mais casual. Percebi pela expresso delas que tinham estado a discutir
a minha situao. A recepo calorosa que me haviam feito ao almoo arrefeceu. Iniciaram uma discusso sobre o tipo de maquilhagem que preferiam. Quando comecei
a dar a minha opinio, ningum excepto a Jennifer parecia prestar ateno.
Depois de jantar devamos todas comear a hora de estudo. Quando as raparigas se levantaram, a Marie inclinou-se na minha direco.
- vou cancelar a festa hoje  noite - informou ela. Esqueci-me de que tinha um teste de Cincias amanh.
Eu assenti silenciosamente e vi-a a juntar-se s outras.
- Ela no vai cancelar a festa - observei eu  Jennifer.
- No se querem  ligar a mim porque os meus pais esto divorciados.
- No te preocupes - segredou-me a Jennifer, quando nos levantmos e seguimos atrs delas. - Isto passa-lhes.
- Estou-me nas tintas - retorqui eu, mas no meu ntimo
1 Nome do barco que trouxe os primeiros colonos para a Amrica. (N. da T.)
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chorava. Porque  que a mam quisera mandar-me para uma escola cheia de raparigas de sangue azul, com o nariz to empinado que at lhes tapava a vista? Nenhuma delas,
excepto a Jennifer, iria querer convidar-me para as suas casas, pensei eu. Porque  que eu estava a ser castigada pelas coisas que a mam fazia? Seria que as pessoas
iriam sempre descarregar em cima de mim? Estremeci s de pensar no que estas raparigas fariam se soubessem a verdade sobre o meu nascimento.
Mais do que nunca, queria voltar para a minha casa, em Boston, e voltar para a minha antiga escola, onde as minhas amigas verdadeiras teriam pena de mim em vez de
me tratarem como uma leprosa. Agora, numa altura da minha vida em que precisava de mais apoio das minhas amigas, tinham-me atirado para o meio dessa gente mimada
e rica. Queria fugir. At pensei no que faria se fugisse. Iria viver com o pap, apesar de ele estar sempre a viajar. Qualquer coisa era melhor do que isto.
Apesar de tudo, a Jennifer foi amorosa e fez tudo o que pde para me animar. Fizemos os trabalhos de casa com empenho, mas passmos imenso tempo a falar sobre moda,
msica e rapazes. Tal como eu, ela nunca tinha tido um namorado a srio, mas gostava de um rapaz que frequentava Allandale, uma escola secundria s para rapazes
que s vezes organizava bailes em conjunto com Winterhaven.
Quando deixmos o nosso quarto para ir ver televiso, a hora de recreio j ia bem avanada, mas quando chegmos  sala de estar no encontrmos nenhuma das raparigas
da nossa mesa, ou como a Marie tinha dito, do "clube especial".
- Esto todas no quarto dela a fazer a festa. Tu devias ir tambm. No quero que arranjes problemas por minha causa, Jennifer - disse eu.
- No tenho vontade de ir se tu no fores convidada replicou ela. - Alm disso, elas esto a ser horrveis. At estou surpreendida, no que tenham sido sempre simpticas
comigo.
- Detesto hipcritas - afirmei eu e deu-me um arrepio de orgulho na espinha. A Jennifer viu as labaredas de fria estampadas no meu rosto.
- O que foi? - perguntou ela, sustendo a respirao.
- Vamos - ordenei eu e sa furiosa da sala.
- Aonde? - chamou ela, seguindo-me.
- Ao quarto da Marie - disse eu, abruptamente, sem parar de andar.
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Mas...  to embaraoso. No achas que devamos apenas ignor-las? Quer dizer...
Jennifer Longstone, estou cansada de ignorar as coisas que me tornam infeliz. Se vou ter de frequentar esta escola, terei de ser aceite por aquilo que sou e no
deixarei que nenhuma dessas pretensiosas me faa sofrer.
- Vai  frente - disse a Jennifer. -  o ltimo quarto ao fundo do corredor.
Seguimos em frente. com uma atitude agressiva, decidida a deixar de ser humilde e de estar desamparada, vtima disto ou daquilo, levantei orgulhosamente a cabea
 medida que nos aproximvamos da porta da Marie. Ouvia-se a msica Rock Around the Clock. Bati  porta. Baixaram o gira-discos e ouviram-se alguns sussurros. A
seguir, a Marie abriu a porta.
- Lembrei-me de passar por c para te ajudar a estudar para o teste de Cincias - disse eu. Passei por ela. Mal atravessei a porta, fez-se um silncio de morte,
enquanto os cigarros ardiam.
O quarto estava cheio de fumo. A Ellen e a Wendy estavam sentadas no cho, a beber Coca-Cola, e a Carla, a Toby e a Betsy estavam em cima das camas a ver revistas
de moda e de sociedade. Durante alguns segundos, ningum disse nada. Ento, voltei-me para a Marie.
- Lamento o que sentem em relao ao facto de os meus pais estarem divorciados, mas  estpido da vossa parte deitarem as culpas para cima de mim e fazerem a Jennifer
sofrer tambm, s porque  a minha companheira de quarto. Esperava que pudssemos ser amigas. Tenho a certeza de que ningum aqui  perfeito ou tem um passado sem
antecedentes - declarei eu, a arder de raiva. Depois, calmamente, acrescentei: - De qualquer modo, s queria que soubessem que no enganaram ningum. Vamos embora,
Jennifer.
- Espera - exclamou a Marie. Lanou um olhar rpido s outras raparigas. - Tens razo. No foi uma atitude simptica.
Olhei para as outras raparigas. Todas elas baixaram os olhos.
- bom, de qualquer modo, ests aqui. J agora podias ficar - afirmou a Marie, fazendo um sorriso instantneo.
- Bem, eu...
- Por favor - pediu a Marie. - Queres um cigarro?
- Nunca fumei - disse eu, feita parva, a olhar para elas.
- Qualquer hora  boa para comear - observou a Marie.
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- Depressa, Jen, fecha a porta antes que a velha Thorndyke passe por aqui. Ellen, pe o disco outra vez - ordenou ela.
- S bem-vinda ao nosso clube especial - desejou a Marie. - De qualquer modo, com o teu temperamento, prefiro que estejas do nosso lado. No , meninas? - Riram-se
todas. Eu olhei para a Jennifer, que tambm ria muito.
Ficmos ali quase at s onze da noite, a falar sobre a escola, msica e cinema. Ningum se atreveu a perguntar-me mais nada sobre os meus pais, apesar de a Betsy
Edwards ter mencionado que ela e a sua famlia uma vez tinham feito um cruzeiro num paquete VanVoreen. Contei-lhes da minha viagem  Jamaica e depois esgueirmo-nos
todas de volta para os nossos quartos.
A Jennifer e eu ficmos na cama a falar at depois da meia-noite. Contou-me sobre o dia em que o pai dela morrera e de como se tinha sentido vazia e sozinha. Era
parecido com o que eu sentira quando soubera que os meus pais se iam divorciar. Por fim, j no conseguia manter os meus olhos abertos.
- Tenho de dormir, Jen.
- No faz mal. Eu tambm estou cansada.
- Boa noite, Jennifer.
- Boa noite, Leigh. - E deu um risinho.
- O que foi?
- Foste to estupenda, a maneira como bateste na porta da Marie e lhes deste aquela descasca. Gostava de j ter arranjado coragem para fazer uma coisa dessas. Como
 que consegues ser to corajosa?
- Eu no sou corajosa - insisti eu.
- Oh, s sim, senhor - afirmou a Jennifer. - s a rapariga mais corajosa que conheo e estou muito feliz por seres a minha companheira de quarto. Bem-vinda a Winterhaven,
Leigh.
- Obrigada, Jen. Boa noite - repeti eu e fechei os olhos, exausta da agitao e do esforo que tinha feito para ser feliz e sentir-me segura num mundo que conseguia
ser to cruel e to frio.
No dia seguinte, Miss Mallory veio at ao refeitrio  hora de almoo para falar comigo.
- Mister Tatterton est aqui, minha querida - anunciou ela, sorrindo para mim com firmeza. - Est no meu gabinete e deseja falar consigo.
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Aconteceu alguma coisa? - O meu corao comeou
a bater furiosamente com medo que tivesse acontecido alguma coisa ao Troy.
Oh, tenho a certeza que no - respondeu ela.
Quando olhei para as outras, estavam todas a sorrir  socapa e a conter os risos.
Obrigada - disse eu, seguindo-a, e samos do refeitrio.
Estejam  vontade, por favor - disse Miss Mallory, j no gabinete. - Fiquem o tempo que desejarem. - E deixou-nos sozinhos. Ele estava sentado na cadeira de cabedal
ao lado da secretria e tinha um ar muito distinto, no seu fato azul-escuro assertoado.
- Est tudo bem? - perguntou, fitando-me, com os olhos fixos.
- Sim - respondi eu. - Estou bem. Como est o Troy?
- Est muito, muito melhor. Acho que vamos poder traz-lo para casa dentro de mais ou menos uma semana.
- Isso  maravilhoso, Tony. - Desviei os olhos por uns momentos, porque ele ainda me estava a fitar com excessiva intensidade. - E a mam?
- Na mesma - respondeu ele com um suspiro. - Agora decidiu que ia fazer dieta... O almoo dela consiste numas gotas de champanhe e em sanduches de pepino. Ah, e
comeou a dedicar-se ao brdege.
- Brdege?
- Sim. Parece que todas as mulheres que ela admira jogam brdege. Contratei uma pessoa para lhe ensinar todas as jogadas importantes - disse ele, enquanto cruzava
as pernas e passava os dedos meticulosamente pelo vinco das suas calas. Os seus dedos eram longos e fortes e as suas unhas brilhavam. - Ento - prosseguiu ele -,
no precisas de nada? Roupa, material escolar, gastar dinheiro...? Alguma coisa?
- No - respondi eu, mas o que eu realmente queria dizer era: "Sim, preciso que a mam tambm demonstre algum interesse com o que se passa comigo."
- Est bem - disse ele, e levantou-se. - Talvez eu passe por c uma destas noites para te levar a jantar fora antes de voltar para casa. Gostavas?
-Esta semana, no - retorqui eu bruscamente. O pap vai telefonar e levar-me a jantar fora.
- Oh! - Fez um trejeito com a boca. Apesar de estar a tentar manter os seus olhos azuis calmos e indecifrveis, percebi
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que no estava habituado a ser rejeitado. Um homem rico e poderoso raramente se habituava a isso.
- Talvez para a semana que vem - acrescentei eu, e os seus olhos voltaram a brilhar.
- ptimo. Em todo o caso, na sexta-feira, por volta das cinco horas, estarei aqui com a limusina para te apanhar. Diverte-te no jantar com o teu pai. - Deu-me um
beijo rpido na testa antes de abrir a porta do gabinete para sair.
Quando voltei ao refeitrio, encontrei o "clube especial" todo reunido  janela a contemplar o Tony l fora, que estava de p, junto  limusina, a falar com Miss
Mallory. Estavam todas a exclamar "ohs" e "ahs", enquanto suspiravam e segredavam. Mal me viram, voltaram para a mesa.
- Ele  to bonito - disse a Ellen. - Desta vez a Jennifer no exagerou.
- Quando  que nos convidas a todas para ir  Manso Farthinggale? - perguntou a Marie e meteram-se todas na conversa, entusiasmadas. Eu respondi-lhes que, logo
que tivesse uma oportunidade, as convidava a todas para um fim-de-semana e fazamos a Festa do Pijama. De uma hora para a outra, tinha-me tornado a rapariga mais
popular de Winterhaven.
O pap telefonou na quarta-feira e veio buscar-me para jantar na quinta-feira. Logo que me vieram dizer que ele tinha chegado, atravessei o corredor a correr, em
direco aos seus braos abertos. Ele riu-se e deu-me um beijo grande. Depois, afastou-me para me mirar.
- Ests a crescer to depressa que quase nem te reconhecia - observou ele. - Ainda bem que ests numa escola s para raparigas - acrescentou ele, olhando em volta
e acenando com a cabea. - Se no, tinhas tantos rapazes atrs de ti que eu teria que os afastar  bastonada.
- Oh, pap.
- Vamos embora - disse ele, dando-me o brao para eu enfiar o meu. - Quero saber tudo sobre a tua nova escola e sobre as tuas amigas novas, e tudo o que aconteceu
contigo desde a ltima vez que falmos.
Levou-me at ao txi, que esperava  porta, e fomos jantar a um restaurante chique. Enquanto eu lhe contava as novidades, ele ouvia com ateno, com o olhar fixo
em mim, como se estivesse a tentar beber-me, a memorizar o meu rosto. Eu falava e falava, to excitada por ele estar ali e por estar com ele. A sua expresso no
se alterou at eu mencionar a lua-de-mel. Nesse momento, os seus olhos ficaram
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mais pequenos e cerrou os lbios. Desviou o olhar e ficou muito pensativo por uns momentos.
No meu corao, a campainha do alarme disparou, pois senti que ele tinha alguma coisa para me dizer que me iria fazer infeliz. Os meus dentes desceram sobre o lbio
inferior, enquanto esperava pelas palavras dele. Nos ltimos meses, a tristeza chovera sobre mim tantas vezes que j me tinha tornado perita a prever quando ela
estava prestes a cair de novo. Virou-se finalmente para mim, com um sorriso mais suave, mas menos intenso.
- Eu sei que no s feliz, Leigh, e que a tua me te afastou de muitas das coisas que gostavas e te lanou num mundo novo, estranho, cheio de pessoas impessoais
e frias, que s se preocupam com o seu prprio conforto e dinheiro. Eu lido com pessoas ricas e influentes no meu dia-a-dia, portanto sei quo insensveis e egostas
podem ser, se quiserem. O dinheiro cega-as, mantm-nas protegidas e afastadas da realidade, permite-lhes viverem as suas iluses.
- "Lamento que tudo isto te tenha sucedido enquanto ainda s bastante jovem e impressionvel, e numa altura em que eu estou a lutar para manter o meu negcio. No
penses que tambm no tenho o corao despedaado por estar longe de ti, quando precisas mais de mim.
"O meu consolo  saber que s inteligente e forte, que provns de uma raa forte, pois os VanVoreen eram pessoas destemidas, que venceram obstculos intransponveis
para construir a sua vida. Conhecemos dificuldades e no nos tornmos moles com o sucesso que alcanmos. Pelo menos isso, herdaste tu.
Oh, a luta que eu travei dentro de mim! Uma parte exigia que eu lhe contasse a verdade sobre o que tinha ouvido  av Jana a dizer  mam e que a prpria mam tinha
admitido; a outra, gritava, pedindo para no o magoar ainda mais. E tambm receava que a verdade alterasse o seu amor por mim. E se ele deixasse de me considerar
sua filha? Deixaria de me amar? Se o fizesse, eu sabia que nunca sobreviveria, que seria a ltima e a pior desgraa a cair sobre mim ao longo de todos esses meses.
S fui capaz de sorrir, de assentir e de me debruar sobre a mesa para lhe agarrar a mo e lhe assegurar que era a sua filha, uma VanVoreen pura.
- De qualquer modo - prosseguiu ele, chegando  parte das ms notcias -, tenho de te confessar que no poderei ver-te por algum tempo. Estou a abrir um escritrio
na Europa, para tentar ganhar uma quota do mercado europeu
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que se encontra em franca ascenso. So pessoas que querem no s viajar at  Amrica, como tambm fazer as rotas tursticas que eu tenho andado a estabelecer com
os meus peritos.
" um erro, sabes, pensar que s os americanos  que tm dinheiro e oportunidade para fazer frias de luxo.
- O que quer dizer com isso, de no me ver por uns tempos? Quanto tempo?
- O mais cedo que voltarei ser no Vero - confessou ele. - Mas logo que esteja de volta, passaremos juntos o tempo que quiseres. Prometo.
Senti um n na garganta. As lgrimas que guardava nos cantos dos olhos ardiam, exigindo correrem livremente pelas minhas faces abaixo. Como  que eu ia aguentar
isto, com o pap, o meu amparo, tanto tempo ausente? com a mam a tornar-se to egocntrica e a inspirar cada vez menos confiana? Quem ficaria c para me dar conselhos,
para me dar amor, para me dar o calor dos abraos e dos beijos? Fiz um esforo sobrenatural para ser a filha forte que ele desejava, a descendente VanVoreen que
ele acreditava que eu fosse.
- vou continuar a escrever-te, claro - disse ele rapidamente -, e espero que tu continues a escrever-me.
- Sim, pap.
- E logo que souber a data do meu regresso, tomarei providncias para nos encontrarmos. - E acariciou a minha mo.
Voltmos para Winterhaven, sentados, muito juntinhos, no banco de trs do txi, o pap com o brao  minha volta. Estive a ouvi-lo falar das suas viagens, das coisas
que tinha visto, das pessoas que tinha conhecido; porm, no tomava ateno s suas palavras, s ouvia o timbre da sua voz.
Em vez disso, pensava no pap que conhecera quando era menina, no pap que me punha s cavalitas e me levava a passear ao longo do rio Tamisa, quando framos a Londres;
o pap que me tomava nos seus braos e danava comigo no salo de baile do barco dele; no pap que me dava a mo e me levava pelos paquetes de luxo fora, me apresentava
 sua tripulao, me explicava o funcionamento das coisas, beijando-me, abraando-me e enrolando o meu cabelo nos seus dedos quando eu me sentava ao colo dele.
Esse pap tinha desaparecido, pensei, quase como o pap da Jennifer Longstone. No ramos assim to diferentes, ela e eu, e quando ficvamos acordadas  noite, a
contar histrias uma  outra sobre a nossa infncia, estvamos ambas a
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pensar em momentos que nunca mais viveramos, palavras que nunca mais ouviramos, beijos e sorrisos to tnues como o fumo, que percorriam as nossas recordaes
e se perdiam para sempre no labirinto das nuvens que anunciavam a tempestade e que tinham aparecido para obstruir o cu azul da felicidade que ambas tnhamos conhecido
um dia.
Em frente  escola, o pap beijou-me. Deu-me um beijo de adeus e apertou-me nos seus braos e voltou a assegurar-me que iria escrever e pensar em mim o tempo todo.
Mas eu sabia que, no momento em que entrasse no txi e este comeasse a andar, a sua mente j estaria s voltas com os problemas do seu negcio. No o odiei por
isso; sabia que ele se enterrava at ao pescoo em trabalho, para esquecer a infelicidade que sentia.
A Jennifer estava  minha espera no nosso quarto. Queria que lhe contasse todos os pormenores maravilhosos do meu jantar com o pap. Eu sabia que ela queria sentir
essa felicidade atravs de mim e talvez recordar os tempos felizes que passara com o seu prprio pai. Portanto, s lhe contei coisas boas. No parei de falar sobre
o restaurante e sobre a comida, contei-lhe as promessas que o pap me tinha feito. Falei-lhe do empregado engraado que tinha uma pronncia alem to cerrada que
eu at pedira a comida errada, mas comendo-a na mesma; e era deliciosa. No me importara com nada, pois estava ao p do pap, disse eu. A Jennifer riu-se.
- Obrigada por me contares o que se passou no teu jantar - disse ela. - Boa noite.
- Boa noite.
A Jennifer enrolou-se nos cobertores a recordar momentos felizes e eu virei-me de costas para ela e chorei to baixinho quanto pude, at o sono me salvar das lgrimas
mais fortes.

12 MAIS SURPRESAS

Todas as raparigas do "clube especial" sabiam que o Tony me vinha buscar na sexta-feira. Assim, todas elas me acompanharam at ao terrao,  entrada de Winterhaven,
e se reuniram  minha volta como galinhas. Fiquei com tanto medo do que elas podiam fazer ou dizer que desci as escadas antes de o Tony sair do carro e abrir a porta.
- At domingo  noite, Leigh! - entoou um coro de vozes. Depois, aos risinhos, subiram as escadas numa correria e entraram em Beecham Hall.
- Bem! - O Tony voltou os olhos para mim e sorriu, enquanto o carro arrancava. - Parece que eu tinha razo... Fizeste logo muitas amigas. Como correu o resto da
semana?
- Bem, Tony, e gosto imenso da minha companheira de quarto, a Jennifer. Gostava de a convidar para vir a Farthinggale, e s outras raparigas do meu grupo tambm.
- Sempre que quiseres - respondeu ele. - Desde que a tua me aprove - acrescentou, num tom sinistro.
Perguntei-lhe sobre o Troy.
- Est mais forte a cada dia que passa. O mdico diz que podemos traz-lo para casa ou na quarta-feira ou na quinta. Assim, quando voltares a casa no prximo fim-de-semana,
ele estar l - afirmou ele. Estava desejosa de o ver, mas tambm estava ansiosa por passar um fim-de-semana na escola. O "clube especial" ia ao cinema e s compras
e, em alguns fins-de-semana, havia bailes mistos, bailes organizados entre a escola de Winterhaven e as escolas secundrias de rapazes, como Allandale.
Quando chegmos a Farthy e eu entrei na manso, o seu silncio impressionou-me de imediato, principalmente porque no se ouvia o pequeno Troy a subir e a descer
as escadas, e a entrar pelas portas adentro a chamar por mim ou pelo Tony. Naquelas salas enormes, mal se ouvia o eco dos
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passos; isto, em contraste com o mundo de onde eu tinha acabado de sair, uma escola cheia de adolescentes a rir e a cantar, a msica nos quartos, raparigas a conversar
nos trios, campainhas a tocar, o barulho dos pratos, amigas a chamrem-se umas s outras nos corredores, um mundo pleno de energia, rudo e vida jovem. Mais uma
vez, Farthy parecia um museu, uma casa de sussurros.
A tua me deve estar no quarto dela - disse o Tony,
olhando para o seu relgio. - Deve ter acabado de chegar de um jogo de brdege.
Subi as escadas a correr para ver a mam. Dentro de mim havia uma mistura de emoes: estava desejosa de a ver, uma vez que tnhamos estado separadas durante uma
semana inteira, ansiosa por lhe contar sobre as minhas amigas e as coisas que tnhamos dito e feito, mas estava tambm zangada, zangada e magoada por ela no ter
telefonado uma nica vez para saber como eu estava, e ainda no tinha esquecido que ela no me acompanhara no primeiro dia de escola.
-O Tony tinha razo: a mam acabara de chegar de um jogo de brdege e estava-se a preparar para ir tomar um duche e arranjar-se para jantar.
- Oh, Leigh - exclamou ela logo que entrei no quarto. Parecia surpreendida. - Esqueci-me que chegavas hoje, que hoje era sexta-feira. Acreditas?  para veres como
tenho estado ocupada esta semana. - Ficou ali parada, em combinao, com o cabelo solto. Depois sorriu e estendeu-me os braos,  espera que eu fosse a correr abra-la.
Houve um momento de embarao e depois ela baixou rapidamente os braos. - Mas espera - disse -, deixa-me olhar para ti. Tens um ar muito mais maduro, ou ser um
ar de reprovao? Ests zangada comigo por alguma razo?
- Mam, como  que foi capaz de nem sequer me telefonar durante toda a semana? Eu telefonei-lhe uma vez e deixei recado ao Curtis. Ele disse que a mam tinha sado
com uns amigos para ir s compras em Boston! Podia ter passado pela escola - queixei-me eu.
- Oh, Leigh, que figura a minha... levar todas aquelas mulheres requintadas comigo para visitar a minha filha, que s estava fora de casa h alguns dias. Iam pensar
que eu estava a tratar-te como um beb. E, alm disso, no fazes ideia como  ir passear com aquelas mulheres. Andam sempre a mexericar e falam tanto que mal temos
tempo para dizer alguma coisa. Sou eu que estou sempre a dizer: "Por favor, minhas senhoras, vamos continuar ou no chegaremos ali ou
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aqui." Apesar disso, elas pura e simplesmente adoram-me. Dizem que eu sou a pessoa mais fresca e mais inteligente que conheceram nos ltimos tempos.
"No, no deves ficar zangada comigo - insistiu ela. - Isso no quer dizer que eu no tenha pensado em ti. Pedi ao Tony para passar por l durante a semana e ele
foi, no foi?
- Sim, mas no  a mesma coisa, mam - protestei eu.
- Oh, meu Deus. Ests a ficar to enfadonha como o teu pai. So esses genes puritanos dos VanVoreen que tu herdaste - afirmou ela.
Senti-me to furiosa que quase lhe contei o que sabia, exigindo que parasse de me mentir.
- E alm disso, o Tony queria ir. Tornaste-te muito importante para ele, Leigh, o que eu considero excelente. No fazes ideia de como isso me facilitou a vida. No
fiques zangada, por favor - disse ela, tentando persuadir-me e voltando a estender-me os braos em seguida.
Eu queria resistir; queria falar e falar, at ela perceber como tinha sido cruel para mim; ela, porm, fez aquele sorriso suave que eu tanto adorava ver quando era
criana, o sorriso que fazia quando me escovava o cabelo e me contava todas aquelas coisas maravilhosas que me iriam acontecer, os lugares que iria visitar, os prncipes
que iria conhecer, o mundo de magia e de amor que me esperava. Ela tinha feito com que os meus sonhos e fantasias de criana girassem em volta de um mundo mgico
e tinha-me convencido de que o mundo l fora era s coisas doces e arco-ris.
Eu abracei-a e deixei que ela me apertasse nos seus braos. Ela aqueceu-me as faces com beijos e afagou-me o cabelo, e uma parte de mim detestava que isso me fizesse
feliz, mas fazia mesmo. Em seguida, sentou-me em cima da cama a seu lado para me contar todas as amigas que tinha feito, cada uma mais rica do que a outra, todas
elas provenientes de famlias conhecidas, de puro sangue azul.
- Porque  que ainda ests to triste? - perguntou ela, de sbito. -  por causa do jantar com o teu pai? - Os seus olhos diminuram, desconfiada. - O Tony contou-me
que ele vinha a e te ia levar a jantar fora.
- No, mam. Bem, sim, tambm  por causa disso confessei eu e contei-lhe os planos que o pap tinha em relao ao escritrio que ia abrir na Europa e que isso significava
que eu no ia estar muitas vezes com ele.
- Isso no me surpreende nada, Leigh - proferiu ela abruptamente. - E convence-te de que ele teria feito uma
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coisa parecida, mesmo se no estivssemos divorciados. Oh, quando penso no tempo precioso que perdi, na juventude que desperdicei!
O rosto dela ardeu de frustrao e de dio, por uns momentos, mas depois viu a sua imagem reflectida no espelho.
No posso franzir as sobrancelhas] - gritou ela, com
um desespero tal que eu at dei um salto. - Sabias que um dos melhores especialistas em beleza diz que franzir as sobrancelhas acelera o aparecimento de rugas? -
Parecia muito agitada. - Tenho estado a ler um artigo que ele escreveu. As pessoas mais calmas e mais felizes envelhecem muito mais devagar do que as pessoas que
esto sempre aborrecidas e preocupadas. O truque  reprimir a fria e pensar rapidamente em qualquer coisa agradvel. Ele disse que era a mesma coisa que deitar
gua para uma fogueira.
"O fogo arde, consome a tua juventude e a tua beleza se o permitires. Por isso, tens de o acalmar, abafar e extinguir o mais depressa possvel. - Abriu-se num sorriso
como que para demonstrar o que acabara de dizer. - Agora tenho de tomar um duche quente - acrescentou -, e fazer uma massagem facial antes de jantar. Depois vamo-nos
sentar confortavelmente e tu vais contar-me tudo sobre Winterhaven, est bem?
A minha cabea andava s voltas com todos aqueles temas de conversa diferentes que ela tinha abordado numa questo de minutos.
- Mas eu queria perguntar-lhe uma coisa, mam. J perguntei ao Tony e ele disse que, por ele estava tudo bem, se a mam concordasse.
- O que ? - Entrevi um sorriso amarelo como se ela se estivesse a preparar para ouvir uma pergunta terrvel ou um pedido horroroso.
- Eu fiz algumas amigas simpticas em Winterhaven, principalmente a minha companheira de quarto, a Jennifer Longstone. Gostava de as convidar para virem c aos fins-de-semana.
- Aos fins-de-semana! Ai, por agora ainda no, Leigh, por favor. No te posso ter aqui a fazer de guia a grupos de raparigas pela propriedade fora e ocupada com
elas. Preciso que me ajudes a distrair o Tony. Ele quer ensinar-te a andar a cavalo e a fazer esqui. Foi ele prprio que me disse e est cheio de vontade de fazer
isso aos fins-de-semana.
"Tu prometeste que me ajudavas nisto. Prometeste mesmo, Leigh - recordou-me ela, com o rosto contorcido numa
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expresso premente. - Tenho a certeza de que o Tony s estava a querer ser delicado quando lhe perguntaste. Ele prefere ter-te s para ele, pelo menos durante algum
tempo. E acrescentou - Mais tarde deixamos-te convidar as tuas amiguinhas, uma de cada vez.
- Mas, mam, h tanto espao. Podemos c ter mais do que uma de cada vez! - exclamei eu.
- Veremos. Tenho a certeza de que todas elas so boas raparigas e decentes, se frequentam Winterhaven - acrescentou ela e comeou a andar em direco ao chuveiro.
Mas, Leigh, por favor, no me compliques mais as coisas. Estou completamente esgotada - disse ela e desatou a rir.
E assim se iniciou o meu primeiro fim-de-semana em casa, vinda de Winterhaven, igual a todos os fins-de-semana a partir da. Os nossos jantares de sexta-feira eram
todos bastante formais e, a no ser que o Tony e a mam fossem convidados para jantar em casa de algum, em geral convidavam alguns amigos para jantar l em casa.
Os casais nunca traziam os seus filhos. Assim, com excepo de mim e do Troy, e este s quando estava suficientemente bem de sade para descer e vir juntar-se a
ns, havia apenas adultos  mesa, e as conversas deles no me interessavam muito.
Por vezes, o Tony passava um filme no pequeno auditrio. Um amigo de outro amigo arranjava-lhe um filme qualquer conhecido. Algumas vezes vinha um pianista tocar
na sala de msica. Nessas ocasies, o Tony e a mam convidavam meia dzia de amigos para o jantar e para assistirem ao concerto privativo. A mam dizia que no s
era chique, como tambm era uma maneira de ela apoiar as artes e os artistas que precisavam de dinheiro extra para continuar o seu trabalho criativo.
Durante os meses de Inverno, o Tony e eu amos todos os sbados para uma pista de esqui. Ele contratou um instrutor de esqui particular para me ensinar as bases
e, pouco tempo depois, eu j descia atrs dele na pista intermdia. O Tony era um esquiador magnfico e normalmente fazia os percursos mais difceis. Almovamos
nas instalaes na pista de esqui, sentados  lareira.
A mam nunca vinha connosco. Enquanto estvamos fora, ela ia jogar brdege a qualquer lado ou convidava as suas amigas a virem a Farthy. Se no estava a jogar brdege,
ia s compras ou ao cinema, em Boston.
O Troy, que ainda se encontrava muito fraco devido  forte crise de pneumonia com que tinha estado, ficava quase
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sempre dentro de casa. Por insistncia da mam, o Tony contratou uma enfermeira a tempo inteiro para tratar dele, apesar de j no se encontrar doente. Em fins de
Maro, quando o Troy caiu de cama com varicela, seguida de sarampo, a mam relembrava-nos constantemente, a mim e ao Tony, como tinha sido inteligente da parte dela
insistir para que o Troy tivesse assistncia mdica pessoal a tempo inteiro.
O facto de estar mais vezes doente do que com sade deixou o pobre Troy muito magro e fraco. Quando chegava a domingo e eu tinha de voltar para Winterhaven, o seu
rosto plido ficava a olhar fixamente para mim atravs da janela, com os seus grandes olhos tristes e fundos, pois sabia que estava condenado a mais cinco dias de
pouca companhia e diverso. A mam tratava-o como se ele fosse um micrbio andante, evitando-o sempre que possvel e, isto descobri eu um fim-de-semana qualquer
quando cheguei a casa, obrigava-o a comer a horas diferentes s para no ter de estar  mesa ao mesmo tempo que ele.
Quando chegou a Primavera, o Troy comeou a desenvolver novas alergias e tinha de ser levado ao dermatologista e ao alergologista quase todas as semanas. Primeiro,
pensaram que seria alergia ao plen e  tasneirinha; em seguida, relacionaram as alergias com os tecidos do quarto dele e o Tony mandou trocar tudo: tapetes, cortinas,
roupa de cama e colcha, o que no resolveu o problema. O Troy continuava a pingar do nariz e a tossir por todos os cantos da casa, mesmo nos dias mais quentes e
mais claros. A nica esperana era que, eventualmente, as alergias desaparecessem, mas at l, estava condenado a fortes doses de vrios medicamentos, uns que lhe
tiravam o apetite e outros que o cansavam. Dormia muito, continuava magro e enfezado e tinha quase sempre um ar fatigado e deprimido.
Como  natural, recolheu-se em si prprio e passava a maior parte do tempo a brincar com os brinquedos que o Tony lhe comprava e a criar os seus prprios brinquedos.
Algumas das suas criaes eram muito boas e o Tony at aproveitou uma delas para construir um brinquedo Tatterton para crianas da idade do Troy.
Durante os meses de Primavera, o Tony e eu comemos a andar a cavalo. Ele decidiu ensinar-me, ele prprio, a montar. Dvamos passeios na praia e atravessvamos
as dunas. O Troy queria desesperadamente vir connosco e montar o Sniffles, o pnei dele, mas o alergologista proibiu terminantemente qualquer contacto com animais.
No podia ter
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um cachorrinho ou um gatinho, nem sequer um hamster. Era to triste v-lo ali, na encosta, de mo dada com a enfermeira a observar-nos, ao Tony e a mim, quando partamos
para um passeio na praia, mas eu no podia fazer nada.
Nesses meses de Inverno e Primavera, a mam andou feliz da vida. Eu estava a fazer o que ela me tinha pedido: passava quase todos os fins-de-semana com o Tony, o
que a deixava livre para desfrutar das suas prprias actividades. Durante a semana, o Tony estava sempre muito ocupado, e, segundo o que percebi pelas suas conversas,
muitas vezes passavam dias inteiros sem se verem um ao outro. Perguntei a mim mesma o que teria acontecido quela paixo avassaladora, queles momentos magnficos,
em que dava a impresso de que o mundo ia acabar se no conseguissem desmembrar a minha querida famlia para estarem os dois juntos para sempre.
Os postais e as cartas do pap chegaram regularmente durante os meses de Inverno at meio da Primavera. Depois, em meados de Maio, reparei que a carta estava a demorar
muito tempo. Quando pensei que j no viria e comecei a recear que tivesse acontecido alguma coisa ao pap, a carta chegou. Nessa carta, ele mencionava uma pessoa
nova, referia-se a ela como se eu a conhecesse desde sempre.
"E hoje", era assim que comeava o pargrafo do meio, "a Mildred Pierce e eu almomos nos Campos Elsios. O dia estava magnfico e as ruas estavam pejadas de carros,
pessoas e turistas provenientes de todo o lado, um verdadeiro desfile de moda. Foi o primeiro dia de frias a srio que eu tirei h muito tempo. Fomos visitar museus
e at deixei que ela me convencesse a ir at ao topo da Torre Eiffel. A Mildred  uma excelente companhia."
"Mildred Pierce?", pensei eu. Quem era a Mildred Pierce? Vasculhei todas as cartas que recebera do pap s para me certificar de que ele nunca a tinha mencionado
antes. Seria uma secretria, uma parente, uma pessoa conhecida no ramo dos negcios,  qual eu j teria sido apresentada? Era tudo muito confuso, mas houve tambm
alguma coisa na maneira como o pap escrevia "a Mildred  uma excelente companhia" que me sobressaltou.
Que idade teria essa Mildred Pierce? Poderia ser a filha de algum, algum da minha idade, talvez, algum que estava a desviar a ateno dele de mim? Eu tambm teria
adorado ir almoar com o pap aos Campos Elsios e subir com ele ao topo da Torre Eiffel. No era justo.
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E depois pensei que era terrivelmente egosta da minha parte estar a dizer mal do pap por causa do dia que ele denominara "o seu primeiro dia de frias a srio
desde h muito tempo". Estava desejosa de receber a carta seguinte para ver se ele iria mencion-la de novo. No o fez, mas, em contrapartida, escreveu que achava
que o seu regresso aos Estados Unidos teria de ser adiado e no referia a razo, mas eu apercebi-me de qualquer coisa nas entrelinhas. A mam teria chamado a isso
intuio feminina. Eu sabia era que, no fundo do meu corao, tinha medo de ser substituda, receava perder o amor do meu distante pai. A partir desse momento, sempre
que abria uma carta ou um postal do pap, retinha a respirao.
E ento, no fim de Junho, aconteceu. O pap escreveu-me a dizer que iria regressar em meados de Julho. Dizia que estava desejoso de me ver e ansioso por que eu conhecesse
a Mildred Pierce.
Eu podia compreender o facto de o meu pai estar contente por ter conhecido algum que o ajudava a passar o tempo. Porm, quando a mencionava, era com tanto entusiasmo
que me preocupou e me magoou.
"A Mildred e eu somos compatveis. Ela interessa-se pelas mesmas coisas que eu e  uma pessoa amorosa e afvel. Tenho a certeza de que vais gostar dela. Estar com
ela  como conseguir afastar as nuvens cinzentas e trazer de volta os raios de sol  minha vida."
"Mas, pap", chorava eu no meu ntimo, "pensava que era eu quem trazia os raios de sol  sua vida.  essa a razo por que esteve longe de mim tanto tempo, por que
se deixou ficar na Europa? Ter outra pessoa roubado aquela parte do seu corao que eu pensava ser minha?"
"E se essa Mildred Pierce no gostar de mim, se no me quiser ao p dela, ou pior, se tiver cimes de mim? Ter ainda menos a ver comigo do que j tem agora?"
Fiquei a olhar para a fotografia do pap em cima do meu toucador durante muito tempo, antes de pr a questo mais assustadora: se o pap constitusse uma famlia
nova, qual seria o meu lugar?
Uma noite, em meados de Junho, o Tony anunciou que tencionava ir  Europa em negcios. Ao contrrio dos tempos em que o pap fazia a mesma coisa, a mam no ficou
logo infeliz, nem se queixou, fazendo beicinho. Foi muito compreensiva e demonstrou muito interesse em saber o que o levava l.
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- Existe uma empresa na Europa - explicou ele -, de cuja existncia soube recentemente, uma empresa muito parecida com a minha, e que produz vrios tipos de artigos
para as classes sociais mais abastadas da Europa. Uma das coisas que receio  que tencione expandir-se para os Estados Unidos, o que poder roubar muita da nossa
clientela. Quero saber mais sobre eles e ver em primeira mo o que  que me espera em termos de concorrncia.
"Porque  que no vens comigo, Jillian? Podamos fazer uma segunda lua-de-mel. No tenho de passar o tempo todo a tratar de negcios. Podemos fazer imensas excurses.
- Para a Europa? Agora? - resmungou a mam. - Est muito calor e o continente est apinhado de turistas. Alm disso, j te tinha dito que achava que devamos pr
a hiptese de redecorar algumas das divises em Farthy e tu disseste que eu podia avanar e contactar com os decoradores. Tenho de comear a tratar disso.
O Tony no ficou contente, mas partiu sozinho para a Europa, poucos dias mais tarde. A mam parecia ter ficado aliviada, como se lhe tivessem tirado uma grande responsabilidade
dos ombros. Comeou imediatamente a tratar da nova decorao da casa, iniciando longas reunies com os decoradores, enchendo a sala de msica de catlogos e mais
catlogos de papel de parede, de carpetes e de amostras de tecidos, bem como de fotografias de moblias. Reuniu os peritos  sua volta, como uma rainha rodeada pela
sua corte, e andava de sala em sala a discutir, a ouvir sugestes e a faz-las. At os convidou para jantar, onde continuaram a discutir modas, cores e estilos pela
noite dentro.
O ano lectivo terminou e todas ns, do "clube especial", despedimo-nos umas das outras, prometendo escrever tantas vezes quanto possvel. Sentia-me horrvel por
nunca ter convidado ningum, nem mesmo a Jennifer para me visitarem em Farthy. Sempre que elas me perguntavam, eu fora forada a arranjar boas desculpas, usando
e abusando como pretexto dos problemas graves de sade do Troy. Eu sabia que estavam todas muito desapontadas, principalmente a Jennifer, mas no podia fazer nada.
Sempre que falava no assunto, a mam entrava em pnico e s vezes at tinha ataques de fria. Era cedo de mais... espera, espera, ESPERA. Cansei-me de perguntar.
No entanto, quase uma semana depois de o Tony ter partido para a Europa, a mam surpreendeu-me, dizendo-me que eu podia convidar a Jennifer para passar uns dias
em
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Farthy. Telefonei para casa dela e disse-lhe. Ela deu gritos de felicidade. S tinha passado uma semana desde que a escola acabara, mas j estvamos cheias de saudades
uma da outra..-,
Ela ficou muito impressionada com Farthy. Levei-a a passear a cavalo na praia e tommos banho na piscina todos os dias. Adorou o Troy, que se divertiu a mostrar-lhe
a propriedade e a fazer demonstraes dos seus brinquedos. Infelizmente, ainda no tinha autorizao para tomar banho. At se desconfiava que seria alrgico ao cloro.
A Jennifer ficou fascinada com a mam. Conquistou-a imediatamente quando lhe disse que era difcil acreditar que uma pessoa com um ar to jovem como ela tivesse
uma filha da minha idade. Todas as noites durante o jantar, a mam fazia-lhe um monte de perguntas sobre a famlia dela e sobre a sua casa em Hyannis. E depois,
a mam deu-lhe imensos conselhos sobre como devia usar o cabelo, as cores que lhe ficavam melhor, a cor do bton que devia usar. A Jennifer ouvia com muita ateno,
com os olhos abertos, acenando com a cabea como se estivesse sentada  mesa com uma estrela de cinema. A partir desse momento, s falava sobre a mam, como ela
era bonita e sofisticada.
Todas as noites ficvamos sentadas no meu quarto a conversar at tarde.
- A tua me  to jovem e to bonita. O teu pai ficou com o corao despedaado quando se divorciaram? - perguntou ela uma noite.
Recordei o pap naquela manh no The Jillian, quando veio ao meu quarto contar-me a deciso da mam.
- Sim, mas ele dizia que a culpa era dele e manteve-se o mais ocupado possvel para no ter de se lembrar disso. A mam dizia sempre que ele estava to casado com
o negcio dele como com ela - acrescentei eu, com tristeza, pois comeara a acreditar que, em parte, isso tinha sido verdade.
- O teu pai deve ter querido atirar-se do barco quando soube que ia perd-la - comentou a Jennifer. Em seguida, o sorriso que acompanhara essa fantasia romntica
esmoreceu e ela voltou-se de costas, com os olhos cheios de lgrimas.
- O que foi, Jen?
-  a minha me - disse ela, chorando. - Tem andado a encontrar-se com outro homem, um homem que costumava ser o melhor amigo do meu pai. - Voltou-se de costas,
com os olhos molhados, mas o rosto a arder de fria. - Eu disse-lhe que o odiava, que ele nunca seria o meu pai e que a detestava por sair com ele.
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- E o que  que ela disse?
- Ela chorou e disse-me que no podia fazer nada, porque se sentia sozinha. Eu e a minha irm no ramos suficientes. Precisava de um marido.
"Mas eu no quero outro homem a viver na minha casa e a usar as coisas do meu pai! - gritou ela. - No quero, no quero! - Comeou a soluar. Eu abracei-a, amparei-a
nos meus braos e depois contei-lhe a histria do pap com a Mildred Pierce. Parou de chorar, ouviu com ateno e ento comeou ela a ficar com pena de mim.
- Oh, Leigh - disse -, os adultos so to egostas. Eu nunca hei-de ser assim quando chegar  idade deles. E tu?
- No sei, Jen. Espero que no, mas no sei. - Porque  que fazamos votos e promessas? Podamos jurar sobre mil bblias que nunca nos trairamos uns aos outros
ou s pessoas que amvamos, mas s vezes o destino deitava-nos as suas garras e fazia-nos esquecer os nossos sonhos. Estive tentada a contar-lhe a verdade sobre
mim, a verdade sobre a mam e sobre o que ela havia feito, mas tinha demasiada vergonha. Era um segredo que iria arder s no meu corao, independente da dor provocada
pelas suas chamas.
Ficmos ambas muito tristes quando chegou a hora de ela voltar para casa. A Jennifer perguntou  mam se eu podia ir visit-la.
- Veremos. - respondeu a mam. - H muitas coisas para fazer em Farthy neste Vero, querida, e a Leigh tem de ajudar a tomar conta do Troy.
"Ajudar a tomar conta do Troy?" pensei eu. Desde quando  que a mam se preocupava com o Troy? O que ela queria dizer era que eu tinha de a ajudar a tomar conta
do Tony, mas isso ela no podia dizer a ningum. Oh, mais uma vez o egosmo da mam punha os seus desejos  frente dos meus. Era antinatural, pensei eu, pr-me a
entreter o novo marido dela.
Em fins de Junho houve um dia muito quente e eu tinha passado a maior parte da tarde sentada preguiosamente na piscina a ler. O Troy e a enfermeira haviam-me feito
companhia durante algumas horas, uma vez que o mdico tinha estabelecido um programa de sol para o Troy por estarmos no pino do Vero. Fiquei na piscina at o Sol
comear a desaparecer atrs das rvores e aparecerem sobre o ptio grandes nuvens que cobriram as espreguiadeiras e a mim, e que trouxeram o frio. Vesti rapidamente
o meu roupo, pus a
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toalha  volta do pescoo e comecei a andar em direco  casa. Quando entrei, ouvi as vozes da mam e do Tony que provinham da sala de estar  direita.
- Leigh! - gritou o Tony mal espreitei para dentro da sala - Tive saudades tuas! Olha como ficaste to queimada em to pouco tempo.
- Ol, Tony.  viagem foi boa?
- Bastante bem sucedida - respondeu ele e sorriu para a mam. Ela recostou-se no seu novo cadeiro Carlos II, esculpido e trabalhado, que tinha comprado no mbito
da nova decorao da sala. com os seus brincos de diamantes em forma de pra a balouar, o seu cabelo penteado para trs na perfeio, nem um fio de cabelo fora
do lugar, e os dedos cobertos de anis de esmeraldas, diamantes, rubis e safiras, a mam parecia uma rainha. Vestia um vestido branco de renda com um decote redondo
e, assim, o colar de diamantes mais precioso dela pendia suavemente sobre o seu peito rosado.
- - O Tony teve uma ideia nova maravilhosa - anunciou a mam. - E quer que tu participes nela.
- Eu? - Avancei para dentro da sala.
- Lembras-te de eu ter falado sobre aquela empresa europeia que faz brinquedos parecidos com os da Fbrica Tatterton e que tem mais ou menos os mesmos objectivos
que ns em termos de mercado? - perguntou ele, muito rpido. Eu assenti. - Bem, a Europa tem alguns dos melhores artesos do mundo. Que digo eu? Tem os melhores
mesmo. Mas
- acrescentou, piscando o olho primeiro para mim e depois para a mam -, agora sou eu que tenho alguns.
"Em todo o caso, numa das minhas viagens a uma das fbricas numa pequena vila mesmo  sada de Zurique, descobri que eles andavam a fazer uma coisa chamada "boneca-retrato".
- Boneca-retrato? - Deslizei para cima do sof para ouvir.
- Sim. Uma ideia brilhante! - disse ele, cerrando as mos em punhos e levantando-os para acentuar o seu entusiasmo. - Ningum no mundo  mais apaixonado e obcecado
consigo prprio do que as pessoas ricas. Acham que o dinheiro e a posio deles lhes podem comprar imortalidade. Portanto, todos eles mandam pintar o seu retrato
pelos melhores artistas e pem os melhores fotgrafos a tirar-lhes fotografias. Vo a qualquer lugar, gastam o dinheiro que for preciso para terem essa satisfao.
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- E o que  que isso tem a ver com bonecas? - perguntei eu.
- Tudo. Imagina uma boneca que tem a tua cara e  tua! Toda a gente vai querer uma: mes, filhas, irms, tias... Eventualmente, at os homens vo acabar por querer
bonecos que reflictam a imagem deles.
"E seremos os primeiros a faz-lo aqui, na Amrica; portanto, tornar-se- obrigatrio ter uma boneca Tatterton. Ser uma coisa especial, preciosa, um artigo de coleco
personalizado.  brilhante! - exclamou ele de novo, desta vez batendo com os punhos nos joelhos.
Tive de admitir que o fervor do Tony me tirou a respirao e que a ideia parecia realmente muito boa.
- Mas qual  o meu papel nisso tudo? - perguntei, voltando ao assunto que me tinha feito entrar na sala e na conversa. O Tony fitou a mam, sorrindo cada vez mais,
e ela devolveu-lhe o sorriso, virando-se depois para mim.
- O Tony quer que tu sejas o modelo para a primeira boneca e quer fazer ele prprio a boneca - explicou ela.
- Eu? - Olhei para um e para o outro. A mam fazia aquele sorriso suave e feliz. Os olhos do Tony estavam fixos em mim, denotando j a intensidade do olhar de um
artista.
- Porqu eu?
- Em primeiro lugar - comeou o Tony -, quero destinar o conjunto inicial de bonecas a raparigas novas. No  meninas - acrescentou ele rapidamente -,  raparigas
novas, adolescentes. Penso que ser o melhor mercado para as bonecas-retratos. As mais pequenas no tm idade suficiente para apreciar o trabalho artstico extra
que isso envolve e, ainda mais importante de que isso, no veneram a imagem delas, nem se preocupam tanto com o aspecto exterior como as adolescentes.
- Mas ainda no consegui perceber. Porqu eu? - insisti. O Tony abanou a cabea.
- No  espectacular, Jillian, que ela seja to modesta? A mam olhou para mim com os olhos a cintilar, como se tivesse entendido que eu estava a ser modesta. Ela
tinha-me dito muitas vezes que os homens gostavam quando as mulheres bonitas fingiam modstia. Dava-lhes oportunidade de as encherem de elogios sem se envergonharem
ou terem medo de serem demasiado lisonjeiros, e as mulheres podiam atrair elogio atrs de elogio, desdizendo e corando, e pondo um ar de quem precisa de ser adulada.
No entanto, eu no estava a fazer nada disso. Sinceramente,
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no conseguia perceber porque  que o Tony me queria como modelo para uma boneca especial. Havia muitas raparigas da minha idade, raparigas muito mais bonitas e
que tinham feito cursos de modelos. com o dinheiro e os investimentos que ele tinha, podia contratar as melhores do pas, se quisesse. Porqu eu?
- O Tony acha que tu s especial, Leigh, e eu tambm observou a mam.
- Tu j tens uma cara de boneca - explicou o Tony. Eu abanei a cabea. - Sim, tens, Leigh. Podes continuar a ser modesta, se quiseres, mas porque  que eu hei-de
ir  procura da expresso ideal, da rapariga ideal, quando tenho a expresso perfeita e a rapariga perfeita a viver debaixo do mesmo tecto que eu?
"vou contratar o melhor fotgrafo da cidade para fotografar a tua cara. Tirar-te- muitas fotografias at escolhermos a fotografia perfeita e, depois, essa fotografia
ser colocada ao lado da boneca-retrato, cujo rosto tambm ser o teu- A, todas as minhas clientes ricas vo perceber o que  uma boneca-retrato e vo querer uma
para elas prprias. A tua fotografia ser exposta em todas as montras das minhas lojas... em toda a parte - disse ele.
A ideia acelerou-me as batidas do corao. Qual seria a atitude das minhas amigas do "clube especial"? Eu sabia que ficariam todas com inveja, mas provavelmente
o Tony tinha razo: todas iriam querer uma boneca para elas. Recostei-me e, pela primeira vez, comecei a pensar a srio no assunto... Uma boneca com o meu rosto...
- Estou to orgulhosa por o Tony querer que tu sejas a primeira boneca - comentou a mam. Fiquei a olhar para ela por uns instantes. Porque  que o Tony no queria
usar a cara da mam? Ainda tinha um aspecto to jovem e um rosto perfeito, um rosto que toda a gente considerava bonito. O que me intrigava tambm era o facto de
a mam no estar com cimes. Parecia contente.
Depois, cheguei  concluso que a mam nunca concordaria em fazer uma coisa dessas. Iria odiar ter de estar sentada horas a fio enquanto o Tony a pintava. Ou haveria
mais alguma razo?
- O que  que eu tenho de fazer? O Tony riu-se.
- S tens de ser tu prpria, nada mais, tens de ser a tua pessoa.
- A minha pessoa?
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- A boneca tem de ser perfeita - explicou o Tony. A todos os nveis. No vai ser apenas outra boneca, modelada e produzida numa linha de montagem em srie. Vai ser
uma obra de arte.  essa a questo. Pensa nela como se fosse uma esttua em miniatura, s que em forma de boneca de crianas.
- O que  que quer dizer com isso tudo? - perguntei num fio de voz, quase num sussurro. O Tony olhou para a mam, com o sorriso a esmorecer. O olhar dela, suave
e feliz, transformou-se rapidamente num olhar furioso.
- Quer dizer que vais ser um modelo, Leigh. Porque  que ficaste to estpida, assim, de repente? Um modelo. Um modelo para um artista. Vais posar.
- Mas geralmente os modelos dos artistas no posam... nus? - perguntei eu, receosa.
O Tony riu-se, como se eu tivesse dito o maior disparate.
- Claro que sim - replicou ele com um ar de indiferena. - Qual  o problema?  arte, e como j referi, essa boneca vai ser uma esttua em miniatura.
Engoli em seco. Posar nua, numa sala, num stio qualquer, enquanto o Tony pintava o meu retrato, um retrato que qualquer pessoa podia ver?
- O Tony no  um estranho - disse a mam abanando a cabea e sorrindo. - Ele agora faz parte da famlia. No deixaria que ningum o fizesse, excepto ele - acrescentou
ela.
- E ser tudo feito com muito profissionalismo - prosseguiu o Tony. - S porque sou o presidente da empresa no quer dizer que no tenha comeado como artista. Todos
os Tatterton o fazem. Eu trabalhava como arteso da Fbrica Tatterton quando o meu pai morreu e ento tive de tomar conta da parte administrativa do negcio.
"Este trabalho  importante de mais para ser atribudo a um arteso qualquer da minha fbrica e, tal como a Jillian diz, no deixaramos que nenhum estranho copiasse
a tua imagem.
Como eu no disse nada e houve um longo momento de silncio, Tony prosseguiu.
- Deixa-me explicar-te o processo para que percebas o que tem de ser feito. Primeiro, desenharei um quadro teu. Depois, pint-lo-ei, tentando captar os tons da pele.
A seguir, trabalharei em barro, esculpindo um modelo que capte todas as dimenses e, quando esse modelo estiver pronto, ser moldado e duplicado.
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"Bem - continuou ele, preenchendo o silncio que persistia discute o assunto com a Jillian. Tenho de ir fazer uns telefonemas para saber o que se passou na minha
ausncia e depois vou ver o Troy. No te preocupes - acrescentou - Vai correr tudo bem e vais acabar por te tornar bastante famosa ao longo deste processo. - Levantou-se,
beijou a mam e deixou-nos a ss.
- Sinceramente, Leigh, estou surpreendida e desapontada contigo. Viste como o Tony estava excitado, elctrico at, com a nova ideia dele, e percebeste que este vai
ser um empreendimento gigantesco e importante para a Fbrica de Brinquedos Tatterton. Ele a querer que tu sejas o centro de tudo isso e tu para ali sentada, com
um ar pouco agradecido, indiferente, a choramingar como uma criana imatura: "O que  que eu tenho de fazer?"
- Mas, mam, posar nua?
- E qual  o problema? Tu ouviste as palavras dele: isto  arte. Olha para o meu museu. O homem que posou para o David do Miguel Angelo estava vestido? E a mulher
que posou para a Vnus?
"Quando ele entrou aqui todo excitado e me props essa ideia, pensei que fosses delirar e que te sentisses lisonjeada. Pensei que j tivesses amadurecido o suficiente
para no teres uma atitude pateta e idiota em relao  arte. Acredita que - assegurou-me ela -, se eu fosse suficientemente jovem, da tua idade, e me aparecesse
um homem como o Tony a oferecer-me esta oportunidade, achas que hesitaria, como tu fizeste? Claro que no.
- Mas porque  que no pode ser a mam a fazer de modelo?  to bonita e tem um aspecto to jovem.
A expresso da mam alterou-se, como se tivesse sido atingida por um raio, tornando-se dura e fria.
- O Tony explicou que quer dirigir o mercado dessas bonecas a raparigas da tua idade - disse ela, de rompante. Ests a imaginar a minha fotografia numa montra ao
lado de uma boneca-retrato Tatterton, uma boneca feita para adolescentes? Eu tenho um aspecto jovem, Leigh, mas no tenho ar de adolescente, ou achas que sim? Bem...
achas que sim?
- Eu abanei a cabea, sem fora, insegura quanto a aceitar ou no.
- Talvez a mam possa pintar e fazer a escultura - propus eu, de repente. -  uma artista...
- Eu no tenho tempo para isso, Leigh. Tenho obrigaes sociais muito importantes. Alm disso eu pinto quadros de fantasia. - E continuou:
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- Nem sequer tens de sair daqui para posares. Vai ser tudo feito em Farthy e ters outra coisa com que te ocupar este Vero. O Tony decidiu montar um pequeno estdio
na pequena casa de pedra, e assim tu e ele no sero perturbados.
- Na casa de pedra...?
- No  uma boa ideia? Eu assenti.
- Ento, est tudo bem. Eu digo-lhe que concordas declarou ela pondo-se de p. - No  excitante? Mal posso esperar para ver o resultado final - disse e deixou-me.
Fui a correr para os meus aposentos tirar o fato de banho, tomar um duche e vestir-me para o jantar. Sentia-me desorientada e confusa, a minha cabea estava cheia
de contradies, desviando-me ora para um lado ora para o outro, devido ao efeito das diferentes emoes que sentia. No podia deixar de ficar excitada com a ideia
de o meu retrato estar exposto nas montras das Lojas Tatterton ao lado de uma boneca preciosa, criada  minha semelhana, fazendo-me parecer uma deusa. Apostava
que a maior parte das minhas amigas, principalmente as do "clube especial", teriam agarrado esta oportunidade com unhas e dentes.
Contudo, o Tony era o novo marido da mam, jovem e atraente, e ficar nua, durante horas,  frente dele!...
Despi o meu fato de banho, exibi-me em frente do meu espelho de corpo inteiro e observei a minha imagem, estudando cada curva do meu corpo. As veias  volta dos
meus seios a despontar estavam prximas da superfcie, distendendo-se e crescendo cada dia mais. Iria o Tony concentrar-se num pormenor desses? Havia uma marca de
nascena mesmo por debaixo do meu seio direito. Iria aparecer tambm na boneca? Eu tinha a certeza de que, quando aparecesse nas montras das lojas, a boneca ia estar
vestida, mas qualquer um podia despi-la e observar o seu corpo. No seria a mesma coisa que despir-me na montra central da loja ou no palco para todos verem?
Como  que as mulheres se tornavam modelos de artistas profissionais? Sentar-se-iam ou ficariam de p num stio qualquer a pensar em outras coisas, fingindo que
no se estava a passar nada?
Vesti o roupo e voltei para a frente do espelho a fingir que estava a posar para o Tony. Imaginei-o  minha frente, com o pincel na mo. A paleta estava pronta
e a tela preparada. Nesse momento, ele virava os seus intensos olhos azuis
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para mim e sorria. Gesticulava com o pincel e eu comeava a desapertar o meu roupo. O meu corao comeou a bater a acelerar, s de imaginar essa fantasia. Comecei
a afastar o roupo do meu corpo e...
LEIGH! - Ouvi o Troy a gritar da minha sala de espera
e apertei o roupo. Entrou a correr, com uma exuberncia que eu no via nele h semanas. - O Tony contou-me, o Tony contou-me! Ele vai fazer uma boneca de ti, uma
boneca Tatterton, e um dia talvez eu venha a ter uma na minha prateleira!
- Oh, Troy - exclamei eu -, no vais querer ter uma boneca de menina, pois no?
- No  uma boneca de menina - replicou ele, com firmeza. -  uma boneca da Fbrica de Brinquedos Tatterton e isso  especial, no ? - Ele assentiu com a cabea,
 espera que eu concordasse.
- Suponho que  - disse, e ele sorriu.
- Mas o Tony diz que eu no posso ir com vocs v-lo a fazer a boneca. No pode ser perturbado - explicou ele, com tristeza. - Mas posso ser um dos primeiros a v-la
quando estiver pronta.
"Vai ser a melhor boneca do mundo! - proclamou ele. E depois de pensar um bocado, disse: - vou contar ao Rye Whiskey. - Da mesma maneira como apareceu, desapareceu
do meu quarto.
Eu voltei a virar-me para a minha imagem no espelho. Seria capaz de fazer uma coisa dessas? F-lo-ia? A mam achava que eu devia, mas a mam queria que eu fizesse
qualquer coisa, desde que fosse para manter o Tony ocupado e poup-la s constantes exigncias e carncias afectivas dele.
Que diria o pap?, perguntei a mim mesma.
O pap no iria gostar muito; ele no podia gostar da ideia, o pap, no. Como desejava que ele j estivesse em casa para lhe poder perguntar a sua opinio. Mas
ele no estava em casa, ainda estava na Europa, ocupado com o seu negcio e com... a Mildred Pierce.
"Mildred Pierce", pensei eu, zangada. Ele deixara que uma pessoa desviasse a sua ateno e o seu amor, deixara que algum o afastasse de mim durante mais tempo e
talvez para sempre.
Desapertei o meu roupo e deixei que casse a meus ps. Estava decidido: eu seria uma boneca Tatterton. At talvez oferecesse uma ao pap no dia do seu novo casamento.
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13 EU... MODELO?

O Tony passou a semana que se seguiu com o pessoal do departamento de marketing a planificar a produo e venda das bonecas-retratos. Todas as noites ao jantar ele
tinha algo novo e excitante para nos contar sobre o projecto. A mam estava mais interessada nisso do que alguma vez estivera em qualquer outra coisa feita pelo
Tony. Senti-me a ser arrastada pela mar de entusiasmo que nos percorria. Por fim, um dia, anunciou que a pequena casa de pedra tinha sido preparada e que ele estava
pronto para comear a trabalhar na manh seguinte, aps o pequeno-almoo. Senti o calor a subir-me s faces e o meu corao a palpitar. A mam fez um sorriso enorme
e o Tony props fazermos um brinde ao projecto.
- E  Leigh - disse ele fixando-me com os olhos azul-celestes a brilharem intensamente. - A primeira modelo Tatterton.
-  Leigh - repetiu a mam, dando em seguida uma gargalhada aguda. Beberam o vinho deles rapidamente, como dois conspiradores acabados de embarcar numa aventura
perigosa, sobre a qual tinham jurado nunca voltar atrs.
- O que  que eu tenho de vestir? Como devo pentear o cabelo? - perguntei eu, parecendo um pouco inquieta.
- S tu prpria - respondeu o Tony. - No faas nada de especial. Tu j s especial - acrescentou ele. Quando olhei para a mam, vi que ela o fitava com um sorriso
suave, mas de satisfao, nos lbios. Eu sabia porque  que ela estava to feliz. O Tony estava embrenhado neste empreendimento. Enquanto estivesse, no exigiria
nada dela.
Nessa noite eu no conseguia adormecer, a pensar como iria ser posar para o Tony. Queria conversar mais sobre esse assunto com a mam, mas ela foi a um jogo de brdege
e, quando voltou, deixou bem claro que estava exausta e que tinha
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de ir dormir imediatamente. O Tony ficou to desapontado quanto eu por causa disso.
Na manh seguinte, depois do pequeno-almoo, ele e eu partimos para a pequena casa. Ele tinha decidido ir pelo caminho que atravessava o labirinto. A manh estava
linda e quente, e as nuvens, tipo bolas de algodo fofinhas, deslizavam preguiosamente pelo cu azul-turquesa.
- Est um dia maravilhoso para comear um projecto novo e significativo - comentou o Tony. Parecia to cheio de energia, to pleno de entusiasmo que eu me senti
uma idiota por ainda ter borboletas no estmago. Ele percebeu que eu estava pensativa e nervosa. - Descontrai-te. Isto vai ser fcil. E quando estivermos em plena
actividade at vais gostar. Eu sei: j trabalhei com muitos modelos.
- Trabalhou?
- Claro. Fiz muitos cursos de arte na universidade e tive uma formao especial aqui, em Farthy. - Inclinou-se para mim e baixou a voz, como se estivesse a contar
um segredo.
- Comecei aos onze anos.
- Aos onze anos? - Aos onze anos ele andava a desenhar e a pintar pessoas nuas?
- Sim, senhor. Por isso, ests a ver, ests nas mos de um homem com muita experincia.
Ele sorriu, e entrmos no labirinto. O Tony movimentava-se l dentro com muita segurana, nunca hesitando em curva nenhuma, nunca pondo em causa nenhuma deciso.
- Para as outras pessoas - explicou ele -, estas sebes parecem todas iguais, mas quem cresceu no meio delas, como eu, nota diferenas subtis. Para mim, estes corredores
so to diferentes como a noite do dia. Dentro em breve, vai ser a mesma coisa para ti - assegurou-me ele.
Vista de fora, a pequena casa parecia igual, excepto o facto de terem corrido as persianas em todas as janelas. L dentro, o Tony havia montado o seu cavalete com
as tintas, os lpis e as canetas. Tinha instalado um estirador comprido de metal para trabalhar. Havia l material para fazer escultura, tal como todo o tipo de
ferramentas para o efeito. A moblia tinha sido afastada, de maneira a proporcionar tanto espao livre quanto possvel. Havia dois grandes focos, um de cada lado
do cavalete, cujas lmpadas estavam dirigidas para o pequeno sof.
- Vamos comear contigo sentada ali - disse ele, apontando para o sof. - Descontrai-te e pensa em coisas agradveis. vou demorar alguns minutos a preparar tudo
-
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acrescentou ele. Comeou ento a organizar o material. Eu sentei-me no sof e observei-o a trabalhar, notando na sua expresso os mesmos propsitos criativos e a
mesma concentrao que muitas vezes vira na expresso do Troy.
Eu estava vestida com uma camisa de manga curta, de algodo branco simples, e uma saia azul-clara. Tinha a franja curta, mas o resto do cabelo estava suficientemente
comprido para chegar a meio das omoplatas e caa suavemente ao longo do pescoo e dos ombros. No tinha posto bton.
- Pronto - disse o Tony, voltando-se para mim. - vou comear pelo teu rosto. Olha para mim com um leve sorriso nos lbios. No quero que a boneca tenha um sorriso
aberto, tipo palhao, como tm algumas bonecas de brincar. Quero que esta boneca reflicta a tua beleza natural, a tua expresso suave e adorvel.
Eu no sabia que dizer. Seria tudo verdade? Seria eu suave e adorvel? Se o Tony me queria para um projecto to importante, teria certamente de ver essas coisas
em mim e no podia estar simplesmente a adular-me para me fazer sentir bem.
Contemplou-me durante algum tempo, observando-me de cima a baixo. Concentrei os meus olhos nele, como me tinha ensinado, e observei como ele media as feies da
minha cara e planeava os seus primeiros traos. Comecei a sentir-me realmente como se fizesse parte de algum projecto artstico e, pouco depois, j parara de tremer
e o meu corao j estava mais calmo. O Tony olhava para mim, desenhava, olhava para mim, assentia para ele prprio e desenhava. Tentei manter-me imvel, mas era
difcil no me mexer.
- Podes mexer-te um bocadinho - disse ele, sorrindo.
- No te quero transformar em pedra - acrescentou. Descontrai-te at te sentires confortvel. - Eu descontra-me mesmo. - Sentes-te melhor?
- Sim.
- Eu sabia. Trabalharemos um bocado e depois faremos intervalos. Enchi a cozinha de comida ptima para o almoo
- disse ele, com entusiasmo.
- Quantas horas vamos trabalhar por dia?
- Vamos trabalhar um bocado de manh, teremos um almoo calmo e depois algumas horas durante a tarde. Sempre que estiveres cansada, apita e faremos um intervalo.
Fiquei surpreendida por a primeira hora ter passado to depressa. O Tony olhou para o relgio, anunciou que j tnhamos trabalhado uma hora e depois convidou-me
a ir ver
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o que j estava feito. Levantei-me e contemplei a tela. Esboara os contornos da minha cara, desenhara os meus traos e dera forma aos meus lbios, aos olhos e ao
nariz. Estava a comear a desenhar o cabelo e o pescoo. Claro que era demasiado cedo para dar uma opinio, mas depressa decidi que ele tinha mesmo talento.
- Ainda no  nada - comentou ele -, mas acho que comecei bem.
- Oh, sim, est muito bem.
- Fazer arte  uma experincia maravilhosa - disse ele, concentrando-se na tela, com os olhos sombrios e absorvidos por ela. - Dar vida a uma tela vazia proporciona-te
uma sensao de realizao pessoal. Este desenho  como dar os primeiros passos para fazer um beb... As sementes da minha imaginao fundem-se com a realidade e
ganham forma, da mesma maneira que a semente do homem se prende ao vulo de uma mulher e inicia a criao de um novo beb. Tu e eu - disse ele, virando-se para mim
-, estamos aqui juntos-a dar  luz uma coisa bonita - acrescentou, com a voz num sussurro.
Eu no sabia que dizer. O modo como olhava para mim, com os olhos pequenos, mas brilhantes como pedra de carvo, a voz to suave, fazia-me estremecer por dentro.
Depressa alterou a sua expresso, voltando ao sorriso firme e divertido, e depois riu-se.
- Pareces aterrorizada. Eu estou a falar metaforicamente, a fazer comparaes - disse ele e pendeu depois um pouco a cabea. - Diz-me, Leigh, tiveste algum namorado
enquanto estiveste em Winterhaven?
- Namorado? Como  que eu podia ter um namorado? A mam queria que eu viesse a casa todos os fins-de-semana. O Tony sabe que passvamos imenso tempo juntos a fazer
esqui, a andar a cavalo...
- Sim, sim, mas eu pensei... Os rapazes podem ir l fazer visitas, no podem? - perguntou ele, inclinando a cabea para o lado e sorrindo.
- No. Miss Mallory proibiu a entrada de rapazes no edifcio, a no ser que haja um baile convenientemente vigiado. Houve alguns bailes, mas eu no pude ir a nenhum
respondi eu, com amargura.
- Estou a ver. Bem, no ano que vem passars mais fins-de-semana em Winterhaven e ters oportunidade de conhecer rapazes. Agora j te interessas por rapazes, no
? E na tua antiga escola? Tinhas l um namorado?
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- Namorado, no.
- No tinhas ningum fixo, hem? S algum amigo... disse ele e assentiu com a cabea, como se eu tivesse concordado. - E que tal uma bebida fresca? Uma Coca-Cola?
- Est bem. - Foi para a cozinha e trouxe dois copos de Coca-Cola. Enquanto bebia, olhava-me fixamente. Pensei que ainda estivesse a pensar como iria desenhar isto
ou aquilo, mas estava a pensar noutras coisas.
- Esse rapaz, que no era bem teu namorado - comeou ele outra vez -, beijou-te, no beijou?
- No - retorqui eu. A pergunta dele fez-me corar e ele sorriu.
- No te preocupes, no direi nada  tua me.
- No h nada que dizer - insisti eu.
- As raparigas beijam os rapazes, no beijam? - perguntou ele a rir. - Ou isso agora vai contra as novas regras? Ou hoje em dia s se dana o rock'n rolW
- Os rapazes ainda beijam as raparigas - repliquei eu, apesar de no estar a falar por experincia prpria.
- Alguma vez beijaste  francesa? - Sentou-se no sof e levantou os olhos para mim, ansioso por ouvir a minha resposta. Eu no sabia o que era um beijo  francesa
at me juntar ao "clube especial" em Winterhaven e ter ouvido a Marie Johnson a descrev-lo.
- No - respondi eu, com firmeza.
- Mas sabes o que , no sabes?
- Sim.
- Mas nunca o fizeste. Que maravilha. Tu s mesmo to inocente como aparentas ser. Quer dizer que no beijaste esse rapaz que no era propriamente um namorado, no
comprimiste a tua lngua contra a dele e ele no comprimiu a dele contra a tua?
- J lhe disse que no - repliquei eu. Porque  que ele me estava a provocar tanto?
Ele riu-se.
- No  to mau como parece, Leigh, apesar de a tua me ter vindo a achar que sim, da mesma maneira que acha que tudo o que isso implica tambm  mau - acrescentou
ele, irritando-se de um momento para o outro.
Fixou o olhar no cho durante bastante tempo e depois aqueles olhos azuis oscilaram na minha direco, tornando-se de repente vazios de expresso, como se no estivesse
a olhar para mim ou a ver-me. Incomodava-me o facto de ele conseguir conferir aos seus olhos uma expresso to vazia,
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como se soubesse como ligar e desligar as suas emoes. Depois, pestanejou e focou-me de novo.
- Ds-me a impresso de seres uma jovem muito precoce, Leigh.  por isso que achei que darias uma modelo maravilhosa. s vezes, tens uma expresso muito viva, uma
expresso muito adulta nos teus olhos. Aposto em como s muito mais avanada do que as outras raparigas da tua idade,  verdade?
Eu encolhi os ombros. Por vezes sentia que sim, mas outras vezes, quando as raparigas se juntavam todas e comeavam a contar as experincias delas, parecia que tinha
vivido num mundo aparte.
- Eu sei que ficaste muito perturbada por os teus pais se terem divorciado - prosseguiu ele -, e que, por uns tempos, me odiaste, no  verdade? Achavas que a culpa
era minha? No tens de responder. Eu percebo. Se eu estivesse no teu lugar, teria sentido a mesma coisa. Espero que os tempos que passmos juntos a esquiar e a andar
de cavalo tenham sido bons para ti e que talvez te tenham ajudado a gostares mais de mim - disse ele, com tristeza.
- Eu no o odeio, Tony - anunciei eu. Era mesmo verdade que no o odiava, j no o odiava.
- No? Que bom, fico feliz. Eu quero que sejamos amigos, que sejamos mais do que amigos. - Fiquei calada. Agora, quando me fixava, havia uma expresso diferente
nos seus olhos, diferente da que tinha enquanto me estivera a desenhar. Este olhar era mais profundo e constrangia-me. Permiti que os meus olhos se encontrassem
brevemente com os dele. Depois, quando me senti a corar de novo, desviei-os logo em seguida. Bem - disse ele, dando uma palmada nos joelhos -, est na hora de voltarmos
ao trabalho.
Levantou-se e voltou para a tela. Eu regressei ao meu lugar no sof.
- vou desenhar-te de alto a baixo, trabalhando devagar, captando os pormenores - explicou ele. - Ainda bem que vestiste uma camisa desse tipo. Quero ver-te gradualmente.
D-me a sensao que ests a surgir da tela, a emergir da tela branca, como Vnus a emergir do mar.
"Agora quero fazer um esboo do teu tronco. Levanta-te, por favor, e deixa cair os braos de lado - pediu ele. Eu fiz o que ele disse. - Sim,  isso mesmo - disse,
entusiasmado, como se eu tivesse feito alguma coisa importante ou difcil. - Sim, sim...
O trao dele era rpido.
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- Agora, desabotoa a tua camisa o suficiente para descobrir os ombros. V l - insistiu ele, quando viu que eu no me mexia. - No tem mal. S at aos ombros - repetiu
ele num tom de voz ameno.
Levei os meus dedos ao primeiro boto e desabotoei-o.
- Bem. Continua. ptimo - aliciou-me ele. - Agora outro. - Eu desabotoei outro. - E outro. Continua, mais um. Pronto, agora desce a camisa suavemente at aos ombros.
Sim, sim.
Os seus olhos aumentaram e, de cada vez que me olhava, concentrava-se em mim durante mais tempo, antes de se voltar para a tela.
- Outro boto - pediu ele contemplando o seu trabalho at esse momento. Eu desabotoei outro boto. Depois, lanou-me um olhar, olhou para o desenho dele e acenou
com a cabea. - Despe os braos da camisa e segura-a levemente acima dos teus... dos teus seios - disse ele.
Eu percebi e avaliei o que ele tinha dito sobre Vnus a emergir do mar, mas era to estranho ter de me despir to devagar. Era quase como se estivesse a fazer striptease.
Tirei os braos para fora e segurei a camisa, impedindo-a de descair. O Tony ficou muito tempo a olhar para mim e depois abanou a cabea.
- O que foi? - perguntei.
- No estou a conseguir apanhar bem os teus ombros... H qualquer coisa... - Aproximou-se e esfregou o queixo com os dedos da mo direita, enquanto me olhava de
cima. Depois, inclinou-se para mim e afastou dos meus ombros as finas alas do soutien. Voltou a recuar, contemplou-me por um momento, voltou para a tela, olhou
para ela e assentiu silenciosamente. - D uma volta - pediu ele.
- Dou uma volta? Completa?
- Sim, por favor.
Eu dei e fiquei  espera.
- Agora, deixa descair a tua camisa. - Eu larguei a camisa e esta caiu aos meus ps. - Sim - disse ele, num murmrio em voz alta. - As linhas do teu pescoo e dos
teus ombros...
- O que  que tm? - perguntei eu de repente.
- Nada de mal - replicou ele, dando uma leve gargalhada. - Por um momento enganaram-me. - Ouvi os passos dele por trs de mim e depois senti as pontas dos seus dedos
a traarem as curvas do meu pescoo e dos meus ombros. Dei um salto quando o senti. - Tenta descontrair
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sussurrou ele ao meu ouvido. - s vezes, um artista tem de tocar no objecto da sua arte para poder absorver verdadeiramente as linhas e as curvas. Eu, pelo menos,
tenho de o fazer.
- Fez-me ccegas - expliquei eu. No conseguia v-lo, mas sentia a sua respirao to quente e prxima da minha nuca que me dava a impresso de que os seus lbios
estavam a milmetros de distncia.
- Importas-te que eu agora faa isto? - perguntou. Tinha os seus dedos no fecho do meu soutien. Por momentos, no consegui falar. O meu corao batia contra o peito.
A esta altura quero ter uma viso desobstruda das tuas costas, est bem? - voltou ele a perguntar. Eu apenas assenti silenciosamente e senti-o a desapertar-me o
fecho, o elstico a dar de si e o soutien a soltar-se. Como as alas j estavam descadas, o meu soutien caiu, deixando a descoberto os meus seios recm-despontados.
Comecei a pux-lo para cima, mas o Tony segurou-me nos pulsos, inicialmente de repente e com rudeza, suavizando depois de imediato a fora que as suas mos faziam.
- No, deixa os braos descados
- pediu ele. Recuou para junto do cavalete.
Eu fiquei de p, o mais imvel possvel, com o corao a bater to depressa que me cortava a respirao. Parecia j estar naquela posio h horas, quando ele voltou
a falar.
- Est a ficar muito bem - comentou. - Perfeito. Eu no me mexi. O que  que ele ia querer que eu fizesse a seguir? De repente, senti que ele me envolvia os ombros
com um lenol branco. Pendurou-o  volta do meu pescoo como se fosse uma capa.
- Eu sei que ests nervosa - disse ele naquele tom de voz pouco mais alto do que um sussurro -, mas eu gosto. Quero tirar vantagem disso, como j te disse, captar-te
como captaria Vnus a emergir do mar. Agora, despe-te completamente, mas mantm o lenol  volta. Vais baixando o lenol  medida que avanarmos, est bem? Volto
j. Quero ver o que  que h para comer. Est quase na hora do almoo e eu estou a ficar cheio de fome.
Porque  que ele estava a pedir-me para tirar a roupa toda se amos parar para almoar dentro em breve?, pensei eu. Talvez achasse que depois seria mais fcil para
mim. Apesar de ainda estar bastante nervosa e embaraada, senti um arrepio quente e agradvel passar-me pelo corpo quando despi a saia. No momento em que desci as
cuecas e estreitei o lenol fresco contra o meu corpo, senti um calor ondulante a subir-
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-me pelos tornozelos acima; parecia que estava a entrar numa banheira cheia de gua morna. Senti que o pequeno vale entre os meus seios tinha enrubescido. Enrolei-me
no lenol e esperei que o Tony regressasse.
Ele chamou-me da cozinha. Tinha feito uma travessa de pequenas sanduches e abrira uma garrafa de vinho. Serviu-me um copo e depois serviu um para ele prprio. Como
eu no me mexi, ele puxou uma cadeira, tal qual um empregado de mesa de um restaurante fino.
- Minha senhora.
- Obrigada. - Sentei-me e comecei a comer. No consegui deixar de achar que estava ridcula, sentada  frente da pequena mesa, vestida apenas com um lenol branco.
O Tony, porm, agia como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pensei que a sua atitude talvez se devesse  sua experincia artstica. Sempre que me mexia, o lenol
soltava-se. Por isso, agarrava-o com uma mo enquanto comia e bebia com a outra.
- Achas que as raparigas so mais modestas do que os rapazes? - perguntou, tendo-se obviamente apercebido do meu embarao.
- No.
- J alguma vez viste um rapaz nu?
- Claro que no - retorquiu eu, com brusquido. Ele riu-se. Eu sabia que ele estava a provocar-me outra vez, mas chegava-me aos nervos.
- Agora no vais dizer-me que as raparigas no do espreitadelas como os rapazes. Eu sei que quando as raparigas se juntam falam sobre os rapazes que j viram nus,
da mesma maneira que eles. Aposto em como as raparigas em Winterhaven fazem a mesma coisa quando esto juntas. Acertei?
Eu no respondi, mas ele tinha razo. Numa das nossas ltimas reunies no quarto da Marie, a Ellen Stevens contara-nos que tinha visto o irmo a tomar duche. S
de me lembrar fiquei corada.
- No faz mal nenhum - disse o Tony, abanando a cabea com um sorriso de orelha a orelha. -  natural ser-se curioso em relao ao sexo oposto. - Bebeu o seu vinho.
Eu tomei um pequeno golo. Senti-me a arder. A minha cara ficou mais quente. Ele bebeu o vinho dele e serviu-se rapidamente de outro copo.
- No h nada de errado em ser-se modesto - continuou ele -, a no ser que isso chegue aos limites do ridculo. - As suas feies tornaram-se duras e os seus olhos
frios
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e sombrios, de repente. - Se ests casado e a tua mulher te fecha a porta na cara sempre que se veste...
Lanou-me um olhar rpido, como se eu fosse discordar de alguma coisa; porm, eu estava to calada e sossegada que at parecia a esttua que ele queria criar.
- Porque  que uma mulher no h-de querer que o seu marido a veja? - perguntou ele, como se eu  que fosse a mais velha e a mais experiente. - Ser que ela tem
medo que ele note alguma imperfeio, uma ruga, uma marca de nascimento? Desligavas a luz sempre que fizesses amor com o teu marido? - perguntou ele. Eu no sabia
que havia de dizer. - Claro que no. Porque  que farias uma coisa dessas? - Baixou os olhos e murmurou: - Ela est a levar-me  loucura.
Eu sabia que ele estava a referir-se  minha me, mas no disse nada. Seria que a mam achava que, se o Tony a visse nua num quarto iluminado, descobriria a verdadeira
idade dela?, perguntei a mim mesma. Ela tinha um corpo to perfeito. Como  que um corpo daqueles podia revelar a sua idade?
Acabei a minha sanduche e dei mais um golo no vinho. O Tony parecia estar em transe. De repente, saiu do transe e sorriu.
- Est na hora de voltarmos ao trabalho - anunciou ele e levantou-se da cadeira.
Segui atrs dele para a sala de estar que tinha sido transformada em estdio e pus-me de p no lugar onde estivera anteriormente.
- Vejo que o vinho te deu uma corzinha. Gosto disso. Tenho de captar essa cor - disse ele. - Ser que esse calor tambm desceu pelo teu pescoo? - perguntou e chegou-se
mais perto, passando com o indicador direito ao longo da linha do meu pescoo, detendo-se na clavcula. - s verdadeiramente delicada - sussurrou ele. - Uma jovem
flor a desabrochar. - Os seus olhos penetravam-me, brilhantes. Suspirou e abanou a cabea. - Que sorte que eu tenho em te ter, Leigh. Isto s vai ser um sucesso
porque eu tenho uma modelo to bonita.
Voltou para o cavalete e comeou a desenhar. Depois de algum tempo parou.
- Desfaz o n do lenol no pescoo e segura-o  cintura
- pediu, casualmente, como ele prprio diria. - Vira a cabea para a esquerda.
 cintura, pensei eu. Os meus dedos tremiam tanto que,
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quando tentei desfazer o n do lenol, no consegui. Ele riu-se.
- Deixa-me ajudar-te - disse, avanando.
Afastou cuidadosamente os meus dedos do n e desf-lo. Segurei no lenol contra o meu corpo por uns momentos. Depois, ele descobriu-me os ombros, os braos, os seios,
sem tirar nunca os seus olhos dos meus. Sorriu e recuou, a contemplar-me. O meu corao desatou aos pulos.
- Adoro aquela pequena marca de nascimento por baixo do teu peito - exclamou ele. -  o tipo de marca individual que poderei copiar para o modelo para que sejas
tu prpria. Toda a gente vai procurar alguma coisa que torne a boneca especificamente uma rplica deles prprios, percebes?
- Parecia to entusiasmado com esta descoberta que eu s conseguia abanar a cabea de to espantada. Voltou a correr para o cavalete e continuou a desenhar.
Trabalhou durante mais de uma hora, parando com frequncia para me estudar intensamente, suspirando antes de abanar a cabea e sorrir. De repente, parou e mordeu
o lbio com fora, sacudindo a cabea.
- O que foi? - perguntei eu.
- No estou a conseguir apanhar-te bem. Est desproporcionado, desequilibrado. No estou a fazer justia  tua simetria - afirmou.
- Tem de ser assim to perfeito, Tony?
- Claro - retorquiu ele, enquanto lhe aparecia no rosto uma ruga de contrariedade. - Vai ser a primeira e a mais perfeita. - Olhou para o seu esboo e depois para
mim. Voltou a olhar para o esboo e assentiu. Em seguida, deu um passo em frente.
- Espero que no te importes - disse ele -, mas s vezes ns, os artistas, vemos melhor com os olhos fechados.
- Mas como  que podem ver com os olhos fechados? perguntei eu.
- Vemos com os outros sentidos. Um artista que pinta pssaros bonitos tem de ouvi-los cantar e captar as melodias deles para os seus quadros, do mesmo modo que apanha
as suas cores e as formas. Quando um artista pinta um campo verde bonito, tem de captar o cheiro da relva e das flores para a sua pintura. Percebes?
Eu concordei. Parecia correcto.
- E, atravs do tacto - prosseguiu -, um artista traz profundidade, textura, plenitude ao seu trabalho. Ser uma vantagem para mim quando transformar o desenho em
escultura.
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Descontrai-te por uns momentos - pediu ele num sussurro. Levou as suas mos  minha cintura e fechou os olhos. Em seguida, os seus dedos avanaram pelas minhas costelas
detendo-se quando se comprimiam contra os ossos. - Sim dizia ele. - Sim. - Subia com as mos pelo meu corpo acima e as pontas dos seus dedos tocaram na base dos
meus seios. Eu comecei a recuar. - Calma - pediu ele. - Agora estou a ver tudo perfeitamente.
Olhei para o rosto dele. Os seus olhos ainda estavam bem fechados, mas conseguia v-los a movimentarem-se para a frente e para trs por baixo das plpebras.
As pontas dos seus dedos subiram, muito devagar, ao lado dos meus seios, detendo-se depois em cima deles. Parou ali durante algum tempo, sustendo a respirao. Eu
tambm sustive a minha.
A sensao de ccegas que eu tinha sentido da primeira vez desaparecera rapidamente, para ser substituda por um arrepio que ia at s profundezas do meu corpo e
que explodia por todo o lado. Era como se estivessem em cima de mim uma dzia de dedos, produzindo a mesma sensao nas pernas, braos e estmago.
A amlgama de sensaes era simultaneamente desconcertante, assustadora e emocionante. Sentia-me to confusa. Devia afastar... afastar as mos dele do meu corpo?
Seria que todas as modelos permitiam que os artistas explorassem o corpo delas desta maneira? s vezes, quando ele olhava para mim com muita intensidade, parecia
que os olhos do Tony me tocavam de verdade; isto, porm, era diferente. Os seus dedos movimentavam-se por baixo do meu peito e por cima dele, como se me estivesse
a moldar na sua mente. As minhas pernas enfraqueceram e comearam a tremer.
Por fim, o Tony recuou, tirando as mos de cima de mim, mas mantendo-as no ar,  altura do meu peito. Deteve-se ali uns instantes, acenou com a cabea e voltou devagar
para o cavalete, abrindo os olhos apenas quando comeou a desenhar.
Nessa altura, trabalhava com furor, os lbios cerrados e o maxilar firme. Eu mal me mexia. O meu corao batia com tanta fora que pensava que ia explodir para fora
do meu peito. Que tinha ele acabado de fazer? Que tinha eu permitido que ele fizesse? Teria a mam conscincia de que isto ia acontecer? Porque no avisara ela?
- Sim - observou o Tony. - Agora sim. Est a funcionar. - Sorriu para mim e continuou a trabalhar. Pouco depois,
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parou abruptamente, recuou para contemplar o seu trabalho e depois assentiu. - Pronto! - exclamou ele. - Por hoje foi suficiente. Porque  que no te vestes enquanto
eu arrumo isto.
Voltei-me de costas para ele e comecei a vestir-me. Quando acabei, ele fez-me sinal para eu ir ver o resultado.
- Ento? o que  que achas?
A minha cara estava bastante parecida. Tinha captado com perfeio as formas da minha cabea e do meu queixo; o meu corpo, contudo, parecia muito mais amadurecido
do que era na realidade. O meu corpo parecia mais o corpo da minha me.
- Est muito bom, Tony - disse eu -, mas fez-me mais velha.
- Tambm  assim que eu te vejo, sabes. Isto  uma obra de arte, no  uma fotografia. Metade da obra de arte est na cabea do artista. Por isso  que tambm 
to importante que eu te toque. Espero que entendas, Leigh - replicou ele, com uma expresso preocupada.
- Sim, entendo - repliquei eu, mas no fundo no entendia. Tambm no entendia os meus sentimentos. Sentira-me ao mesmo tempo embaraada, assustada e emocionada.
Era tudo to confuso. Decidi que ia falar com a minha me sobre isso, custasse o que custasse.
Todavia quando eu e o Tony chegmos a casa, ela j havia sado. Tinha deixado um recado explicando que ia jantar fora e ia ao teatro a Boston, com algumas das suas
amigas. Foi uma surpresa to grande para mim como para o Tony.
- Parece que tu e eu vamos jantar outra vez sozinhos murmurou ele por entre dentes e subiu as escadas a correr em direco  sua suite. Pouco depois de eu ter subido
para a minha, o Troy veio ver-me. Os seus ataques de varicela e sarampo, as suas alergias e as gripes, tinham-no deixado to magro e to plido! Mesmo o tempo que
passara a apanhar sol no lhe tinha dado cor  pele. Por tambm ter perdido peso, tinha um aspecto doentio, os olhos cavados e olheiras fundas. Apesar do seu estado,
animou-se quando entrou pelo meu quarto adentro para saber como tinha corrido o trabalho da boneca Tatterton.
- Quando  que vai estar pronta? - perguntou ele. Esta semana?
- No sei, Troy. Hoje s fizemos o esboo do desenho. O Tony tem de pintar e depois comear a esculpir. J jantaste? - perguntei. Os mdicos tinham-no posto num
regime
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de refeies diferente e ele comia mais cedo do que ns. Eu sabia que a situao tinha agradado  minha me, mas ele ficava muito infeliz por ter de comer sozinho
ou s com a enfermeira.
- Sim. E tambm tive de beber aquela porcaria outra vez - queixou-se ele.
- Faz-te bem, Troy, e vai tornar-te mais forte para poderes fazer outra vez uma vida normal. Vais ficar melhor e vais poder montar o teu pnei e tomar banho e...
- No, no vou - lamentou-se ele, com uma expresso assustadoramente segura e madura. Os seus olhos tornaram-se penetrantes e frios, como ficavam os do Tony, s
vezes.
- Eu nunca ficarei melhor e no viverei tanto tempo como as pessoas normais - acrescentou ele, com firmeza.
- Troy! - No deves dizer essas coisas. So coisas horrveis - ralhei eu.
- Eu sei que  verdade. Ouvi o mdico a dizer  enfermeira.
- O que  que ele disse? - intimei eu, furiosa com o mdico por fazer esses comentrios na presena dele.
- Ele disse que eu era delicado como uma flor e, da mesma maneira que uma flor se parte sob a aco de vento forte, eu tambm me partiria se alguma vez ficasse gravemente
doente.
Fitei-o por uns instantes. De um modo estranho, a sua doena tinha-o amadurecido e envelhecido. Nesse momento, o Troy parecia um velho com corpo de menino, os seus
olhos denotavam muita sabedoria e experincia de vida. Era como se, para ele, os meses fossem dias, e os dias, horas. Talvez a sabedoria dele lhe abrisse uma janela
para o futuro e ele previsse realmente a sua prpria morte prematura. Este pensamento fez-me estremecer.
- Troy, ele s queria dizer que, se no melhorares, vais ficar adoentado. Mas tu vais melhorar. s apenas um menino. Tens imenso tempo para cresceres cada vez mais
forte. Alm disso, se morresses, quem ia ser o meu irmo adoptivo pequenino?
Os seus olhos iluminaram-se.
- Vais querer sempre que eu seja o teu irmo adoptivo pequenino?
- Claro.
- E nunca me deixars aqui sozinho? - perguntou ele, com o mesmo cepticismo do Tony.
- Para onde  que eu ia? A minha casa agora  aqui, tal como  a tua.
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O sorriso apagou a sombra de melancolia que se tinha fixado no seu rosto. Agarrei-lhe o brao, devagar, e puxei-o para mim para o abraar rapidamente. As lgrimas
que se tinham reunido no canto dos meus olhos comearam a descer pelas faces abaixo. Quando recuou e se apercebeu das lgrimas nos meus olhos, fez um ar de surpresa.
- Porque choras, Leigh?
- S estou... feliz por tu seres o meu irmozinho para sempre, Troy - disse eu. A sua expresso resplandeceu e todo ele respirava felicidade. Parecia ter ficado
mais forte, mais saudvel, ali mesmo,  minha frente.
No fundo, o que ele precisava, pensei, era de algum que o amasse e lhe desse ternura, algum que o fizesse sentir querido. O Tony amava-o muito, tinha a certeza,
mas estava to envolvido no seu trabalho que no podia ser o pai que o Troy precisava; e a minha me... estava to envolvida em si prpria e to afastada das doenas
do Troy que nem sequer o via. Parecia que, quando olhava para ele, olhava atravs dele; e o Troy, sensvel como era, sentia-se certamente invisvel e s com tudo
o que se passava. Apercebi-me de que ele apenas me tinha a mim.
Em algumas coisas, sentia-me igual a ele. Ultimamente, era cada vez mais frequente a minha me olhar atravs de mim. S pensava nas suas prprias actividades e preocupaes.
E o meu pai andava preocupado com o seu novo amor. O Troy e eu ramos dois rfos, jogados juntos para dentro daquela manso, rodeados de coisas que as outras crianas
e adolescentes sonhavam possuir. Mas as coisas materiais sem amor e sem algum que nos estime e ao mesmo tempo estime essas coisas tornam-se meros objectos.
- Mais logo vens  minha suite ler para mim, Leigh? perguntou ele.
- Depois de jantar. Prometo.
- Est bem. Tenho de ir ver o Tony - disse ele. - No te esqueas - acrescentou e saiu a correr da minha suite, com as perninhas cambaleantes.
Tirei a roupa e vesti-me para o jantar. O Tony j se encontrava na sala de jantar quando eu desci.
- Como te sentes, um pouco cansada? - perguntou ele.
- Sim, apesar de no perceber como  que fazer de modelo me pode cansar. Fiquei ali simplesmente de p - observei eu.
- No subestimes o que ests a fazer.  trabalho. Tambm te ests a concentrar e no te esqueas de que hoje estavas
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nervosa. Isso pode ser esgotante. Amanh estars menos nervosa e,  medida que os dias passarem, vai-se tornar cada vez mais fcil.
- Quanto tempo  que vai demorar? - perguntei, uma vez que ele tinha dito " medida que os dias passarem".
Algum tempo. vou demorar bastante tempo a fazer este quadro. Quero captar os teus tons de pele na perfeio e a tonalidade dos teus olhos e do teu cabelo. E depois
h que fazer a escultura. No podemos apressar o processo - respondeu ele, com um sorriso.
Eu fiquei sem palavras. Aquilo soava como se fosse passar o Vero inteiro comigo nua ali,  frente dele, na pequena casa de pedra. Teria de continuar a tocar-me?
Seria eu capaz de me habituar a isso? Ento, e o outro trabalho dele... o negcio dele?
- Mas o Tony no tem outras coisas para fazer?
- Eu tenho pessoal muito competente e, como j te disse, este  um dos projectos mais importantes que a Fbrica de Brinquedos Tatterton alguma vez j empreendeu.
- Acariciou a minha mo. - No te preocupes, vais ter tempo livre para fazeres o que quiseres.
Eu assenti silenciosamente. Como  que eu podia explicar-lhe o que me perturbava realmente? A quem poderia eu confiar essas minhas dvidas? Onde estava a minha me
quando eu mais precisava dela? Onde estava o meu pai?
Depois de jantar, subi ao quarto do Troy para lhe ler, mas a enfermeira veio-me receber  porta do quarto e disse-me que ele j estava a dormir.
- O medicamento que ele toma cansa-o muito cedo explicou ela. - Ele fez um esforo enorme para ficar acordado  sua espera, mas os seus olhos fecharam-se.
- vou s dar uma olhadela - disse eu e fui  porta do quarto dele.
Parecia sempre minsculo e frgil na sua cama enorme, conclu eu, mas achei que, pelo menos esta noite, tinha adormecido com uma cor mais saudvel nas faces. Decidi
que ia tentar passar mais tempo com ele e ajud-lo a recuperar. Isso far-me-ia esquecer os meus prprios problemas.
Na minha suite, estive a ler e a ouvir rdio e depois tentei dormir. Quando desliguei as luzes e fechei os olhos, s conseguia pensar nas mos do Tony no meu corpo
nu, nos dedos dele a percorrerem os meus seios, nos seus olhos bem fechados,
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mas a movimentarem-se nervosamente sob as plpebras, parecendo dois animais minsculos  procura de uma sada! Como iria ser no dia seguinte?
Quando acordei de manh, vesti-me e fui rapidamente  suite da mam; ela tinha a porta do quarto bem fechada. Bati  porta com cuidado.
- Mam, tenho de falar consigo agora - sussurrei atravs da porta. Esperei, mas no ouvi resposta. - Mam? Levantei o tom da voz e esperei. Ainda no foi dessa vez
que obtive resposta. Frustrada, mas determinada a falar com ela sobre a minha experincia do dia anterior, abri a porta e deparei-me com uma cama vazia. Chocada
e apanhada de surpresa, sa a correr do quarto dela e desci at  sala de jantar, onde encontrei o Tony a ler o Wall Street Journal e a tomar o seu caf.
- Onde est a minha me? - perguntei. - Parece que no dormiu em casa a noite passada.
- E no dormiu - disse ele, casualmente, e voltou a pgina.
- Ento, onde esteve? - interroguei eu. Baixou o jornal, com um ar aborrecido. No estava aborrecido comigo; estava aborrecido com ela.
- Telefonou por volta das onze para me dizer que ela e as amigas tinham decidido passar a noite em Boston. Tive de mandar o Miles ao hotel dela para lhe levar roupa
para hoje.
- Mas... quando  que ela volta para casa? Ele encolheu os ombros.
- Isso tambm eu gostava de saber. Talvez at tu saibas mais do que eu. - Os olhos dele lanaram-me um olhar penetrante. Depois, acenou para o Curtis, que estivera
de p, a um canto, como uma esttua, e pediu-lhe que nos trouxesse o pequeno-almoo.
No sabia que fazer. No queria voltar para a casa de pedra sem falar primeiro com a minha me sobre esse assunto, mas ela no estava ali e o Tony estava ansioso
por comear.
- Porque  que esta manh no vestes uma das tuas camisas compridas e largas de algodo? - sugeriu ele. - Vai ser mais fcil se no tiveres mais nada por baixo -
acrescentou. - Hoje est muito calor.
"Mais nada? No vestir cuecas, nem soutien, s a minha camisa de algodo?"
- S para ser mais prtico - acrescentou ele. Eu concordei. Depois do pequeno-almoo, subi  minha suite e fiz o que ele sugerira. Ao contrrio do que o Tony me
tinha assegurado, essa manh no me sentia menos nervosa, apesar de
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ser a segunda sesso. Ele estava to animado como no dia anterior, quando atravessmos o labirinto a caminho da pequena casa, talvez at mais animado. Preparou as
coisas rapidamente, e, desta vez, no avanou a pouco e pouco.
- Hoje vamos pintar - anunciou. - Ests pronta?
Olhei para as janelas. As persianas estavam todas corridas, mas ele tinha-as aberto uns centmetros para que corresse uma brisa. Voltei a olhar para ele, que tinha
uma expresso de expectativa. Senti-me tentada a fugir. Os meus lbios comearam a tremer.
- O que foi? - perguntou ele, apercebendo-se da minha ansiedade.
- Sinto-me...
- Coitadinha. Estou para aqui a despachar isto sem ter os teus sentimentos em considerao. Desculpa, Leigh disse ele e abraou-me. - Eu sei que isto no  fcil
para ti por ser uma experincia totalmente nova, mas ontem trabalhmos to bem juntos que eu pensei que j tinhas ultrapassado atua timidez inicial. Agora, respira
fundo - prosseguiu ele - e pensa nas coisas maravilhosas que estamos a fazer juntos, est bem?
Eu fechei os olhos e respirei fundo, mas o meu corao batia com tanta fora que me senti quase a desmaiar. Ele sentiu-me a tremer.
- Pronto - disse ele. - Sabes que mais? No tens de ficar de p. Posso comear contigo deitada no sof.
- No sof?
- Sim. Eu ajudo-te. Mantm os olhos fechados. V l incentivou ele. Eu fechei os olhos. - Descontrai-te. Isso mesmo. Calma - disse e eu senti os seus dedos agarrarem
a minha camisa de algodo abaixo da cintura. Elevou-a devagar, com delicadeza. - Levanta os braos, por favor - sussurrou.
Eu levantei os braos e a camisa subiu suavemente  altura da minha cabea, com tanta suavidade como se tivesse sido despida por uma brisa dcil. Mantive os olhos
fechados, mesmo depois de o Tony passar a camisa pelas minhas mos erguidas. Ps a camisa de lado, levou as suas mos aos meus ombros e guiou-me com delicadeza at
ao sof.
- Deita-te a. Pe-te confortvel - disse ele.
Pousei a minha cabea na almofada que ele tinha colocado sobre o brao do sof e abri os olhos. O Tony estava de p  minha frente, a olhar para baixo e a sorrir.
- ptimo. Vai ser fcil.
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Voltou para o seu cavalete e comeou a pintar. O tempo parecia passar mais devagar do que no dia anterior. S fizemos um intervalo  hora do almoo. Quando me informou
que amos almoar, estendeu-me o mesmo lenol. Apertei-o e enrolei-o  minha volta. Comemos outra vez sanduches e bebemos vinho. O Tony contou-me algumas das ideias
de marketing que estava a desenvolver para as bonecas-retratos. Quanto mais ele falava, mais eu me acalmava. Surpreendeu-me, porm, quando voltmos ao trabalho.
- No tens de ficar de p. Agora preciso de te ver por trs - disse-me.
- O que  que tenho de fazer?
- Deita-te de barriga - pediu ele. - Eu hesitei. - V l. Eu tiro-te o lenol de cima quando estiver pronto para comear.
Fiz o que me pediu. Ele preparou outra tela e depois veio at ao sof. Primeiro, afagou-me o cabelo.
- Ests bem? - perguntou.
- Sim.
- ptimo. Ento vamos recomear - exclamou e meteu as mos por baixo do meu queixo para desapertar o n do lenol. Tirou-o de cima de mim e ficou a olhar para baixo.
- Perfeito - murmurou, quase inaudivelmente.
Voltou para o seu cavalete e prosseguiu. Parecia que j ali estava deitada h horas, quando ele gemeu como gemera no dia anterior.
- No est bem - declarou ele. - No  nada disto. Eu olhei para ele. Estava a olhar fixamente para mim, a coar o queixo com os dedos. Ento, aproximou-se. - Descontrai-te.
- Pousou a palma da sua mo nas minhas costas. Levou a mo at ao pescoo, desceu-a de novo e no parou onde tinha comeado, antes prosseguiu at s ndegas. Deteve-se
ali, comprimindo os dedos suavemente contra a minha pele. Depois, levantou-se, lanou um suspiro e voltou para a tela.
Trabalhou com renovado furor. Tocar-me era mesmo uma fonte de inspirao para ele. Desta vez, quando parou, parecia realmente exausto. Mal conseguia falar.
- Por hoje, acabmos - afirmou ele.
Vesti a minha camisa de algodo e fui ter com ele ao p do cavalete. Mais uma vez achei que ele me tinha captado bem, mas o corpo que eu via desenhado e pintado
era mais da minha me do que meu. Ele percebeu que eu ficara surpreendida.
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-  como eu te vejo - explicou ele. -  como te sinto nas pontas dos meus dedos. - A expresso dos seus olhos agitou-me o corao. Deu-me um beijo na testa e disse:
Tu s maravilhosa. Podias fazer de qualquer pessoa um artista.
Fiquei sem fala. As palavras dele embaraavam-me e lisonjeavam-me ao mesmo tempo, mas quando ele me fitava com tanta intensidade eu estremecia. Por fim, arrumou
as suas coisas e deixmos a pequena casa. Segui-o atravs do labirinto, atravs das longas sombras e corredores. O meu corpo estava num tumulto, fora apanhado numa
tempestade de sentimentos. Quando finalmente samos do labirinto, senti como se tivesse deixado um mundo de sonho e reentrado na realidade.
Fui a correr para dentro de casa e para a minha suite; nem sequer parei para ver se a minha me j tinha voltado de Boston. Tive de fechar rapidamente a porta e
respirar fundo. O meu corpo ainda tremia com a recordao dos dedos do Tony a percorrerem-me, transformando-me na mulher que ele queria que eu fosse.

14 O REGRESSO DO PAP

Ouvi a minha me a subir as escadas a caminho da sua suite. Falava para uma das suas empregadas e ria-se, bastante excitada. Corri para a porta no momento em que
ela estava a passar.
- Mam - chamei eu. Ela virou-se no mesmo instante.
- Oh, Leigh. Estive mesmo agora l em baixo a falar com o Tony sobre ti. Ele disse que estava tudo a correr muito bem. Estou to contente. D-me um minuto para tomar
duche e mudar de roupa e depois vem  minha suite para eu te poder contar a pea maravilhosa a que assisti em Boston e o fabuloso hotel em que eu e as minhas amigas
ficmos instaladas. Era luxo atrs de luxo - disse ela e continuou a andar em direco  sua suite.
- Mam - gritei eu, detendo-a. - Quero falar consigo agora.
- Agora? - Abanou a cabea para mim. - Sinceramente, Leigh, tens de me dar algum tempo para mim, para poder ficar outra vez apresentvel. Tu sabes como detesto viajar.
- Mas, mam...
- Eu mando avisar quando estiver pronta. No demoro
- prometeu ela e avanou sem me dar hiptese de continuar a protestar.
Passaram cerca de duas horas at ela finalmente me mandar chamar. Tinha primeiro tomado duche, tinha-se vestido, penteado e maquilhado, porque dois colegas de negcios
do Tony iam jantar l em casa com as suas mulheres.
- Ento, o que  que  assim to urgente? - perguntou-me, quando entrei no quarto dela. Estava na mesa do toucador a retocar o cabelo e olhava para mim atravs do
espelho.
-  sobre eu estar a posar para a boneca-retrato - disse eu. Ela parecia no estar a ouvir. Esperei at acabar de brincar
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com uns fios de cabelo soltos. Por fim, voltou-se para mim.
- O qu?
- Eu no posso continuar, mam - disse e desatei a chorar. Ela deu um salto e foi a correr fechar a porta.
- O que  isso? No me vais fazer isso agora! No vais fazer uma cena! Queres que os empregados te ouam? E os nossos convidados devem estar a chegar a qualquer
momento para o jantar. O que foi? - exclamou ela, muito agitada.
- Oh, mam, j foi bastante difcil estar ali de p, enquanto o Tony me desenhava, mas quando ele comeou a tocar-me...
- A tocar-te? De que  que ests a falar, Leigh? Pra de choramingar como uma criana e fala decentemente.
Eu limpei logo os olhos e sentei-me em cima da cama, de frente para ela. Depois, expliquei-lhe sucintamente o que o Tony fizera e porqu. Ela ouviu com ateno,
a sua expresso praticamente no se alterou. A nica coisa que fez foi estreitar um pouco os olhos e contorcer suavemente a boca.
-  s isso? - perguntou, quando terminei. Voltou-se para o toucador.
- S isso? E no  suficiente? - gritei eu.
- Mas ele no te fez nada, pois no? Tu prpria disseste que ele tentava pr-te sempre  vontade. Parece-me uma atitude muito atenciosa - observou ela e tornou a
virar-se para o espelho.
- Mas, mam,  preciso tocar-me para me pintar e criar o modelo?
-  compreensvel - disse ela. - Uma vez li um artigo sobre um cego que esculpia coisas lindas usando apenas o tacto.
- Mas o Tony no  cego! - protestei eu.
- Mesmo assim, ele s est a tentar realar os sentidos dele - disse ela, a pr bton nos lbios. - O que ests a fazer  maravilhoso... para ambos. Ele parece to
embrenhado, to contente. Para te dizer a verdade, Leigh - disse ela, voltando-se para mim -, antes de o Tony se envolver neste projecto, pensei que ia dar comigo
em doida. Vinha  minha porta dia e noite, exigindo a minha ateno. Nunca me tinha apercebido de como era possessivo e de como precisava de estar ocupado. Um homem
como o Tony pode cansar uma mulher at  morte! - afirmou. Depois sorriu. - Pensa apenas na boneca e no que isso significa. Vai pr toda a gente a falar sobre as
bonecas e sobre ti.
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- Mam, tenho andado a pensar na boneca e nos quadros que o Tony pintou.
- E ento?
- No esto... no esto bem.
- No posso acreditar nisso, Leigh. Eu sei que o Tony  um excelente artista. Eu j vi algumas coisas feitas por ele.
- Eu no estou a dizer que ele no  bom artista, mam. A minha cara est muito bem desenhada e pareo mesmo eu, mas...
- Mas? Mas o qu? No ests a fazer sentido e temos de acabar de nos arranjar para o jantar - interrompeu ela, furiosa.
- O resto do corpo no parece o meu corpo. Parece o seu! - gritei eu. Ela fitou-me por uns momentos. Um arrepio de alvio percorreu-me. Por fim, percebera porque
 que eu estava to transtornada. Mas, de repente, sorriu.
- Mas isso  maravilhoso - afirmou ela. - Absolutamente maravilhoso.
- O qu?
- Que inteligente! Ele est a combinar-nos s duas nessa maravilhosa nova obra de arte. Bem, acho que j era de esperar... O homem est completamente obcecado por
mim. Pensa em mim noite e dia - disse ela, a brincar com o cabelo. Em seguida, virou-se outra vez para mim. - No o podes culpar por isso, Leigh. Ele no consegue
controlar-se. Sorriu e acrescentou: - Agora podes perceber a razo por que s vezes fujo, a razo por que eu preciso de me aliviar, porque ele tem de andar distrado
de uma maneira ou de outra.  to difcil para uma mulher quando um homem literalmente venera o cho que ela pisa. - Soltou um suspiro. s vezes gostava que ele
fosse mais parecido com o teu pai.
Olhou para o seu relgio de diamantes.
- No vais jantar vestida assim, pois no? Veste qualquer coisa mais formal hoje  noite. Estas pessoas so muito ricas e muito importantes. Quero que causes boa
impresso.
- E olhou de novo para a sua imagem no espelho.
- Ento acha que est tudo bem? - perguntei-lhe.
- Tudo? Oh, sim, claro. No tenhas uma atitude infantil em relao a isto, Leigh. No vai demorar assim tanto tempo at o Tony terminar e, se Deus quiser, continuar
a fazer outras coisas que lhe consumam a mesma energia. - Calou-se, olhou para mim e depois levantou-se para ir ao seu guarda-jias escolher os anis.
Eu levantei-me devagar e comecei a sair do quarto.
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Quando olhei para trs, vi-a abanar a cabea, descontente com a primeira escolha que tinha feito. A nossa conversa j passara  histria.
Afinal, talvez a minha me at tivesse comentado a nossa conversa com o Tony pois, quando regressmos  pequena casa de pedra no dia seguinte, ele absteve-se de
me tocar. Na verdade, cada dia que passava, ficava mais absorvido pelo seu trabalho e s vezes at me dava impresso de no estar a olhar para mim; estava a ver
uma imagem na sua cabea e apenas olhava na minha direco. Falvamos pouco at  hora do almoo e, mesmo nessa altura, parecia distrado, levantando-se frequentemente
para verificar qualquer coisa na tela, voltando em seguida para a mesa.
Passou quase meio dia a trabalhar nos meus ps e nas minhas mos, estudando e medindo, falando muitas vezes consigo prprio enquanto contemplava os seus desenhos.
Uma tarde, aborreci-me tanto que at adormeci durante alguns minutos. Se ele notou, nada disse. No fim da primeira semana, tinha-me desenhado e pintado de todos
os ngulos.
Todas as noites, ao jantar, este trabalho era o tpico principal da conversa, mesmo quando tnhamos convidados; apesar de eu ter notado que o Tony e a minha me
omitiam o facto de eu posar nua.
No voltei a queixar-me  minha me de nada que estivesse relacionado com isto, mas desejava ardentemente que tudo acabasse depressa. Ento, no incio da segunda
semana, o Tony informou que ia comear a escultura definitiva e criar o modelo para a boneca. Uma vez que os quadros estavam prontos, fiquei intrigada, a pensar
para que  que ele precisava de mim.
- Agora vamos passar para o trabalho a trs dimenses
- explicou ele. - preciso de ti mais do que nunca.
Ps os quadros todos numa fila de cavaletes para se referenciar e comeou aquilo que prometeu ser a ltima fase do processo.
No percebera o que o Tony quisera dizer at iniciar o seu trabalho. E foi ento que tudo comeou de novo. Aqueles tempos em que ele tocava no meu corpo para reforar
as capacidades de desenhar e de pintar, no eram nada comparado com o que ele fazia agora. Parecia que parava a cada cinco ou dez minutos depois de comear a trabalhar
no barro, para poder vir ter comigo e sentir-me ou, como ele dizia, "experienciar-me artisticamente".
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Segurava na minha cabea com ambas as mos e ficava ali, de p, com os olhos fechados, a cabea inclinada para trs, e depois ia a correr para a mesa dele modelar
o barro. Percorria as linhas do meu rosto, detinha-se nas minhas orelhas e comprimia delicadamente os seus dedos contra os meus olhos fechados. Sempre que olhava
para a sua cara quando me fazia isto, notava uma intensidade e um poder de concentrao que, por um lado me fascinava, mas que tambm me assustava, pois as suas
faces ficavam coradas e os olhos enlouquecedoramente grandes.
A figura da boneca comeou a emergir do monte de barro sobre a mesa, tal como ele tinha descrito Vnus a emergir do mar. Assisti  figura a ganhar forma e previa
cada um dos seus contactos fsicos. Depois de terminar os meus ombros, voltou a passar com a mo pela minha clavcula, os seus dedos percorrendo suavemente o meu
corpo. Confirmou cada centmetro do meu torso, antes de comear a deline-lo no molde.
Quando chegou aos meus seios, eu fiquei rgida. Ele deteve-se  minha frente, ainda com os olhos fechados.
- Calma - sussurrou ele. - Est a funcionar. Os meus dedos esto a transportar-te daqui para a escultura e esto a moldar-te, como eu estava  espera que fizessem.
- Fazia uma concha com a mo por cima dos meus seios e moldava-os, detendo os seus dedos sobre mim por tempo que eu achava interminvel. No consegui evitar e estremeci
outra vez, mas, se ele sentiu o meu tremor, no deu sinal. Por fim, levantou as mos de cima de mim e voltou para a sua escultura. Depois foi descendo e descendo,
usando sempre o mesmo processo. Todas as vezes que voltava para o meu corpo, eu sentia-me como se eu prpria estivesse a submergir numa piscina de barro suave e
quente, em vez de estar a emergir do barro.
Quase no fim da nossa sesso, j ele estava de joelhos, a percorrer o meu baixo ventre, passando com as palmas das suas mos pelas minhas ancas, para a frente e
para trs, tocando-me como se eu fosse feita de barro e ele me estivesse a dar uma forma nova. Queria protestar, pr em causa, acabar com aquilo, mas receava que,
se fizesse alguma coisa, isso pudesse prolongar o processo. Por isso, fechei os olhos e suportei tudo.
Finalmente, mandou-me vestir.
- Quero apenas dar uns retoques e acabamos isto - disse ele.
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Depois de me vestir, fui ver a escultura. Tal como nos desenhos, tinha fortes semelhanas com a minha cara, mas o corpo da boneca era mais parecido com o corpo da
minha me.
- Agora no vou precisar de ti durante alguns dias - informou, desviando os olhos de mim. - vou fazer o trabalho de preciso a partir dos desenhos e dos quadros
e depois vais voltar para uma sesso final para confirmar tudo, est bem?
Os olhos dele viraram-se para a minha cara, afastando-se
depois to rapidamente como se tinham virado.
Eu assenti silenciosamente. Esse dia deixara-me fatigada, tensa e exausta. Sentia-me confusa, dividida entre a nsia por qualquer coisa que no conseguia descrever
e o desejo de me afastar daquela casa e de nunca mais l voltar.
O Tony tinha razo quando disse que eu me iria habituar a andar pelo labirinto. Agora corria pelos seus corredores verdes e pelas suas curvas, irrompendo do outro
lado do labirinto, sentindo-me como se tivesse acabado de fugir de um louco. Corri para a manso. No caminho para a escadaria, deparei-me com a mam, que estava
a sair da sala de msica ao lado de uma das suas amigas.
- Leigh, como correram as coisas hoje?
Olhei para ela e abanei a cabea, incapaz de falar, receando que, se comeasse, rebentasse em lgrimas e a envergonhasse. Ela reparou na minha expresso e seguiu
a pergunta com o seu riso agudo e cristalino. O riso perseguiu-me pelas escadas acima at ao meu quarto, onde despi rapidamente as minhas roupas e pus a correr um
banho quente. S comecei a acalmar e a sentir-me limpa quando j estava encharcada dentro dele h pelo menos quinze minutos. Estava quase a adormecer dentro de gua,
quando ouvi a minha me a entrar. Veio at  porta da minha casa de banho.
- O que  que te aconteceu, para te comportares daquela maneira  frente de Mistress Wainscoat - disse ela, encolerizada, a andar freneticamente para a frente e
para trs  minha frente, erguendo as suas mos. - Tu no imaginas como aquela mulher  mexeriqueira.
Pela primeira vez ignorei a histeria dela.
- Oh, mam, hoje foi pior do que nunca. O Tony... passou com as mos pelo meu corpo todo, por todo o meu corpo! - gritei eu. Ela abanou a cabea e percebi que no
estava a ouvir, o QUE  QUE eu tinha de fazer para ela me ouvir, para ela ouvir os meus pedidos de ajuda? - Ele partia do meu corpo para confirmar todas as formas
que moldava no
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barro... Agarrava-me, tocava em mim...s vezes at durante alguns minutos!
A mam parecia espumar de raiva contra mim.
- Ele apenas me disse que est quase a acabar e que vai precisar de ti s mais uma vez - disse ela. -  verdade?
- , mas...
- Ento pra de chorar como um beb. Fizeste o que tinhas a fazer e tenho a certeza de que vai ficar maravilhoso.
- Depois, calmamente, prosseguiu: - De qualquer modo, eu no vim c acima por causa disso. Hoje recebeste um telefonema e tens um encontro marcado para amanh. O
teu pai regressou. Quer almoar contigo em Boston.
- O pap voltou? - Oh, graas a Deus, pensei eu. Graas a Deus. Agora tinha algum para me ouvir e para me ajudar. O pap estava em casa.
Estava to excitada na manh seguinte que at escolhi a roupa com mais cuidado do que era normal e a seguir estive a mirar a minha figura ao espelho por uns momentos,
o que me fez sentir complexos de culpa. Olhei para o espelho, surpreendida por me ver to parecida com a minha me. Seria essa a causa do comportamento do Tony?
- Teria tudo acontecido por culpa minha? Por instantes, senti vergonha de pensar assim; depois, decidi que, independentemente da verdadeira causa, a culpa no era
minha. O Tony era um adulto... e era o meu padrasto!
Penteei o cabelo, escovando-o at brilhar, e apanhei-o com uma fita cor-de-rosa, como o pap gostava. Pus um pouco de bton e escolhi uma saia e uma blusa azul-claras,
ambas de um tecido bonito e leve. Nas orelhas, pus as prolas que o pap me tinha trazido das Carabas.
Quando me contemplei no espelho, estava na expectativa se ele me iria achar mais crescida ou no. Era importante, pois queria contar-lhe tudo o que tinha acontecido
e, principalmente, que estivera a posar para a boneca-retrato. Tinha esperanas secretas que me pedisse para ir com ele desta vez, que talvez contratasse um professor
particular e me levasse com ele numa das suas viagens. Se ao menos pudesse mostrar-lhe que j estava suficientemente crescida para ser mais independente. Ele perceberia
a necessidade que eu tinha de me afastar da mam e do Tony. S tinha pena era de ficar longe do pequeno Troy, mas tinha de me afastar dali. Tinha mesmo.
Quando samos de Farthy e passmos por baixo do grandioso
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arco, o meu corao j palpitava. Como estaria o pap? Ainda teria barba? Estava desejosa de sentir a sua loo da barba e cheirar o aroma do seu cachimbo, desejosa
que ele me abraasse e me estreitasse contra o seu casaco de tweed enquanto choviam beijos no meu cabelo e na minha testa. Queria e precisava tanto de o ver que
nem uma vez me passou pela cabea a verdade sobre o nosso parentesco. Nada me parecia mais longe do meu pensamento do que o facto de saber que ele no era o meu
pai verdadeiro.
Quando chegmos ao hotel, pedi ao recepcionista para avisar o pap da minha chegada. Tencionava correr para os braos do pap e abraar-me a ele com toda a fora
no momento em que ele descesse. Fiquei  espera, a observar o indicador que mostrava em que piso estava o elevador nesse momento. Vi um dos indicadores a descer...
cinco, quatro, trs, dois... as portas abriram-se e o pap saiu do elevador. Porm, no corri para ele como tinha planeado.
Estava de mo dada com uma mulher. Era uma mulher magra com cabelo grisalho cortado mesmo abaixo das orelhas e era muito alta, to alta como o meu pai. Vestia um
fato de l azul-escuro e sapatos de saltos grossos. O pap sorriu para mim, mas no largou a mo da mulher. Ela tambm sorria e comearam ambos a andar na minha
direco. Eu esperei, com o corao a bater. Esta tinha de ser a mulher sobre a qual ele me escrevera nas suas cartas, a mulher que ele dizia que o fazia feliz,
a Mildred Pierce.
- Leigh - disse o pap, estendendo finalmente os braos para mim. Abracei-o mas no o estreitei com fora. Em vez disso, recuei bruscamente e olhei com mais ateno
para a Mildred Pierce. Ao contrrio da mam, tinha uma pele plida, um rosto duro e ossudo e olhos muito escuros. Os seus lbios finos parecia que podiam estalar
como elsticos quando sorria e os esticava. O pap manteve as suas mos nos meus ombros.
- Pareces mais velha e mais bonita do que nunca - elogiou ele.
- Obrigada, pap - respondi eu. Eram as palavras que eu desejara, esperara ouvir, mas nesse momento quase que no tinham importncia. Ainda fitava a mulher que estava
ao lado dele.
- Leigh, esta  a Mildred - apresentou o pap.
- Ol, Leigh. Ouvi falar tanto de ti. Estava ansiosa por te conhecer - disse ela e estendeu-me a mo. Tinha dedos longos e finos e as suas mos eram de longe menos
macias e femininas do que as mos da minha me.
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- Ol - disse eu. Dei-lhe um aperto de mo rpido.
- Ests com fome? - perguntou o meu pai. - Fiz reservas para ns aqui, no hotel. Achei que era mais cmodo. Na verdade - prosseguiu, tornando a agarrar a mo da
Mildred -, foi a Mildred que teve a ideia.  uma magnfica organizadora, o tipo de pessoa a que chamamos uma pessoa de pormenores.
- Oh, Cleave. Eu s fao aquilo que me parece mais eficiente.
- Ela  mesmo assim, tem a mania de depreciar o seu trabalho. A Mildred  contabilista, Leigh, por isso sabe de eficincia.
- No falemos sobre mim - disse a Mildred pegando na minha mo e conduzindo-nos para o restaurante do hotel. Vamos falar sobre ti. Quero saber tudo sobre ti. Eu
tambm tenho dois filhos, sabes.
- Tem?
- Sim. Esto ambos na casa dos vinte e so ambos casados e com filhos, por isso j no tenho ningum para mimar.
- Eu tambm no sou nenhum beb - respondi eu, bruscamente.
- Claro que no s, querida - retorquiu a Mildred. Piscou o olho ao meu pai. - Qualquer um pode ver que s uma rapariga.
Entrmos no restaurante e o empregado conduziu-nos  nossa mesa reservada. O pap puxou a cadeira da Mildred, e o empregado, a minha. Agora que estvamos sentados,
olhei para ele mais de perto. A sua aparncia era praticamente igual, apesar de ter um ar muito mais feliz do que da ltima vez que o vira. A barba estava aparada,
as faces rosadas. Achei que tinha o cabelo mais curto; vestia o mesmo fato e gravata, ao qual a mam, num acto de desespero, se tinha comeado a referir como a "farda"
dele.
- Ento, conta-me, como era a escola que frequentaste?
- perguntou o pap.
- Mais ou menos - respondi eu.
- S mais ou menos?
-  uma boa escola - confessei eu. - Mas eu gosto mais de estar numa escola oficial, e nenhum dos meus professores  to bom como Mister Abrams - acrescentei eu,
com rapidez.
- Mister Abrams era o professor particular que eu contratava sempre que levvamos a Leigh numa viagem no decorrer do ano lectivo - explicou o pap  Mildred. Ela
fez um sinal de aprovao.
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- Estou ansiosa para fazer outra viagem - disse eu O pap assentiu, com um sorriso nos olhos, mas no se ofereceu para me levar, como eu tinha esperanas que fizesse
no mesmo instante.
- E a tua me, est bem? - perguntou ele.
- Est feliz, presumo. Ocupada com o seu brdege, o teatro e as amigas.
- E Mister Tatterton? O negcio dele deve estar a correr bem.
Era a minha oportunidade de falar sobre a boneca-retrato, pensei, mas no o queria fazer em frente daquela mulher que mal conhecia. Decidi que ia esperar at o pap
e eu ficarmos a ss.
- Acho que sim. Tive saudades suas, pap - disse eu, de repente. S queria falar dele e de mim. Mais uma vez, ele assentiu silenciosamente, sem dizer nenhuma das
coisas que eu esperara ouvir. Queria que ele me dissesse que tivera muitas saudades minhas e que me desejara muito junto dele. Queria que ele me explicasse como
podamos estar mais vezes juntos e queria que me propusesse fazermos uma viagem, um plano para passarmos mais tempo juntos; mas, em vez disso, ele olhou para a ementa.
- Vamos pedir. Estou a morrer de fome.
Eu no estava preocupada em comer. No me importava se nunca chegssemos a pedir.
- Ontem comemos o grelhado londrino - disse a Mildred. - Se gostas de grelhados, o daqui  muito bom.
- Estiveram aqui ontem? - perguntei eu bruscamente, com o estmago s voltas de surpresa e desapontamento. Oh... - Ela olhou para o pap.
- Sim, Leigh. Voltmos h pouco mais de uma semana, mas eu no quis telefonar-te at ter tempo para estar contigo. Temos tido tanta coisa para fazer.
Eu estava estupefacta, sem saber que dizer. Como  que podiam estar c h tanto tempo e no me telefonar? E aquelas palavras que ele me tinha escrito nas suas cartas,
pelo menos nas ltimas, dizendo que estava cheio de saudades minhas? Onde estavam as promessas e as declaraes de amor? Eu nem sequer tentei esconder a minha expresso
de mgoa. Eles voltaram a olhar um para o outro.
- Eu estava, como se diz, um bocado atafulhado de trabalho - prosseguiu o pap. - Planeei outro novo cruzeiro maravilhoso. Para dizer a verdade - acrescentou ele,
voltando-se para a Mildred e pegando-lhe na mo -, a ideia foi da
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Mildred, uma ideia espectacular. - Voltou a virar-se para mim. - Vamos fazer cruzeiros ao Alasca. Ao Alasca! Eu sei que vais pensar que as pessoas no vo querer
ir ao Alasca por estar um frio de morte, mas os Veres do Alasca so provavelmente os Veres mais bonitos do mundo. A Mildred esteve l no Vero! - exclamou ele.
- Ela pode confirmar-te.
- Estou-me nas tintas para o Alasca - disse eu, rspidamente. As lgrimas estavam a vir-me aos olhos, mas eu no as deixei sair.
- Ento, Leigh, isso no  muito simptico.
- No faz mal, Cleave. Eu percebo como a Leigh se sente. Devias contar-lhe tudo - disse ela, com uma expresso cerrada e sria.
- Tudo? - Eu olhei para o meu pai. Estava sentado de costas direitas.
- No foram s os negcios que nos mantiveram ocupados desde o nosso regresso da Europa - disse ele. - H dois dias atrs, a Mildred e eu casmo-nos.
Tive vontade de me levantar e de sair a correr do restaurante e do hotel. Queria correr e correr mais, at desmaiar. Sentia-me como se o estmago me tivesse cado
aos ps. O meu corao parecia ter encolhido dentro do peito, e o peito parecia ter-se transformado numa cmara vazia, que ecoava com as fracas batidas do meu corao.
O pap segurava as mos da Mildred junto ao seus lbios e olhava para ela com um ar muito amoroso. Em seguida, voltou-se para mim.
- Pensmos que seria melhor para toda a gente se nos casssemos e pronto, sem cerimnia pblica, sem recepo, nada de extravagante. A Mildred  to prtica quando
se trata destas coisas e, nesse aspecto,  muito parecida comigo disse o meu pai.
Cada palavra que pronunciava parecia afast-lo mais e mais de mim, como uma folha a ser afastada pela aco do vento, a subir no ar e a cair num mar invisvel, arrastada
em direco ao horizonte at quase no se ver, um ponto no cu cinzento.
- Ainda no contmos aos meus filhos - explicou a Mildred. Imaginei que ela achava que aquilo me faria sentir mais importante. Eu tinha sabido do casamento deles
antes dos filhos dela; mas isso no me aquecia nem arrefecia.
- Amanh partimos para Maine - informou o meu pai.
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Maine? Amanh? - As palavras andavam s voltas na minha cabea. Pareciam irreais.
 onde vivem os filhos da Mildred. Vamos fazer-lhes uma surpresa com as notcias.
- Como me fez a mim - disse eu, com amargura. O pap pestanejou.
- Escrevi-te cartas - disse ele ternamente. - J devias fazer ideia.
 verdade, pensei, mas no o admitira. Recusara-me a admitir, porque ainda tinha esperanas de viver uma realidade diferente, um mundo que apenas inclusse o pap
e eu, um mundo em que eu fosse a coisa mais importante da vida dele, um mundo igual ao mundo feliz em que vivera um dia. Mas esse sonho tnue tinha-se esfumado.
Desfizera-se no ar como uma lgrima.
- Eu sei que  difcil para ti, querida - disse a Mildred. Debruou-se sobre a mesa para colocar a sua mo sobre a minha. - Passaste por bastantes modificaes sbitas
na tua vida, mas garanto-te que farei tudo o que estiver ao meu alcance para te facilitar a vida e para que esta se torne mais agradvel para ti. Espero que penses
em mim como uma segunda me, algum a que possas recorrer para te dar conselhos e para te confortar.
Olhei para os olhos dessa estranha, uma mulher to diferente da minha me verdadeira. Parecia to dura e to austera. At o sorriso dela era um movimento eficiente
na sua cara. Confiar nela: na mulher que roubara o meu pai de mim, na mulher que o ia levar para outra famlia? De quem  que ele iria gostar mais agora, dos filhos
dela ou da filha dele? com quem iria passar mais tempo?
- A est uma coisa que a Mildred faz bem - confidenciou o pap, voltando-se outra vez para ela -, dar conselhos. Nestes ltimos meses tem-me dado alguns conselhos
maravilhosos. Para te dizer a verdade, no sei o que teria feito sem ela.
"Mas porque  que no sentiu o mesmo em relao a mim, pap?", perguntei eu a mim prpria. "Porque  que nunca disse que no saberia o que fazer sem mim? Porque
 que me deixou ir embora da sua vida to facilmente?"
- A Mildred planeou tudo com muito cuidado e com muita inteligncia - prosseguiu o pap. - Por isso no ters de te preocupar mais comigo.
"Preocupar-me consigo? E porque  que o pap no est a preocupar-se comigo?", gritei eu em silncio.
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- Depois de visitarmos os filhos da Mildred, vamos fazer uma lua-de-mel no Alasca. Assim, planeamos o cruzeiro e divertimo-nos. No  eficiente? Depois faremos mais
algumas viagens. Partiremos para a Europa, em negcios, e regressaremos a Boston mesmo antes de comear o Inverno. Mas no passaremos o Inverno todo em Boston. Iremos
tambm s Carabas. Na Primavera, faremos frias em Maine com a famlia da Mildred e no prximo Vero...
- Mas, ento, e eu? - gritei, por fim.
- Oh, viremos ver-te sempre que pudermos - respondeu o pap. - A Mildred vai tratar de te incluir nos nossos planos.
"A Mildred vai tratar de me incluir nos planos? Por que razo permitira o meu pai que esta mulher tomasse conta da vida dele por completo?"
-  isso mesmo, querida - disse ela. - Estou a estudar a maneira de te podermos levar connosco numa viagem e de poderes ficar em nossa casa. Amanh levar-te-amos
connosco para Maine, mas...
- Eu no quero ir com vocs para Maine - interrompi eu, bruscamente.
- Ento, Leigh... - O pap levantou as sobrancelhas.
- Estou-me nas tintas.
- Mas no devias - ralhou o pap. - Se queres ser tratada como uma jovem senhora, tens de mostrar alguma cortesia - disse ele, com severidade. Os olhos da Mildred
fixavam-me com frieza. Olhei para baixo, para a ementa. Sentia o meu peito to pesado. Era como se o meu peito se estivesse a encher de lgrimas, as lgrimas que
se haviam reunido atrs dos meus olhos.
- Pronto - disse o meu pai -, o que  que queres comer, Leigh?
- Devias considerar o grelhado londrino - disse a Mildred.
- Eu detesto grelhado londrino! - exclamei eu, rebentando. - E detesto estar aqui e detesto-a a si.
No pude evitar. Saiu-me tudo pela boca fora e, uma vez proferidas as palavras, no podia voltar atrs. Levantei-me da mesa, corri para fora da sala de jantar, atravessei
a entrada do hotel e sa pela porta principal. O Miles estava a dormir no banco da frente da limusina. Acordei-o quando bati no vidro do carro. Ele sentou-se rapidamente,
chocado com as lgrimas que me escorriam pelas faces.
- O que foi? O que aconteceu?
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- Leve-me de volta para Farthy - disse eu, entrando no carro - Quero voltar.
- Mas...
Por favor, leve-me para casa.
Ligou o motor. Olhei pela janela lateral e vi o pap nos degraus da entrada  minha procura. S reparou na limusina quando o Miles fez a manobra para tirar o carro
do lugar onde estava estacionado. Ento, desceu as escadas a correr.
- Leigh! - chamou ele. O Miles comeou a abrandar.
- Continue, Miles - ordenei eu no tom de voz rspido da minha me. Ele obedeceu. O carro patinou e continuou a afastar-se do hotel. Olhei uma vez mais para trs
e vi o meu pai em p, no meio do parque de estacionamento, com as mos nas ancas. Atrs dele vinha a sua preciosa nova mulher. Desviei os olhos e chorei com tanta
fora que me ficaram a doer as costelas. Quando chegmos a Farthy, j me sentia esgotada e exausta.
Subi os degraus a correr, entrei na casa, sem parar um segundo, e trepei apressadamente as escadas para a minha suite. Quando l cheguei, atirei-me para cima da
cama. Pensava que j no me restava uma nica lgrima, mas voltei a chorar, e chorei uma cascata de lgrimas at adormecer. Senti algum a abanar-me e a acordar-me
e deparei-me com o Troy ao meu lado. Vestia o seu fatinho de marinheiro. Sentei-me e limpei as lgrimas dos olhos. Vi-me ao espelho de relance e reparei que as minhas
faces estavam riscadas de lgrimas.
- No te divertiste com o teu pap? - perguntou o Troy.
- Oh, Troy. - Soltei um gemido e abracei-o.
- O que foi, Leigh? - Ele levantou os seus grandes olhos, curiosos e preocupados, para mim. - Porque  que estiveste a chorar?
- O meu pai j no  o que era, Troy. Tem uma nova mulher.
O Troy pestanejou. Quase que conseguia ouvir os pensamentos dele.
- Tens uma nova mam?
- No. Ela no  a minha me! NUNCA, NUNCA, NUNCA! O Troy ficou a olhar fixamente para mim. Ele no tinha me nem pai. No era difcil perceber porque  que a minha
fria o confundia. Tinha a certeza de que ele gostaria de ter hiptese de ganhar uma me e um pai novos e ali estava eu, a desperdiar a minha nova me como se fosse
peixe mido.
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- O meu pap j no gosta de mim tanto como gostava dantes - expliquei eu. - A nova mulher dele tem a sua prpria famlia e ele tambm tem filhos novos.
Os olhos do Troy brilharam, por finalmente ter percebido alguma coisa.
- Queres vir brincar com o meu comboio elctrico? perguntou ele, com esperanas de me animar. Eu sorri e beijei-o. Por muito estranho que parecesse, senti-me de
repente esfomeada. O meu tumulto emocional tinha-me esgotado, mas o meu estmago estava s voltas. Ao pequeno-almoo, estava demasiado nervosa para comer muito e,
claro sara a correr do restaurante antes de sermos servidos.
- Eu vou s l abaixo  cozinha pedir ao Rye que me faa qualquer coisa para o almoo - disse-lhe eu. - Depois, vou brincar contigo.
- Eu vou contigo - ofereceu-se ele. Esperou um pouco enquanto eu lavava a cara e apagava os vestgios das minhas lgrimas e da dor que sentia. Passei com a escova
pelo cabelo e estava a sair no momento em que o telefone tocou. Era o meu pai.
- Leigh, por favor no desligues - disse ele rapidamente, prevendo o meu primeiro impulso. - Podes ouvir-me? perguntou ele, quando no obteve resposta.
- Sim, pap, estou a ouvir.
- Desculpa, desculpa por no te termos ido visitar logo que chegmos e por te ter dado a notcia do meu casamento ao almoo daquela maneira. Fui muito insensvel
e peo desculpa. A Mildred ficou muito transtornada com tudo o que aconteceu. Ela queria tanto que tu ficasses a gostar dela. De verdade. Acreditas nisso, no acreditas?
- perguntou ele.
- Sim, pap - disse eu, secamente.
- A Mildred diz que o que te aconteceu neste ltimo ano  uma considervel carga emocional, adicionada  carga emocional normal que os adolescentes carregam hoje
em dia. Ela  muito perspicaz no que respeita a essas coisas, percebes. Ela tambm tem uma filha e um filho. Espero que os conheas em breve.
Como eu no respondi, ele continuou.
- Eu convidava-te para vires connosco para Maine, mas...
- Eu no posso ir para Maine, pap. Estou a posar para um novo brinquedo da Fbrica Tatterton, uma boneca-retrato - repliquei eu -, e estou muito ocupada.
- Oh?
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Ter-lhe-ia contado se estivssemos sozinhos - disse eu, abruptamente.
- Podias ter falado sobre isso ao almoo. A Mildred
agora  a minha mulher e quer ser uma me para ti.
- Eu tenho uma me.
- Bem, ento, quanto mais no seja, uma boa amiga. com que ento, ests a posar. Parece excitante. Ests a gostar?
Hesitei. Devia dizer tudo pelo telefone, faz-lo sentir horrvel por no se ter encontrado comigo sozinho? Viria a Farthy imediatamente, entrando de rompante pela
casa adentro, exigiria ter uma conversa particular com o Tony e com a minha me, vindo depois a repreend-los e levando-me embora com ele?
Mas eu teria de partir com ele, com a sua nova mulher e os filhos dela, a sua nova famlia. Iria gostar disso?
- Sim, pap - disse eu. - Estou a gostar. Vai tornar-me muito famosa - prossegui, num tom petulante. Ele ficou calado por algum tempo.
- Bem, fico feliz por ti, Leigh. Gostarias de tentar de novo, de vir jantar connosco, talvez?
- No, pap. Hoje  noite no posso. No posso deitar-me tarde, porque amanh bem cedo vou ter uma sesso e toda eu tenho de estar fresca e bem acordada - disse
eu. Pensei que ele fosse perguntar porque teria eu dito "toda eu", mas no o fez.
- Ento talvez quando voltarmos de Maine - disse ele.
- Talvez.
- Leigh, por favor, acredita em mim quando digo que te adoro.
- Eu acredito, pap - repliquei prontamente.
- Sers sempre a minha princesinha, acontea o que acontecer - acrescentou ele naquela voz que me trouxe de volta imensas recordaes. Oh, como desejava que ele
estivesse agora perto de mim, que me abraasse e me beijasse daquela maneira que ele fazia muitas vezes quando voltava para casa de um cruzeiro ou de uma viagem
de negcios. Mas ele era apenas uma voz fraca e longnqua num telefone.
- Adeus, Leigh. Telefonar-te-emos quando voltarmos.
- Adeus, pap. - Baixei o auscultador devagar. O meu corpo comeou a tremer em soluos secos. O Troy veio a correr ter comigo e abraou-me.
- No chores, Leigh. Por favor, no chores.
- No vou chorar, Troy. - Sustive a respirao por um
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momento e depois sorri. - Eu estou bem. Anda - disse eu -, vamos ver se o Rye Whiskey me pode preparar qualquer coisa.
Tornei a pegar-lhe na mo e samos.
Mais tarde, a mam veio  suite do Troy  minha procura, curiosa para saber como tinha corrido o dia com o meu pai. Ficou surpreendida por saber que ele tinha voltado
a casar e quis saber tudo sobre a sua nova mulher. No lhe contei que tinha sado a correr do restaurante, que tinha fugido deles.
-  alta e magra, e o nariz dela  comprido e ossudo disse eu. Ela sorriu quando ouviu isto. - Tem uma pele m, com marcas de varola na testa, e o cabelo parece
que raramente  lavado. No tem brilho e tem muitos fios grisalhos.
- Nunca deixarei que o meu cabelo se torne grisalho observou logo a mam. -  to desnecessrio uma mulher ter de passar por isso.
- No tem curvas - prossegui eu, divertindo-me a deitar abaixo a nova mulher do meu pai -, mas o pap gosta dela porque ela  contabilista e muito eficiente.
-  mesmo o tipo de mulher que o teu pai gosta. Coitadinha, deves ter passado momentos horrveis.
- E tem a sua prpria famlia com filhos crescidos! exclamei eu.
- A srio? Extraordinrio! O que  que aconteceu ao primeiro marido dela? - perguntou. Eu no sabia a resposta.
- No me falaram sobre isso. Ela assentiu, compreensiva.
- Vais v-los proximamente?
- No. Eles foram-se embora para visitar a famlia dela e depois vo fazer uma viagem que combina negcios e lua-de-mel.
A minha me desatou a rir. O Troy, que estivera sentado, sossegado, a brincar com os seus comboios e a ouvir-me, at olhou para cima a sorrir, um pouco confuso.
- No  tpico dele? Vai transformar a sua prpria lua-de-mel numa deduo para os impostos. - Comeou a andar em direco  sada da suite do Troy e virou-se. -
Oh, contaste-lhe que estavas a posar para a boneca-retrato?
Tentou fazer a pergunta casualmente; contudo, pela maneira como o seu corpo se tornara tenso, apercebi-me, de repente, de que a sua curiosidade no era apenas passageira.
- Sim. - Recusei-me a explicar mais. Se tinha tanta vontade de saber o que eu contara ao pap, ento que perguntasse!
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No lhe ia facilitar a vida... Ela tambm no me facilitara a vida a mim.
A mam estudou-me por uns instantes. Seria imaginao minha, ou os olhos dela tinham-se tornado apreensivos? Estudei-os com mais pormenor. Sim, ela estava realmente
apreensiva... e com medo! Observei-a a engolir em seco, mal conseguindo pronunciar as prximas palavras:
- E o que  que ele disse? Eu dirigi-lhe um olhar curioso.
- Ele disse que era maravilhoso. Que mais podia dizer? Um suspiro de alvio passou pelas suas bonitas feies.
Percebeu que eu no tinha contado a verdade ao pap.
- s uma rapariga muito esperta e inteligente para a tua idade, Leigh. Estou orgulhosa de ti. Oh, o Tony e eu vamos jantar fora. Fomos convidados para casa dos Amberson.
Sabes quem  Mister Amberson, no sabes? - No esperou pela minha resposta. -  um milionrio, dono de toneladas de fbricas de papel. Tem montes de dinheiro e tudo
o que quer. Tudo!
Era s com isso que ela se preocupava? Dinheiro? Posses? O seu amor ao luxo e  riqueza ter-se-ia sobreposto ao seu amor por mim? Cada dia que passava, esta questo
vinha-me mais frequentemente  ideia.
- Antes que me esquea - prosseguiu ela, a caminho da sada da suite do Troy -, o Tony pediu-me para te dizer que amanh de manh vai precisar de ti s por um bocado
e que, depois disso, o seu trabalho aqui fica terminado. No  excitante?
Antes de poder responder, j ela se tinha ido embora, em direco  sua suite para tomar banho e vestir-se para o jantar.
Atirei com a porta da suite do Troy, furiosa como estava. Ele olhou-me, assustado. Como eu queria gritar com a mam! Uma vez mais, mandara-me fazer uma coisa, sem
pensar e sem ter em considerao os meus sentimentos.
A cada dia que passava, a teia que a mam me armara tornava-se mais fechada. Como iria acabar tudo?, interrogava-me eu, receosa.
O Tony no apareceu para o pequeno-almoo na manh seguinte. A mam explicou que ele se tinha levantado cedo e que j tinha ido trabalhar para a pequena casa de
pedra. Eu devia ir ter com ele mal acabasse de comer. Comi devagar, enquanto ela descrevia o jantar deles em casa dos Amberson.
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Pouco depois, j tinha parado de a ouvir e a sua voz zumbia monotonamente sobre os meus pensamentos. Estava muito mais nervosa para esta sesso final com o Tony
do que ficara para as outras. Talvez fosse o resultado das coisas terrveis e dramticas que me andavam a acontecer.
Por fim, levantei-me da mesa, subi  minha suite para dar uns retoques no cabelo e segui para a casa de pedra. A manh estava clara e mais quente que o habitual.
A brisa do mar soprava com pouca fora e as nuvens pareciam firmes no cu azulado. At os pssaros, normalmente to activos e barulhentos, estavam tranquilos. Fixavam-me
do alto, com olhos de rubi, expectantes. Ouvia o rudo das mquinas de cortar relva nos extremos longnquos dos jardins e captei o grito de uma andorinha-do-mar,
mas, para alm disso, o mundo parecia uma pintura gigante numa tela gigante.
Tudo isso tornava o sossego e a calma do labirinto ainda mais intensos. As sombras eram mais escuras, mais profundas e mais compridas. Os locais frios ainda estavam
mais frios e o perfume das sebes recm-aparadas era acre. Em vez de sentir que estava a movimentar-me atravs de tneis, sentia como se estivesse a afundar-me cada
vez mais num mundo de mistrio. Olhei para trs e vi o telhado de Farthy, antes de este desaparecer atrs de uma sebe alta. Sem nenhuma razo aparente, entrei em
pnico e percorri o resto do caminho a correr, irrompendo do labirinto ao p da pequena casa. Parei e retomei o flego. Ento, sentindo-me tola, limpei o rosto com
um leno, penteei o cabelo para trs, retomei a minha compostura e entrei.
O Tony andava s voltas com o modelo de barro, as suas mos sobre o modelo como se estivesse prestes a agarr-lo e a comprimi-lo contra ele. Levantou o olhar bruscamente
quando eu entrei e endireitou-se logo.
- No pude esperar por ti esta manh - disse ele. Estava desejoso de acabar. Senta-te a - disse, apontando para o sof. - Esta manh s quero dar uns toques finais
na cara da boneca. Ento - prosseguiu ele, enquanto eu me sentava e o encarava -, ontem foste ver o teu pai. - Comeou a trabalhar com uma pequena ferramenta.
- Sim.
- Mas no correu tudo bem, pois no? - perguntou ele. Eu virei bruscamente o olhar para ele. O Tony percebeu que eu estava a tentar imaginar como  que ele sabia.
- O Miles contou-me - acrescentou ele, ternamente. - Mas no contei nada  tua me. - Piscou-me o olho. - Presumo que, pelo que ela sabe, tu tambm no.
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- No queria deix-la preocupada.
- Sim. Ento e o que  que aconteceu para tu ficares transtornada? Vira-te um bocadinho para a direita. Mais um pouco. ptimo.
- O meu pai voltou a casar-se - disse eu.
- E tu no sabias de nada at ao momento?
-  isso mesmo. Ele abanou a cabea.
- s vezes, os homens so to estpidos. - Sorriu. No te deste bem com a nova mulher dele?
- Estava demasiado transtornada. Devo ter sido injusta
- acrescentei. Tinha andado a pensar que devia ter dado uma segunda hiptese ao meu pai e  sua mulher, indo jantar com eles. Agora tinham partido para Maine e j
no podia fazer nada.
- No consigo imaginar-te injusta para ningum, Leigh. No conheo ningum mais doce e mais atencioso. Eu vejo como tu s para o Troy - disse ele a sorrir. Eu fiquei
calada.
- Sei que sou um fraco substituto - continuou ele -, mas gostava que me considerasses como um pai. Tambm sei que achas que eu sou novo de mais... Mas tenho muita
experincia. A minha fortuna e as responsabilidades que herdei envelheceram-me para alm dos anos fsicos.
Voltou a sorrir, mudou de posio, estudou-me, trabalhou e depois parou e estudou-me mais um pouco.
- De qualquer modo - disse ele, passado algum tempo -, se alguma vez tiveres problemas que no possas discutir com a tua me, espero que venhas ter comigo.
- Obrigada, Tony - disse eu.
- Ia gostar de te ajudar.
Utilizou ferramentas diferentes para raspar, para dar uns retoques delicados, estudando-me, e continuando a trabalhar desse modo por mais de uma hora. Por fim, levantou-se
e anunciou que tinha terminado.
- Terminei - disse ele. - A tua tarefa chegou ao fim. Agora tenho de mandar moldar isto. Acho que vou entregar a pintura do modelo a um dos meus melhores artistas.
Eu j no era precisa? No tinha de posar mais nua? Que dia final to fcil... Porm, apercebi-me de que ainda no tinha visto a escultura pronta.
- Posso v-la agora?
- Claro - disse ele, recuando. Fez um gesto na direco da escultura final. Levantei-me devagar e dei a volta para a ver de frente. No momento em que vi a escultura,
a minha
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cara ficou totalmente vermelha e respirei com dificuldade. A minha cabea cambaleou. Senti o corpo todo a ferver e depois fiquei fria. A minha cara estava perfeita,
mas ele tinha esculpido cada parte do meu corpo com tanto exagero que parecia pornogrfico. Todos iam poder ver aquilo... Rapazes... Toda a gente...
- O que foi? - perguntou ele, com os olhos a diminurem at ficarem duas pequenas fendas azuis.
- Tony, no pode mostrar isso a toda a gente.  embaraoso. As bonecas no tm... no tm...
- rgos genitais? No, as bonecas no, mas uma boneca-retrato  uma obra de arte, j te tinha dito.
- NO! - gritei eu. - No posso deixar que ponha a minha cara nisso. No posso - afirmei eu.
- Mas esta boneca vai ser s tua. Ningum mais ter esta boneca. Cada pessoa vai querer a sua prpria boneca.
- Mas vo observar esta para verem como ficaro as suas.
- Estar vestida quando olharem para ela.
- Mas ento porque  que fez isso?
Ele olhou para mim e depois para a boneca, como se a resposta estivesse nos lbios dela. Depois, aproximou-se e acariciou a figura de barro. Enquanto o fazia, os
seus olhos tornaram-se sonhadores e distantes, uma cena  qual eu j tinha assistido antes.
- Porque... como te disse...  uma obra de arte.
- No, no vou deixar que ponham a minha fotografia ao lado dela. No vou deixar - insisti eu. Ele ficou a olhar para mim, embasbacado. Depois, os seus olhos ficaram
frios, ainda mais frios do que antes. Perderam a expresso distante e focaram-me com dureza.
- Est bem - cedeu ele, furioso. - vou alter-la. Agora ests despachada. Podes ir - disse, abruptamente.
Encaminhei-me para a porta. Quando olhei para trs, vi que ele continuava ali, de p, a olhar fixamente a boneca, fazendo uma expresso to dura e to parada como
uma escultura. Deixei a pequena casa e apressei-me pelo labirinto fora. Antes de chegar a meio, percorri o resto do caminho a correr, fugindo  imagem de mim prpria
nua e exposta a toda a gente.

15 ANGEL

Apesar de ter ansiado tanto pelas minhas frias de Vero, fiquei contente quando comearam a chegar ao fim e se aproximou a hora de voltar para Winterhaven. Tinha
saudades da Jennifer. Contara-lhe a histria da boneca-retrato, mas no lhe confidenciara o facto de ter posado nua. E nunca cheguei a ir visit-la. Depois de acabar
o meu trabalho com a boneca, a mam foi arranjando desculpas atrs de desculpas para no me deixar ir. Voltei a pedir-lhe semanas antes de voltar para a escola,
mas ela retorquiu que faltava pouco tempo para voltar a ver as minhas colegas. Poucos dias mais tarde, decidiu que me queria levar a Nova Iorque, a fim de comprar
roupa nova para eu levar para a escola e para ela tambm. Foi uma viagem relmpago, pois tnhamos acabado de chegar, quando ela decidiu que estava calor de mais.
Ficmos s uma noite em Nova Iorque e fizemos compras em apenas duas lojas. Depois disso, voltmos para Farthy.
Durante a maior parte do ms de Agosto, o Tony viajou muito estabelecendo novos mercados pelo pas fora para os seus brinquedos, e, principalmente, para lanar as
bonecas-retratos. Eu ainda no tinha visto o produto final. Ele cumprira a sua palavra e tinha entregue o trabalho final a um dos seus melhores artesos, um homem
da Europa, que j tinha trabalhado l com esse tipo de bonecas. O Tony disse  minha me e a mim que s queria que vssemos a boneca quando esta estivesse pronta
at  ltima pestana.
A mudana de temperatura causou o desenvolvimento de novas alergias no Troy. Foi to grave que, no fim de Agosto, ele teve de ser internado no hospital durante uma
semana. Os mdicos fizeram-lhe dzias de testes, tentando encontrar os melhores antdotos para os problemas dele. O Miles levava-me
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a visit-lo todos os dias, mas a mam no foi l nem uma vez. Tinha sempre outra coisa para fazer, um lugar onde ir, pessoas que devia visitar.
Finalmente chegou o dia em que eu tinha as malas feitas para voltar para Winterhaven. A nossa escola particular comeava uma semana antes das escolas oficiais. Tinha
sido um dos Veres mais quentes de que havia memria mas, l para o fim de Agosto, o tempo deu uma reviravolta. O Outono veio, armado de vento e de chuva, transformando
as folhas nas cores do arco-ris do Outono, quase do dia para a noite. As temperaturas desceram e o esbatido cu azul passou a ser de um azul mais escuro e mais
forte.
No me importava. Sempre tinha adorado o Outono, as suas cores e as brisas arredias. O ar estava fresco e enchia-me de energia e de esperana. Recebera dois telefonemas
do pap, um, quando ele regressara de Maine, mesmo antes de partir para a sua lua-de-mel, e o outro, depois. Das duas vezes desligara com a promessa de me visitar,
mas havia sempre um problema com os horrios dele ou com os negcios, impossibilitando que tal acontecesse. As coisas ficaram neste p: que talvez eu fosse passar
as frias de Natal com ele e a Mildred.
A me da Jennifer tambm tinha voltado a casar e ela ficara to infeliz com isso e to desejosa de voltar para Winterhaven e para o "clube especial" como eu. Estava
 minha espera  porta do nosso dormitrio quando o Miles encostou o carro. Veio a correr na direco do carro e abramo-nos e beij amo-nos to depressa e com tanto
alarido que ficmos ambas roucas. Ela ajudou-me a desfazer as malas e a arrumar as minhas coisas e depois fomos dar uma volta para ver as outras. J tinham chegado
todas excepto a Marie. Viria um dia mais tarde directamente de Paris.
Nessa primeira noite, a Jennifer e eu ficmos sentadas na cama a conversar at altas horas da noite. Quando lhe descrevi a maneira como me tinha despido da primeira
vez e como o Tony me tinha retirado o lenol do corpo gradualmente, ela quase no falou e o seu tom de voz era pouco mais alto do que um sussurro.
- Mas ele tem um ar to jovem - comentou ela. - Eu no sei se teria conseguido fazer isso. Como  que conseguiste?
- No sei. A minha me convenceu-me - disse-lhe eu.
- sabes, ela  uma artista e os artistas no pensam muito nessas coisas - expliquei.
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No lhe contei o mtodo do Tony, de me tocar antes de comear a pintar e a esculpir. Isso no fui capaz de confessar. Mesmo assim, o que descrevi foi suficiente.
- Tens que me prometer que no vais contar a ningum do "clube especial", Jennifer. No quero que as outras saibam os pormenores. Deixa que elas pensem que o corpo
da boneca foi uma criao da imaginao do Tony. Vo-se rir na mesma quando a virem.
- Porqu? - perguntou ela com rapidez.
- Porque parece mais velha do que eu, mais madura. Principalmente aqui - disse eu, apontando para o meu peito.
- Porque  que ele fez isso? - perguntou a Jennifer com os olhos muito abertos.
- No sei. No percebo os homens, nem o meu pai nem nenhum homem.
A Jennifer calou-se. Pensei que estivesse a lembrar-se do seu prprio pai, mas surpreendeu-me.
- Conheci um rapaz na ltima semana de frias - confessou ela -, e tivemos dois encontros.
- Jennifer Longstone, no me escreveste uma nica palavra sobre isso nas tuas cartas e nem disseste nada quando falmos ao telefone - gritei eu, sentando-me imediatamente
na cama. - Que rapaz? Como  ele? Que idade tem?
- Aconteceu tudo to depressa que nem tive tempo de te contar e, alm disso, no quis fazer grande alarido  volta disso at ter a certeza de que ele gostava mesmo
de mim. Chama-se William Matthews, tem dezasseis anos e anda em Allandale. Por isso, vai c estar no baile do prximo fim-de-semana. Vais poder ficar?
- Sim. A minha me concordou em deixar-me ficar de vez em quando.
- Oh, isso  ptimo, porque o colega de quarto do William tambm vem e quando falei de ti ao William, ele disse que tu e o colega de quarto dele se podiam dar muito
bem.
- Jennifer, no acredito. O que  que lhe contaste sobre mim?
- S a verdade... Que s bonita e esperta e divertida.
- Oh, Jennifer!
- No faz mal. Eu no prometi nada. No faria isso sem falar primeiro contigo. O colega de quarto do William chama-se Joshua John Bennington. O William diz que ele
 muito tmido mas muito bonito, e que  um dos rapazes mais brilhantes de Allandale. E tambm  muito rico.
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- Pareces uma casamenteira. Desde quando  que s to requintada no que respeita a rapazes, Jennifer Longstone?
- Desde a ltima semana de frias - sussurrou ela, e depois continuou a narrativa dos dois encontros dela com o William, o segundo dos quais ocorrera na casa dela,
onde estiveram os dois sozinhos. - Ele beijou-me, Leigh - confessou ela. - Foi a primeira vez que deixei um rapaz tocar-me. J alguma vez deixaste um rapaz tocar-te,
Leigh? - perguntou ela.
Pensei outra vez no Tony a passar com os seus dedos pelo meu corpo, mas ainda tinha vergonha de lhe contar.
- No - disse eu bruscamente. - Acho que no conseguia, a no ser que o amasse e que ele me amasse a mim disse eu. A Jennifer assentiu, com ar de quem se sentia
um pouco culpada.
- Eu gosto muito dele - admitiu ela. Fez-me pensar que havia mais qualquer coisa na histria.
- O que  que aconteceu?
- Eu gostei, Leigh. Mas no o deixei continuar quando comeou a ir longe de mais - acrescentou rapidamente. Parei mesmo - realou ela. -  esse o segredo, saber
quando se deve parar. Foi o que a Wendy Cooper me disse e ela deve saber. J namora h quase um ano com o Randolph Hampton e o Randolph tem quase dezassete! - Ficmos
ambas caladas por uns momentos e depois a Jennifer acrescentou: - Mas  difcil parar, Leigh. As coisas acontecem dentro de ti e tu tens de te zangar com o teu prprio
corpo. Vais ver quando te acontecer - prometeu ela.
Pensei na maneira como tinha tremido com o toque das mos do Tony, como tinha experimentado sensaes que nunca sentira, apesar de me ter sentido muito embaraada.
Fiquei a pensar se iria ser sempre assim, mesmo quando fizesse essas coisas com o homem que viesse a amar.
A Jennifer tinha-me mesmo surpreendido. De todas as raparigas do "clube especial", sempre achara que ela seria a menos provvel de fazer essas coisas com um rapaz.
No h maneira de termos certezas sobre as pessoas, pensei, nem sobre a nossa melhor amiga, quanto mais sobre um pai.
Os Veres eram curtos; porm parecia que acontecia tanta coisa durante o Vero. Tudo na minha vida e  volta dela estava a acontecer to depressa. Sentia-me como
se estivesse numa montanha-russa em andamento.
- Oh, Leigh,  to bom estar outra vez contigo e voltar a ter algum com quem falar. Agora odeio a minha me e j
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no posso falar com ela sobre nada que seja importante para mim -
Eu desejei-lhe boa noite e virei-me para tentar dormir. No entanto, as confisses da Jennifer tinham reacendido as minhas recordaes do Tony, a tocar-me, a estudar
o meu corpo com os seus dedos e a afagar-me como se eu fosse o barro para ele moldar. Como era possvel a minha me achar que no fazia mal permitir que ele me tocasse
daquela maneira? No lhe passaria pela cabea que eu fosse sentir as coisas que a Jennifer sentira quando o namorado dela lhe tocara, ou seria que ela achava que
eu ainda era muito nova?
Olhei para a Jennifer na cama ao lado, que j estava a dormir e provavelmente a sonhar com o William Matthews. As suas primeiras experincias foram excitantes, o
tipo de experincias sobre as quais todas ns, raparigas, tnhamos falado e sonhvamos vir a sentir um dia. Eu tambm queria ter um namorado, algum que me amasse
e me estimasse, como os homens e as mulheres se amam e se estimam uns aos outros em filmes romnticos e em romances. No queria ficar a pensar no Tony Tatterton
a olhar para o meu corpo nu, enquanto eu estivera de p, obedientemente,  frente dele. Que tipo de momento romntico era esse?
Precisei de todo o meu poder de concentrao para afastar aquelas imagens da minha mente, de maneira a conseguir estreitar-me nos braos do sono. Por fim, l consegui.
Na manh seguinte, os dormitrios de Winterhaven explodiam de vida e energia. Todas ns estvamos excitadas com o incio das aulas e do novo ano lectivo. A gua
dos chuveiros corria continuamente, os secadores trabalhavam por todo o lado, as raparigas gritavam, pedindo roupas, jias e fitas emprestadas umas s outras. Era
bom estar de volta. No pensei que fosse ficar to feliz; ali, porm, em Winterhaven, com toda a gente na tagarelice, com os sinos a tocar e as raparigas em correrias
para no chegarem atrasadas, eu ia tentar esquecer os momentos tristes e feios que vivera nos ltimos meses.
O "clube especial" reuniu-se, como sempre, a caminho das salas de aulas. A Marie Johnson devia aparecer a qualquer momento e ns estvamos  espera da sua chegada.
E toda a gente falava no baile com os rapazes de Allandale. Era a maneira tradicional de iniciar o novo ano lectivo social. Estava to feliz por poder ir ao baile.
Claro que o tpico principal da conversa era a roupa. Toda a gente tinha uma opinio a dar.
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Comemos a percorrer o corredor. As outras raparigas acenavam-nos e chamavam-nos dos seus quartos  medida que amos passando. Durante o dia, todas as portas dos
quartos nos dormitrios tinham de ficar abertas, para poderem ser inspeccionadas: verificar se as camas estavam feitas e as roupas arrumadas nos armrios.
No momento em que chegmos ao trio, a Marie entrou de rompante, com o motorista atrs, s voltas com a bagagem dela. Nas orelhas, usava uns brincos to grandes
como cubos de gelo e pintara as plpebras com sombra. Vestia uma camisola de tnis de algodo branco, uma camisa de algodo a condizer e uma saia azul comprida e
leve.
- Jeunes filies! - gritou ela. - Comment allez-vous?
- Marie!
Fomos todas a correr cumpriment-la. Parecia to mais velha.
- Nem acredito que voltei para este lugar - disse ela, olhando em volta com uma expresso desgostosa. - E olha para vocs todas. Bando de ratos. - Depois riu-se.
- Tive saudades de todas vocs.
Abraou cada uma de ns  vez.
- Tentei organizar as coisas para chegar ontem  noite, mas no foi possvel - prosseguiu ela rapidamente e suspirou. - vou ter de descansar um pouco, mas no se
preocupem comigo. Miss Mallory foi avisada e eu estou dispensada de todas as aulas da parte da manh. Hoje  noite esto todas convidadas para o meu quarto. Tenho
presentinhos para toda a gente e vou contar-lhes todos os pormenores do meu Vero em Paris... Principalmente, sobre homens.
- Homens! - gritou a Toby.
- Bem, jovens. Au revoir - disse ela e fez um sinal ao motorista para a seguir.
Caminhei em direco  sala de aula com as minhas amigas... sem deixar perceber que havia uma tempestade a preparar-se dentro de mim. Sabia que havia sonhos e sofrimentos
que nunca poderia partilhar com o "clube especial".
De um momento para o outro, s se falava no baile com os rapazes de Allandale. Uma noite, a Jennifer falou com o William ao telefone e chamou-me para ao p dela
para eu poder cumprimentar o colega de quarto do William, o Joshua. Eu no queria, mas ela acenou e voltou a acenar e implorou at eu ceder. Ento, passou-me o auscultador.
Eu lancei-lhe um olhar furioso.
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- Diz ol - instigou ela.
- Ol - disse eu, e respondeu uma voz profunda e suave.
- Ol. - Houve uma pausa longa antes de ele continuar. - Isto  um bocado embaraoso. O William queria que eu falasse contigo antes do baile e...
- E a Jennifer queria que eu falasse contigo - disse eu, apercebendo-me de que tambm estava a ser difcil para ele.
- Sim, eu... eu estou com vontade de te conhecer. Segundo o William, a Jennifer fala muito bem de ti.
- A Jennifer  uma exagerada.
- Oh, no penses assim. De qualquer modo, s queria cumprimentar-te e dizer-te que estou com vontade de te ver no baile - acrescentou ele. Achei que a sua voz soava
muito adulta.
- Eu tambm - respondi e detestei o som da minha voz, pois soara muito infantil. Atirei com o telefone para cima da Jennifer, espetando praticamente o auscultador
no peitodela. Pegou nele e despediu-se do William. Mal pousou o auscultador, atirei-me a ela.
- Como  que pudeste fazer uma coisa destas? Foi to embaraoso tentar manter uma conversa com algum que nunca vi. Tenho a certeza de que ele agora no vai querer
mais nada comigo. Pareo uma idiota a falar ao telefone.
- No pareces nada.
- Eu gosto de ver a pessoa quando falo com ela pela primeira vez - queixei-me eu, mas a Jennifer ficou para ali a rir que nem uma tola. Durante o resto da noite
recordei as palavras do Joshua. Esperava que ele fisicamente fosse to interessante como o parecia.
Nesse momento, usar o vestido adequado e ficar o mais bonita possvel tornara-se muito importante. S pensava nisso. Por fim, decidi-me pelo meu vestido de chiffon
cor-de-rosa com uma faixa  cintura na parte de trs. Hesitei, por o vestido no ter ombros. Ainda achava que os meus ombros eram muito ossudos; decidi ento que
levaria tambm um xaile de renda e que, se me sentisse mal, ficava com ele posto.
O baile ia-se realizar em Winterhaven. L em baixo, a comisso encarregada da decorao do espao havia retirado a maior parte das mesas da enorme sala de jantar.
Os tapetes encontravam-se enrolados e postos de lado. Tinham pendurado no tecto bandeirolas coloridas e decoraes feitas com papis festivos e, no lugar onde anteriormente
estava pendurado
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um candeeiro mais sbrio, havia agora uma enorme bola espelhada que rodava sobre si prpria. Nunca teria acreditado que uma sala to cheia de sol e to clara durante
o dia, pois estava virada para leste e para sul, pudesse ser convertida num aceitvel salo de baile.
com a Marie  frente, numa tagarelice interminvel sobre os bailes a que tinha ido em Paris, o "clube especial" marchou para o salo. Na noite anterior, a Marie
tinha-nos dado um sermo sobre os rapazes de Allandale, realando o facto de serem todos muito ricos e sofisticados. O conselho dela era que falssemos pouco, deixando
a conversa para o rapaz, fingirmo-nos muito impressionadas e pestanejarmos. At fez uma demonstrao da maneira como as mulheres chamadas femmes fatales faziam.
Contou que elas eram mulheres bonitas, mas perigosas, que normalmente destruam os coraes dos homens que se apaixonavam por elas. A Marie conhecia bem os rapazes
de Allandale e proclamava que alguns deles mereciam que lhes destrussemos os coraes. Eu esperava que o Joshua John Bennington no fosse um desses. Nem a Jennifer
nem eu tnhamos contado s outras sobre ele e o William Matthews. Queramos fazer-lhes uma surpresa com o nosso pequeno segredo.
Quando chegmos, a msica j estava a tocar; ouvia-se o Rock Around the Clock. Alguns dos bales tinham-se desprendido e flutuavam no meio da pista de dana. Todos
os rapazes de Allandale estavam espalhados pela sala como se fossem uma manada, alguns serviam-se de ponche, outros estavam de p, fitando-nos com olhos frios e
sorrisos serenos, cada um deles a decidir a quem iria pedir para danar.
Os olhos das outras raparigas do nosso clube saltaram das rbitas quando um rapaz alto e louro, de pele clara e olhos azuis, atravessou rapidamente a sala para cumprimentar
a Jennifer.
- Leigh - disse a Jennifer, pegando na mo do William e virando-o para mim. - Este  o William Matthews. William, a Leigh VanVoreen.
- Prazer em conhecer-te - disse ele, estendendo a mo. Achei que tinha uma cara agradvel, com feies suaves e meigas, e fiquei muito contente pela Jennifer. Atrs
de ns, todas as scias do "clube especial" cochichavam, feitas malucas.
- Prazer em conhecer-te.
- O meu companheiro de quarto est ali ao p do ponche, aterrorizado - comentou o William.
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Oh, William, no gozes com ele - pediu a Jennifer.
- Nem com a Leigh - acrescentou ela com os olhos muito abertos.
- Senhoras - disse o William Matthews, elevando os braos para nos escoltar a ambas at  taa do ponche.
Peguei-lhe no brao esquerdo, dei uma olhadela para trs para o "clube especial", que estava de boca aberta, e atravessei a pista. Um rapaz alto de cabelo preto,
com um rosto muito bronzeado e olhos verdes cor de avel a brilharem, levantou o olhar. Achei que era muito bonito, com um ar de virilidade calma e profunda que
me agitou o corao. Havia ternura no seu olhar, mas a maneira como os seus olhos passaram rapidamente por mim, mirando-me de alto a baixo, excitou-me agradavelmente.
Senti uma sensao de formigueiro a percorrer-me a espinha.
- Leigh - disse o William, com um pouco mais de intensidade e de volume que o necessrio -, este  o meu colega de quarto, o Joshua John Bennington, o famoso conversador
de telefone. - A seguir deu uma gargalhada e a Jennifer deu-lhe um murro no ombro.
O Joshua olhou para o tecto e abanou a cabea.
- Desculpa o meu colega de quarto por ser to palhao
- disse ele e estendeu-me a mo. - Prazer em conhecer-te.
- Igualmente - retribu eu, e quase mordi o lbio para evitar voltar a pronunciar aquela frase infantil. - Quero dizer...
- A Jen e eu vamos danar enquanto vocs os dois travam conhecimento - disse o William. - Tem cuidado, Leigh, ele tem uma fila de um quilmetro de mulheres abandonadas
no rastro dele. Joshua, agora ests entregue a ti prprio - avisou ele e piscou o olho. Em seguida levou a Jennifer para a pista de dana. Observei-os por uns momentos.
- Ele dana bem - observei eu.
- Quase tudo o que o William faz  bem feito.  um daqueles tipos perfeitos que faz com que ns, os outros, nos sintamos inferiores - comentou o Joshua.
- Oh! - exclamei eu prontamente. - No vejo nenhuma razo para te sentires inferior. - At eu fiquei surpreendida com a maneira entusistica com que tinha dito aquilo.
Ele abriu os olhos e o sorriso.
- No acredites naquela histria das mulheres abandonadas. Eu nem sequer assisti a nenhum dos bailes no ano passado - confessou ele.
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- No vieste? Eu tambm no.
- A srio? - Ele sorriu, com uma expresso mais descontrada nos olhos. - Ponche? - ofereceu ele.
- Sim, por favor.
Depois de me servir um copo, fomo-nos sentar num banco a conversar. Contou-me que o pai dele era advogado de propriedades, que tinha dois irmos e uma irm e que
vivia  sada de Boston. A famlia dele tinha uma casa na parte oeste de Palm Beach, na Florida, e uma casa de praia em Cape Cod. Quando comeou a falar dele prprio,
nunca mais parou. De vez em quando, eu espreitava na direco do "clube especial". Algumas tinham encontrado parceiros e estavam a danar. A Toby e a Betsy no tinham
arranjado par e fitavam-me com um olhar invejoso.
Ele perguntou-me onde eu vivia e eu contei-lhe sobre Farthy. J tinha ouvido falar na Fbrica de Brinquedos Tatterton, mas a famlia dele no tinha nenhum. Quando
mencionei o Tony, referi-me a ele como "padrasto"; o Joshua no perguntou pelo meu pai verdadeiro ou porque  que a minha me tinha voltado a casar. Achei que foi
muito delicado da parte dele.
Danmos, comemos umas comidas leves e voltmos a danar. A Jennifer e o William estiveram ao p de ns a maior parte do tempo. Por fim, quando j no conseguia
controlar-se, a Jennifer pediu-me para ir com ela  casa de banho. Ainda a porta no estava fechada, j ela tinha desbobinado uma data de perguntas.
- Gostas dele? Ests a divertir-te? Como  ele?
- Sim, gosto dele.  muito simptico e to educado
- disse eu. - Mas eu adoro isso. Faz-me sentir... como uma senhora.
- Fico to contente - afirmou a Jennifer, e abramo-nos e rimos. No entanto, antes que pudssemos sair da casa de banho, a Marie, seguida das outras, entrou de
rompante. Ps-se  nossa frente, com as mos nas ancas.
- Vamos l, vocs as duas, o que  que est a acontecer aqui? Como  que ningum do "clube especial" sabia que vocs as duas tinham namorados em Allandale - exigiu
ela saber.
- Ele no  o meu namorado - disse eu logo. - S o conheci hoje  noite.
A Marie virou-se para a Jennifer.
- Eu conheci o William no fim do Vero, mas ele no me pediu para namorar com ele nem nada - replicou ela. A Marie mordeu os cantos da boca.
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- Vocs deviam-nos ter contado que tinham encontros marcados - avisou ela. - Os membros do "clube especial" no escondem coisas destas umas das outras. Confiamos
umas nas outras com o corao.  isso que nos torna especiais - acrescentou ela, com um olhar furioso.
- Mas...
- Sentimo-nos todas umas idiotas, sem saber o que se passava.  uma espcie de traio da confiana - prosseguiu ela, com os braos cruzados por cima do peito.
- Isso  uma estupidez, Marie. Ns j te dissemos...
- No  estupidez. - Virou-se para as outras. - H mais algum aqui que ache isto uma estupidez? - Tinham todas a mesma expresso, igual  da Marie: zangadas, invejosas,
rancorosas. - Deviam-nos ter contado - repetiu ela.
- Mas tu s mesmo assim, no gostas de partilhar. Tambm no convidaste mais ningum para a tua preciosa propriedade a no ser a Jennifer, no foi? Achas que s
melhor do que ns.
- No acho nada. J te tinha dito...
- Divirtam-se - disse, irritada, e virou as costas. As outras seguiram atrs da Marie, como se fizessem parte da cauda dela, deixando atrs de si um intenso rastro
de inveja.
- Oh, Leigh, desculpa - exclamou a Jennifer. - Meti-te em sarilhos com as outras.
- Eu no estou metida em nenhum sarilho, Jen. Elas esto  com inveja,  s isso. Esquece-as. Vamos fazer exactamente o que a Marie disse. Vamo-nos divertir. Alm
disso, a culpa  tanto minha como tua. Eu tambm no lhes contei nada.
A Jennifer assentiu, mas percebi que tinha ficado muito preocupada.
- Anda - insisti eu. - Esquece. - Peguei-lhe na mo e levei-a para fora da casa de banho.
O resto da noite foi um martrio para ns. As outras passaram o tempo todo a lanar-nos olhares rancorosos. Nenhuma delas falava connosco e, antes de o baile acabar,
andavam a segredar coisas sobre ns aos ouvidos das outras raparigas e a rir alto.
O Joshua sentiu que estava a acontecer alguma coisa; por isso, contei-lhe.
-  tpico de mim - disse ele -, causar problemas a outras pessoas. - Fiquei surpreendida pela rapidez com que ele se culpabilizava.
- Oh, no, a culpa no  tua e elas discutiram connosco
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e zangaram-se por uma razo muito estpida. Elas no so nossas amigas de verdade. Se no, no faziam o que fizeram.
- Lancei-lhes um olhar para o outro lado da pista de dana.
- Alm disso - prossegui eu -, prefiro que tu sejas meu amigo do que de qualquer uma delas, do chamado "clube especial".
- A srio? - Os olhos do Joshua iluminaram-se.
- Sim. Espero que me telefones e me venhas visitar sempre que tenhas uma oportunidade. - Estava parva com o meu comportamento descarado em relao a ele, mas estava
furiosa e gostava mesmo dele.
- Oh, hei-de vir, hei-de vir. - O Joshua irradiava alegria.
Fomos danar outra vez e mais uma vez e, quando chegou  parte das msicas calmas, ele estreitou-me com firmeza contra o seu corpo e os seus lbios roaram a minha
testa. Levantei os olhos para ele por um momento, e ele, sem desviar o olhar, fixou os seus olhos nos meus. Devamos parecer muito romnticos, pois quando olhei
para algumas das outras raparigas que no pertenciam ao "clube especial", vi-as a olhar para o Joshua e para mim com uma expresso distante e sonhadora nos olhos,
e suspiros nos lbios.
Miss Mallory anunciou o fim do baile e aconselhou a comisso de limpeza a apresentar-se ao trabalho bem cedo na manh seguinte. As festas futuras, avisou ela, dependiam
do bom trabalho delas.
Os rapazes comearam a sair. A Jennifer e eu acompanhmos o William e o Joshua  sada, cada uma de ns de mo dada com o nosso par. Mal samos do edifcio, o William
puxou a Jennifer para um canto escuro para lhe dar um beijo de despedida. O Joshua e eu observmos a cena. Depois, virmo-nos um para o outro. Eu no conseguia controlar
os meus sentimentos. Queria que ele me beijasse tambm. Sem me dar conta, estava a apertar-lhe a mo. Ele ficou um pouco atrapalhado e depois levou-me para outro
canto escuro, onde me beijou ternamente nos lbios.
- Boa noite, Leigh. Diverti-me imenso - disse ele.
- Eu tambm. Boa noite.
Foi ter com o William e foram-se embora com os outros. A Jennifer e eu acenmos at eles desaparecerem. Depois, olhmos uma para a outra e desatmos a rir. Abramo-nos,
demos as mos e voltmos a entrar no dormitrio.
Quando chegmos ao nosso quarto, encontramos um bilhete pregado na nossa porta, que dizia: MANTENHAM os vossos SEGREDOS E VOCS PRPRIAS AFASTADOS DE NS.
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Eu arranquei o bilhete da porta e rasguei-o. A Jennifer foi para a cama dela sentar-se e lamentar-se mas, logo que o fez, saltou com um grito.
- O que foi?
- Olha!
As nossas camas estavam encharcadas. Pelo cheiro, parecia que elas tinham tirado gua das sanitas e deitado por cima das camas.
- Uh! - exclamou a Jennifer. Comeou a ficar agoniada e foi a correr para a casa de banho.
Quando lhe confessara que no percebia os homens, tinha-me enganado redondamente. Eu no compreendia ningum, fosse homem ou mulher. Crueldade, egosmo, inveja,
maldade de muitas formas diferentes, presos como uma borbulha sob o corao de toda a gente, provavelmente at do meu prprio corao. Nesse momento, desejava poder
castigar cada uma delas, do "clube especial", espetando-lhes pregos e alfinetes.
- Comecei a tirar a roupa da cama. amos ter de virar os colches ao contrrio.
A Jennifer saiu da casa de banho com lgrimas a escorrerem pela cara. Eu sorri.
- Como  que podes estar feliz depois disto? - perguntou ela.
- Eu no estou a pensar nisso. Estou a pensar nos olhos verdes cor de avel do Joshua John Bennington - retorqui. Ela ficou uns instantes a olhar para mim, espantada,
e depois sorriu tambm. E ento desatmos as duas a rir.
Rimos to alto e com tanta histeria que algumas das outras raparigas saram do quarto para ver o que se passava.
- NO  NADA - gritei eu do corredor. -  QUE NS DI-
VERTIMO-NOS IMENSO HOJE  NOITE.
Ouvimos atirarem com as portas ao longo do corredor.
A Jennifer e eu olhmos uma para a outra e voltmos a rir. Rimo-nos com tanta vontade e durante tanto tempo que ficmos cansadas de mais para fazermos as camas decentemente,
e adormecemos nos colches com a cama por fazer, os ps ainda a mexer ao som da msica e os olhos ainda cheios das luzes do salo de baile.
Aquele ano lectivo foi diferente para ns, uma vez que j no fazamos parte do "clube especial". Algumas delas, como a Wendy e a Carla, no conseguiram deixar de
voltar a ser simpticas, apesar de nunca sermos convidadas para as
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festas e para os encontros delas. No foi to problemtico como recevamos, pois andvamos muito entretidas com o William e o Joshua.
Sempre que eu passava o fim-de-semana em Winterhaven, ns os quatro arranjvamos maneira de nos encontrarmos e fazermos alguma coisa, nem que fosse ir estudar para
a biblioteca, amos ao cinema e fazamos passeios pelas docas. Quando eu tinha de passar os fins-de-semana em casa, o Joshua telefonava-me duas vezes por dia.
Contei  mam sobre ele, mas ela no me pareceu muito interessada. Estava mais preocupada com ela prpria, pois no conseguia perder dois quilos, independentemente
da dieta que iniciara. At tinha contratado uma dietista para ajudar o Rye a preparar a comida - o que ele no gostou nada -, mas quando isso no lhe trouxe os resultados
esperados com a rapidez desejada, a mam despediu-a.
O Tony andava muito ocupado, pois os negcios estavam a prosperar a muitos nveis. Quando lhe perguntei pela boneca-retrato, ele respondeu que estava quase pronta,
mas que tinha decidido esperar at  poca do Natal para apresent-la, pois seria um excelente produto novo para as suas lojas. A minha me contou-me que ele estava
a guardar a boneca, em segredo, para me dar pelos anos.
As alergias do Troy melhoraram e o Tony contratou um professor particular a tempo inteiro para ele, visto ser muito precoce. O Tony tinha a certeza de que ele ia
avanar quando finalmente entrasse para a escola, uma vez que j lia e escrevia.
Um fim-de-semana no incio de Outubro, apanhei a mam num dia em que estava mais bem-disposta. Tinha ido a um jantar no qual se encontrava tambm um editor da Vogue
que lhe tinha dito que ela era suficientemente bonita para aparecer na capa da revista. O editor at ia mandar um fotgrafo l a casa para tirar umas amostras de
fotografias. Aproveitei enquanto ela estava to bem-humorada e perguntei-lhe se podia dar uma festa de anos e convidar a Jennifer, o William e o Joshua, e umas raparigas
com quem tinha travado amizade desde que fora posta de parte pelo "clube especial". Ela concordou e at se ocupou dos preparativos. Os meus anos eram numa segunda-feira,
mas decidimos fazer a festa no domingo anterior.
Nesse sbado  noite, o Tony levou-nos a jantar fora para fazermos a nossa celebrao particular. Tambm permitiram que o Troy fosse. Passmos uns momentos muito
bons.
290
O Tony tinha mandado preparar no restaurante um bolo de aniversrio especial para mim e foi o cozinheiro-chefe em pessoa que o trouxe  mesa. Os empregados juntaram-se
 volta da mesa e cantaram o Parabns a Voc. A mam e o Tony beijaram-me e depois o pequeno Troy deu-me um presente, do qual estava muito orgulhoso, pois tinha-o
escolhido sozinho. Era um medalho de ouro. E tinha tambm posto a fotografia dele l dentro. Na parte de trs mandara gravar: "Para a minha irm Leigh."
- Oh, que amor - exclamei eu, abraando-o. - Adoro isto, Troy. vou tentar us-lo sempre - disse-lhe, e ele ps um ar muito orgulhoso e importante, no seu bluso
desportivo e gravata.
Mais tarde, nessa noite, ainda no tinha passado uma hora desde que chegramos do restaurante, ouvi algum bater  minha porta. Era o Tony. Ficou ali de p, com
uma caixa nas mos, embrulhada em papel cor-de-rosa e azul.
- Quis fazer isto em privado - explicou ele, capturando com os seus olhos azuis os meus, no os desviando por um longo momento. -  demasiado especial para ns partilharmos
com mais algum ao princpio.
- Obrigada, Tony. - Peguei na caixa e sentei-me no canap para a desembrulhar e ele ficou ali de p, com as mos atrs das costas, a observar-me. Sentia os meus
dedos desajeitados, pois estava muito excitada. No deixei que ele percebesse que eu sabia o que a caixa continha, por causa de a mam mo ter dito.
Levantei a tampa e deparei com a minha boneca-retrato. Achei que era uma verdadeira obra de arte, a cara da boneca to igual  minha; era como se estivesse a olhar
para um espelho que transformava numa miniatura a pessoa que se contemplava nele. A expresso da cara da boneca era amorosa, um sorriso requintado, uns olhos to
brilhantes e vivos que at me dava uma sensao estranha de poder falar comigo.
- O cabelo dela parece to real - disse eu, num sussurro.
-  cabelo verdadeiro - replicou o Tony, formando um sorriso com os lbios. -  o teu cabelo.
- O qu?
- Lembras-te quando a Jillian te levou ao cabeleireiro dela h dois meses? Eu estava combinado com ele. Guardou cada fio de cabelo que te cortou, deu-mo e eu mandei
fazer isto.
- A srio? - Estava impressionada.
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A boneca estava vestida com um vestido muito parecido com o que eu tinha vestido no primeiro baile da escola. Cada pedao da boneca era autntico, at a minscula
pulseira de ouro e o minsculo medalho, uma rplica exacta da que o Troy me tinha oferecido.
- Se olhares para a parte de trs do medalho com uma lupa vais ver que diz: "com amor, Tony."
Eu virei-o e vi as palavras pequeninas. "Que lindo", pensei.
Tudo na boneca era lindo. Claro que o corpo dela continuava muito mais desenvolvido do que o meu, mas lembrei-me do que a mam tinha dito sobre o Tony ter combinado
ns as duas.
Admirei o trabalho de pormenor nos dedos e nas mos e tive de virar as palmas das minhas prprias mos para comparar. Tinha esculpido as mesmas linhas nas palmas
das mos da boneca. Tinha vontade de despi-la e procurar outras coisas, mas no o quis fazer  frente dele.
-  linda, Tony, e  realmente uma obra de arte, tal como disse que ia ser.
- Fico feliz por gostares. Esto a ser feitas cpias para as montras, mas esta, claro,  a original e ser tua para sempre. Parabns, Leigh - disse ele, inclinando-se
para me beijar. Eu virei a cara, mas ele deu-me um beijo rpido nos lbios. - Pronto - disse, pondo-se em p. - Tenho umas coisas para fazer no escritrio. At logo.
- Obrigada, Tony.
A boneca estava nos meus braos quando ele saiu. Em seguida, fui a correr para o meu quarto, fechando a porta atrs de mim. Olhei para o corpo da boneca e soltei
um suspiro de alvio. Apesar de o peito ser ntido e at ter aquela marca de nascena por baixo dos seios, ele tinha feito o que eu lhe pedira aos rgos genitais.
Alisei o vestido e sa para mostrar a boneca  mam.
- Oh,  to linda, Leigh! - exclamou ela, virando-a e revirando-a nas suas mos. - E eu sabia que ia ser. O Tony estava to decidido. Vai ser o grande sucesso da
poca de Natal: bonecas-retratos da Fbrica Tatterton. Gosto do som, no gostas?
"Um dia talvez lhe pea para fazer uma a partir de mim
- disse ela e suspirou. - Apesar de nunca na vida ser capaz de ficar sentada e sossegada como tu conseguiste. No tenho pacincia para essas coisas. Ter que fazer
a boneca de memria ou a partir de fotografias. Logo que perder o excesso de peso,  isso. No achas que  uma boa ideia, Leigh?
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- Sim, mam - disse eu e deixei-a sonhar com sesses de fotografias.
Pus a boneca ao meu lado na cama e olhei para os olhos dela. Pestanejava como se estivesse mesmo viva e conhecesse alguns segredos profundos, talvez o segredo do
meu futuro.
- Gostava tanto que, para alm de seres bonita, pudesses falar. Assim serias o meu anjo-da-guarda.
Que nome excelente para a boneca, pensei. Angel.
-  como te vou chamar a partir de agora - disse-lhe eu. Achei que o sorriso dela se abrira, mas claro que se tratava apenas da minha imaginao selvagem, alimentada
por esperanas e sonhos.
Aquele aniversrio estava a ser to maravilhoso. Se ao menos o pap estivesse em casa e no se tivesse voltado a casar com outra famlia...
Foi como se o pap me tivesse ouvido do outro lado do pas. O telefone tocou e era ele, a telefonar de So Francisco.
- Queria ter a certeza de que te apanhava, princesa disse ele. - Amanh vou partir muito cedo. O meu presente chegar a de manh. Espero que gostes. A Mildred escolheu-o
- acrescentou ele. Fechei os olhos, tentando ignorar aquelas ltimas palavras.
- Para onde vai desta vez, pap? - perguntei, sem conseguir esconder o tom crtico e infeliz.
- Estamos a preparar um cruzeiro para as ilhas do Havai. O mercado na costa oeste  receptivo. A Mildred fez imensas pesquisas nesse sentido. Est a tornar-se inestimavelmente
valiosa. Oh, a Mildred est a pedir para eu te desejar feliz aniversrio em nome dela.
- Diga-lhe: "Obrigada." Volta quando? - perguntei eu, a pensar nas nossas tentativas e planos para passarmos juntos as frias de Natal.
- Receio bem que v demorar alguns meses. Tem de se abrir sucursais, trabalhar com agncias de viagens e cadeias de hotis, contratar empregados. Mas logo que regressar
planearei outras frias para ns todos. Vais fazer uma festa de anos?
- Sim, pap. - Estive quase a dizer: "Gostava que pudesses vir." Porm, retra-me. Porqu desejar uma coisa que nunca poderia realizar-se?
1 Angel, em portugus, significa "anjo". (N. da T.)
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- Bem, no prximo ano estarei c nos teus anos.  uma promessa que vou poder cumprir, pois a Mildred decidiu que devamos planear as nossas actividades com um ano
de avano. Est tudo bem? - perguntou ele, quando viu que eu no respondia.
- Sim, pap.
- Ento, parabns, princesa. vou pensar em ti durante todo o dia de amanh e mandar-te-ei postais. Boa noite.
- Boa noite, pap - disse eu. Ouvi-o desligar e o clique que produziu viajou milhares de quilmetros, acabando por cair no meu ouvido como uma lgrima de chumbo.
Senti o calor das minhas prprias lgrimas e levei o meu dedo  face. A ponta do dedo brilhava. Levei-a  cara de Angel e toquei na sua face.
Tinha a certeza de que ela tambm ia querer partilhar as minhas lgrimas.

16 NA PEQUENA CASA DE PEDRA

A mam excedeu-se com a minha festa de anos. Estava decidida a fazer tudo o que estivesse ao alcance dela para impressionar todos os meus amigos de Winterhaven,
apesar de eles no precisarem de nada em especial para ficarem excitados. Quando foram conduzidos atravs dos colossais arcos e se aproximaram de Farthy, j tinham
ficado suficientemente impressionados. A Jennifer e eu decidimos que eu devia convidar a Wendy e a Carla, uma vez que elas tinham continuado a ser simpticas connosco
mesmo depois de a Marie e as outras nos terem excludo. Claro que isso ainda aumentou mais a distncia e o muro que havia entre ns e as outras, mas nem a Jennifer
nem eu nos importvamos.
Era um lindo domingo de Outono, um pouco mais quente do que o normal. A relva ainda estava bastante verde e espessa, assim como as sebes com as cores de Outono como
pano de fundo, o cu azul-cristalino salpicado aqui e ali por nuvens de algodo doce, o dia prometia vir a ser maravilhoso. Eu no fazia ideia de que a minha festa
ia ser to elaborada. Ao fim da manh, apareceu um conjunto de cinco elementos e instalou-se no salo de baile. O pessoal comeou a carregar para dentro da sala
compridas mesas para o bufete e mesas para os convidados. Caviar como um dos aperitivos, taas com ponche em prata macia, decorao concebida por um decorador de
Boston, msicos profissionais, lembranas da ocasio para todos os meus convidados, empregados e empregadas por todo o lado, e a passagem de um filme no pequeno
auditrio, com isto tudo, a minha festa foi verdadeiramente esmagadora e bastante diferente de qualquer festa de anos que alguma vez tive quando vivamos todos juntos
em Boston. At o Tony foi apanhado de surpresa.
O Troy estava to excitado que fez o possvel e o impossvel para tentar escapar  sesta da manh. Quando se viu sob
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a ameaa de no poder assistir  festa, concordou, por fim, em ir descansar. A mam vestiu-se como se fosse uma festa para adultos. Usou os seus valiosos diamantes,
ps um dos seus vestidos pretos mais caros, de design exclusivo, e passou a maior parte da manh a arranjar o cabelo e a maquilhar-se. Quando os meus convidados
chegaram, ela j havia ocupado o seu lugar no enorme trio de entrada para os cumprimentar. Depois de a cumprimentarem, ou o Troy ou eu amos acompanh-los at ao
grandioso salo de baile.
Quando o Joshua chegou, dei-lhe a mo para o apresentar  minha me e tornar a ocasio importante. O meu corao endureceu quando percebi que ela nem sequer notou
que eu o estava a tratar de um modo especial, e ento apercebi-me de que ela nunca ouvira uma palavra do que eu lhe contara sobre ele e eu.
- Este  o Joshua Bennington - repeti eu, quando vi que ela o tinha cumprimentado rapidamente e se virara logo em seguida para dar uma ordem a uma das suas empregadas.
- Eu conheo a sua famlia, Joshua?
- Parece-me que no, Mistress Tatterton - respondeu o Joshua educadamente. Eu suspirei, desapontada, e levei o Joshua a dar uma volta pela manso, mostrando-lhe
a sala de msica com os murais, o piano de cauda, as lareiras gigantes e depois esgueirei-me com ele para ver a minha suite.
-  linda - comentou o Joshua. - Nunca estive numa casa assim.  um... um castelo.
-  demasiado grande para ser uma casa - disse eu. Ele assentiu e depois o olhar dele deteve-se quando passou pela Angel. Eu tinha-a encostado a uma almofada que
estava sobre a minha cama.
- O que  isto?
-  a Angel. Angel, apresento-te o Joshua Bennington. Lembras-te dele? Tenho falado bastante dele - disse eu. Os olhos do Joshua aumentaram e depois riu-se. Aproximou-se
da boneca.
-  igualzinha a ti.
- Sou eu - expliquei. -  o mais recente brinquedo da Fbrica Tatterton, uma boneca-retrato. Eu posei para a primeira.
-  linda. Como tu, Leigh - disse ele e corou com as suas prprias palavras. Era to bom ouvir algum, que no fosse o meu pai e o Tony, dizer estas coisas, pensei.
- Obrigada, Joshua. Mais tarde, se te apetecer, tu e eu podemos escapar-nos dos outros e eu mostro-te o labirinto ingls e a pequena casa de pedra onde posei.
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- Sim, gostava - disse ele.
Peguei na mo dele e conduzi-o de volta ao andar de baixo, onde a minha festa j estava a decorrer.
O conjunto era muito bom, e tocava msicas actuais. Havia muita comida, e toda a gente achou que a lembrana que a minha me tinha desenhado estava muito bem imaginada.
Tinha mandado fazer um globo dentro de um cubo de vidro e mandara gravar no cubo: "Leigh, ela  a maior." Aquela estravagncia toda embaraou-me, mas a mam no
parava, saboreando o papel de anfitri, fazendo perguntas a toda a gente sobre as suas famlias, apresentando o Tony e provocando um grande alarido  volta dos brinquedos
Tatterton. Queria certificar-se de que toda a gente levava para casa histrias boas sobre Farthy e a Jillian Tatterton. De alguma maneira, fazia-me lembrar como
ela costumava ser quando comeara a fazer os cruzeiros do pap e se misturava com os passageiros.
Finalmente anunciou que o filme ia passar na nossa chamada "sala de cinema privativa". Os meus amigos nem acreditavam no que tinham acabado de ouvir. No sei como,
ela tinha arranjado um dos filmes mais recentes, antes mesmo de ser exibido nas salas de cinema.
- Oh, Leigh - exclamou a Jennifer precipitando-se com o William para ao p de mim -, nunca esquecerei esta festa de anos.
- Nem eu! - exclamou o William.
A mam mandou o Tony conduzir toda a gente para o auditrio. Eu agarrei na mo do Joshua e fiz-lhe sinal para ficarmos os dois sentados numa das filas de trs.
- Quando o filme comear - segredei eu -, samos sorrateiramente l para fora para eu te mostrar o labirinto e a casa de pedra. A no ser que queiras ficar.
- Oh, no. Quero ir contigo.
- ptimo.
A sala de cinema tinha a mesma configurao de uma sala de cinema normal, com assentos almofadados macios e um grande ecr. Havia duas portas grandes na parte de
trs. A mam at tinha posto as empregadas a andar para a frente e para trs entre as coxias a distriburem sacos de pipocas. O Joshua e eu sentmo-nos na coxia
da ltima fila. A Jennifer e o William estavam ao p de ns. Eu j tinha contado  Jennifer a minha inteno de sair  socapa com o Joshua durante um bocado.
Apagaram as luzes e o filme comeou. Espermos uns
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bons quinze minutos de filme antes de eu dar um toque ao Joshua e sairmos os dois sorrateiramente. No via o Tony em lado nenhum mas, no fim do longo corredor, ainda
podia ouvir-se a mam a rir na sala de msica. Estava a falar com algum ao telefone. Conduzi o Joshua por uma sada lateral. Deparmo-nos com a claridade da luz
do dia e atravessmos rapidamente o jardim em direco ao labirinto.
- O que  isto?
- Um labirinto ingls.  muito fcil perdermo-nos aqui dentro, mas no te preocupes que eu sei o caminho. Agora at me diverte.
Ele deteve-se, com os olhos maravilhados, quando entrmos no labirinto.
- Tens a certeza de que sabes sair se formos mais para o fundo? - perguntou o Joshua, um pouco cptico. Eu ri-me.
- Tenho. No te preocupes. Alm de que, era assim to horrvel para ti perderes-te na minha companhia? - provoquei-o eu.
- Oh, no, eu...
Ri-me e continuei em frente. O Joshua agarrava a minha mo com firmeza  medida que eu o conduzia, percorrendo os corredores, dando as curvas, virando  direita
aqui e  esquerda ali, com destreza e segurana, at sairmos do lado oposto e nos depararmos com a pequena casa de pedra.
- No parece uma casa dos livros de contos? - perguntei eu, parando para respirar aquilo tudo: o dia quente e bonito, a pequena vedao amorosa e o vioso relvado
verde, to bonitos, e a prpria casa, que parecia terem sado directamente das pginas de um livro de histrias para crianas.
-  to especial.
- Sim,  verdade - disse o Joshua com suavidade e os olhos plenos de excitao.
- Anda. - Voltei a dar-lhe a mo e conduzi-o at ao porto principal.  medida que nos aproximvamos, eu ia ficando mais surpreendida por observar que as janelas
ainda tinham as persianas corridas.
- Vamos dar um pulinho at l dentro e depois voltamos para trs antes que algum d pela nossa falta. As primeiras vezes que via esta casa - expliquei eu -, costumava
sonhar vir viver para c com o homem que viesse a amar, nem que fosse durante os fins-de-semana. Viramos para c para fugir do mundo e estarmos completamente sozinhos.
- Lancei uma olhadela ao Joshua para ver se ele sentia a mesma coisa que eu. Ele estava a fitar a casa; depois olhou para mim e fez um sorriso caloroso.
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Subimos o curto caminho at  porta principal. Quando entrei, fiquei surpreendida por ver que o Tony no tinha retirado nada, nem os materiais, nem as provises.
O estdio ainda estava montado. Mas j tinha passado tanto tempo desde que acabramos o nosso trabalho ali, pensei eu. Porque no o desmontara ele?
- Oh - exclamei eu, desapontada -, pensei que j tinha voltado tudo ao que era antes.
O Joshua entrou devagar atrs de mim. Dirigi-me imediatamente para um cavalete. Tinha uma tela, um quadro de mim deitada no sof, nua. No fiquei muito tempo a olhar
para ele, pois incomodava-me, mas apercebi-me de que havia qualquer coisa de diferente nesse quadro. No o reconheci como um dos quadros que o Tony havia pintado
enquanto eu posara ali; reparei que a minha me, que invadira as imagens que o Tony desenhara do meu corpo, predominava tambm na cara desse retrato. Era autenticamente
uma mistura de ns as duas.
- Espera - pedi eu, quando o Joshua comeou a aproximar-se. - No quero que vejas isto.
- O qu? porqu? O que  isso?
-  uma coisa... pessoal - respondi eu e tapei rapidamente o quadro com um lenol branco. - Desculpa.
- No faz mal - retorquiu ele prontamente, apesar de os seus olhos terem aumentado, por se sentir confuso.
Olhei em volta rapidamente para me certificar de que no havia mais nenhum indcio do que se passara ali dentro. Vi algumas telas em carto  direita, mas estavam
empilhadas de maneira a no deixarem transparecer o que continham. Soltando um suspiro de alvio, sentei-me no sof.
- Ento isto foi um estdio de arte - observou o Joshua olhando  volta. - E foi o prprio Tony Tatterton que criou a boneca-retrato?
- Sim. Pintou-a e esculpiu-a aqui dentro.
- Que homem to talentoso. - O Joshua estava sentado ao meu lado. - Estou a ver como este stio deve ser amoroso e muito acolhedor - concordou ele, assentindo. -
Um esconderijo.
- Adorava vir aqui. Ainda adoro. S gostava que o Tony j tivesse desmontado e deixado tudo como estava antes. No percebo porque  que ainda no o fez.
- Talvez queira fazer mais trabalhos aqui - sugeriu o Joshua. A ideia nunca me ocorrera. Talvez ele conseguisse convencer a minha me a vir aqui posar ou quem sabe,
pintasse outra rapariga da minha idade.
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- Quem sabe. Mas eu gostava de v-la como era antes... A minha casa a fingir...
- Ainda pode ser a tua casa a fingir - disse o Joshua ternamente. - Tu podes sempre fingir que uma coisa  outra coisa.
- Podemos fingir que somos duas pessoas loucamente apaixonadas que vivem aqui aos fins-de-semana? - perguntei-lhe eu.
- No temos de fingir - replicou ele, e o desejo escondido por detrs dos seus olhos verdes emergiu  superfcie.
S nos beijramos meia dzia de vezes e sempre de fugida, quando nos despedamos. Mas os nossos lbios nunca se tinham detido muito tempo uns sobre os outros e nunca
nos havamos estreitado nos braos um do outro o tempo suficiente para nos beijarmos mais do que uma vez. O Joshua chegou mais perto e eu tambm. Nesse momento,
os nossos lbios tocaram-se e ps as suas mos nos meus ombros para me puxar para si. Eu agarrei-me  cintura dele.
- Feliz aniversrio, Leigh - segredou-me ele.
Voltou a beijar-me, desta vez durante mais tempo. Escapou-se-me um gemido dos lbios e o meu corpo estava excitado at  ponta dos ps. Pensei nas descries que
a Jennifer fizera dos seus momentos de amor com o William, como ele a beijava e lhe tocava. Era diferente quando uma pessoa gosta muito de ns e ns gostamos muito
dela e deixamos que ela toque em ns, pensei eu, lembrando-me do Tony a tocar em mim nessa mesma sala. Tinha de ser diferente e tinha de nos proporcionar sensaes
maravilhosas, diferentes e mais fortes.
O Joshua recuou, inseguro por me ter beijado durante tanto tempo e com tanta intensidade. Conseguia ler nos seus olhos que se sentia indeciso e hesitante. Era to
doce e to tmido, mas, por detrs dessa timidez, encontrava-se uma paixo adormecida. Podia senti-la, pela maneira como os seus lbios tremiam contra os meus e
pelo modo como os seus dedos deslizaram pelos meus ombros at tocarem no meu pescoo.
- Eu gosto de ti, Leigh. Nunca gostei tanto de nenhuma rapariga como gosto de ti.
- Eu tambm gosto de ti, Joshua.
Avanou para mim e eu fechei os olhos. Enquanto me beijava, os seus dedos deslizavam pelos meus braos. Eu tremia ante a expectativa. Estava to prximo de tocar
nos meus seios. Quando comeou a retroceder, apercebi-me de
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que no o faria. Era demasiado inseguro; mas eu tinha de conhecer a sensao, tinha de saber se seria diferente com ele.
Torci os meus ombros e dei-lhe um toque na mo com o meu antebrao, instigando-o. Ele pareceu confuso por uns momentos; depois, levou os dedos ao meu peito, rodeando
com eles o meu seio, enquanto a palma da sua mo apenas acariciava os mamilos. Era uma sensao verdadeiramente diferente, pois eu desejava as carcias dele. A excitao
subia de intensidade, viajava a uma velocidade elctrica at ao meu baixo-ventre, onde os dedos do Tony se haviam detido durante tanto tempo e a partir do qual comeara
a traar as linhas das minhas coxas, continuando a tocar-me. Exactamente nesse stio!, pensei eu. No conseguia parar de pensar naquilo, apesar de querer muito pensar
no Joshua. Invadia a minha cabea, arruinava os meus momentos de amor. Suspirei, desapontada.
O Joshua pensou que eu tinha ficado desapontada com elee afastou rapidamente a mo.
- No - gritei eu, pegando-lhe no pulso. - No estou zangada contigo.
- Leigh - segredou ele. Eu vi um desejo tal nos seus olhos, um olhar to profundo e to intenso que me deu vontade de agarr-lo e de beij-lo. Conduzi a sua mo
de novo para o meu peito, mas no momento em que o fiz, a porta abriu-se de rompante. Ambos demos um salto.
Era o Tony!
O QUE  QUE ESTO A FAZER AQUI? - griTOU ele. E
NESSE SOF! - acrescentou, como se o sof fosse uma pea de mobilirio especial. - PORQUE  QUE o TROUXESTE AQUI?
PORQUE  QUE NO ESTS com OS TEUS CONVIDADOS A VER O FILME?
O Joshua levantou-se rapidamente.
- Ns...
- Eu s vim dar um passeio pelo labirinto com o Joshua
- interrompi eu -, e decidi mostrar-lhe esta casa.
O Tony olhou para ele e depois para mim.
- E o que  que lhe estavas a mostrar nesse sof? perguntou, estreitando os olhos de to zangado que estava. Parecia furioso.
- Nada - disse eu, com o corao a bater com fora. Ele fitou-me por um momento e depois descontraiu-se.
- No est certo teres deixado a tua prpria festa prosseguiu, com mais calma, mas ainda a arfar. - Ningum
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percebeu, nem sequer a tua me, mas eu aconselho-te a voltares imediatamente - acrescentou ele, a olhar severamente para o Joshua.
- Sim, senhor - disse o Joshua. Parecia aterrorizado. Voltou-se para mim e eu comecei a contornar o sof. O Tony recuou enquanto ns nos dirigamos para a porta.
- Leigh - chamou ele, segurando no meu brao para me reter. Eu levantei os olhos para ele. - No vou contar o que aconteceu  tua me, mas mais tarde quero ter uma
conversa contigo.
- Sim, Tony - acedi eu e corri para junto do Joshua. Sem falarmos, apressmos o passo em direco ao labirinto.
- Desculpa se te arranjei problemas - disse o Joshua.
- No te preocupes. No  nada. Ele s est... a tentar ser um pai para mim - expliquei eu. - Ele acha que tem de ser um pai para mim.
O Joshua assentiu silenciosamente, mas ficou muito transtornado. Atravessmos o labirinto a correr e penetrmos em Farthy pela porta lateral. Em seguida, esgueirmo-nos
sorrateiramente para a sala de cinema. A Jennifer e o William beijavam-se no escuro. Pararam para olhar para ns, quando nos sentmos.
- Divertiste-te, Romeu? - perguntou o William ao Joshua. Este no respondeu. Enterrou-se na cadeira at o filme acabar e as luzes se acenderem.
Quando o filme acabou, os meus convidados comearam a sair. Os carros deles chegaram, alguns conduzidos por motoristas. Eu fiquei  porta, a agradecer-lhes por terem
vindo e pelos seus presentes. O Joshua, o William e a Jennifer foram os ltimos a sair.
- Espero que corra tudo bem com o teu padrasto - segredou-me o Joshua.
- No te preocupes. vou ver se consigo telefonar-te mais tarde - prometi eu.
A Jennifer e eu abramo-nos e eles partiram. Mesmo com todos os empregados a andarem de um lado para o outro, atarefados a limparem Farthy e a desmontarem cadeiras
e mesas, sentia-se um profundo vazio na manso. A enfermeira do Troy tinha-o convencido a dormir uma sesta; a minha me estava l em cima no seu quarto a descansar
do que ela chamara "prova fsica" e, tanto quanto sabia, o Tony ainda no regressara da casa de pedra. Perguntei a mim prpria o que estaria ele a fazer agora e
lembrei-me do quadro que
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tinha descoberto e tapado no cavalete. Porque estaria ele ainda a pintar esses quadros? Estaria a programar uma boneca diferente?
- Desculpe-me, menina - disse o Curtis, aproximando-se -, mas o servio de entregas trouxe isto, h pouco mais de uma hora. - Entregou-me um embrulho. Era a minha
prenda de anos do pap e da Mildred.
- Obrigada, Curtis - disse. Decidi ir para o meu quarto antes de a abrir.
Quando l cheguei, sentei-me no canap da sala de estar e desembrulhei a caixa. Tirei l de dentro uma bailarina de cermica, pintada  mo. Era uma caixinha-de-msica.
Depois de lhe dar corda e pous-la em cima da mesa, a bailarina comeou a andar  volta, ao som de um excerto de O Quebra-Nozes.
O carto de parabns do pap dizia: "A Mildred e eu encontrmos uma prenda bonita para uma bonita jovem. Parabns."
-Recostei-me e observei a boneca a danar, enquanto me vinham  lembrana as prendas e os dias de aniversrio dos anos anteriores, principalmente o ltimo, quando
o pap me oferecera este dirio. Era to feliz nessa altura, estava to longe de imaginar a tempestade de infelicidade e de tristeza que viria a cair sobre ns em
forma de torrente de chuva e de lgrimas.
De repente, o meu devaneio foi interrompido pela presena do Tony  porta da minha sala de estar. Tive a impresso de que ele j estaria ali h algum tempo a olhar
para mim.
- O que  isso?
- Uma prenda do meu pai - respondi eu, olhando para ele. Tinha um aspecto diferente. O seu cabelo, em geral impecavelmente penteado, estava desalinhado. A cara estava
vermelha, o casaco desabotoado e descado, a gravata solta. Era como se tivesse regressado da pequena casa de pedra a correr.
- Muito bonita.  importada? - perguntou ele, avanando mais para dentro.
- Acho que sim. - Pegou na boneca e virou-a ao contrrio.
- Sim, foi feita na Holanda. Vi muitas iguais durante as minhas viagens. - Voltou a pous-la. - A tua me sabe dar festas excelentes, hem? - disse ele, sorrindo.
Percebi que estava a tentar ser amvel, a tentar ter uma conversa banal,
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mas eu ainda estava zangada pela maneira como nos tinha atacado, a mim e ao Joshua.
- Sim - concordei eu. Pus a caixinha-de-msica dentro da caixa e levantei-me. - Bem, boa noite. vou guardar a caixa no meu quarto - expliquei eu e entrei no quarto,
contando que o Tony se fosse embora. Ele, porm, seguiu-me.
- Leigh, desculpa ter-te assustado na casa pequena, mas eu vi-os a entrar no labirinto e segui-os, curioso, naturalmente, para saber a razo por que tinham abandonado
todos os outros convidados.
- Eu s queria mostrar ao Joshua parte dos jardins repliquei eu, ainda de costas para ele.
-  compreensvel, mas devias ter esperado para levares tambm os outros convidados.
- Mas eu no queria levar os outros convidados - disse eu, voltando-me para ele.
- Leigh, eu sei que no sou o teu pai verdadeiro prosseguiu o Tony, aproximando-se -, mas tu s uma rapariga na flor da idade. At agora, tens sido salvaguardada
de alguma maneira, mas os rapazes, bem mais experientes, podem aproveitar-se de uma rapariga como tu. Acredita em mim. Eu conheo essas coisas.
- O Joshua no  assim - disse eu, abruptamente.
- Talvez, mas no  razo para no se ter cuidado e eu no me ia sentir bem, sabendo que... bem, no me sentiria bem se no te desse uns conselhos. Entretanto, como
te disse antes, a tua me no precisa de saber uma palavra do que se passou.  s entre tu e eu.
Deu uns passos em frente at conseguir pousar as suas mos nos meus ombros.
- Gostava que houvesse uma relao especial entre ns os dois - prosseguiu ele, bebendo-me com os olhos. Os dedos dele comearam a fazer mais fora at que comeou
mesmo a doer.
- Tony. - Fiz uma careta, mas ele no me largou.
- Efectivamente - sussurrou ele -, a tua me quer que eu ajude a tomar conta de ti, espera que eu assuma essa responsabilidade com ela. Sente que  uma responsabilidade
muito grande ser me de uma filha adolescente. Eu no me importo. Tu s bonita de mais e importante de mais.  preciso tomar conta de ti e proteger-te. Por favor,
deixa-me proteger-te, deixa-me tomar conta de ti.
- Eu aprecio o que quer fazer por mim, Tony. Obrigada
- disse eu. S queria acabar com esta conversa. O olhar dele
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era fervoroso e os seus dedos apertavam-me cada vez com mais fora.
- O que eu quero dizer  que eu sei o que passa pela cabea de um homem, principalmente de um homem jovem, quando te beija e pe as suas mos sobre os teus ombros,
assim - explicou ele. Os seus dedos distenderam-se e deslizaram pelos meus braos abaixo. Sorriu. - Tu no percebes o tipo de poder que possuis sobre um homem.
Poder? De que  que ele estava a falar agora? Porque  que estava a ser to exagerado? Fora um incidente. Acabara. Porqu insistir naquilo durante tanto tempo e
com tanto fervor?
- Sim, poder. Tu j possuis esse poder, o mesmo tipo de poder que a tua me detm. A tua beleza e a beleza dela so hipnotizantes. Qualquer homem que olhe para uma
de vocs sente-se fraquejar, sente todo o seu poder de deciso a dissipar-se como fumo. Mas quer continuar a ser escravo da vossa beleza. Sente-se satisfeito pelo
simples facto de ser virado e revirado do avesso, de ser estreitado e afagado. Vive para isso - disse ele, to baixinho que praticamente tive de lhe ler os lbios.
- Consegues entender? Percebes?
- No - respondi eu, abanando a cabea. Tentei recuar, mas ele segurava nos meus antebraos com demasiada fora.
- Quando um homem est to perto de ti como aquele rapaz na pequena casa de pedra e tu deixas que ele te afague
- murmurou ele, enquanto a sua mo esquerda largava o meu brao e descia sobre o meu peito -, o seu corao transforma-se numa pequena fornalha que distribui calor
a latejar por todo o corpo. Pouco depois, j no  capaz de se controlar. A culpa no  dele. Ele torna-se um fantoche, e tu, a sua manipuladora - continuou ele,
ainda a acariciar o meu peito com os seus dedos.
Fazia tanta fora com a mo direita que eu no conseguia mexer-me. As pequenas veias da sua testa quase rompiam a pele. Ele estava a acariciar-me da mesma maneira
que o Joshua fizera.
Quanto tempo teria ele estado a observar-nos antes de decidir interromper? Tinha-nos visto a entrar no labirinto; portanto, tinha-nos seguido, pensei. Porque no
teria chamado por ns quando nos viu pela primeira vez, se achava que era assim to mau da nossa parte abandonarmos os outros convidados?
- Tens de ter conscincia dos teus poderes, Leigh, para
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no fazeres um uso incorrecto deles. - Levou os seus dedos  minha clavcula. - Eu vi como aquele rapaz te beijou e tu o beijaste. No podes estar  espera que as
coisas acabem por ali.  como se estivesses a acender um fsforo numa pilha de feno, pensando que apenas faria uma pequena chama por uns momentos e que depois podias
apag-la.
"Mas uma vez acesa, a chama propaga-se rapidamente, liberta-se, corre sozinha e consome-se tal como consome o feno. Eu quero mostrar-te, abrir-te os olhos, ensinar-te
prosseguiu ele. - No deves nunca ter medo de mim. Tens de confiar em mim e permitir que eu te ajude. Vais fazer isso, Leigh? Vais? - perguntou ele.
Eu no sabia o que dizer. "Mostrar-me? Abrir-me os olhos? Ensinar-me?" O que  que aquilo tudo queria dizer?
- Eu j lhe disse, Tony. Aprecio a sua preocupao.
- Sim - repetiu. - A minha preocupao. Sim - Estreitou-me nos seus braos fortes e beijou-me na cabea. Minha linda boneca-retrato, minha obra de arte nica.
Abraou-me durante muito tempo e com muita fora. Por fim, os seus braos largaram-me e eu recuei. Ele passou com os dedos pelo cabelo.
- Ento, voltamos a ser amigos? - perguntou ele.
- Sim, Tony. Somos amigos.
- ptimo. Nada me entristeceria mais neste momento do que perder a tua amizade e a tua afeio, principalmente depois de termos feito tanto sucesso juntos - disse
ele e olhou para a Angel. - Olha para ela, para a maneira como ela olha para ns. Captei uma parte da tua beleza para a cara dela, pintei uma nota da tua delicada
melodia e, sempre que olho para a boneca, consigo ouvir essa melodia. A minha obra de arte mais grandiosa. Agora percebo como um artista se pode apaixonar pelas
suas prprias criaes. Voltou a virar-se para mim e eu lembrei-me do quadro na casa pequena.
- Tony, porque  que est a pintar-me outra vez? Est a planear uma nova boneca? - perguntei eu.
- A pintar-te outra vez?
- Sim, aquele quadro no cavalete, o que eu cobri com o lenol.
- Esse quadro no  novo, Leigh.
No entanto, eu tinha a certeza que sim. Eu tinha visto todos os quadros e em nenhum deles se notavam to nitidamente as feies da mam.
- Porque  que o estdio ainda est montado na casa pequena?
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- Ainda no passei por l para desmont-lo. Para te dizer a verdade, at gosto de ir l de vez em quando e reviver os momentos que passmos juntos a criar esta maravilhosa
obra de arte. Aquela casa tornou-se um lugar muito especial para mim agora. - As feies dele endureceram, os lbios comprimiram-se, os olhos diminuram. - Por isso
 que hoje fiquei to desapontado por teres l levado um estranho.
- O Joshua no  um estranho, Tony - disse eu prontamente.
- Mesmo assim, esperava que achasses que aquela casa era um lugar especial. Antes de voltares a levar l algum, por favor, pede-me primeiro, est bem? - Eu concordei.
Estava cansada e queria acabar aquela estranha conversa. Ele voltou a olhar para a boneca. - Tenho a certeza de que a tua boneca sente a mesma coisa - acrescentou
e sorriu. De qualquer modo, o motivo que me trouxe aqui foi desejar-te mais uma vez um feliz aniversrio.
- Obrigado, Tony.
Ele tornou a aproximar-se.
- Parabns, Leigh - murmurou e deu-me um beijo rpido nos lbios. - Dorme bem - acrescentou, virando-se e saindo.
Mal ele se foi embora, fechei a minha porta. O Tony deixara-me agitada e confusa. No sabia que pensar. Lavei-me e preparei-me para ir dormir, feliz por me enfiar
por baixo do meu cobertor macio, ao lado da Angel. Revi os acontecimentos do dia. A festa fora espectacular. Todos os meus amigos se tinham divertido imenso e o
Joshua beijara-me e abraara-me de uma maneira to romntica, antes de o Tony nos ter interrompido. Eu tinha um namorado real, um namorado especial.
Lembrando-me de que tinha prometido telefonar-lhe, sentei-me na cama e marquei o nmero.
- Joshua - disse ele. Nunca dizia "ol".
-  a Leigh.
- Est tudo bem?
- Sim. O meu padrasto saiu h bocado. Estava preocupado, mas no vai dar muita importncia ao assunto, nem vai contar  minha me. No te preocupes e, de qualquer
modo, eu no me importo. No fizemos nada de mal. Eu queria que tu me beijasses - confessei eu.
- E eu queria beijar-te a ti. Foi uma festa maravilhosa, Leigh. A melhor festa a que eu j assisti.
- Foi maravilhosa porque tu vieste e pudemos estar juntos
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durante algum tempo. Vais visitar-me  escola no prximo fim-de-semana?
- Claro. O William e eu j estamos a planear o que havemos de fazer.
- Mal posso esperar. Boa noite, Joshua.
- Boa noite, Leigh.
- A Angel tambm te deseja uma boa noite - acrescentei eu a rir. Levei a minha boneca-retrato ao auscultador, como se ela pudesse realmente ouvi-lo e falar com ele.
- Boa noite, Angel.
O Joshua tambm se riu.
Depois de pousar o auscultador, abracei a Angel. Desliguei as luzes, na expectativa de recordar os beijos do Joshua e as sensaes que me tinha provocado, mas, ao
contrrio do que esperava, s via o Tony  minha frente, a fixar a minha cara com uns olhos penetrantes, os lbios a brilhar, o sorriso firme. Na minha cabea, via
a mo dele, e no a mo do Joshua, sobre o meu peito.
"Quero mostrar-te, abrir-te os olhos, ensinar-te", dissera ele. Porque me fariam tremer essas palavras? Ele s estava a tentar ser um bom padrasto, no era? Porm,
era necessrio tocar-me naquele stio para o demonstrar?
Gostava de poder contar  minha me e pedir-lhe a sua opinio. Porm, como podia fazer isso sem lhe contar tudo? Que o Joshua e eu saramos sorrateiramente da festa
e framos para a casa pequena beijar-nos e eu permitira que ele me afagasse?
No, no, pensei eu, o comentrio dela seria que o Tony tinha feito o que devia.
No contaria nada; era melhor esquecer, pura e simplesmente. Ningum, para alm da minha boneca Angel, iria saber que o Tony Tatterton me agarrara, me afagara e
me beijara no meu quarto esta noite, mas eu tinha a certeza de que era apenas o incio. Iria haver muitos mais segredos entre a minha boneca e eu.
Por fim, adormeci com ela nos meus braos.
Se o Tony alguma vez contou  minha me o incidente da casa pequena, ela ou se esqueceu ou no deu muita importncia ao assunto, pois nunca o mencionou. O Joshua
e eu tambm deixmos de falar nisso, apesar de no nos termos esquecido do modo como nos beijmos e abramos. O meu corpo tremia sempre que sonhava que ele me voltava
a abraar e a beijar daquela maneira. Ns at nos beijvamos
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quando amos ao cinema, mas no era a mesma coisa, pois no estvamos sozinhos. No havia muitas oportunidades para estarmos sozinhos. Os rapazes estavam proibidos
de entrar nos quartos em Winterhaven e as raparigas estavam proibidas de estar nos quartos deles em Allandale.
A minha me autorizou-me a ficar em Winterhaven muitos mais fins-de-semana do que eu esperava. O Joshua, eu, o William e a Jennifer ramos o tema de conversa da
escola. Estvamos sempre a passear e a fazer coisas.
A Marie e o "clube especial" tambm amansaram connosco. Antes do Natal j falvamos abertamente umas com as outras: convidvamo-las para o nosso quarto e comemos
novamente a ser convidadas para os quartos delas. Um dia, a Marie fez-nos um convite formal para voltarmos a pertencer ao clube. Ns aceitmos, mas, para dizer a
verdade, no podamos estar tanto tempo com elas como inicialmente. Passvamos os fins-de-semana inteiros na companhia do Joshua e do William.
A" boneca-retrato tornou-se um artigo de Natal formidvel para a Fbrica de Brinquedos Tatterton. O Tony mandou publicar anncios em revistas e jornais por todo
o pas. O jornal de Boston escreveu artigos sobre as bonecas e eu deparei comigo em grande plano nas suas pginas. Tal como o Tony tinha previsto, a maior parte
das raparigas em Winterhaven tambm quis possuir a sua boneca-retrato, e pouco tempo depois, j dzias delas haviam feito a sua encomenda. O Tony andava extasiado
e, sempre que eu vinha a Farthy passar o fim-de-semana, ele tinha muitas coisas para me mostrar e para me contar sobre o projecto.
Durante os meses de Inverno, ele fez mais algumas viagens, criando novos mercados para as bonecas no Canad, Frana, Inglaterra, Espanha e Itlia. Estava contente
com o sucesso que tinha alcanado no mbito da concorrncia com as empresas europeias que tinham projectos similares. A mam apenas foi com ele uma vez, numa viagem
que inclua uma semana em St. Moritz no Hotel Palace.
Infelizmente essa era a semana da representao da pea de teatro da escola. Eu tinha um papel importante, mas nem ela nem o Tony puderam assistir. Esperara secretamente
que o pap pudesse vir, pois ele escrevera-me dizendo que viria  costa leste em meados de Maro para umas reunies em Nova Iorque e em Boston, mas nunca chegou
a responder ao convite que lhe fiz por carta.
Mesmo assim, ainda tinha uma rstia de esperana de
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que, quando espreitasse por entre as cortinas, o visse a ele e  Mildred a entrarem e a sentarem-se nos lugares da fila da frente; ele, porm, no apareceu. Na semana
seguinte, chegou outra carta, cheia de pedidos de desculpa, e eu fiquei a saber que ele no conseguira cumprir o programa e ainda no tinha ido a Nova Iorque. Ainda
se encontrava na costa oeste. Dizia que tinha visto um anncio da boneca-retrato Tatterton e que a achara linda.
Quando a Primavera chegou, as bonecas-retratos tinham-se tornado num negcio multimilionrio para o imprio da Fbrica de Brinquedos Tatterton. O Tony no parava
de me agradecer por ter sido a primeira modelo. Contou-me que estava a pr de parte uma percentagem dos lucros num fundo de garantia em meu nome. A mam achava isso
tudo maravilhoso e comentou como eu tinha sido tola quando hesitara em posar.
- Afinal, o Tony fez de ti uma estrela - disse-me ela.
- No  sensacional?
Devia ser. Todas as raparigas da escola me invejavam, tinha uma boneca s para mim e agora at estava a fazer a minha prpria fortuna devido a isso. Afinal, o Tony
era uma pessoa delicada e sincera, pensei, e a opinio negativa que tivera em relao a ele, as coisas que ele me tinha feito e dito, e que me tinham assustado,
desapareceram da minha cabea. O mundo que se tornara cinzento e triste depois do divrcio dos meus pais, voltava a ser claro e alegre. A luz do Sol tinha rompido
as nuvens. Tinha amigos, um namorado, uma casa fascinante e tudo o que uma rapariga da minha idade podia desejar: roupas, jias, discos, tudo.
Para a mam, era diferente. Apesar da sua enorme fortuna, apesar de agora estar casada com um homem de negcios bonito, inteligente e rico, passava a vida a lamentar-se
por tudo e por nada. Ainda estava perturbada com o excesso de peso e com o que ela considerava imperfeies no seu corpo. Por fim, em finais de Maio, anunciou que
ia  Sua fazer uma "cura de guas milagrosa" de que uns amigos ricos lhe tinham falado. Ia l ficar pelo menos um ms ou "o tempo que fosse preciso". O que me
agradou mais foi que ela disse que eu podia ficar em Winterhaven sem vir a casa at ao fim do ano lectivo.
Partiu na ltima semana de Maio. Duas semanas depois, terminou o meu segundo ano em Winterhaven. O Joshua, o William, a Jennifer e eu fizemos imensos planos para
o Vero. Esperava poder fazer metade de tudo o que sonhvamos
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fazer. Pensei que podia comear por convid-los para virem a Farthy no primeiro fim-de-semana depois de a escola terminar; porm, quando pedi ao Tony, este disse
que achava melhor esperar pelo regresso da minha me antes de ir a algum stio ou de receber visitas.
Foi a nossa primeira discusso e tivemo-la no decorrer do nosso primeiro jantar juntos. At o pequeno Troy ficou perturbado.
- Eu j no sou uma criana, Tony. No tenho de obter permisso da minha me para tudo e mais alguma coisa queixei-me eu.
- No, mas j no falta muito tempo para ela chegar e  melhor que seja ela a tomar uma deciso dessas - disse ele, com suavidade.
- Porqu? No  uma deciso para a minha vida. S quero convidar alguns amigos para passarem o fim-de-semana. E no h o problema de no haver espao ou de no podermos
arcar com a despesa - insisti eu.
- Claro que temos espao e podemos perfeitamente ter convidados. Mas tu ainda s menor e os stios para onde vais e com quem vais so decises que devem ser tomadas
pelos teus encarregados de educao - replicou ele. - Alm disso, depois do que aconteceu quando te viste sozinha com um rapaz... Eu teria de passar a vida a tomar
conta de ti e...
- Isso no  justo - gritei eu.
- Contudo,  uma grande responsabilidade. Sentir-me-ia muito melhor se esperssemos at a Jillian voltar. No falta assim tanto tempo e alm disso...
- vou morrer de tdio at a mam chegar a casa! choraminguei eu. Foi quando os olhos do pequeno Troy tambm se encheram de lgrimas.
- No vais nada - disse o Tony, sorrindo de repente. Eu vou tirar umas pequenas frias e, com este tempo to maravilhoso, h-de haver muito para fazer. Vamos andar
a cavalo. Eu j comecei a encher e a aquecer a piscina exterior.
- No  a mesma coisa! - afirmei eu. Atirei com o meu guardanapo para cima do prato da comida. - Sinto-me enganada.
- Ento, Leigh, por favor, no vais ter um acesso de fria. Tem corrido tudo to bem desde que a tua me se foi embora. Eu detestaria que...
- No me interessa. No  justo - repeti eu e levantei-me da mesa.
- Leigh! - gritou o Tony.
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Sa da sala a correr, subi para o meu quarto e atirei-me para cima da cama. Agarrei na Angel e solucei at no poder mais. Em seguida, sentei-me na cama, limpei
os meus olhos e olhei para a minha linda boneca. Ela tinha um ar to compreensivo e to triste, tambm.
- Oh, Angel - disse eu -, porque  que eu no posso ser igual aos outros jovens da minha idade e viver numa casa normal com uma famlia normal, para poder fazer
as coisas que as raparigas da minha idade querem fazer? Estou-me nas tintas para toda esta riqueza. Qual a vantagem de ser rica, se isso no me traz felicidade?
Suspirei. Claro que a minha boneca no podia responder, mas sentia-me melhor quando falava com ela.
Levantei-me com a Angel nos braos e fui at  janela com vista para os jardins da parte da frente da casa.
- Vai ser como estar numa priso, Angel. Os meus amigos no podem vir aqui e eu no os posso visitar at a mam voltar. O que  que vou dizer ao Joshua quando ele
telefonar? O que  que vou dizer  Jen? Que vergonha!
"Como  que o Tony pode achar que eu me sinto feliz s por estar na companhia dele?  verdade que gosto de andar a cavalo e de tomar banho na piscina. Mas eu gostava
de fazer algumas dessas coisas com os meus amigos e no com o marido da minha me.
Como se me tivesse ouvido a falar dele, o Tony apareceu subitamente l em baixo. Descia em passo rpido um atalho no jardim em direco ao labirinto ingls. Pouco
depois, desapareceu l dentro. Tinha a certeza que ele ia a caminho da pequena casa de pedra. Mas porqu? Porque  que ele tinha mantido o estdio? Porque  que
me tinha mentido sobre o quadro novo, quando lhe perguntara? Dissera que no estava a elaborar uma boneca-retrato nova. Ento, o que  que estava a fazer?
Impelida pela curiosidade, assim como pelo aborrecimento ou pela frustrao, voltei a pousar a Angel na minha cama e desci as escadas a correr, esgueirando-me por
uma porta lateral de Farthy, a fim de o seguir. No queria que o Troy me visse, nem que me perguntasse onde ia ou o que  que ia fazer. Iria pedir para eu o levar
comigo.
Nessa poca, a luz do dia ia at mais tarde; mas o Sol, brilhante e alaranjado, na sua descida relutante pela linha do horizonte, parecia um sonho, parecia to etreo.
Os pssaros j se haviam recolhido; apenas alguns ainda chilreavam. No se ouviam andorinhas-do-mar a gritar. O cu azul estava a ficar
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cerrado a leste e achei que tinha visto a primeira estrela distante a cintilar e a romper lentamente a imensa vastido do espao.
Atravessei a relva a correr e entrei sorrateiramente, como uma espia, nas sombras longas e grandes projectadas pelas altas sebes. Olhei uma vez para trs para a
manso. Tinha deixado as luzes da minha suite acesas e conseguia ver o papel de parede e as cortinas. Ento, voltei-me para o labirinto, pus o ouvido  escuta e
entrei.
Nunca esses corredores me tinham parecido to sossegados e to escuros. Apercebi-me de que nunca tinha entrado no labirinto quela hora do dia, nem  noite. Como
encontraria o caminho de regresso? Estaria escuro de mais no seu interior, mesmo agora? Hesitei. Como teria o Tony atravessado o labirinto e como regressaria ele?
Ainda impelida por uma curiosidade demasiado forte, prossegui pelo primeiro corredor, voltando rapidamente na primeira e na segunda curva e depois caminhando o mais
silenciosamente possvel pelo interior do labirinto. Os nicos sons que se ouviam eram as ligeiras pisadas dos meus ps sobre alguns galhos cados e a minha prpria
respirao pesada. Por fim, sa do outro lado e defrontei-me com a casa de pedra. As persianas ainda estavam corridas, mas podia-se perceber que as luzes l dentro
estavam acesas. Seria possvel que o Tony tivesse uma modelo nova, algum que ele quisesse manter em segredo? Teria medo que eu ficasse ciumenta? Ou que a mam ficasse
zangada ou com cimes? Rondando em torno das sombras, agora projectadas pelas rvores, apressei-me em direco  pequena vedao e pus-me  escuta. Ouvia-se msica
suave, mas nenhumas vozes.
Cuidadosamente, atravessei o porto da frente e fui at  primeira janela. Era difcil ver o interior, pois a persiana tinha sido toda corrida. S conseguia vislumbrar
as pernas do cavalete. Fui at  segunda janela. Nesta podia ver muito melhor o que se passava l dentro, pois a persiana estava pelo menos a um centmetro do fim.
Da janela, tinha uma perspectiva da parte de trs da sala. Estava a olhar em direco  porta da frente, por detrs do cavalete.
Ajoelhei-me devagar e espreitei pelo fundo da janela, atravs da abertura. O Tony no estava na sala, mas o quadro que eu descobrira quando trouxera o Joshua qela
casa estava l.
Sobressaltei-me quando reparei naquilo que o Tony lhe tinha acrescentado.
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Tinha-se desenhado e pintado a ele prprio deitado, nu, ao lado da figura feminina que combinava tantas caractersticas da minha me e de mim. Porque  que ele teria
feito aquilo? O que  que significava aquilo?
Quando estava para me levantar e ir embora, ele apareceu, vindo da cozinha.
Sobressaltei-me novamente. O Tony estava completamente nu.
Parou abruptamente e olhou na minha direco. Por momentos, senti o meu pescoo a gelar e no consegui mexer-me. Ter-me-ia visto?
Sem hesitar, dei um salto e deslizei o mais depressa que pude at ao porto principal; abri-o e corri o mximo que os meus ps permitiram, at entrar de rompante
no corredor de sebes do labirinto.

17 LIES DIFCEIS

Devido ao facto de estar enervada e de a luminosidade ser escassa, curvei onde no devia e dei comigo s voltas no interior do labirinto. Frentica e encharcada
em suor, parei para retomar o flego. O meu corao palpitava com tanta fora que pensei que fosse despedaar-se com o esforo e a presso que estava a sofrer. Respirei
fundo e tentei desesperadamente controlar-me para poder pensar com calma e restabelecer o meu sentido de orientao. Como me cheguei demasiado para trs, o cabelo
ficou preso nuns galhos e comecei a gritar, pois no sabia o que estava a acontecer. Pensei que algum me tinha agarrado. Quando percebi, desprendi rapidamente o
cabelo e prossegui.
com muita ateno, virei uma vez, e depois outra, obrigando-me a mim prpria a percorrer as sebes devagar e com preciso, quando me deparei com a familiar entrada,
do lado de Farthy, e sa a correr do labirinto. Parei de novo para tomar flego e pr-me  escuta. Ter-me-ia o Tony visto? Estaria a seguir-me? No ouvia passos,
nada.
Pelo sim, pelo no, voltei para casa a correr e subi para a minha suite. Logo que entrei, fechei a porta e encostei-me a ela. Por detrs das minhas plpebras fechadas,
revi a imagem do ltimo quadro pintado pelo Tony. A mo esquerda do Tony cobria totalmente o meu seio direito, ele sorria para mim e a cor dos seus olhos azul-celestes
era to brilhante que estes pareciam absolutamente iluminados na pintura.
Ento, revi a imagem dele a surgir, nu, da cozinha. Deduzi que tirara as suas roupas porque estivera a usar-se a si prprio como modelo. Devia haver um espelho na
parede, pensei. Haveria mais alguma razo para se despir enquanto pintava?
Ele no tinha gritado, nem se tinha vestido a correr para me perseguir. Talvez at nem me tivesse visto a espreitar pela
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janela, afinal. Decidi que no ia falar no assunto. Quando a minha me voltasse, contar-lhe-ia. Ela devia saber destas coisas. Era to estranho.
Descontra-me, agora que estava a salvo dentro do meu quarto. O meu corpo ainda estava pegajoso do suor, a minha blusa de seda pegava-se aos braos e ao peito, como
se tivesse sido colada a mim. Sentia-me maltrapilha e suja, no s devido  fuga atravs das sebes, mas tambm pelo que tinha visto. Abanei a cabea e encolhi os
ombros. Em seguida, abracei-me a mim prpria como se tivesse sido apanhada por uma tempestade de neve e atravessei a minha suite em passo rpido, em direco  casa
de banho para pr a correr um banho quente. Deitei l para dentro alguns sais de banho para fazer espuma, observei a gua a ficar esverdeada e senti o seu doce perfume
 minha volta, como se fosse fumo.
Fui ao meu roupeiro e escolhi uma camisa de dormir. Depois de a pendurar na porta da casa de banho, sentei-me no toucador e escovei o cabelo. Sobre a mesa caram
alguns galhos e folhas minsculos. Olhando para o espelho, vi que a minha cara ainda estava bastante corada, as minhas bochechas eram vermelho-vivo, como se tivessem
levado um estalo. Reclinei-me por uns momentos, aturdida. Ento, lembrei-me do meu banho e levantei-me rapidamente. Despi a roupa o mais depressa possvel e deixei-me
afundar no lquido calmante, tpido e perfumado. A gua envolveu-me, fechei os olhos e recostei-me, gemendo de prazer.
 provvel que tenha adormecido dentro de gua durante alguns minutos. No sei; perdi a noo do tempo. De repente, abri os olhos e apercebi-me de que a gua do
banho tinha arrefecido consideravelmente. Sa de imediato e sequei-me. Em seguida, vesti a minha camisa de dormir e deslizei para debaixo do cobertor macio,  procura
da segurana e do calor da minha cama. S queria adormecer e esquecer esse dia.
Quando olhei pela janela  minha esquerda, vi uma fatia da Lua prateada a brilhar atravs de algumas nuvens de gaze. Por cima da Lua, cintilava uma estrela sozinha,
como se fosse a luz de um barco ancorado de noite, num lugar bem longe, no meio do oceano escuro. A luz da Lua afluiu ao meu quarto, transformando a minha moblia
em silhuetas fantasmagricas, mas os olhos da Angel pestanejavam tranquilizadoramente. Inclinei-me e segurei na mozinha da boneca. A seguir, fechei os olhos e deixei-me
afundar no sono, ansiosa por paz e por escurido.
De sbito, abri os olhos. Senti que no estava sozinha.
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No me mexi; escutei com ateno e esperei. Ouvia-se distintamente o som da respirao pesada de outra pessoa. Em movimentos milimtricos, fui-me virando gradualmente
na cama at estar completamente deitada de costas para baixo, a olhar para cima.  luz prateada da mesma Lua que me tinha acalmado e adormecido, encontrava-se o
Tony Tatterton. O seu peito estava nu e brilhava. Eu tremia tanto que pensei que fosse gaguejar quando falasse, mas as palavras saram-me directas e verdadeiras.
- O que  que quer, Tony? - perguntei eu.
- Oh, Leigh, minha Leigh - sussurrou ele. - Est na hora de dar vida ao meu quadro. Est na hora de fazer o que te prometi: mostrar-te, ensinar-te...
- Que quer dizer com isso? O que  que quer? Agora estou a dormir. Por favor, v-se embora - implorei eu, mas ele no foi. Estava sentado na minha cama. Tinha medo
de baixar os meus olhos, de seguir as linhas do seu corpo, pois podia sentir, sem olhar, que ele estava completamente nu.
- s to bonita como a tua me - disse ele, inclinando-se para afagar o meu cabelo. - Mais bonita. Os homens procurar-te-o onde quer que estejas, mas tu s como
uma obra de arte preciosa. Ningum te deve tocar nem abusar de ti. s especial de mais, no entanto, tens de saber o que isso  e o que pode acontecer. Tens de estar
preparada e ter conscincia do que isso . Eu posso faz-lo por ti. Sou o nico que deve fazer isso por ti, pois, de certo modo, fui eu que te criei.
Levou a sua mo  minha cara. Eu tentei recuar, mas a minha cabea j estava encostada  almofada.
- Eu fiz-te emergir da tela - prosseguiu -, e, tal como Pigmalio, enchi-te de vida e de beleza. Todos os que regalam os olhos na boneca-retrato, esto a deliciar
os seus olhos na tua beleza, beleza essa que eu esculpi com estes mesmos dedos - murmurou ele, passando com as pontas dos dedos na linha do meu maxilar e descendo
at ao pescoo.
- Tony, quero que se v embora j. Por favor, saia daqui agora - pedi eu numa voz trmula. No consegui evitar. O meu corao martelava e eu estava a engolir o meu
prprio flego, respirando o ar suficiente para formar palavras e fazer exigncias.
Ele agia como se no me ouvisse. Em vez de sair, afastou o cobertor, dobrando-o com cuidado  medida que me ia destapando. Eu inclinei-me para voltar a pux-lo para
cima, mas ele apanhou a minha mo e levou-a aos seus lbios.
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- Leigh - suspirava ele. - Minha boneca...
- Tony, saia daqui. O que  que est a fazer?
Ergui a minha cabea e os ombros e vi que ele estava realmente nu, dos ps  cabea. Deitou-se na cama ao meu lado, com as mos nas minhas coxas, forando a minha
camisa de dormir a subir pelo meu corpo acima. Eu queria falar, dizer-lhe que era quase filha dele e que ele no devia estar a fazer aquelas coisas, mas no conseguia
respirar. Ele j tinha levantado a camisa de dormir at  cintura.
Empurrei-o, para o manter afastado, fazendo presso na sua testa; porm, ele era to forte e estava to decidido...
- Tony, o que  que pensa que est a fazer? Saia de cima de mim. Por favor, pare!
Ele baixou a cabea at tocar com os seus lbios no meu pescoo, deixando um rasto  volta da minha garganta, saboreando o sabor e o toque da minha carne. Eu tremia,
queria que ele parasse, mas as minhas pequenas mos e os meus fracos braos no produziam qualquer efeito sobre os seus fortes ombros e peito. J puxara a minha
camisa de dormir at  altura dos braos. Quando comprimiu o seu peito contra os meus seios nus, consegui sentir as batidas regulares do seu corao; parecia que
eu fazia parte dele. Entretanto, tinha encostado os seus lbios  minha orelha.
- Tens de experimentar, perceber, conhecer - sussurrava ele. - Vais saber e vais estar preparada.  meu dever, minha responsabilidade, faz parte do processo artstico
envolvido na tua criao - continuava ele, tentando convencer-se de que o que estava a fazer estava certo e era necessrio.
- NO! PARE!
Tentei bater-lhe, socando-lhe os ombros e o pescoo com os meus minsculos punhos, mas estes eram como moscas na garupa de um cavalo: um incmodo menor. Senti as
pernas dele a meterem-se entre as minhas. O meu pnico aumentou. As suas mos haviam deslizado para baixo e tinham-me abraado, prendendo com firmeza os meus braos
contra o meu corpo. Os lbios dele moviam-se ao longo da minha clavcula e detiveram-se entre os meus seios. Senti o molhado da ponta da sua lngua.
- Mostrar-te... ensinar-te...
- TONY!
O meu corpo tremia e arrepiava-se, mas eu quase que no conseguia mexer as mos, pois os seus braos fortes prendiam-me como tenazes. Ele avanava, encaixando-se
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com firmeza entre as minhas pernas e usou ento as suas coxas para afastar as minhas.
Tens de perceber... Eu sou responsvel... Por favor,
no resistas. Deixa-me mostrar-te... Ensinar-te...
- PARE! - gritei eu uma ltima vez; era, porm, um grito intil. O Tony forou-me a fazer o que devia ter sido oferecido por amor. O impulso dele foi vigoroso e
preciso, abrindo-me para ele. Senti uma dor quente e seca a vir e a ir. Senti-me tonta e fraca. Talvez at tenha desmaiado por uns momentos. O meu corpo estava inteiramente
s suas ordens, movendo-se ao mesmo ritmo do dele. Por um momento, senti-me separada do meu corpo: a minha cabea cada para trs, sobre a almofada, e o resto de
mim por baixo dele. Ele estava a fazer o que queria. Na sua cabea, estava-me a esculpir de uma maneira diferente.
Os meus gritos eram to fracos como gritos de boneca. Mordi o lbio inferior e tentei suportar. O calor subia-me pelas pernas e pelo estmago em ondas contnuas
e rtmicas, viajando cada vez mais alto at me soterrar. Parecia que estava a afundar-me na cama por baixo dele.
Por fim, soltou-me os braos e o tronco e levou os seus dedos aos meus lbios e ao meu rosto, fazendo em seguida o mesmo com os seus lbios.
- Ests a ver? Sentes e percebes o seu poder? Agora fiz-te uma mulher - proclamou ele. - Completei a minha maior obra de arte, transformei-te numa boneca viva.
Gemi, a engolir os meus gritos. Tinha as faces molhadas das lgrimas. Mantive os olhos fechados, senti os seus lbios a comprimirem-nos com suavidade e a seguir
senti o seu beijo nos meus lbios. Depois de um silncio bastante longo, saiu de cima de mim. No me atrevia a falar ou a mexer, com medo que ele voltasse. Ouvi-o
a dar um suspiro profundo antes de sentir o seu dedo a traar uma linha pelo meio dos meus seios, prosseguindo at  barriga. Manteve-o ali por momentos.
- Minha boneca... minha boneca-retrato. Dorme bem murmurou por fim.
Ouvi os seus passos a afastarem-se e abri os olhos no momento em que ele atravessava a porta e saa. Mal a porta se fechou, rebentei em lgrimas, e os meus ombros
tremiam. Abracei o meu corpo nu e solucei. Por fim, sentei-me. Fixei os olhos na escurido, incrdula, pondo em causa o que tinha acontecido. Talvez fosse apenas
um pesadelo. Queria negar o que tinha acontecido, mas o meu corpo, ainda a tremer
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pelo efeito dos seus beijos e da sua violao, no me permitia ignorar nem fingir.
Fazer o qu? Ir ter com quem? A mam ainda estava fora. O meu pai tinha-se ido embora, com a sua nova mulher, para aumentar o seu negcio. Aqui s havia os empregados
e o pequeno Troy. Sa da cama e fui para a casa de banho, avanando rente  parede. Liguei a luz e olhei para a minha imagem no espelho de corpo inteiro. A minha
cara estava vermelha e riscada de lgrimas. O meu pescoo e os meus ombros tinham marcas dos seus beijos e carcias forados. A viso de mim prpria nesse estado
fez-me recordar o que tinha acontecido. Voltei a ficar tonta e tive de me sentar.
Pensei em telefonar  Jennifer ou ao Joshua; porm, tinha demasiada vergonha. Ia-lhes dizer o qu? E, alis, o que  que qualquer um deles podia fazer? S me tinha
a mim prpria. Tinha de ser eu a socorrer-me. Finalmente, depois de respirar fundo uma srie de vezes, fui capaz de me levantar outra vez. Desliguei a luz e voltei
para a cama. Que mais podia fazer? No podia desatar a gritar e a delirar pelos corredores de Farthy.
Agarrei a Angel. Parecia chocada, triste. Estreitei-a nos meus braos, procurando obter o conforto que to desesperadamente precisava. Por ironia, era a boneca que
o Tony criara que estava ali para me acalmar, aps as coisas terrveis que ele me tinha feito passar. Mas havia mais de mim nessa boneca do que dele, pensei. E agora,
ela desprezava-o tanto quanto eu.
- Oh, Angel, s nos temos uma  outra. O Tony tinha razo numa coisa... Somos ambas bonecas-retratos.
Fechei os meus olhos e deixei que o sono me voltasse a abraar e a levar para longe desse mundo cruel e chocante.
A luz quente do Sol acariciou a minha cara e fez-me abrir os olhos. Pestanejei, tomando conscincia de onde estava e do que tinha acontecido nesse quarto na noite
anterior. Quando me sentei na cama, no sei como, estava  espera que estivesse tudo de pernas para o ar, estava  espera que o mundo estivesse to confuso como
eu; porm, nada mudara  minha volta. O quarto estava to limpo e to arrumado como anteriormente. A luz do Sol raiava alegremente atravs das suas janelas. At
a Angel tinha um aspecto radioso e renovado.
Fora tudo um pesadelo? Olhei para mim prpria como se houvesse no meu corpo alguma prova do sucedido. Os meus
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braos estavam doridos, no stio onde o Tony mos prendera contra o corpo com as suas garras imorais, e doam-me as coxas. No entanto, alm dessas sensaes, no
havia cicatrizes reveladoras nem marcas da sua paixo. Todavia, eu sentia que todas as cicatrizes se encontravam dentro de mim. No fora um pesadelo.
Levantei-me devagar e sentei-me por momentos em cima da minha cama, pensando no que iria fazer. Fugiria para junto do pap, se soubesse onde ele estava, pensei;
mas, nesse momento, ele podia estar a meio caminho do outro lado do mundo, tanto quanto eu sabia. Decidi tomar um duche e vestir-me. No queria descer e dar de caras
com o Tony, mas no podia ficar na minha suite o dia todo. Pensei na hiptese de dizer que estava doente e de mandar servirem-me as refeies no quarto, mas isso
tr-lo-ia c acima tambm, pensei, e ia ter de enfrent-lo na mesma.
Alm disso, ainda no estava de p h dez minutos quando ouvi o Troy  minha porta. Tinha vindo para me fazer lembrar das promessas que eu fizera no dia anterior
relativamente ao que amos fazer juntos. Virei a cara enquanto ele falava comigo, com medo de que ele se apercebesse do horror e do terror que transpareciam nos
meus olhos e que se assustasse com eles. O Troy estava demasiado excitado ante as perspectivas do dia para notar alguma coisa.
- Disseste que hoje ias comigo  praia, Leigh. Podemos ir logo a seguir ao pequeno-almoo? Vamos? Por favor? Podemos ir procurar conchas.
- Est bem - acedi eu. - Deixa-me s tomar duche e vestir-me. Vai l para baixo e comea a tomar o pequeno-almoo.
- O Tony j l est em baixo - disse ele.
- ptimo. - Pensei que provavelmente o Tony j teria comido e sado quando eu chegasse  sala de jantar. Ento, tomei duche e vesti-me calmamente. Parecia que o
dia ia ser muito quente; decidi vestir uns cales e uma camisola de manga curta para ir passear para a praia com o Troy.
Infelizmente, quando cheguei  sala de jantar, o Tony ainda estava sentado a ler o Wall Street Journal e a beber caf. O meu corao parou quando ele baixou o jornal
para olhar para mim. Lancei-lhe um olhar com a fria toda que consegui reunir, mas ele pareceu no reparar. Fez um sorriso caloroso.
- bom dia, Leigh. Est um dia lindo. O Troy disse que tu e ele vo dar um passeio pela praia. Talvez eu v tambm com vocs.
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Olhei para o Troy. Estava a perfurar metade de uma uva com o garfo. A enfermeira dizia-lhe para ele no brincar com a comida. Sem proferir uma palavra, sentei-me.
A empregada serviu-me logo o meu sumo de laranja. Lancei um olhar ao Tony e reparei que ele ainda estava a sorrir e a olhar para mim. O seu cabelo estava penteado
com cuidado e vestia uma camisa de manga curta azul e branca e um par de calas azul-claro. Parecia to fresco e to descansado.
Como  que isso era possvel?, pensei. Acharia que eu ia simplesmente esquecer o que ele tinha feito? Pensaria que, pelo facto de fingir que estava tudo bem e que
nada tinha mudado, poderia sair impune? Devia estar  espera que eu contasse tudo  minha me. Ela iria querer o divrcio e sairia dali.
O Tony, porm, no parecia minimamente preocupado. Dobrou o guardanapo com cuidado e bebeu o caf de um trago.
- O Troy est a comer um pequeno-almoo substancial esta manh, pois sabe que precisa de energia para poder fazer todas as coisas que planeou fazer contigo, Leigh
- observou ele e piscou o olho. - No  verdade, Troy?
- Hum, hum - murmurou o Troy, mastigando vigorosamente um bago de uva.
- Pensei que hoje talvez quisesses dar uma volta a cavalo, Leigh. J pedi ao Curly para depois do almoo preparar o Stormy e o Thunder para ns. O que  que achas?
Olhei para a enfermeira e para o Troy. Estavam ambos ocupados com outras coisas e no estavam a ouvir a conversa. Ento, lancei-lhe um olhar indignado.
- Como  que pode sequer sugerir uma coisa dessas? perguntei eu, por entre dentes. Ele encolheu os ombros.
- Pensei que hoje a ideia te fosse agradar. O dia vai estar maravilhoso, ideal para dar um passeio a cavalo. Pensei que adorasses andar a cavalo.
- Eu adoro andar a cavalo. No  essa a questo - disse eu, abruptamente.
- Ento qual ?
- Est  espera que eu v andar a cavalo consigo depois de... depois do que aconteceu ontem  noite?
A enfermeira levantou nitidamente os olhos. O sorriso do Tony esmoreceu, mas ele substituiu-o rapidamente por um olhar confuso.
- O que  que queres dizer? O que  que aconteceu? Olhei para a enfermeira. A empregada tambm tinha parado, pondo-se  escuta.
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- No quero falar sobre isso agora - disse eu e bebi o meu sumo.
O Tony recostou-se na cadeira.
- Oh, pronto - disse ele. - Talvez depois de almoo te sintas melhor. Se te sentires, estar tudo pronto. De qualquer modo, eu s poderei dar uma voltinha. Esta
manh apareceram-me uns problemas inesperados no escritrio e tenho de ir para Boston hoje  noite.
- Por mim, at podia ir j agora - disse eu prontamente. O Tony no deu resposta. Abanou a cabea, fez um sorriso afectado e voltou para o seu jornal.
Que cinismo!, pensei. Estaria mesmo  espera de ficar impune? Decidi no continuar a discusso naquele momento pelo Troy e tambm por mim. Este j estava a divagar
sobre o nosso passeio pela praia e sobre as coisas que planeava fazer com as conchas que amos encontrar juntos. Tive de sorrir e de sentir-me feliz por ele.
O Tony acabou de beber o caf e levantou-se.
- - Talvez v ter com vocs  praia - disse ele. Em seguida, pediu licena e levantou-se da mesa. Acabei de tomar o meu pequeno-almoo e comecei a andar em direco
 praia com o Troy, antes que o Tony pudesse juntar-se a ns.
A conversa animada do Troy manteve-me afastada de pensamentos obscuros, pois cada vez que a minha cabea revivia os acontecimentos horrveis da noite anterior, o
Troy fazia-me perguntas. Nessa manh estava muito curioso, e a sua energia verbal impediu-me de reflectir.
- O que  que impele as nuvens, Legh? Ests a ver disse ele, apontando. - Aquela grandalhona estava ali e agora est aqui. Tm asas?
- No - respondi eu a sorrir. -  o vento que as empurra.
- Porque  que o vento no sopra atravs delas?
- Suponho que s vezes o vento faz isso.  por essa razo que h nuvens pequenas que so pedaos de outras maiores - respondi eu e passei com os meus dedos pelo
seu cabelo macio. O pequeno balde balanava, enquanto ele caminhava, calcando a areia macia com passos determinados.
- Se eu estivesse l em cima, o vento tambm me empurrava?
- Se fosses suficientemente leve para flutuar, sim - respondi eu.
- E ia desfazer-me em bocados como faz com uma nuvem?
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- S se fosses feito de ar. O que  que te faz pensar nessas coisas? - perguntei, tentando imaginar o tipo de sonhos que ele tinha. Ele encolheu os ombros.
- O Tony diz que h lugares onde h ventos to fortes que levantam as pessoas do cho e as fazem rodopiar como as nuvens.
- Oh, Troy - disse eu, parando e ajoelhando-me para o abraar. - Aqui no. Aqui ests seguro.
- O vento tambm no te vai soprar para longe? - perguntou ele, cptico.
- No. Prometo - disse eu, apesar de, no meu corao, sentir que uma espcie horrvel de vento me tinha atirado ao ar e rebentado qualquer bolha de felicidade que
eu encontrara naquele lugar.
Sorriu e largou a minha mo, correndo em direco  gua.
- Olha! Olha para as conchas azuis! - gritou ele e comeou a encher o seu pequeno balde.
Respirei fundo o ar fresco do mar. Parecia que me limpava os pulmes e lavava a ansiedade e a carga que pesava no meu corpo. Olhei para trs para me certificar de
que o Tony no nos seguia. No o vi e deduzi que ele devia ter-se apercebido de que eu no ia suportar a sua presena. Quando me convenci que estvamos sozinhos,
fui para ao p do Troy separar as conchas e encher o balde dele com as mais bonitas.
O Tony no estava em casa  hora que o Troy e eu voltmos. Quando o Troy perguntou por ele, o Curtis comunicou que o Tony fora obrigado a ir para Boston muito mais
cedo do que tinha previsto e disse que, apesar disso, deixara uma mensagem para mim: o meu cavalo estaria pronto da parte da tarde, se eu quisesse ir andar nele.
No fui. Passei o dia a ler e a jogar com o Troy na sua suite. Mesmo antes de jantar, levei-o a dar uma volta pelos jardins. Levmos connosco bocados de po duro
e fomos dar de comer aos pssaros nas fontes.
O Tony no veio jantar, o que me fez feliz. E foi ento que o Curtis apareceu e nos informou de que a mam tinha mandado um telegrama, anunciando que regressaria
da sua cura de guas na Europa no dia seguinte ao fim do dia.
Oh, graas a Deus, pensei. Contar-lhe-ia tudo, todos os pormenores, para que ela percebesse o horror por que eu tinha passado e ficasse a conhecer o homem horrvel
com quem havia casado. Tinha a certeza de que era uma questo de dias e iramos embora dali. O Tony pagaria pelo que me
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fizera. Quando a minha me se zangava com um homem, conseguia ser uma adversria terrvel. Decidi que, nem desculpas, nem promessas, nem presentes caros, nada me
levaria a perdo-lo. Estava  espera que ele viesse implorar perdo quando descobrisse que a minha me estava mesmo a chegar.
Quanto mais escuro ficava, mais ansiosa me sentia. Onde quer que estivesse dentro da manso, mantinha o ouvido atento  porta da frente, prevendo a chegada do Tony.
 medida que as horas iam passando, a tenso crescia dentro de mim, batendo como um relgio de sala,  espera daquele momento em que ele entraria e, certamente,
me procuraria. Tudo o que fazia para tentar distrair-me e manter-me ocupada, no resultava: ouvir rdio, ver televiso, conversar com o Troy... Nada conseguia afastar
o meu pensamento dos acontecimentos da noite anterior.
Finalmente, mais por medo do que por fadiga, retirei-me para a minha suite; mas no momento em que fechei a porta atrs de mim, parecia que tinha cado numa armadilha
e senti-me vulnervel. Afinal, fora ali que tudo acontecera e que ele viera procurar-me e seria ali que ele provavelmente voltaria. A suite da minha me era a nica
que tinha fechadura. Ela tinha insistido muito nisso, pois prezava a sua privacidade e, comeava eu agora a entender mais do que nunca, era uma oportunidade de manter
o seu jovem e exigente marido afastado.
Tive uma ideia. Vesti o roupo, enfiei os ps nos chinelos, peguei na Angel e sa da minha suite. Fui directamente para a suite da minha me, fechando a porta e
rodando a chave da porta exterior. Senti-me mais segura, no s por a porta estar fechada  chave, mas tambm por estar no quarto da minha me, a cheirar os seus
perfumes de jasmim e a ver os seus produtos de maquilhagem. Vesti uma das suas camisas de dormir e pus no pescoo um pouco do seu perfume de jasmim. Ento, enfiei-me
na cama dela, como costumava fazer quando era pequena, em Boston. Os lenis, as almofadas e os cobertores dela cheiravam a fresco e a lavado, como ela exigia que
estivessem sempre.
- Oh, mam - lamentei-me eu. - Gostava que estivesses aqui em pessoa. - Encostei a Angel  almofada ao lado da minha e desliguei a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira.
Esta noite, a Lua era maior, a sua luz prateada brilhava mais e era menos perturbada por nuvens passageiras. Um pequeno
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grupo de estrelas tinha-se reunido aos ps da Lua e eu imaginei um reino nos cus governado por uma linda princesa, a Lua, que tinha dzias de lindos seguidores
 sua disposio, as estrelas. L em cima, havia sempre msica suave e doce, no havia crueldade nem maldade, no viviam l crianas cujos pais se desprezavam um
ao outro, nem homens desonestos e traioeiros, nem mulheres e raparigas invejosas a magoarem-se umas s outras.
- Este  que devia ser o nosso mundo, Angel - sussurrei eu. - O mundo ao qual pertencemos.
Fechei os olhos e tentei sonhar com esse mundo, um mundo de ruas revestidas a doces, com crianas felizes, inteligentes e bonitas como o pequeno Troy, a rirem e
a brincarem em segurana; um mundo com lares calorosos e alegres, cheios de famlias carinhosas e paps que vinham a correr depois do trabalho para estarem com as
suas mulheres e os seus filhos. Era um mundo onde no havia os ventos agrestes que o Troy tanto temia, um mundo cujo cu no era cinzento, onde todas as raparigas
da minha idade tinham caras de boneca e namorados dedicados.
Se eu ao menos pudesse flutuar, elevar-me devagar em direco  Lua e pertencer quele mundo...
Adormeci, mas acordei umas horas depois, quando ouvi e vi as luzes da sala de estar ligadas. Sentei-me rapidamente na cama da minha me. O Tony estava  porta, com
a cara e o corpo na sombra da escurido. De sbito, deu uma gargalhada. Eu estava sem fala; o meu corao comeou a bater com fora.
- A fechar a porta  chave outra vez - disse ele e riu-se de novo.
Seria possvel que ele pensasse que eu era a minha me, que tivesse lido mal o telegrama e que achasse que ela tinha voltado hoje  noite? Segurava uma chave na
mo e elevou-a diante da luz.
- Nunca te disse que tinha mandado fazer uma cpia quando finalmente me fartasse das tuas... das tuas atitudes grotescas e ridculas. Fechar a porta  chave, deixar-me
a mim, o teu marido, fora do quarto, negando-me os meus direitos conjugais. bom, agora estou farto disso, farto de fazer figura de parvo. Quando nos conhecemos,
eu era suficientemente bonito e desejvel. Agora que estamos casados e tu me obrigaste a assinar aquele ridculo contrato pr-nupcial, achas que me podes afastar.
Bem, eu no vou tolerar isso. J chega. Vim resgatar o que  meu por direito e o que tu tambm devias querer por direito.
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Aproximou-se.
Tony - disse eu, sussurrando em voz alta. - Eu no sou a mam. Sou a Leigh.
Ele parou e houve um longo silncio. Como tinha andado da luz para o escuro, no conseguia ver os seus olhos ou a sua expresso, mas senti que estava confuso.
- Eu  que estou a dormir no quarto da minha me hoje  noite. Ela ainda no chegou. Agora, v-se embora. J fez o suficiente para que eu o odeie para sempre.
De repente, ele riu-se; desta vez, soltando uma gargalhada fria e aguda.
- Ento queres ser a tua me - sugeriu ele. - Queres ser igual a ela. Enfias-te na cama dela, vestes a sua camisa de dormir e usas o seu perfume. Afinal, tu at
sonhas em ser a Jillian, sonhas que s a minha mulher.  essa a tua fantasia.
- NO! No foi por isso que eu vim para aqui. Eu vim para este quarto para o manter afastado de mim! Saia daqui!
- Tal como a tua me, recusas-te a admitir o que no fundo "desejas, o que no fundo precisas. Eu percebo.  uma caracterstica da famlia - acrescentou ele e riu-se.
- Saia daqui - implorei eu, desesperada.
- Fechas a porta  chave, tal como ela - prosseguiu, abruptamente. - No est certo. No admito. - Aproximou-se e, quando j estava mais perto, senti o seu hlito
a usque, o que ainda me assustou mais. Aninhei-me, puxando o cobertor contra o meu corpo.
- Por favor, v-se embora, Tony. Tenho medo de si e no suporto o que me fez. Fico doente s de pensar nisso. Por favor, v-se embora.
- Oh no deves sentir-te assim. Tens de lutar contra esses medos.  essa a razo por que fechas a porta  chave e arranjas desculpas atrs de desculpas para estares
longe de mim? - perguntou ele, voltando a confundir-me com a minha me.
- No, Tony. Eu no sou a Jillian. Eu sou a Leigh. No percebe? No ouve?
- Apesar de tudo, ests furiosa, mas a fria  sinal de paixo. No percebes? Ests cheia de desejo, de nsia e de sensualidade. No podes ignorar essa voz dentro
de ti - insistiu ele e sentou-se rapidamente na cama.
Eu afastei-me, pensando que poderia saltar da cama pelo outro lado e fugir dele; mas ele foi mais rpido, prevendo o que eu ia fazer para fugir. Inclinou-se e agarrou
no meu pulso, torcendo-o at eu deixar de conseguir segurar o cobertor
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com as mos. Gritei de dor e ele soltou-me; inclinou-se sobre as minhas pernas e a minha cintura.
- Est uma noite linda, uma noite romntica, a noite com que os amantes sonham.
- Ns no somos amantes, Tony - gemi eu, por entre lgrimas.
- Claro que somos. Estarei ligado a ti atravs do meu trabalho para todo o sempre.
- AFASTE-SE DE MIM! - gritei eu, quando ele ps a mo na minha coxa. - A minha me vai saber disto, de tudo. Vai saber o que me fez na noite passada, vai odi-lo
para sempre e vai deix-lo - disse eu, proferindo as palavras, encolarizada. Sentir raiva era melhor do que sentir medo.
Ele voltou a rir-se.
- Vais contar  tua me? Contar-lhe o qu? O que ela j sabe, ou melhor, o que ela espera que seja verdade? Quem  que achas que me empurrou para ti, me incentivou,
me encorajou? Quem achas que sugeriu que eu te usasse como modelo, que posasses nua? Eu no sou estpido. Eu sei porque  que ela fez isto. Mas aceitei, at o desejei.
Tu s bonita e vais ser ainda mais bonita do que ela . Achas que ela tambm no percebe isso, achas que isso no a consome?
- No - gritei eu. -  tudo mentira.
- Mentira? - Riu-se. - Ela pensa que tu e eu fizemos amor na casa pequena e tolerou isso.
- Mentiroso! - Atirei-me a ele, mas ele apanhou o meu minsculo pulso no ar e segurou-o.
- Ns no temos segredos um para o outro. Tentei que ela sentisse cimes, que ela me desejasse mais, por isso contei-lhe. Contei-lhe como tu tinhas ficado excitada
e que exigiste que eu fizesse amor contigo, quando posaste e eu te toquei. Sabes qual foi o comentrio dela? Disse que pelo menos tu aprendeste com um mestre, com
um amante consumado. Oh, eu sabia que ela s estava a querer adular-me, mas no ficou propriamente transtornada.
- Ela nunca diria isso! - exclamei eu, abanando a cabea. - Nunca diria isso! - Dei um safano para soltar o meu pulso. - Nem sequer a conhece! Diz que no tm segredos
um para o outro, mas ela escondeu-lhe um segredo bem grande - disse eu, o mais furiosa possvel. - Nem sequer sabe a verdadeira idade dela. Pensa que ela  anos
e anos mais nova do que  na realidade. Ela nunca teria confiana total em si.
- Oh, eu sei a verdadeira idade dela, minha querida -
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disse ele calmamente, com tanta calma que o corao me caiu aos ps. - Vasculhei todo o seu passado. Infelizmente, o meu amor por ela cegou-me e eu esperei at depois
do casamento para o fazer. Ela nunca saber como me senti trado... por esconder uma coisa dessas de mim... DE MIM, que venerava o cho que ela pisava. Agora deixo-a
viver no seu mundo de sonhos. Qual  o mal?
- No. Est a mentir outra vez. Afaste-se, saia daqui! Empurrei-o, mas desta vez ele controlou os meus dois pulsos e puxou-me para ele, beijando-me com aspereza
nos lbios. Lutei para me libertar; ele, porm, era forte de mais. A minha boca ficou com o sabor do usque da boca dele, o que me enjoou.
Ps-se de joelhos para se inclinar por cima de mim e prender as minhas mos contra a almofada.
- Agora, tu s mais bonita, pois s pura e muito mais inocente. Tens razo: tu no s uma fraude. s mesmo a boneca-retrato - acrescentou ele e levou os seus lbios
ao meu pescoo.
Mais uma vez, contorci-me e revirei-me sob o seu corpo e, mais uma vez, ele ajustou-se entre as minhas pernas, possuindo-me do mesmo modo. Era como um pesadelo a
reaparecer. Gritei, pedi, implorei, mas os seus ouvidos estavam fechados a todas as vozes que no fossem as que ele ouvia dentro de si, vozes de desejo e de sexo
que no lhe seriam negados.
Durante todo o tempo que me forou a fazer amor com ele, confundiu-me com a minha me, chamando-me alternadamente "Jillian" e gemendo "Leigh". Fechei os olhos e
afastei a cabea dele para fingir que no estava a acontecer nada, que ele no estava a fazer-me aquilo. O meu corpo ia e vinha sob o dele. No conseguia par-lo
de maneira alguma.
Antes de ele acabar, abri os olhos e via a Angel, na almofada ao meu lado. Lutei para libertar a minha mo direita da sua e consegui-o suficiente para agarrar a
minha preciosa boneca e lhe virar a cabea para o outro lado, pois, nos seus olhos, eu via o meu prprio terror e a minha prpria dor.
Em seguida, cerrei as minhas plpebras e esperei que tudo acabasse.
Depois de se esgotar, ficou deitado em cima de mim por algum tempo, antes de se levantar como um sonmbulo e de me deixar. No me mexi. Doam-me os pulsos e sentia
as minhas
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faces como se ele as tivesse esfregado com uma lixa. Chorei at pensar que o meu corao se partia. Por fim, depois de ter chorado cascatas de lgrimas, fechei os
olhos e puxei o cobertor para me tapar a mim e  Angel. Ento, virei-me, enterrei a cara na almofada macia e esperei pelo sono.
De manh, levantei-me com os primeiros raios de sol, sa sorrateiramente da suite da minha me e voltei para a minha, onde me enfiei na cama. O Troy veio  minha
procura, mas eu disse-lhe que no estava a sentir-me bem. Saiu a correr para dizer ao Tony e aos empregados. Pouco depois, Mrs. Crter, uma das nossas empregadas
mais antigas, apareceu para ver o que se estava a passar. S lhe disse que no estava a sentir-me bem. Ela ofereceu-se para trazer o pequeno-almoo c acima.
- Quer que chame Mister Tatterton para a ver?
- No - gritei eu, prontamente. - No quero ver ningum at a minha me chegar.
- Nem o mdico?
- Ningum, por favor - pedi eu.
- Est bem. vou trazer-lhe qualquer coisa quente para beber e para comer. Talvez isso a faa sentir melhor - disse ela.
Sentir-me melhor? Comida alguma, mdico algum, nem uma sala de amigos poderia fazer com que me sentisse melhor, era o que eu queria dizer-lhe; mas, em vez disso,
virei-me e puxei o cobertor at ao queixo. O Troy veio ver-me outra vez, desapontado por eu no sair da minha suite e no ir brincar com ele ou dar um passeio. Comi
um bocado da papa de aveia que Mrs. Crter me trouxe e sorvi um pouco de ch doce.
O Tony no veio  minha suite. Estava preparada para o expulsar, para gritar e ter um ataque de histerismo, chamando a ateno de todos os empregados, se fosse necessrio.
Talvez ele tivesse previsto essa situao e manteve-se afastado.
Mrs. Crter voltou com o almoo. Voltei a comer que nem um passarinho, mordiscando uma sanduche e bebendo uns golos de sumo. Ao fim da tarde, ela voltou e perguntou-me
se eu no queria que chamasse o mdico.
- No, o mdico no pode ajudar-me - repliquei eu. Pea apenas  minha me quando chegar para vir ter comigo.
- Muito bem - disse Mrs. Crter, abanando a cabea.
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Levou o tabuleiro com os pratos e a comida. Dormitei algumas vezes durante a tarde. Por fim, ouvi alguma agitao no corredor que dava para a minha suite e percebi
que a mam chegara da Europa. Esperava-a com grande ansiedade, pois tinha a certeza de que os empregados j lhe haviam dito que eu no sara da suite o dia todo
e que no comera quase nada.
A porta exterior abriu-se de rompante e a mam entrou impetuosamente para o meu quarto e sentou-se na minha cama como uma lufada de ar fresco. Baixei o cobertor
e olhei para ela. O cabelo estava penteado ao alto num carrapito  moda e vestia um fato de seda azul-escuro, em que o casaco abotoava  volta da cintura, caindo-lhe
muito bem. Tinha um ar elegante, a pele estava clara e macia, os olhos brilhantes e felizes. Dos seus lbulos pendiam pequenos brincos em forma de pingentes de gelo.
Captavam a luz  sua volta e cintilavam.
- Leigh VanVoreen - afirmou ela, com as mos nas ancas -, como  que te atreves a estar doente no dia em que eu chego. Ento, o que  que tens?  Vero. As pessoas
no se constipam no Vero.
- Oh mam - disse eu, comeando a chorar. - Mam.
- Tirei o cobertor de cima de mim e sentei-me. - Aconteceu uma coisa horrvel. E duas vezes.
- Que disparate  esse, Leigh? Pensei que estivesses doente. Mal entrei pela porta da frente, aquela Mistress Crter veio a correr cumprimentar-me, apertava as mos
e choramingava, dizendo que tu estavas muito doente, que no a deixaste chamar o mdico e que te recusaste a ver pessoas. Fazes ideia da canseira que  viajar para
a Europa e voltar? De como estou cansada?
"Tem sido uma provao, sabes - continuou, contorcendo-se e virando-se para poder ver a sua imagem no espelho do meu toucador -, perder peso e tirar as imperfeies
do meu corpo. Mas j acabou e foi um sucesso.  o que todos dizem. O que  que achas? - Voltou-se para mim com um ar de expectativa, pronta para ser adulada. Mas
hoje no ia haver sesso de elogios... S de verdades amargas. No ia permitir que a mam continuasse a fugir  verdade!
- Mam, passei por provaes muito mais terrveis, aqui mesmo, em Farthy. O Tony veio duas vezes ao meu quarto e... violou-me - gritei eu. - Ele... ele... - Porque
 que ela me deixava continuar? Teria de lhe contar todos os pormenores horrveis? Olhei para ela com as lgrimas nos olhos,
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 espera que viesse a correr para o meu lado, que me estreitasse e me consolasse com os seus abraos e beijos calorosos... que prometesse que faria tudo o que estivesse
ao seu alcance para que eu me sentisse melhor... mais segura... como era dantes.
Veio para o meu lado num acesso de velocidade espantoso. At que enfim que conseguia captar a sua ateno! Finalmente ela iria ouvir-me! Mas reparei nos olhos dela...
Sempre os olhos dela! J estavam a diminuir, j estavam a tornar-se perigosamente rasgados, a brilhar de frieza. Oh, como fiquei assustada! As minhas lgrimas pararam
imediatamente e o meu estmago ficou como gelo, com as suas borboletas a esvoaar com toda a fora. Ela no acreditava em mim! Os olhos da mam revelavam sempre
as suas emoes verdadeiras.
- O qu? - perguntou ela, incrdula. - Que histria ridcula  essa? Violou-te? Sinceramente, Leigh. Eu ouvi dizer que os adolescentes imaginam coisas, mas no achas
que isto  de mais?
Abanei a cabea, furiosa.
- No, mam. Isto no  uma fantasia. Aconteceu. Aconteceu mesmo. - Agora que tinha captado a sua ateno, no podia perd-la. Tinha de fazer com que ela ouvisse!
- Deixe-me contar-lhe tudo, por favor. Oua, por favor.
- Estou a ouvir - disse ela, contorcendo o rosto, contrariada.
- H duas noites atrs, eu segui-o pelo labirinto at  casa de pedra.
- Seguiste-o? Porqu?
- Fiquei curiosa para saber porque  que ele ainda estava a trabalhar l, porque  que ele tinha mantido o estdio montado.
- No devias andar a segui-lo dessa maneira, Leigh disse ela, condenando-me por ser indiscreta sem ouvir o resto da histria. Ignorei-a e continuei.
- Quando cheguei l, espreitei por uma janela e vi que ele tinha pintado outro quadro de mim... de ns as duas... S que se tinha includo a ele prprio... nu!
- A srio? - perguntou ela.
- Pouco depois, apareceu ele, nu.
- Estava sozinho? - perguntou prontamente.
- Sim, mas... de qualquer modo, eu assustei-me e fugi a correr para casa. Quando me vim deitar, ele entrou aqui... nu, e atacou-me, forando-me a fazer amor com
ele.
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Ela fitou-me, ainda com uma expresso cptica.
- Fez isso, sim! - insisti. - E depois, ontem  noite... eu fui para o teu quarto para me fechar  chave em segurana l dentro, e ele voltou. Tinha uma chave. Violou-me
outra vez. Oh, mam, foi horrvel. Eu no conseguia lutar contra ele. - A expresso dela no se alterou. - Mam, no est a ouvir o que eu estou a dizer?
Ela baixou os ombros e abanou a cabea.
- Estava a pensar falar contigo sobre o que se est a passar, depois de estar instalada - declarou. - Tinha esperana de que isso pudesse esperar at eu recuperar
as minhas foras.
- Falar comigo sobre este assunto? Mas como  que sabia?
- O Tony foi buscar-me ao aeroporto, Leigh. Ele contou-me o comportamento que tens tido ultimamente. No me contou que tu o seguiste at  casa pequena, mas contou-me
que tu lhe pediste para ele vir  tua suite e que, quando ele chegou, te encontrou toda nua na cama.
- O qu?! Ele est a mentir!
- Ele disse que tu lhe pegaste no pulso e que o puxaste para cima de ti, implorando para que ele fizesse amor contigo, mas que ele se soltou, repreendeu-te e foi-se
embora.
- Mam, oua-me...
- Ele tambm me contou que tu foste  minha suite fingir que eras eu para que ele no te recusasse uma segunda vez. Disse que tu at puseste uma camisa de dormir
minha e o meu perfume. - Olhou para mim, triunfante, a cheirar o ar. - Essa camisa de dormir  minha, no ? E ests a usar o meu perfume.
- Oh, mam, eu s fiz isso para estar perto de si. Estava com tanto medo.
Quando ela voltou a fixar o meu rosto, percebi que no acreditava em mim. Nem sequer tentava esconder! Nesse momento, passou-me um rasgo de dio pelo sangue. Nunca
na minha vida tinha sentido dio em relao  mam. Nunca! Mas porque no? Ela no acreditava em mim! Tinha escolhido ser indiferente s palavras da sua prpria
filha e acreditar nas palavras de um homem com o qual nem h um ano estava casada! S se interessava pelo Tony... o repugnantemente rico Tony... o seu marido jovem
e repelente.
Fitei a mam com um olhar cnico. Oh, sim, estava a ver tudo. A mam no estava disposta a pr em perigo a sua posio como senhora da manso Farthinggale. O que
 que interessava
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ter conseguido que o Tony assinasse um contrato pr-nupcial que a habilitava a metade da sua fortuna? Sem o nome dele, ela no era nada... NADA! Se ela escolhesse
acreditar em mim e divorciar-se do Tony, perderia o respeito e os privilgios que tinha sob o nome de Mrs. Tony Tatterton. Deixariam de aparecer convites. A sociedade
de Boston fecharia as suas portas na cara dela e seria reduzida  condio de pobre rapariga do Texas, autorizada a olhar para essa sociedade apenas pelo lado de
fora. Por mais que desejasse que a mam fosse feliz, porque l no fundo, uma parte de mim ainda gostava muito dela... porque eu sabia que ela precisava de um homem
na sua vida para lhe proporcionar um objectivo... no podia deixar que o Tony sasse impune do que me fizera. No podia. Tentei uma ltima vez.
- Mam, estou a dizer a verdade.
- Francamente, Leigh. A tua histria  to revoltante. Ests  espera que eu acredite em qu?
- Estou  espera que acredite em mim, no nele! Ele 
louco.
- Ele disse-me que tu tentaste tudo para que ele fizesse amor contigo e... quando viste que nada funcionava... traste-me. Disseste-lhe a minha idade - concluiu
ela. Parecia mais magoada do que zangada.
- Mam, eu... no, eu disse isso porque...
- Como  que pudeste fazer isso? No havia ningum em quem eu confiasse mais do que na minha prpria filha.
- Mam, ele j sabia. Ele no se importava. Ela abanou a cabea.
- Sinceramente, Leigh, tens de te controlar. Eu tambm fui uma adolescente. Sei o que  que ests a passar. O teu corpo est a desenvolver-se com rapidez. Do dia
para a noite, tornaste-te numa mulher, tens os desejos de uma mulher e eis que te aparece  frente o atraente Tony Tatterton, para o qual tu posaste nua.  compreensvel
e, em parte, eu tambm tenho a culpa por no me ter dado conta de que j eras to madura, mas tens de aprender a controlar as tuas fantasias e os teus impulsos.
"Tu j viste que eu consigo fazer isso muito bem. Lembra-te do que eu te falei sobre os homens nos usarem e do que eu te disse sobre o que  ser uma boa rapariga.
"Tenho a certeza que daqui a um dia ou dois, vo-se dar bem como antigamente. O Tony no alberga quaisquer ressentimentos contra ti.  muito compreensivo no que
respeita a essas coisas.  por isso que o nosso casamento vai to bem.
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Sorriu e acrescentou:
- Estou desejosa de me meter dentro de um banho quente.
- Mam, tem de acreditar em mim... por favor...
- Ento, Leigh - disse ela, abruptamente. - Exijo que pares de falar nesse assunto. Uma coisa leva a outra e, no tarda nada, j os empregados estaro a falar disso,
espalhando rumores terrveis.
- No so rumores. Eu no estou a fantasiar nem a mentir.
- Leigh - disse ela, com os olhos pequenos -, ests  espera que eu acredite que o meu marido se virava para a minha filha, uma rapariga acabada de se tornar mulher,
quando me tem a mim? Francamente - afirmou ela. Agora, controla-te. Quero tomar banho, vestir-me e descer para o jantar.
- Mas, mam...
- Insisto e acabou. Alm disso - acrescentou ela com um sorriso -, tenho tantas coisas bonitas que comprei na Europa para te mostrar e quero contar-te como foi l
nas termas e as pessoas que conheci.
De repente, o sorriso dela evaporou-se.
- Fiquei muito transtornada quando o Tony me contou que lhe revelaste a minha verdadeira idade, Leigh, mas posso perdoar-te, pois parece no ter grande importncia
para ele, como eu receava. Ele  mesmo um homem maravilhoso. Mas no poderei perdoar-te se continuares a fazer estas... sesses de teatro. Por isso, por favor, controla-te
e desce para o jantar.
Tornou a descontrair-se e soltou um suspiro profundo. Eu estava atnita!
- Ah, no h nada como voltar para casa depois de uma longa viagem - entoou ela e deixou-me.
Casa? Tinha acabado de se referir  manso Farthinggale como casa? Inferno, era a palavra mais adequada! Fiquei a olhar fixamente para o lugar que a mam deixara
livre. Passara-se alguma coisa? Estaria eu a sonhar? Teria cado na armadilha de outro pesadelo? A mam RECUSARA-SE a acreditar em mim. Em vez de me ajudar, escondeu-se
por trs das paredes de espelho do seu mundo intil e vazio, obcecada consigo prpria. CONSIGO PRPRIA! A mam, de quem eu sempre gostara, que eu sempre adorara,
j no existia e fora substituda pela estranha do meu pesadelo. Virei-me para a minha boneca.
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- Oh, Angel - chorei eu. - Se ao menos pudesses falar. s a nica testemunha.
Mas, pensei, mesmo que a Angel pudesse falar, a mam ia arranjar maneira de no acreditar nela.
Ou no queria acreditar, ou para ela no tinha importncia. Para mim, era pura e simplesmente a mesma coisa.

18 CONFRONTOS

Levantei-me e vesti-me para descer e ir jantar. Apesar de ter comido muito pouco durante todo o dia, no tinha apetite, mas esperava estupidamente, de algum modo,
ainda conseguir que a mam visse a verdade. Tudo o que ela tinha de fazer era olhar bem para a minha cara, pensei. Estava pouco entusiasmada quando chegou a hora
de escovar o cabelo. Reflectia os meus sentimentos interiores, com um aspecto apagado, castanho-claro e sem brilho. Reparei na fadiga e na exausto emocional que
transpareciam nos meus olhos. Cabisbaixa, sa da minha suite e desci a escadaria.
Para minha surpresa, a mam j estava  mesa com o Tony. Ouviam-se as gargalhadas deles enquanto me aproximava da sala de jantar. Logo que entrei, pararam e viraram-se
para mim. O Tony lanou um olhar para a minha me e depois sorriu para mim.
- Leigh, sentes-te melhor? - perguntou ele, pondo uma mscara de preocupao paternal na cara.
Eu no respondi. Fui para o meu lugar e pus o guardanapo no colo, sentindo o peso dos olhos deles sobre mim. - Estava agora mesmo a contar ao Tony - comeou a minha
me, com uma voz frvola e animada -, sobre os gmeos Walston. Tenho a certeza de que te lembras deles. J os mencionei anteriormente. So de Boston e o pai deles
Rambm tem aquela propriedade em Hyannis. Uma perna deles equivale ao meu corpo inteiro. Os gmeos Walrus, era como ns todos nas termas lhes chamvamos. V-los
na sala de vapor quando estavam juntos! - disse ela, atirando a cabea para trs a rir. - Quer dizer, todas as mulheres que ali
1 Walrus, em ingls, significa o nome de um animal gordo e pesado, a norsa. (N. da T.)
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estavam sentiam-se dez quilos mais magras mal olhavam para eles.
"De qualquer modo, a parte mais engraada disso tudo foi que, quando chegou a hora de se irem embora, descobriu-se que ambos tinham engordado dois quilos em vez
de perderem peso. Parece que andavam a fazer contrabando de bolos e bombons de uma vila ali ao p. Esto a imaginar uma pessoa a gastar aquele dinheiro todo para
engordar dois quilos?
O Tony abanou a cabea e riu-se com ela. At custava a acreditar como pareciam felizes. Nada do que eu contara  mam fora tido em considerao. O resto da noite
continuou da mesma maneira. A mam contava histrias atrs de histrias sobre as mulheres ricas nas termas. O Tony era o espectador ideal, rindo a cada coisa que
ela dizia que era suposto ser engraado, ficando srio quando ela tambm ficava.
Quando ela acabou de criticar os seus companheiros de dieta, o Tony comeou a falar sobre o sucesso das bonecas-retratos e nunca mais parou. De vez em quando, a
mam virava-se para mim e abria os olhos para expressar o seu espanto e tentar sacar de mim alguma expresso de apreo. Mas eu recusei-me a ceder aos desejos dela.
Por uma vez, os meus desejos e as minhas necessidades tinham de vir em primeiro lugar. Eu sabia que o que me tinha acontecido era importante, era corrosivo. Partia-me
o corao o facto de ela conseguir ignorar to facilmente a minha dor.
- Gostava que visses algumas das coisas que comprei na Sua, Leigh - afirmou a mam, depois de o caf ter sido servido. - Esto no quarto azul. Tambm te trouxe
um presente caro.
Levantou-se para dizer qualquer coisa ao Curtis enquanto saa da sala de jantar e o Tony levantou-se a seguir. A caminho da sada da sala, o Tony agarrou-me o brao
direito no cotovelo para me reter, de modo a que ela no pudesse ouvir o que ele tinha para me dizer.
- S quero que saibas, Leigh, que eu no guardo nenhum ressentimento pelo que contaste  Jillian. Ela e eu percebemos o que acontece quando uma jovem est literalmente
a explodir como mulher. - Sorriu, com uns olhos azuis amorosos e indulgentes. O tom de voz casual dele era enlouquecedor. Por um momento, senti um n na garganta.
Engoli em seco e mordi a minha lngua ainda com mais fora.
- Vens, Leigh? - chamou a mam.
- Sim - respondi e ento dei meia volta e virei-me para
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ele, furiosa. Deixei que os meus olhos encontrassem os dele, lanando fogo e dio. Passou-me pelo peito uma chama de raiva. Proferi palavras geladas:
- Por agora, pode t-la enganado, mas com o tempo, ela vai acreditar em mim, pois uma pessoa como o Tony, no consegue esconder para sempre o que  na realidade.
Ele abanou a cabea com uma expresso de pena, que s me enfureceu ainda mais.
- Esperava que, agora que a Jillian voltou, tivesses uma atitude diferente, mas estou a ver que tudo o que as pessoas dizem sobre educar adolescentes hoje em dia
 verdade. Contudo, quero que saibas que serei sempre compreensivo e complacente e que nunca te exporei ao ridculo.
-  desprezvel - disse eu entre dentes. Ele continuou a sorrir. Em seguida, tentou pegar-me no brao para me acompanhar  sada, mas eu afastei-o. - No me toque.
Nunca mais na vida tente tocar-me.
Ele assentiu e fez um sinal em direco ao trio de entrada. Fui a correr ter com a minha me. O Tony no nos seguiu at ao quarto azul, onde a mam tinha empilhado
as suas compras. Sentei-me no sof e observei-a a desembrulhar as camisolas, as blusas, as saias e os cintos de cabedal. Tinha comprado obras de arte, pequenas esculturas,
estojos de jias e espelhos de mo de marfim. Ofereceu-me um relgio elegante de ouro e diamantes. Cada pea trazia uma histria consigo, como tinha sido descoberta,
como era a loja, o que as outras mulheres acharam quando ela comprara a pea. Vangloriava-se de as outras mulheres a seguirem por todo o lado, de fazerem o que ela
fazia, de comprarem igual ao que ela comprava.
- Senti-me, de repente, no papel de guia - gabava-se ela. - Ests a imaginar? Todas aquelas mulheres terrivelmente ricas e viajadas dependerem de mim para lhes dizer
o que era chique, o que era arte verdadeira e o que era uma boa compra. Sinceramente, eu devia ter pedido uma comisso.
Parou e olhou para mim, como se fosse a primeira vez que olhava para mim com olhos de ver.
- Pareces mesmo um pouco cansada, Leigh. Amanh devias apanhar sol. No devias trancar-te na tua suite dessa maneira. No  saudvel. O ar pode estar abafado e viciado
e este tipo de ar pode causar danos inacreditveis  tua pele. Tive longas conversas com especialistas naquelas termas maravilhosas - referiu ela, prontamente, antes
que eu pudesse
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interromper. - J alguma vez notaste que as mulheres suas tm uma pele perfeita? Em parte,  o resultado das suas dietas - prosseguiu, como se eu fosse uma aluna
numa sala de aula - e tambm dos exerccios que fazem, do ar fresco, dos banhos de vapor e dos banhos de lama. - Depois acrescentou, como concluso: - J pedi ao
Tony para mandar construir uma banheira a vapor na minha casa de banho.
- Mam, eu tenho este aspecto porque passei por uma experincia terrvel. Se me ouvir, se me ouvir com ateno...
- No vais comear tudo outra vez, pois no, Leigh perguntou ela, fazendo beicinho. - Eu no aguento. No sei como ainda estou de p, depois de ter dormido e descansado
to pouco desde que sa da Sua. Obriguei-me a mim prpria a estar cheia de energia para ti e para o Tony, mas agora estou cansada e vou subir.
- Mam...
- Boa noite, Leigh. Espero que gostes do teu relgio. E deixou-me ali, sentada, rodeada por todas aquelas caixas e embrulhos abertos. Voltei a pr o meu relgio
dentro da caixa. O que  que me interessava o relgio? O que  que as coisas preciosas e caras significavam num momento desses? Ser que ela achava que o ouro, a
prata e os diamantes solucionavam qualquer tipo de problema?
Senti-me to frustrada, parecia uma pobre muda, incapaz de exteriorizar os seus pensamentos e os seus sentimentos; os seus gritos presos nos seus prprios ouvidos;
todas as portas que davam para a sua mente fechadas a sete chaves. Podia at ser invisvel, pensei. A mam no olhava para mim, no me ouvia, no via a verdade.
Estava cega pelo brilho e pelo encanto da sua prpria vida.
A partir desse dia foi sempre a mesma cena, cada vez que eu tentava puxar o assunto dessa coisa horrvel que me tinha acontecido. Ela, ou no ouvia, ou ento mudava
imediatamente o tema da conversa. Por fim, desisti. A maior parte do tempo, passava-o sozinha, a passear na praia ou a andar a cavalo. O ar do mar, o som do mar
e a viso hipntica e meditativa das ondas a virem e a irem, acalmavam-me. Lia e escrevia neste dirio, ouvia os meus discos e passava tempo com o Troy.
A Jennifer telefonou-me vrias vezes, mas eu no lhe telefonei a ela nem ao Joshua. O Joshua tinha-me telefonado no fim de Junho dizendo-me que ia passar frias
com a famlia e que ia estar fora quase um ms. Esperava poder ver-me antes de partir, mas eu simplesmente no consegui. Se ele
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olhasse para a minha cara, eu sabia que ia perceber o que acontecera e que ia detestar-me por isso. Encontrei consolo e conforto na minha solido. A Natureza provou
ser a me e o pai que eu j no tinha, acalmando as minhas feridas, afagando-me com as suas brisas quentes e enchendo-me com a sensao de segurana que eu no conseguia
recuperar dentro da manso com os seus cantos escuros e as suas salas gigantescas.
Sempre que ia passear com o Troy, seguia atrs dele a ouvir a sua tagarelice infantil, prestando pouca ateno s suas palavras, para ouvir o som da sua voz inocente
e feliz. Aqueles pequenos ritmos eram melodiosos e deliciosos. Adorava sentar-me com ele a olhar para o mar e responder s suas perguntas enquanto afagava o seu
cabelo macio. De certa maneira, queria regressar ao mundo dele, um mundo de crianas, o mundo das bonecas e dos brinquedos e das guloseimas, um mundo sem verdades
difceis e realidades desagradveis. Todos os papes podiam ser escorraados com um abrao caloroso, um beijo terno e tranquilizador, uma promessa para o dia seguinte.
A mam voltou a afundar-se na sua vida social: comparecia s suas tardes de brdege, assistia a espectculos e ia s compras em Boston, recebia para jantar conhecidos
abastados e ia aos jantares oferecidos por eles. Tentou em vrias ocasies que eu os acompanhasse, a ela e ao Tony, quando iam jantar a uma propriedade de gente
abastada. Dizia que queria que eu conhecesse os filhos e as filhas das classes altas, mas eu recusava sempre.
O Tony manteve distncia, mal falando comigo, e at evitava olhar para mim, principalmente quando estava com a minha me. Quando me encontrava sozinha e o via dentro
de casa, ia por outro lado. Felizmente a casa era to grande que era possvel perder-me sempre que queria. E podia passear pelos jardins, ir para a piscina exterior,
dar uma volta a cavalo e ficar fora de casa a tarde inteira, fazer uma das minhas caminhadas pela praia e evitar qualquer contacto com ele.
Ento, no incio da terceira semana de Junho, ele anunciou que ia  Europa fazer uma curta viagem de negcios. A mam deu-lhe uma lista de lojas e de artigos para
ele lhe comprar. Comentou tambm que ia procurar alguma coisa especial para mim, mas eu no lhe dei resposta.
Poucos dias mais tarde, o pap telefonou de Houston, do Texas. Estava de regresso  costa leste e queria tomar providncias
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para me ver. Eu tinha-lhe escrito continuamente, tentando que ele telefonasse ou me escrevesse, mas ele no respondera at agora.
- Andei a viajar muito, princesa - explicou ele. - Todas as tuas cartas devem ter chegado um dia depois de eu partir. Est tudo bem?
- No, pap, tenho de falar consigo - disse eu, desesperada. Do outro lado da linha, ele ficou calado por momentos.
- O que ? - perguntou.
- No posso falar deste assunto ao telefone, mas preciso de falar consigo. Preciso mesmo - realcei eu.
- A tua me no te pode ajudar?
- Ela... no, ela no me pode ajudar - repliquei eu. A minha voz era seca, sem emoo, terrivelmente honesta.
- Est bem. Telefono-te logo que chegue a Boston e encontramo-nos todos para jantar. Devo chegar depois de amanh.
- Pap, tente vir sozinho - implorei eu.
- Leigh, eu agora estou casado e a Mildred faz parte de tudo o que fao. Ela gosta assim. Fica muito perturbada se eu a excluo de alguma coisa e ela quer tanto conhecer-te.
No consegues esquecer que nos casmos to rapidamente e dar-lhe uma oportunidade? - pediu ele.
- Desta vez no se trata disso, pap. Eu... tenho assuntos muito ntimos para falar consigo.
- A Mildred faz parte da minha vida pessoal, Leigh insistiu ele. Mais uma vez o pap era um pedao de barro nas mos de uma mulher, pensei eu.
- Est bem, pap. Telefone-me logo que chegar - acedi eu. No tinha hiptese, nem mais ningum com quem falar.
- Bem. At breve, princesa - disse ele e desligou.
O facto de saber que o pap chegava da a dois dias deu-me fora. Quando lhe contasse o que acontecera, tinha a certeza de que ele exigiria que eu ficasse com ele.
Nem sequer permitiria que eu voltasse nessa noite para Farthy e diria  minha me que estaria disposto a ir at ao fim do mundo para ganhar a minha custdia legal.
No sabia se a minha vida ia ser melhor, mas pelo menos estaria longe de Farthy e do Tony.
Estava alegre e enrgica pela primeira vez desde que o Tony me violara. Nadei na piscina, fui andar a cavalo e levei o Troy comigo para darmos uma grande volta pela
praia e apanharmos conchas. H semanas que no tinha tanto apetite;
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pedi para repetir o prato e comi sobremesa. A mam notou a mudana, mas eu no lhe contei da chegada iminente do pap.
Na manh do regresso do pap a Boston acordei cedo. Planeei que ia pedir ao Miles para me levar  cidade mal o pap telefonasse. J estava vestida, j tinha tomado
o pequeno-almoo e j tinha ido dar uma voltinha pela praia com o Troy quando a minha me desceu.  tarde ia receber uns amigos para jogarem brdege e eu sabia que
isso significava que ia passar horas a arranjar-se.
Pouco depois da hora de almoo, o Curtis chamou-me para atender uma chamada. Eu estava l fora com o Troy a observar os jardineiros a trabalharem.
-  o meu pai? - perguntei eu, ansiosa.
- Ele disse simplesmente que estava a telefonar em nome de Mister VanVoreen - replicou o Curtis na sua maneira caracterstica de falar indefinvel. Corri para casa
e atendi o telefone mais prximo, que estava na sala de estar.
-Estou - disse eu. - Fala a Leigh.
- Miss VanVoreen. O meu nome  Chester Goodman. Trabalho para o seu pai e ele pediu-me para lhe telefonar.
- Sim? - disse eu, impaciente com as formalidades. Estava-me nas tintas para o nome dele. S queria ouvir os pormenores.
- Ele manda pedir desculpa. No poder v-la hoje.
- O qu? - Senti que as cores me desapareciam da cara, senti o meu peito to frio e to vazio e tive a certeza de que o meu corao havia parado de bater. - Porqu?
Eu tenho de o ver. Tenho mesmo! - insisti eu. - Por favor, diga-lhe, ponha-o ao telefone. Exijo falar com ele.
- Tenho muita pena, Miss VanVoreen, mas ele j c no est. Um dos paquetes VanVoreen que estava em viagem pelo Pacfico teve um grave problema. Est a decorrer
uma operao de salvamento e ele teve de voar at l de emergncia.
- Oh, no!
- Ele pediu para lhe dizer que telefonar na primeira oportunidade. Miss VanVoreen?
Eu no respondi. Pousei o auscultador e recostei-me na cadeira ao lado do telefone, confusa. O pap no teria ouvido o desespero na minha voz? Porque  que no arranjara
maneira de se encontrar primeiro comigo ou porque  que simplesmente no me levara com ele? Podamos ter falado no avio. Porque  que o negcio dele era mais importante
do que a filha?
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Um pensamento assustador ocorreu-me de sbito. Talvez ele soubesse... Talvez ele sempre tivesse sabido que eu no era filha dele e talvez fosse essa a razo por
que no me punha em primeiro lugar na lista das coisas mais importantes para ele.
Enterrei a minha cara nas mos.
- Leigh?
Era o Troy que estava  porta.
- Voltas l para fora? Levantei os olhos para ele.
- No - disse eu. - No estou a sentir-me bem. Tenho de subir e deitar-me um bocado.
Ficou desiludido.
- E mais tarde?
- No sei, Troy. Desculpa - disse e caminhei em direco  escadaria. No olhei para trs. No conseguia olhar para mais nada que tivesse a ver com tristeza.
Pareceu-me ter demorado uma eternidade a subir as escadas. Movimentava-me com uma letargia tal que no me apercebi de que j tinha chegado  minha suite. De repente,
dei comigo no quarto. Fui para a cama e deitei-me com a cabea na almofada. Comeara a doer-me a cabea e tinha uma sensao esquisita no estmago. Parecia que havia
l dzias de borboletas, todas a tentarem encontrar a sada. As asas delas faziam comicho, enquanto batiam freneticamente.
Sentia-me apanhada numa armadilha. Seria possvel sentir-me ainda pior do que me sentia?, pensei.
No entanto, foi o que se passou e logo na manh seguinte. Tinha aberto os olhos h poucos segundos quando aconteceu: uma nusea. Os enjoos foram crescendo at que
tive de me levantar a correr para ir  casa de banho vomitar. Senti-me to agoniada que parecia que ia morrer. Finalmente parei de vomitar e consegui voltar para
a cama a fim de descansar, at ter fora suficiente para me levantar outra vez.
O que seria aquilo? Alguma coisa que tinha comido? E porque  que ia e vinha daquela maneira?, perguntei a mim prpria.
E ento fez-se luz. Havia-me esquecido completamente, pois tinha estado to ocupada com outras coisas nesse ltimo ms e meio...
O meu perodo estava atrasado.
E enjoos matinais!
"Oh, no", pensei. "Estou grvida!"
Esperei trs dias at contar  minha me, com esperana e rezando para que os meus receios fossem infundados, mas
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as nuseas apareciam-me todas as manhs e por vezes at voltavam durante a tarde. Tambm no havia hiptese de erro de calendrio. Por mais voltas que lhe desse,
era sempre confrontada com o mesmo facto: o meu perodo estava muito atrasado e eu nunca tinha sido irregular antes.
Finalmente apercebi-me de que no podia evitar. Por mais estranho que parecesse, quando me imaginei a contar  minha mam, o meu primeiro pensamento foi que este
facto ia confirmar agora o que ela se recusara a acreditar: o Tony tinha-me violado. No podia ter engravidado sozinha. Claro que preferia que ela continuasse a
duvidar de mim do que obter esta prova, mas uma vez que acontecera, no havia necessidade de no usar a minha gravidez para lhe fazer ver a verdade de uma vez por
todas.
Ela estava a preparar-se para um cocktail de caridade que ia dar em Farthy, durante a tarde. Encontrei-a sentada no toucador a estudar um penteado novo para o cabelo.
No me ligou quando entrei nem me ouviu quando a chamei.
-Mam, por favor! - exclamei eu. Pestanejou e virou-se para mim.
- O que foi, Leigh? No ests a ver que estou a arranjar-me para receber os meus convidados? No tenho tempo para disparates - ralhou ela.
- Isto no  um disparate, mam - afirmei eu, num tom de voz duro e frio. Ela percebeu que eu estava a falar a srio e pousou a escova.
- Muito bem, o que foi agora? - Pestanejou e olhou para o tecto, mal tolerando a minha presena. - Sempre que eu estou no meio de uma coisa importante tu tens uma
espcie de crise emocional. No sei o que se passa com as adolescentes hoje em dia. Talvez andes a comer demasiado acar - concluiu ela.
- MAM, FAZ o FAVOR DE ME OUVIR? - Tive vontade de saltar para cima dela e de agarrar nas madeixas do seu precioso cabelo para a obrigar a olhar para mim e a ouvir-me.
- Pra de gritar. Estou a ouvir-te. Mas, por amor de Deus, faz-me o favor de seres rpida.
Engoli os ns que sentia na garganta e respirei fundo.
- Quando lhe contei pela primeira vez o que o Tony tinha feito, a mam no acreditou em mim. No quer acreditar em mim! - disse eu. No consegui evitar que a minha
voz subisse de tom e que os meus olhos se abrissem. Quanto mais falava, mais furiosa ficava. A expresso aborrecida e
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impaciente da mam atiava o carvo da minha fria, transformando-a em pequenas brasas. - Tentei explicar-lhe, dia aps dia, tentei que percebesse que no era nenhuma
fantasia de adolescente, mas a mam no me ouvia...
- E continuo a no querer ouvir. J te disse que eu...
- MAM! - berrei eu. - ESTOU GRVIDA!
Quando as palavras saram da minha boca, surpreenderam-me; mas ali estavam elas. Ficmos ambas em silncio, confrontadas com a verdade. Ia haver um beb. O acto
perverso do Tony ia ter consequncias e, agora, Deus ia-nos fazer pagar a todos pela luxria de um louco.
 mam ficou simplesmente a olhar para mim por uns instantes e ento um sorriso cerrado e pequeno surgiu no seu rosto. Como eu queria apagar aquele sorriso! Recostou-se
na sua cadeira e cruzou os braos no colo.
- O que  que disseste?
As lgrimas escorriam-me pelas faces e desta vez estava desamparada, no as conseguia engolir.
- O meu perodo est muito atrasado e, nos ltimos dias, tenho tido enjoos matinais. Ele engravidou-me. - Ela ficou calada; olhava para mim como se eu tivesse acabado
de falar numa lngua estrangeira e estivesse  espera da traduo. - No entende o que lhe estou a dizer, mam? Tudo o que eu lhe contei era verdade e agora vou
ter um beb, um beb do Tony! - gritei eu, fazendo-a ver a verdade com o mximo de firmeza que conseguia.
- Tens a certeza? Tens a certeza absoluta em relao s datas?
- Sim. Sabe que eu estou sempre a par disso - respondi eu, com firmeza. No havia necessidade de fingir que o que estava a acontecer no era verdade. No ia fazer
como a minha me: no ia viver num mundo de iluses s para me sentir feliz.
Ela abanou a cabea, os olhos diminuram e encheram-se de dio.
- A culpa  tua, minha parva - uivou ela com veemncia.
- O qu? - No estava a acreditar no que ouvia. Ela encostou-se  cadeira, assentindo silenciosamente, a confirmar os seus prprios pensamentos.
- Andaste-te a exibir, a tent-lo, a atorment-lo com o teu corpo jovem a desabrochar. E agora ests a sofrer as consequncias, consequncias horrveis, embaraosas,
terrveis.
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- Eu no andei a exibir-me! A mam sabe...
- Sim, eu sei. No penses que o Tony no vinha ter comigo a toda a hora, queixando-se de que tu te andavas a atirar a ele. E depois, enquanto eu estava fora, convidaste-o
para a tua suite. O que  que estavas  espera que ele fizesse, contigo ali deitada, nua, a tent-lo, a convid-lo, exigindo que ele fizesse amor contigo, se no...
tu... tu inventavas histrias sobre ele.
- O qu? Ele contou-lhe uma mentira dessas? Como  que pode acreditar nessa histria? - perguntei eu.
- E agora v o que fizeste - continuou ela, sem me ouvir. Parecia uma actriz que tinha ensaiado e voltado a ensaiar aquelas frases e se recusava a fazer mais alguma
coisa a no ser recit-las. - E se isto sair daqui? Pensa s no que me vai acontecer, no que os meus amigos vo pensar. Nunca mais seremos convidados para um nico
jantar. Seremos excludos da sociedade... e tudo porque a minha filha  uma promscua, uma tarada sexual, uma egosta, uma irreflectida... uma ciumenta. Sim,  isso
que tu s - afirmou ela, obviamente muito satisfeita com a explicao que arranjara. - E  isso que tens sido. Tens cimes de mim, da minha beleza e do facto de
eu ter casado com um homem to jovem e to atraente, em vez de ficar atrelada ao teu pai, um velho que no me merecia.
- Isso no  verdade!
- Claro que  verdade. Ele contou-me como tu te comportavas na casa pequena, como tentaste seduzi-lo durante as sesses em que fizeste de modelo.
- Mentira,  tudo mentira! - gritei eu. Porque  que ela estava a fazer-me aquilo? O que  que tinha acontecido  nossa relao entre me e filha? - Eu no queria
posar. No se lembra? A mam obrigou-me. E depois, quando vim ter consigo...
- Sim, vieste ter comigo para tentar que eu deixasse de gostar do Tony. Tentaste fazer-me cimes. Foi isso que vieste fazer - concluiu ela, com os olhos a luzirem.
- Achaste que se inventasses essas histrias sobre ele tocar em ti...
- Ele tocou, mam! Isso no eram histrias!
- Ele tocou em ti, mas no da maneira que tu me querias fazer acreditar. E como nada disso deu resultado, atraste-o ao teu quarto e, quando ele resistiu, cuspiste-lhe
a verdade sobre a minha idade, tentando cavar um fosso entre ele e eu!
Percebi que ela nunca iria perdoar-me aquele facto. Nunca 347
acreditaria que o Tony j sabia a verdade antes de eu lhe dizer.
- E ele - prosseguiu -, como  apenas um homem, sucumbiu, e agora olha para o que fizeste, olha para o resultado. bom, espero que estejas orgulhosa de ti prpria,
princesinha! - disse ela, quase histrica. Nunca me tinha parecido to repugnante.
- Mam, nada disso  verdade. No  possvel que acredite mesmo em tudo isso.
- Depois de me ter esforado tanto para te educar correctamente, tentando que percebesses a relao que as mulheres e os homens devem ter, que uma mulher deve manter
a sua virtude para ganhar o respeito e a admirao dos homens. Eu DISSE-TE - berrou ela. - AS RAPARIGAS DECENTES NO VO AT Ao FIM!
O seu grito vibrou dentro de mim, destruindo quaisquer sentimentos de amor ou de respeito por ela que ainda me restassem. Partiram-se, despedaaram-se e desintegraram-se,
como um prato de porcelana fina, cujos pedaos me vinham  memria... Fragmentos de conversas carinhosas entre ns, recortes de imagens, fotografias de tempos felizes,
o som de sinos a tocarem e da msica de caixinhas de msica preciosas, gargalhadas interminveis, meios sorrisos, beijinhos nas minhas bochechas e na testa, as nossas
mos a separarem-se.
No aguentava mais. No era eu quem tinha cimes; era ela. No era eu quem mentia e traa. Eu no era egosta nem cega em relao a tudo quanto no me agradava;
ela era. E agora, para manter o seu pequeno mundo como desejava, pintava-me como uma criatura reles. Era eu a culpada, apesar de ter sido eu a violada.
- SUA MENTIROSA! - gritei-lhe. - Hipcrita, sentada a, a condenar-me por ser promscua e por ir at ao fim. Eu sei a verdade sobre si. Eu ouvi a conversa que teve
com a av Jana mesmo antes de casar com o Tony e sei que o pap no  o meu pai verdadeiro. Sei que dormiu com outro homem, que engravidou e que se casou com o pap
sem lhe dizer a verdade para que ele pensasse que eu era filha dele. Eu soube, mas mantive segredo, enterrei-o no fundo do meu corao, apesar de arder e de doer.
- Mas isso ... - Encostou-se com uma expresso confusa.
- Isto  verdade - interrompi eu. - Tudo verdade. Mas a sua me ajudou-a a encontrar um marido, um homem que a amasse e respeitasse.
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Isso  ridculo - exclamou ela, emergindo da sua apatia e olhando em volta, como se tivssemos de convencer alguma testemunha. - Que boato  esse que queres comear
a espalhar agora sobre mim?  outra maneira de tentares tirar-me o Tony?
- PARE com ISSO! PARE DE MENTIR!
- Como  que te atreves a gritar comigo dessa maneira! Eu sou a tua me.
- No, no  - afirmei eu, abanando a cabea e afastando-me dela. - No, no . Eu no tenho me e no tenho pai. - Permiti-me a mim prpria proferir palavras to
repugnantes como as dela. - Pensava que conseguia tudo o que queria, no era? S do melhor! - proferi eu, encolerizada. - Um marido jovem e bem-parecido, uma propriedade
luxuosa, um guarda-roupa desenhado pelos melhores estilistas e uma AMANTE ESPECIALMENTE SELECCIONADA PARA o SEU PRPRIO MARIDO! - Baixei o tom de voz at ronronar,
como a mam fizera em vrias ocasies. - Diga-me, mam, quando  que a ideia lhe veio  cabea? Na vossa lua-de-mel? Quando voltou para Farthy? - As minhas perguntas
tornaram-se enlouquecedoras e eu no deixava que a mam respondesse, tal como ela tinha feito comigo tantas vezes. - Quando  que se apercebeu de que a sua beleza
no ia durar para sempre e que ia comear a MURCHAR! - Ri-me na cara dela.  isso mesmo, a murchar! A cada dia que passa, vai ficando mais velha, mam. Mas sempre
soube isso, no fundo do seu corao! NO A SUPORTO MAIS! No se preocupa com nada que no seja voc prpria e o seu precioso rosto. Agora, deixe-me dizer-lhe uma
coisa, Jillian Tatterton, ACABOU! Vai ser av! Isso f-la sentir-se jovem? Mesmo que tenha um aspecto muito jovem, nunca vai poder escapar ao facto de ser AV e
a nica pessoa que pode culpar  VOC PRPRIA! - Virei-me e fugi a correr da suite dela, fugi das suas mentiras e dos seus olhos hipcritas, fugi de uma mulher que
eu j no reconhecia nem amava. Fechei violentamente a porta do meu quarto atrs de mim, mas no chorei. No ia voltar a chorar neste lugar malvado. Detestava este
stio, detestava o que acontecera aqui, detestava a pessoa na qual este lugar me tinha transformado. S sabia que tinha de me ir embora, tinha de fugir aos seus
pecados, s suas mentiras e aos seus falsos sorrisos.
Abri a porta do meu armrio e agarrei numa mala. Sem planear a roupa que iria precisar, apanhei uma coisa aqui, outra coisa ali, atirando com as peas de roupa 
toa para
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dentro da mala. Ignorei as minhas lindas roupas e as minhas jias valiosas; estava-me nas tintas para as fotografias e para as lembranas. S queria fugir o mais
depressa possvel.
Fechei a minha mala e dirigi-me para a sada do quarto, mas parei  porta e virei-me, como se algum tivesse chamado por mim. Angel fitava-me do outro lado da sala.
Parecia to triste e to perdida como eu. Como  que podia deix-la para trs? Amparei-a nos meus braos e sa da suite com a mala na mo. A minha me no tinha
vindo atrs de mim, nem estava no corredor. Apressei-me no caminho para a escadaria.
S quando cheguei ao fundo das escadas  que parei para me perguntar a mim prpria o que estava a fazer e para onde me estava a dirigir. No podia simplesmente abandonar
Farthy. Estava a quilmetros de qualquer stio.
"A av Jana", pensei. Ia ter com ela. Ela perceberia. Ela sabia quem era realmente a mam. Contar-lhe-ia tudo o que acontecera. Ela teria pena de mim. Tinha de me
dirigir para sul e perfazer a viagem at casa dela, mas para isso precisava de dinheiro. Procurei dinheiro na minha carteira e descobri que no tinha sequer vinte
dlares, o que no era suficiente para financiar a minha viagem para o Texas. Lembrei-me do stio no escritrio onde o Tony guardava algum dinheiro e fui busc-lo.
"Porque no?", pensei. Se algum devia pagar, esse algum era o Tony.
Havia quase duzentos dlares na gaveta da secretria. No era uma fortuna, mas era suficiente para me pr a caminho. Enfiei o dinheiro na mala, endireitei-me e olhei
para o espelho. Dei um jeito ao cabelo, limpei o rosto com um leno e respirei fundo. No queria parecer to desesperada como me sentia. Tinha intenes de sair
e pedir casualmente ao Miles para me conduzir a Boston. Se ele desconfiasse de alguma coisa, podia voltar a casa e perguntar primeiro  minha me.
Sa do escritrio, fechando a porta devagar. A casa estava em silncio. Espreitei pelas escadas para o segundo andar e no vi ningum. A minha me provavelmente
tinha continuado a arranjar-se para a festa. Afinal, primeiro que tudo estava a sua beleza, e ela ia receber os seus amigos ricos, pessoas que ela tinha de impressionar.
O Curtis apareceu, vindo da sala de msica e parou a olhar para mim com uma expresso de curiosidade estampada na cara, pois viu-me ali de p de mala na mo. Eu
sorri, tentando que tudo parecesse casual e ele acenou com a cabea, continuando o seu caminho at  cozinha.
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Em seguida, sa pela porta da frente. A luz brilhante do Sol ofuscou-me; pus a mo por cima dos olhos para fazer sombra. Estava muito calor e havia nuvens grandes
e altas espalhadas pelo cu azul. Uma brisa fraca e suave acariciou-me o rosto. O mundo dava-me as boas-vindas, encorajava-me a sair deste reino sombrio e encantado
chamado Farthinggale. Quando aqui chegara, pensei que esse lugar fosse como num livro de contos. Agora conhecia a verdade: que era um pesadelo tornado realidade!
Por sorte, o Miles estava na parte da frente da casa a polir o carro. No tinha de ir  procura dele e atrair desse modo a ateno dos empregados que trabalhavam
no jardim. O Miles levantou os olhos bruscamente, quando comecei a andar na direco dele.
- No estou adiantada - disse eu, e sorri. Olhei para o meu relgio e depois mostrei-lho para ele ver as horas.
- Hum? - Pousou o pano de polir e olhou para mim com uma expresso confusa. - Era suposto lev-la a algum stio esta tarde?
-  estao de comboios, Miles. No me diga que a minha me se esqueceu de o avisar hoje de manh.
- No, ela no me disse nada. Eu...
-  tpico dela, quando organiza uma das suas festas de caridade. Fica to excitada e to agitada que se esquece de tudo o resto - comentei eu. Eu sabia que ele
acreditava naquilo. - vou visitar a minha av. J est tudo tratado. Receio bem que tenhamos de partir imediatamente, se no, perco o meu comboio.
- Mas... - Ele olhou para cima na direco da casa.
- Miles? - Levantei a minha mala para indicar que ele devia pegar nela.
- Oh. - Pegou na mala a correr e p-la no porta-bagagens da limusina. - No percebo porque  que o Curtis no me disse nada. Ele vem sempre relembrar-me quando algum
est para viajar.
- Talvez a mam tambm no se tenha lembrado de lhe dizer - observei eu. - Vamos?
- O qu? Oh, sim. - Abriu-me a porta e eu entrei rapidamente. Em seguida, entrou tambm e ps o motor a trabalhar. Observei a porta da frente, meio  espera que
a minha me aparecesse de repente e comeasse a gritar, exigindo saber o que se estava a passar. Mas ela no surgiu e o Miles comeou a descer pela estrada longa
e tortuosa. Olhei pela janela lateral e, de sbito, vi o pequeno Troy e a sua
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enfermeira que regressavam de um passeio  praia. No estado de excitao e de fria em que me encontrava, tinha-me esquecido completamente dele e do que a minha
partida iria significar para aquela criana.
- Oh, no - murmurei por entre dentes. - Troy! Miles
- gritei eu. - Por favor, pare um momento. Esqueci-me de dizer adeus ao Troy.
Mal ele parou o carro, desci e chamei o Troy, acenando-lhe. Ele parou e veio a correr na minha direco com o seu pequeno balde a balouar na mo.
- Leigh, apanhei a maior concha que alguma vez viste
- gritava ele. - Olha. - Parou  minha frente, sem flego, e pousou o balde. Tinha posto um bzio cor-de-rosa e branco no topo de uma variedade de pequenas conchas.
- Essa  grande.
- E consegue-se ouvir o som do mar. - Pegou nele e entregou-mo. - Ouve.
Pus o bzio no ouvido e assenti, a sorrir.
- Parece que vai sair c para fora e molhar-me toda comentei eu, afastando o bzio do ouvido, como se estivesse realmente com medo. Ele riu-se.
- No est a dentro. - Voltou a pegar no bzio e colocou-o no balde. Foi ento que reparou na limusina. - Onde vais, Leigh?
- Tenho de me ir embora por uns tempos, Troy. - Peguei na mozinha dele e agachei-me, para poder olhar para os seus olhos. - Porta-te bem e tenta descansar e comer
enquanto eu estiver fora, est bem?
- Mas quando  que voltas?
- vou demorar uns tempos, Troy.
- Muito tempo? - Eu assenti. - Ento quero ir contigo.
- No podes, Troy. Tens de ficar aqui onde h pessoas que podem tratar de ti.
- Mas para onde vais? - perguntou, de novo, j com lgrimas nos olhos.
- vou ver a minha av.
- E porque  que nunca foste ver a tua av antes? perguntou ele, desenvolvendo rapidamente um certo cepticismo na sua cabecinha inteligente.
- Estava sempre demasiado ocupada - menti eu. Ele inclinou levemente a cabea. Percebeu que eu estava a mentir, pensei eu, mas tinha de ser.
- No vais mesmo voltar, Leigh? - perguntou, com brandura.
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Claro que vou - respondi eu. Sorri e reprimi as gordas lgrimas que estavam prestes a explodir.
No, no vais - disse ele, afastando-se de mim. -
Vais deixar-me a mim e a Farthy. No vais voltar; no vais.
Volto, Troy. Prometo. No sei como, nem de que modo, mas voltarei para ti.
- Prometes?
- Juro. Vem, d-me um beijo de despedida. Por favor
pedi. - Se no, vou fazer uma viagem horrvel. - Fiz uma careta, como se j estivesse a passar um grande tormento.
Ele enterneceu-se e ps os seus bracinhos  volta do meu pescoo. Beijei-lhe a face e abracei-o com fora. A seguir, ele bicou a minha face, como um passarinho,
e afastou-se. Levantei-me, sorri para ele e voltei para o carro.
- Leigh! - chamou ele. - Espera.
Detive-me  porta do carro. Ele enfiou a mo no balde e tirou l de dentro o bzio.
-"Leva isto contigo - ofereceu-me.
- Oh, no, Troy. Guarda o bzio aqui.
- No - afirmou ele, abanando a cabea vigorosamente. - Leva-o contigo e no te esquecers de mim.
- Eu no posso esquecer-te, Troy. No precisas de te preocupar com isso - disse eu, mas ele ficou ali, obstinado, de mo estendida, a segurar no bzio. Peguei nele.
- Est bem. Obrigada.
- Se puseres o bzio no ouvido, vais ouvir o mar e vais ouvir-me a mim - prometeu ele. Voltou-se e foi a correr ter com a enfermeira. Observei-o por uns momentos
e depois entrei dentro do carro.
- Por favor, Miles, vamos - disse eu. - O mais depressa possvel.
O Miles esboou um sorriso, ainda um pouco desconfiado, mas depois arrancou. Avanmos pela estrada e passmos o porto principal atravessando o grandioso arco,
mas eu no olhei para trs. Em vez disso, pus o bzio no ouvido e pus-me a ouvir o som do mar e o choro do Troy.
Ele chamava-me.
- Leigh... Leigh...
Ento, tirei o bzio do ouvido, fechei os olhos e Farthinggale ficou para trs, vacilante como uma vela moribunda.
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19 UMA VISITA A UM CIRCO

Nunca tinha viajado para lugar nenhum sozinha, mas no queria que o Miles se apercebesse dos meus receios, nem das minhas indecises. Logo aps a nossa chegada 
estao de comboios, ele tirou a minha mala do porta-bagagens e esperou pelas minhas ordens.
- Eu levo a mala a partir daqui, Miles - afirmei.
- Oh, no, Miss Leigh. Eu entrego a mala ao bagageiro. Para onde vai?
- Deixe estar, Miles. Eu quero ficar por minha conta. Gosto da ideia de viajar sozinha - expliquei eu e fiz um sorriso caloroso, para que ele no se apercebesse
do meu nervosismo. O Miles hesitou por uns momentos e depois pousou a mala.
- bom, faa boa viagem, Miss Leigh - disse.
- Obrigada, Miles. - Peguei rapidamente na minha mala e entrei na estao, parando para lhe acenar e para lhe dizer adeus mais uma vez. Seria a ltima vez? Ele deixou-se
ficar ali a olhar para mim, mas no me seguiu para ter a certeza de que eu ficava em segurana dentro do comboio.
Voltei-me e olhei em volta. Por todo o lado havia pessoas apressadas e ouviam-se avisos relativos aos diferentes comboios e destinos. A azfama era excitante, mas
tambm me assustava. Vi um polcia alto e ruivo ao lado de um quiosque a falar com o empregado da caixa registadora. Tinha um ar jovem e uma cara simptica; por
isso, dirigi-me a ele.
- Desculpe - disse eu -, mas podia dar-me uma informao? Onde  que se pode comprar um bilhete para o Texas?
- Para o Texas? - perguntou ele a sorrir. - O Texas  um estado muito grande. - O empregado do quiosque riu-se. - Sabe para que stio do Texas quer ir?
- Sei, sim, senhor.
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Ento - explicou ele -, vire  direita neste primeiro corredor e no fim do corredor vai encontrar a bilheteira.
- Obrigada - disse eu.
- Olhe c, a boneca que leva a  bonita, to bonita como a menina - observou ele. Esquecera-me que estava a agarrar na Angel com tanta fora. Sorri e comecei a
andar. No est a fugir de casa pois no? - gritou-me ele.
- Oh, no, senhor.
Ele e o empregado do quiosque voltaram a rir-se. Quando cheguei  bilheteira, pedi um bilhete para Fullerton, no Texas. No fundo, era tudo o que sabia da morada
da av Jana. Pensei que quando l chegasse podia telefonar-lhe para ela me vir buscar.
O cobrador esboou um sorriso.
- Fullerton, no Texas? - Estudou os seus mapas de horrios. - No h nenhum comboio que pare a, menina.  prximo de qu?
- Oh, no tenho a certeza. Acho...
- Houston? Dallas? El Paso?
Comecei a entrar em pnico. Se no escolhesse uma estao, ele ia certamente pensar que eu estava a fugir de casa. Talvez at fizesse sinal ao polcia, e nada seria
mais horrvel, mais embaraoso e mais degradante do que ser levada de volta para Farthy num carro da Polcia mesmo no meio da festa de beneficncia da mam.
- Dallas - disse eu, prontamente. S queria ir para o Texas. Quando l chegasse, telefonaria  av Jana. Tinha a certeza de que ela tomaria providncias para que
eu fosse levada para sua casa, mesmo que fosse muito longe.
- Pronto, Dallas. bom - disse ele -, o melhor que posso fazer por si  mand-la para o nosso terminal em Atlanta. No entanto, vai ter de esperar muitas horas pela
ligao. A no ser que volte e parta amanh de manh bem cedo.
- No, no me importo de esperar - balbuciei eu.
- Estou a ver. Ida e volta, presumo?
- No - disse eu prontamente. - S ida.
- Geral, carruagem, carruagem-cama?
- Carruagem - afirmei eu.
Ele assentiu e comeou a preparar o meu bilhete.
- So cento e sessenta e dois dlares.
Cento e sessenta e dois! Ficava com muito pouco dinheiro para o resto. Talvez devesse ter escolhido um lugar geral, pensei, mas no hesitei. No queria que o cobrador
percebesse
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que no tinha muito dinheiro para viajar. Contei o dinheiro depressa e ele deu-me o bilhete.
- Vai partir da plataforma C dentro de cerca de quinze minutos.  ali em baixo  direita. Est bem assinalado.
- Obrigada. - Peguei no bilhete e afastei-me.
Nesse momento j tinha o bilhete na mo e dirigia-me para a gare do comboio, e foi ento que tive conscincia da realidade. O meu corao batia com tanta fora que
pensei que desmaiava e fazia uma cena. Imaginei um aglomerado de pessoas  minha volta e o jovem polcia a manter toda a gente  distncia. Ainda fiquei mais assustada;
apressei-me em direco  plataforma indicada e sentei-me no primeiro lugar vago que encontrei num banco. No havia muita gente, pois ainda faltava algum tempo para
a partida do comboio. Reparei numa mulher com duas meninas, dois bancos a seguir a mim. Estava a ler-lhes um livro de histrias infantis para as manter ocupadas.
No consegui evitar as lembranas de quando a mam lia para mim.
Como o mundo era diferente quando era pequena e vivamos todos na nossa casa de Boston, pensei. Observar aquela me e as suas filhas desviou-me o pensamento para
o beb que carregava. Seria menino ou menina? Quando desse  luz, devia ficar com a criana ou entreg-la para adopo? Qual seria o conselho da av Jana? Conseguiria
afastar-me da criana quando a tivesse nos meus braos? Mas no era eu demasiado jovem para ser me e, se viesse a ser, que tipo de me seria?
De uma coisa tinha a certeza, nunca viria a ser uma me como a minha. Preferia que a criana fosse adoptada do que ser uma me assim, pensei. Sentei a Angel ao meu
lado e fechei os olhos. O rudo surdo e prolongado dos comboios a aproximarem-se e a partirem das outras plataformas fazia tremer o cho. Pouco depois, comearam
a chegar mais e mais pessoas. Quando um homem de fato e gravata veio sentar-se ao meu lado, apertei a Angel nos meus braos. O homem sorriu, mas logo a seguir abriu
um jornal e comeou a ler.
O meu corao comeou outra vez a palpitar. Estava a aproximar-se a hora da partida. Olhei para trs. Estaria a tomar a deciso certa? Era fcil mudar de ideias.
Era s telefonar e pedir ao Miles para me vir buscar. Dentro em breve, ele prprio estaria a chegar a Farthy, e das duas uma: ou mencionava que me tinha levado 
estao ou algum lhe perguntava onde tinha ido. A mam descobriria a minha manobra
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e mand-lo-ia de volta para me vir buscar, mas ele no chegaria a tempo.
No voltaria atrs, pensei, e, quando o comboio entrou a ribombar na gare, levantei-me de imediato, para subir logo que as portas se abrissem. Encontrei rapidamente
a minha carruagem e sentei-me  janela. Em seguida, arrumei a minha mala por cima da cabea, instalei a Angel com todo o conforto ao meu lado e esperei ansiosamente.
Havia espao para pelo menos mais trs pessoas; porm, a nica pessoa que entrou no compartimento foi um senhor mais velho. Acenou com a cabea, sentou-se e comeou
imediatamente a ler o seu jornal.
Por fim, o comboio comeou a andar. O meu corao batia ao ritmo do som das rodas do comboio que regressavam aos seus carris. A estao desapareceu atrs de ns
e disparmos em direco  penumbra, em direco ao Sul, afastando-nos do nico mundo que eu alguma vez conhecera.
- O bilhete, menina? - pediu o revisor. Eu tinha o bilhete na mo e entreguei-lho prontamente. Ele picou o bilhete e sorriu.
Recostei-me e olhei pela janela enquanto o comboio avanava a serpentear, levando-me por tneis escuros e sobre montes, em direco a novos horizontes. Parecia que
estvamos a caminhar para a noite que se aproximava, enquanto a escurido se arrastava na nossa direco. Vi de relance estrelas a espreitarem por entre as nuvens.
Nunca me tinham parecido to longnquas como nesse momento.
O comboio continuava, embalado. De vez em quando, viam-se as luzes de outras cidades ou de casas,  distncia, cujas janelas eram de um amarelo caloroso. No interior
dessas casas, as famlias sentavam-se juntas  volta da mesa, a jantar. Aquelas crianas sentiam-se em segurana e a salvo junto dos pais que as amavam. No eram
to ricas como eu; as suas casas cabiam num canto da Manso Farthinggale e perdiam-se l dentro, mas nessa noite dormiriam nas suas prprias camas e os pais delas
dar-lhes-iam um beijo de boas-noites. As mes aconchegariam os seus filhos nas camas. Os paps beij-los-iam na face e na testa e prometer-lhes-iam um amanh ainda
mais animado e feliz.
Eu no tinha ningum que me prometesse um amanh mais feliz ou mais animado; s a Angel. Ela e eu encontrvamo-nos sentadas como duas crianas a serem empurradas
para o desconhecido. Estvamos cansadas e com fome e j nos sentamos muito sozinhas. Apesar de o senhor que estava
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sentado  minha frente me ter observado com curiosidade quando coloquei a Angel com firmeza no colo, deixei-a ficar, abraando-a com fora, enquanto o comboio avanava.
Estava determinada a no voltar atrs, nem agora, nem nunca. Pouco depois, o ritmo montono das rodas do comboio adormeceu-me.
Acordei a meio da noite com o som de um sinal de partida. Dentro da carruagem estava escuro, mas havia luzes no exterior do comboio e nos corredores. Assim, depois
da confuso inicial, lembrei-me com preciso de onde estava e do que tinha feito. O senhor  minha frente estava a dormir com o jornal aberto no colo. O corpo dele
balanava de um lado para o outro ao ritmo do movimento do comboio. Aninhei-me novamente e fechei os olhos. Pouco depois j estava a dormir outra vez.
Acordei com a primeira luz da manh e olhei l para fora para as quintas e para os campos planos. O senhor mais velho j estava acordado.
- Para onde vai, menina? - perguntou ele.
- Atlanta.
- Eu saio na prxima paragem. Ainda tem umas boas cinco horas pela frente. Pode ir comer qualquer coisa  carruagem-restaurante. Tem uma boneca muito bonita - observou
ele acenando na direco da Angel. - Acho que nunca vi uma to bonita - acrescentou ele com um sorriso de admirao.
- Obrigada.
- Vai para casa?
- Sim - respondi eu. Achei que era melhor dizer que sim. De certa maneira, at podia estar a caminho de casa, raciocinei eu.
Ele esticou-se.
- Eu tambm - disse ele. - J ando na estrada h quase um ms. Sou vendedor, grossista, de calado.
- Deve ser difcil para si estar tanto tempo afastado da famlia.
- Isso  verdade. No h nada como ir para casa. Claro que todos os meus filhos so adultos, por isso somos s eu e a mulher. Mesmo assim  bom. Temos cinco netos
- acrescentou ele, sorrindo de orgulho.
Eu devolvi-lhe o sorriso e depois comecei a pensar que, dentro em breve, a mam tambm ia ter um neto, s que ela nunca seria capaz de estimar o seu neto da maneira
que este
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homem estimava os seus, pois o pai do neto dela era o seu prprio marido. O mundo sinuoso e sombrio de Farthy ia perseguir o meu filho para sempre, conclu eu. Era
quase razo suficiente para no o ter.
No entanto, talvez eu conseguisse encontrar outro mundo, um mundo muito diferente de Farthy, e criar o meu filho nesse mundo. Se conseguisse, se conseguisse, se
conseguisse... Entoava aquelas palavras como se estivesse a pregar ao ritmo das rodas do comboio. Nesse momento, o meu estmago roncou de fome.
- Acho que vou tomar o pequeno-almoo - disse eu, pondo-me de p.
- Eu tomo conta da sua boneca - ofereceu-se o senhor.
- Oh, no. Ela vai a todo o lado comigo - afirmei eu.
- E, alm disso, ela tem tanta fome como eu.
Ele riu-se e eu sa para procurar a carruagem-restaurante.
Parmos na estao dele enquanto eu estava a comer; portanto, j l no estava quando regressei. Passei as trs horas e meia seguintes sozinha, a olhar pela janela.
Quando ouvi anunciarem a chegada a Atlanta, o meu corao comeou novamente a bater. A primeira parte da minha longa e triste viagem tinha terminado. Estava muito
longe de Farthy e, a esta hora, a mam estaria certamente agitada e zangada. Comecei a imaginar como  que ela iria lidar com aquela situao. Chamaria a Polcia
ou teria medo do escndalo? Tentaria contactar o Tony na Europa?
De uma coisa tinha a certeza, pensei. No deixara que o sucedido interferisse com a sua festa de beneficncia em Farthy. Ningum que por l tivesse passado seria
capaz de dizer que alguma coisa estava errada s por olhar para a cara dela, e ela daria ordens ao pessoal, principalmente ao Miles e ao Curtis, para no mencionarem
uma palavra sobre o assunto a ningum.
Estava mesmo a imaginar a mam a dizer para si prpria:
- Ela volta quando lhe passar.
- No, no voltarei, mam - garanti eu. - No, no voltarei.
Fiquei parada na gare durante alguns minutos a ler todos os quadros que informavam os passageiros dos pontos de partida para os diferentes destinos. O terminal de
Atlanta era maior que o de Boston e parecia que havia o dobro, no, o triplo das pessoas a andarem de um lado para o outro. Encontrei um balco de informaes no
gigantesco trio e mostrei o meu bilhete  rapariga que l estava.
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- Tem de descer o corredor ali  direita e virar na primeira  direita. Vai ver os horrios, mas este comboio s parte s oito da noite. No tem stio para ficar
at essa hora? So horas e horas.
- No - respondi eu. - No faz mal.
- Faa como quiser - disse ela e voltou-se para outra pessoa. Comprei uma revista e, depois de seguir as instrues dela, cheguei  minha gare. Era muito mais larga
e muito mais comprida do que a outra em Boston. Havia uma pequena sala de espera  direita; por isso, dirigi-me para l e sentei-me num banco ao fundo. Em seguida,
contei o dinheiro que tinha. No sobrava muito e eu esperava que fosse suficiente para almoar e para jantar.
- Aposto em como consigo transformar a tua nota de um dlar numa nota de cinco dlares - disse algum, e eu levantei os olhos para deparar com os olhos negros mais
radiosos que alguma vez vira. O rapaz que estava  minha frente tinha cabelo preto-azeviche e pele cor de bronze. Era alto e bonito, com uns ombros fortes que deformavam
as costuras da sua fina camisa de manga curta.
- O qu?
- Confia-me uma dessas notas de um dlar por um momento e eu mostro-te - disse ele, sentando-se ao meu lado.
No sei porque  que o fiz, mas entreguei quele estranho um dos meus preciosos dlares. Eu sabia que viajantes ingnuos, principalmente raparigas como eu, eram
os alvos preferidos dos aldrabes em toda a parte. Mas ele disse que transformava a minha nota de um dlar numa de cinco e no ao contrrio, e agradava-me olhar
para ele.
Pelo que podia ver, no tinha nada nas mos e, como  bvio, tambm no tinha mangas onde pudesse guardar alguma coisa. Dobrou a minha nota de dlar com muito cuidado
sobre a palma da mo, perante os meus olhos. Dobrou-a at ficar o mais pequena possvel. Ento, virou a mo de maneira a que eu pudesse ver apenas a parte de cima
do punho fechado. Estendeu-me o brao e sorriu.
- Pronto, agora toca na minha mo - disse. Os olhos dele cintilavam.
- Toco na tua mo? - Ele assentiu. Pus o meu dedo no n do seu dedo do meio e retirei-o rapidamente. Ele riu-se.
- No di. Mas est bem, j  suficiente - afirmou ele e virou a mo, ficando de novo com a palma para cima. Depois, ante os meus olhos atnitos, desdobrou a nota
e ali estava ela: uma nota de cinco dlares!
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- Como  que fizeste isso? - perguntei eu, com os olhos arregalados.
Ele encolheu os ombros.
- Magia, que mais pode ser? De qualquer modo, aqui tens, cinco dlares - disse ele, entregando-me a nota. Pela maneira como estavas a contar o teu dinheiro parece
que precisas destes quatro dlares a mais. - Depois, acrescentou: -  verdade?
Fiquei vermelha.
- Bem, eu no costumo aceitar dinheiro de estranhos, mesmo que seja dinheiro mgico - repliquei eu, devolvendo-lhe a nota de cinco dlares.
- Est bem. Ento, vou deixar de ser um estranho disse ele encostando-se e virando as palmas das mos para cima. - O meu nome  Thomas Luke Casteel, mas quase toda
a gente me trata por Luke. E tu quem s? - Estendeu-me a mo.
Olhei para ele, sem saber se devia rir ou levantar-me e ir-me-embora. Ele era bonito de mais para ser aldrabo, pensei eu; alis, esperava eu.
- Leigh VanVoreen. - Apertei-lhe a mo.
- Pronto, agora j no somos estranhos e tu podes guardar o dinheiro mgico.
- Eu no preciso dele, de verdade. Tenho o suficiente para chegar ao meu destino. Desculpa, mas tenho de insistir para que troques a nota outra vez.
Ele riu-se.
- No sei o truque para voltar a trocar a nota. Desculpa.
- Ests a ser muito tolo, a desperdiar dinheiro desta maneira.
Ele encolheu os ombros.
- O dinheiro aparece to depressa como desaparece. Alm disso, ver a tua cara quando fiz o meu truque valeu mais do que quatro dlares - disse ele, olhando-me, olhos
nos olhos.
Senti-me a corar.
- s mgico?
- No. Estou a trabalhar num circo aqui ao p e aprendi uma data de coisas com os feirantes.
- Feirantes?
- Os artistas de circo.  uma gente espectacular. So como unha com carne, esto sempre juntos e ajudam-se uns aos outros. Alguns deles at j viajaram pelo mundo
inteiro e conhecem muitas coisas. Aprendo imenso s de me sentar
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ao p deles e de os ouvir falar. Ficavas surpreendida se soubesses as coisas que eu j sei, e o conhecimento e a experincia  o que nos torna mais adultos - acrescentou
ele, com orgulho.
- No pareces assim muito velho.
- Tenho dezassete. Tu tambm no tens ar de ser muito velha.
- Tenho quase catorze anos.
- Bem, no somos muito mais velhos do que o Romeu e a Julieta, sabes - disse ele. - A Duquesa contou-me a histria deles. Ela era uma actriz profissional na Europa.
Agora faz o nmero das facas, com o marido.
- Queres dizer que ela est ali de p, enquanto o marido atira facas  volta dela?
- Sim.
- Eu nunca conseguiria fazer isso. E se o marido se zanga com ela?
O Luke voltou a rir-se.
- Isso  uma das grandes piadas que se contam nas tendas. No  to perigoso como parece. H uma tcnica para fazer isso, tal como existe uma tcnica para a maior
parte das coisas que se fazem no circo, mas  isso que eu adoro no circo: as iluses, o mundo do "faz de conta", a excitao.
- Parece divertido. O que  que tu fazes?
- Eu arranjei um trabalho em part-time por uns tempos, s para andar com o circo. Um dia quero ser um grande mestre-de-cerimnias do circo. Ests a ver, o homem
que chama as pessoas. - Levantou-se de um pulo e gritou. Venham, venham todos, venham ver o maior espectculo  face da terra. Temos gigantes de um s olho, uma
mulher-cobra, o homem mais pequeno do mundo, a mulher de barbas, Boris, o domador de lees, o melhor grupo de trapezistas voadores! - recitou ele, como se estivesse
sobre uma plataforma. As pessoas que estavam ali ao p voltaram-se para ns, mas ele parecia no se importar por estar a atrair a ateno de toda a gente.
- Fui bem?
- Muito bem.
- Obrigado. Estou sempre a praticar, mas  difcil, pois de onde eu venho as pessoas no sabem muito sobre circos. No sabem muito de nada - disse ele, com tristeza.
- De onde  que vens?
- De um lugar na Virgnia Ocidental conhecido por Willies. Fica nas montanhas, sobre a cidade de Winnerrow -
362
explicou ele, e eu percebi que, apesar do que tinha dito sobre as pessoas, tinha um sentimento muito caloroso pela sua terra.
- Porque  que lhe chamam Willies ? - perguntei eu. Parecia um nome estranho para uma terra.
- Oh, viver nos montes  o suficiente para qualquer pessoa apanhar um cagao... principalmente quando os lobos uivam como o vento e os linces guincham. L em cima,
as criaturas selvagens vagueiam  sua vontade. Temos de tomar conta dos nossos cachorros - acrescentou ele e riu-se.
- Pelo que dizes no parece ser um lugar muito agradvel. No  de admirar que te tenhas vindo embora para trabalhar no circo.
- No, eu s estou a brincar. No  assim to mau. No fundo, at tenho saudades da paz e do sossego das florestas. A maior parte do tempo s se ouvem os pssaros
a cantar e o murmrio cristalino de um regato situado ali ao p. E tenho saudades dos cheiros: das folhas verdes no Vero, das pinhas, das flores selvagens.  fabuloso
poder olhar, olhos nos olhos, para os esquilos e outros animais do gnero e, quando o Sol se levanta de manh e a sua cabea aparece por detrs dos montes ou espreita
atravs das rvores, uma pessoa sente-se... no sei... viva, acho.
- Nessa perspectiva parece que  maravilhoso - disse eu. - Afinal como , de facto?
-  os dois. Ento, para onde  que tu vais?
- vou para o Texas - disse eu. - Fullerton, no Texas. vou viver com a minha av.
- Oh? s donde?
- De Boston e de Cape Cod.
- Como  que podes ser de dois stios? - perguntou ele. Eu ri-me, mas ele no pareceu magoado. Percebi que era um rapaz muito sensvel e no queria que ele pensasse
que eu era estpida ou frvola.
- A minha famlia tem vrias casas - informei eu. Cresci em Boston, mas tenho vivido numa casa nos arredores de Boston - expliquei eu.
Ele assentiu silenciosamente.
- Parece que tinhas razo.
- O que  que queres dizer com isso?
1 Give the Willies  uma expresso utilizada em calo, que significa mais ou menos "apanhar um cagao". (N. da T.)
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- No precisavas que eu te trocasse a nota de um dlar por uma de cinco - disse ele, taciturno.
- Sim, precisava - confessei eu. Os olhos dele abriram-se de curiosidade.
- Hem?
- Eu no trouxe muito dinheiro comigo quando me vim embora e no fazia ideia do preo das coisas - acrescentei. Ele assentiu, pensativo.
- Parece que saste a correr, foi? - perguntou ele, mas eu desviei o olhar. - Olha l, o que  isso que ests a agarrar com tanta fora? - Inclinou-se para poder
observar melhor a Angel. - Uma boneca! - exclamou ele, espantado. Os meus olhos flamejaram.
- No  uma boneca qualquer.  uma boneca especial, uma boneca para coleccionadores.  uma obra de arte e chama-se uma boneca-retrato - disse eu, bruscamente.
- Ah, estou a ver. Desculpa. Bem, posso v-la melhor? Prometo que tenho cuidado.
Olhei para os olhos dele. Parecia sincero. Ento, passei-lhe a Angel. Ele segurou nela cuidadosamente e observou a cara e os traos do seu rosto. Depois, assobiou
por entre dentes.
- Tens razo. Isto  mesmo uma obra de arte. Nunca vi uma boneca to perfeita. - Baixou-a e olhou para mim. A seguir, voltou a olhar para ela. - Espera a. Esta
boneca  muito parecida contigo.
-  para ser - disse eu, voltando a pegar na Angel com cuidado. - J te disse -  uma boneca-retrato. Eu... eu posei para ela.
- Ah! Ena, grande pinta, e essas roupas? Tambm parecem especiais.
-  so.
- Pronto, isso explica porque  que ests a agarrar na boneca como se a tua vida dependesse dela.
- Eu no estou a agarrar na boneca como se a minha vida dependesse dela - retorqui eu, bruscamente. Ele riu-se de novo. Quando sorria, os olhos dele brilhavam, calorosos.
No havia sinais de falsidade ou de aldrabice no seu sorriso; no tinha nada a ver com o sorriso de escrnio do Tony. O sorriso do Luke dava-me uma sensao de calor
e de segurana.
- Estou s a brincar contigo. Ento para onde  que tens de ir?
- Texas. Dallas, no Texas.
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- Isso  longe. Quando  que parte o teu comboio?
- S l para as oito da noite.
- Oito da noite! Faltam horas. No podes ficar a sentada o tempo todo. Aqui  poeirento, sujo e barulhento. No conheces ningum em Atlanta? - Abanei a cabea e
ele ficou pensativo por uns momentos. - Bem, ento deixa-me fazer-te uma pergunta. Gostavas de ir ver o circo? Posso levar-te  borla e o tempo passava mais depressa.
Depois, trago-te de novo  estao.
- No sei. Eu...
- J foste ao circo alguma vez?
Pus-me a pensar. Tinha ido a um circo na Europa quando era muito pequena, mas no me lembrava de nada.
- No - respondi.
- Pronto, ento est decidido - declarou o Luke batendo as palmas das mos. - Anda. - Pegou na minha mala. Eu continuei sentada. - Anda, no te vai acontecer nada
e ainda por cima vais divertir-te.
Pensei na proposta dele. Eu tinha realmente de esperar muito tempo, e ele era to bonito e to simptico. Porque no? Decidi-me a ir e pus-me de p.
- ptimo - reagiu ele. - Eu vim trazer um amigo  estao e estava de regresso - explicou enquanto me conduzia para a sada. - O circo no  longe daqui. S vai
c ficar mais dois dias e depois parte para Jacksonville.
- Parece que viajam muito - comentei eu.
Ele caminhava to direito e com tanta segurana pela estao! Admirei-o por ser to seguro com aquela idade. Era diferente dos rapazes que eu conhecia, at do Joshua;
o Luke era maduro. Deduzi que tinha crescido mais depressa, pois vivia sozinho.
Quando samos da estao, ele dirigiu-se para o parque de estacionamento e indicou-me uma carrinha de cargas e descargas castanho-clara.
- Este  o meu Rolls-Royce - disse ele. - No  grande coisa, mas leva-me onde  preciso. Aposto em como ests habituada a andar em carros mais finos - acrescentou,
piscando o olho. Eu no respondi. Abriu-me a porta e entrei na carrinha. Havia trs garrafas vazias de cerveja no cho. Ele apanhou-as depressa e meteu-as no porta-bagagens.
O banco estava rasgado e havia fios suspensos no painel. Entrou rapidamente e ligou o motor, que arrancou e foi-se abaixo. - V l, Lulu Belle, devias dar boa impresso
 nossa passageira e no te armares em teimosa. Tal como a maior parte das mulheres - comentou ele -, a Lulu Belle  de humores.
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- Os homens tambm so tal e qual - retorqui eu. Ele riu-se. A carrinha arrancou e comemos a nossa viagem a caminho do circo.
- A tua famlia tambm est metida no circo? - perguntei-lhe eu.
- A minha famlia? - Ele voltou a rir-se. - No, que ideia. O meu pai tem sido uma espcie de agricultor e de moonshiner durante a maior parte da vida. A me  uma
mulher trabalhadora. Educou seis de ns e receio bem que se tenha ressentido - disse ele, ficando com uma expresso carinhosa e triste. - Conheces o ditado: no
 a distncia que conta, mas se a estrada  tortuosa...
- Seis filhos  muita criana para criar. Quantos rapazes e quantas raparigas?
- Tudo rapazes, o que deve ter tornado as coisas mais difceis. Nunca teve uma filha para a ajudar nos trabalhos de casa.
- Onde esto os teus irmos?
- Esto espalhados por a. Dois deles j se deram mal. Antes de eu sair dos Willies ouvimos dizer que o Jeff e o Landon j estavam na cadeia por assaltos a lojas.
- Lamento - disse eu. Nunca conhecera ningum cujos irmos ou familiares mais prximos fossem criminosos. No consegui deixar de ficar com medo e pensar se no teria
cometido um erro ao entrar na carrinha com ele.
- Sim, a me est a sofrer muito - disse ele, abanando a cabea.
- O que  um moon... moon...
- Um moonshiner Ena, parece que vives separada do mundo por muros altos e espessos. Os moonshiners so fabricantes clandestinos de usque, usque de contrabando.
Tm as suas prprias destilarias caseiras, produzem um usque barato e vendem-no por todo o lado. A maior parte do tempo ningum os chateia, mas de vez em quando
os agentes federais aparecem. A me no gosta que o pai faa aquilo; por isso ele agora j no faz tanto. Ultimamente tem andado a fazer trabalhos esquisitos, biscates.
 um bom carpinteiro. Falando em bonecas e coisas parecidas, devias ver as figuras que ele esculpe quando est para a virado. Olha, consegue ficar sentado no alpendre
durante horas e horas a trabalhar um bocado de madeira, transformando-o num coelho ou num esquilo que parecem to reais que ficas  espera que te saltem para a mo.
Eu ri-me. Tinha uma maneira to descritiva de falar, porm
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soava verdadeiro, terra a terra, honesto. No consegui deixar de gostar dele e, de certo modo, invej-lo pela vida simples que vivia e pelo mundo simples em que
tinha sido criado.
Deu algumas curvas e pouco depois deparmos com a tenda cor de laranja do circo. Havia multides de pessoas a irem e a virem. O Luke acenou para um homem que dirigia
o trfico e virou para entrar por uma abertura que havia no meio das barreiras constitudas por cordas e paus. Atravessmos o descampado aos saltos, passmos pelos
elefantes que nos olharam com pouco interesse e depois parmos atrs de uma tenda mais pequena.
- Eu trabalho aqui - explicou o Luke. - Trato dos animais, dou-lhes de comer, lavo-os. No  muito, mas mantm-me perto do circo. Anda. Podemos pr a tua mala e
a boneca dentro da tenda. Eu tenho um colcho a um canto.  o meu cantinho. Ningum vai l. - Ele viu a minha expresso hesitante e acrescentou: - H uma caracterstica
nas pessoas do circo, nunca roubam nada uns aos outros.  isso que me agrada neles: o seu cdigo moral. Muito melhor do que o mundo exterior.
Eu sa do carro e segui-o para dentro da tenda. Viam-se baldes e equipamento de limpeza, sacas de rao, cordas e outros utenslios armazenados. Ao fundo, havia
uma cama de feno com um colcho antigo por cima que formavam uma espcie de cama de campanha.
- Eu durmo aqui - explicou ele. - Estas so as minhas coisas. - Apontou para uma saca de serapilheira. - Se quiseres, pe a tua boneca dentro da mala e deixa a mala
ali ao lado da minha saca.
Eu assenti e abri a minha mala. Ele ficou ao meu lado a observar-me enquanto eu embrulhava cuidadosamente a Angel e a colocava dentro da mala.
- Pronto - declarou. - Agora, vamos divertir-nos. Neste momento, no tenho de trabalhar - disse ele. Segui-o para fora da tenda em direco  rea da feira, onde
havia carroceis, jogos e barracas para comer. Estava um dia fabuloso para ir ao circo e  feira. Havia nuvens suficientes para impedir que o sol batesse de chapa;
contudo, estava calor e corria uma leve brisa. Toda a gente conhecia o Luke e, pelo modo como acenavam e o cumprimentavam, pareceu-me que gostavam muito dele.
Mal entrmos na rea da feira, convenceu-me a dar uma volta na roda gigante. Apesar de no ser muito alta, quando
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se chegava l acima, tinha-se uma vista espectacular sobre Atlanta. O banco balanava para a frente e para trs, tirando-me a respirao. Eu gemia de prazer e o
Luke ria-se, pondo-me o brao  volta para me dar segurana. Senti-me mesmo segura sob os seus fortes braos.
- Queres uma cerveja? - perguntou ele depois de sarmos. - Posso arranjar  borla - disse acenando com a mo e com a cabea para o rapaz da tenda da cerveja.
- No, obrigada - respondi eu. Ele comprou-me um refrigerante.
Depois disso, foi tentar a sua sorte aos dados. Ficou muito irritado por no ter ganho nada, mas eu disse-lhe para no gastar mais dinheiro naquele jogo.
- Tenta outro jogo, se quiseres - aconselhei. - O meu pai costumava dizer-me que, quando alguma coisa no est a correr bem, devemos p-la de parte por uns tempos
e fazer outra coisa diferente.
Ele assentiu pensativamente.
- Tens razo, Leigh. s vezes, torno-me teimoso e estpido e perco tudo com a raiva.  bom estar ao p de uma pessoa sensvel - disse ele, com ternura nos olhos.
Quando ele olhava para mim daquela maneira, com tanta intensidade e sinceridade, todos os sons que me rodeavam esmoreciam. Era como se tivssemos sido arrastados
para o nosso mundo ntimo, como se nos tivssemos elevado acima da multido, tal como tnhamos feito na roda gigante.
- Anda - chamou ele, pegando na minha mo, entusiasmado e arrastando-me atrs dele. Parmos na tenda do jogo de basebol. O objectivo era conseguir derrubar trs
garrafas de leite de um cesto. Vinte e cinco cntimos dava direito a duas bolas. O Luke pegou nas bolas e preparou-se para as atirar. Ento, parou.
- Toca na bola para dar sorte - disse ele, passando-me a bola.
- Eu no costumo dar sorte - observei eu.
- Vais dar-me a mim - insistiu ele. Fez-me sentir bem comigo prpria. Segurei na bola por uns instantes e depois ele ps-se outra vez em posio e lanou a bola.
Acertou nas garrafas mesmo no meio, as trs garrafas chocaram umas com as outras e caram do cesto.
- VENCEDOR! - gritou o homem atrs do balco, tirando em seguida um felpudo ursinho de pelcia preto da prateleira e entregando-o ao Luke.
- Para ti - disse o Luke, entregando-me o ursinho. No  to bonito como a tua boneca, mas d sorte.
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-  muito bonito e muito fofinho - afirmei eu, esfregando o ursinho na cara. - Adoro. Obrigada, Luke.
Ele sorriu e levou-me dali. Comprou um cachorro-quente de meio metro e mandou pr todos os tipos de molhos. Comemos a comer o cachorro. Divertimo-nos a com-lo
de ambos os lados. Os nossos narizes chocaram quando chegmos a meio e partimo-nos a rir.
- Tenho de ir dar de comer aos elefantes - disse ele. E depois podemos ir ver o espectculo dos palhaos e dos acrobatas e todos os nmeros do circo. Est bem?
- Claro. - Segui-o de regresso para a rea de trabalho. Ele encontrou uma caixa de madeira para eu me sentar enquanto o observava a trabalhar. Tirou a camisa e pegou
na forquilha. As suas costas lisas e musculosas reflectiam a luz do Sol. Os seus ombros largos distendiam-se e ostentavam a sua fora enquanto ele juntava largos
molhos de feno e os punha  frente dos considerveis elefantes. Trabalhava no meio deles, ao lado das suas enormes pernas, qualquer uma delas com capacidade de esmagar
um homem at  morte, e encontrava-se a centmetros das suas trombas grossas e musculadas, mas parecia no ter medo, e os elefantes tinham cuidado para no lhe tocar.
Depois de lhes dar o feno para comer, o Luke encheu os enormes baldes com gua e colocou-os em frente de cada elefante. Estes mergulharam logo as suas trombas nos
baldes. Era divertido ver aquilo e eu no consegui deixar de rir.
- No so umas criaturas bonitas? - perguntou-me o Luke quando acabou o que estava a fazer. - So to grandes e to fortes, mas to mansos. Se as pessoas tivessem
a fora que eles tm, andavam por a  pancada umas com as outras o tempo todo - acrescentou ele com amargura. Bem, deixa-me dar uma lavadela a isto e depois vamos
ver o espectculo. Ests bem?
- Sim, estou ptima - disse eu, ainda a abraar o meu fofinho urso de pelcia.
- Podes deixar isso ao p da tua mala - sugeriu ele. Se quiseres.
- Est bem. - Entrei na tenda e pus o ursinho ao p da minha mala. Quando voltei a sair, vi o Luke com uma mangueira na mo a passar com a gua por cima da sua cabea
e sobre o tronco. Limpou-se vigorosamente e depois voltou.
- Deixa-me s pentear o cabelo - pediu ele. - No posso andar por a com mau aspecto quando estou acompanhado por uma mulher to bonita - acrescentou. Apesar de
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ter acompanhado as suas palavras com um sorriso, senti que estava a ser sincero e fiquei com o corao aos pulos. Entrou na tenda e depois apareceu bem penteado.
Tinha um cabelo preto abundante e macio. Tive vontade de passar a minha mo pelo cabelo dele.
- Est pronta, minha senhora? - perguntou ele, oferecendo-me o seu brao.
- Sim, estou pronta. - Enfiei o meu brao no dele e fomos at  tenda onde decorria o espectculo. Ouvia-se o mestre-de-cerimnias a chamar a multido para o prximo
espectculo, e os olhos do Luke iluminaram-se. Enquanto nos juntvamos  multido que se movimentava em direco  entrada principal, fui-me sentindo cada vez mais
excitada. Tinha a sensao de que estvamos prestes a ver o maior espectculo  face da terra. As crianas riam-se, excitadas, mas at os pais delas pareciam corados
e felizes ante a expectativa.
O homem que recebia os bilhetes acenou com a cabea para o Luke e entrmos sem pagar. Ele apressou-se em direco ao que ele proclamava serem os melhores lugares
da casa. Quando nos sentmos, comprou sacos de amendoins para ambos, um refrigerante para mim e uma cerveja para ele.
- Como  que consegues beber tanta cerveja, Luke? perguntei-lhe eu. - No ficas embriagado?
- Embriagado? - Ele riu-se. - No! Isto no  nada comparado com o usque caseiro que eu cresci a beber - replicou, mas eu reparei que a cerveja estava a faz-lo
ficar corado.
Ele notou a minha expresso preocupada.
- Mas provavelmente tambm tens razo em relao a isso - disse, levantando o copo de cerveja. - Hoje no bebo mais.
As suas palavras fizeram-me sentir melhor e virei-me para o espectculo. A msica comeou, e os palhaos entraram a correr, batendo-se e caindo uns por cima dos
outros, esguichando gua uns para os outros com pistolas de gua e rebentando bales cheios de gua sobre a cabea uns dos outros.
Enquanto decorria o espectculo dos palhaos, uma rapariga, que certamente no era mais velha do que eu e vestia um fato de lantejoulas de vrias cores, fazia acrobacias
em cima de um cavalo: dava saltos mortais, equilibrava-se ora com as mos ora com a cabea, dava pinotes assim e assado,
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tirando a respirao ao pblico. O mestre-de-cerimnias anunciava um nmero atrs do outro: malabaristas, mgicos, acrobatas.
Um rufar de tambores anunciou a entrada dos trapezistas voadores: dois homens bem-parecidos e uma mulher muito bonita entraram a correr e dirigiram-se para o centro
da tenda, fazendo vnias e agradecendo ao pblico, para em seguida comearem a trepar as cordas. O meu corao estava aos pulos, s perante a expectativa. Havia
sempre alguma coisa a acontecer para onde quer que virasse os meus olhos. Quando me voltei para o Luke, reparei que tinha estado a observar-me com um leve sorriso
ternurento nos lbios e os olhos a brilharem de apreo.
-  emocionante, no ? - comentou ele. - Ests a ver porque  que eu adoro o circo?
- Oh, sim. Nunca tinha dado conta...  um espectculo maravilhoso.
- E isto  s o incio - disse ele. - Vamos ver o espectculo todo.
Mesmo sob o efeito de toda aquela excitao, apercebi-me de que o Luke tinha entrelaado os seus dedos nos meus para me dar a mo suavemente, mas eu no me importei:
at gostei. A msica e as gargalhadas, as actuaes espectaculares e as brincadeiras constantes nos vrios nmeros, os aplausos e o ambiente de emoo, tudo isto
fez com que as horas parecessem minutos e os minutos, segundos. Perdi a noo de tempo e de lugar. Enquanto estive no circo nem sequer me lembrei da situao em
que me encontrava e de que tinha fugido de casa. Era como se o mundo tivesse parado no tempo.
Fomos comer mais uma vez, hamburgers e pacotes de batatas fritas. O Luke pediu outra cerveja mas, quando viu a cara que eu fiz, parou a meio e bebeu tambm um refrigerante.
A seguir fomos comer cones de gelado e pedaos de rebuados. O Luke pagou tudo avidamente, apesar de eu me ter oferecido para pagar algumas coisas com o meu dinheiro.
- O teu dinheiro  mgico - disse ele. - No  justo, pois no momento em que o entregares aos vendedores, o dinheiro desaparece nas mos deles.
- Luke, no te posso deixar pagar tudo. Trabalhas tanto para ganhar o teu dinheiro.
- Eu no me importo. No tenho muitas coisas em que gastar dinheiro e nunca tenho uma oportunidade de o fazer com uma pessoa to bonita e to boa como tu, Leigh
- disse ele.
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Estvamos novamente de mos dadas. Por uns momentos, no consegui falar. Apesar de nos encontrarmos dentro da tenda, rodeados por centenas de pessoas, senti-me como
se no houvesse ningum  nossa volta. Antes que eu me apercebesse do que estava a acontecer, ele avanou e deu-me um beijo rpido nos lbios.
- Desculpa - pediu ele. - Fiquei to entusiasmado que... que... no consegui controlar-me - balbuciou.
- No faz mal. - Virei-me outra vez para assistir ao espectculo, mas o meu corao batia com tanta fora que pensei que ia sobrepor-se ao som dos risos e das aclamaes
 nossa volta. O Luke ficou calado; porm, de vez em quando olhvamos um para o outro e sorramos.
S quando terminou a ltima actuao  que pensei nas horas. Olhei para o meu relgio e dei um grito.
- Luke, olha para as horas! vou perder o meu comboio!
- No te preocupes - disse ele, mas via-se pela sua cara que ficara preocupado. Tentmos sair rapidamente; havia muita gente e todas as sadas estavam bloqueadas
por aglomerados de pessoas. Frustrados, espermos pela nossa vez. Mal samos, desatmos a correr pelos campos at  tenda. O Luke disparou l para dentro e saiu
com a minha mala e o ursinho nas mos. Em seguida, entrmos na carrinha dele.
A carrinha no pegava. O Luke tentou vrias vezes. Deu murros no tablier, furioso, e saiu para levantar o capot e mexer no motor. Demorou algum tempo, mas, por fim,
conseguiu que a carrinha pegasse e partimos para a estao. Nenhum de ns falou muito; estvamos os dois preocupados com as horas e com o caminho que ainda tnhamos
de percorrer. Como o espectculo do circo tinha acabado, o trfico era intenso e a confuso na auto-estrada era mais do que muita. O Luke irritava-se constantemente
e pedia desculpa em seguida. Eu tentava acalm-lo. Fez o melhor que pde, serpenteando de faixa em faixa, mas demormos quase o dobro do tempo para voltar  estao
do que na viagem de ida.
Quando chegmos ao parque de estacionamento, eu tinha menos de cinco minutos. O Luke no conseguia encontrar lugar para estacionar o carro; parecia que todos os
lugares estavam ocupados. Por fim, decidiu-se a parar no meio da estrada.
- Estou-me nas tintas para a multa - disse ele. - Anda. Pegou na minha mala, ajudou-me a sair da carrinha e corremos para a estao. Parecia que havia o triplo das
pessoas no trio de entrada do que quando chegara a primeira
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vez. Era hora de ponta. Percorremos o corredor a correr, mas quando chegmos  gare, o comboio estava a partir.
- Oh, no - gritei eu.
Ficmos ali a olhar para o comboio a afastar-se. Eu ficara encalhada em Atlanta. O Luke virou-se para mim.
- Desculpa - disse. - Devia ter prestado ateno s horas.
- A culpa  s minha. - Tirei-lhe a mala da mo e olhei para a sala de espera com os seus bancos duros.
- Espera - exclamou ele, agarrando-me no brao. Eu voltei-me para trs. - No te posso deixar a sentada a noite toda. No tenho grande coisa para te oferecer, s
um colcho sobre um monte de palha, mas...
- O qu? - No compreendi o que ele estava a dizer de imediato. Ainda estava aptica.
- Claro que eu vou dormir noutra cama. No podes ficar aqui - implorou ele.
Que mais me podia acontecer?, pensei. Senti-me como uma folha,  merc do vento, arremessada e atirada para um lado e para o outro, uma folha solitria que j fora
arrastada para to longe do stio onde florescera e crescera.
O Luke pegou na minha mala e deu-me a mo. Eu no disse nada. Deixei que ele me levasse para fora dali, de volta para a noite.

20 ALGUM PARA TOMAR CONTA DE MIM

Ainda confusa, segui o Luke at  sua carrinha. Ele abriu a porta, ajudou-me a entrar e inicimos a viagem de regresso ao circo. Eu estava ali sentada, a segurar
na minha mala com o brao esquerdo e a apertar a Angel contra mim com o direito.
- No te preocupes, Leigh - disse o Luke, confiante.
- Garanto que amanh te trago a tempo para apanhares o comboio. H uma bomba de gasolina ali  frente e ao lado h uma cabina telefnica. Queres que encoste o carro
para telefonares  tua av e avisares que vais chegar um dia mais tarde?
Eu no respondi. Mal ouvia a sua voz. Sentia-me como se estivesse encalhada num carrocel, a andar s voltas, sem sair do mesmo lugar.
- Leigh, no achas que devias telefonar-lhe - insistiu ele -, para ela no ficar preocupada quando no te vir chegar no comboio?
- Oh, Luke - disse eu, incapaz de reter as lgrimas que procuravam correr livremente pelas minhas faces. - A minha av no sabe que eu estou a caminho. Eu fugi de
casa!
- O qu? - Abrandou o carro. - Fugiste de casa? Meteu a carrinha por um caminho lateral para fugir ao trnsito e parou. - Ento era por isso que no tinhas muito
dinheiro para a viagem. Bem, ento por que  que ests a fugir de casa, Leigh? Pelo que eu percebi, parece que l em Nova Inglaterra vivias  grande, no  verdade?
Comecei a chorar ainda mais. Ele deslizou para mais perto de mim e abraou-me com ternura.
- Eh, tem calma. No faz mal. Se uma rapariga to doce e amorosa como tu fugiu de casa, deve haver uma boa razo para isso.
No conseguia controlar os meus soluos. Parecia que tinham
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vontade prpria, obrigando-me a abanar e a estremecer nos braos dele. Fiquei cheia de frio e com os dentes a bater. O Luke estreitou-me com mais fora e esfregou
o meu brao com a palma da sua mo para me aquecer.
- Calma - disse ele, beijando-me com ternura na testa, levando depois os lbios s minhas faces para me limpar as lgrimas com beijos. Comecei a respirar lentamente
e engoli em seco. - Eu tambm j fugi de casa centenas de vezes. Que diabo, de certo modo estou a fugir de casa neste momento, mas arranjo sempre maneira de encontrar
o caminho de regresso. Tu tambm vais conseguir, vais ver - acrescentou ele, encorajando-me.
- Eu no quero encontrar o caminho de regresso - disse eu bruscamente. Ele assentiu.
- Ena, deve ter sido grave.
- Foi mesmo grave - afirmei eu.
Respirei fundo, recostei-me e contei-lhe tudo: o divrcio dos meus pais, o que eu descobrira sobre a vida da minha me quando ouvira a conversa dela com a av Jankins,
descrevi-lhe o Tony Tatterton e Farthy, o que se tinha passado nas sesses em que posara para o Tony pintar a boneca-retrato. Depois, desatei a chorar novamente
e contei-lhe como o Tony me tinha violado e que a minha me no acreditou em mim quando lhe contara.
- E quando descobri que estava grvida, fui a correr ter com ela, pensando que agora seria obrigada a acreditar em mim, mas, em vez de me ajudar, acusou-me de ser
a culpada de tudo. Eu! - lamentei-me, por entre lgrimas.
O Luke desligara entretanto o motor e encostara-se na porta da carrinha, escutando-me, calado que nem um rato de sacristia. Era de noite e o cu estava carregado,
o que tornava o interior da carrinha muito escuro. Estvamos afastados dos faris dos outros carros e da iluminao da rua. Ele estava ali sentado, como uma silhueta
negra, mas eu senti-o sombrio e pensativo quando me calei.
- Pensava que esse tipo de coisas s acontecia entre as pessoas rsticas, as pessoas que vivem nos Willies. Quer dizer ento que ser rico no  o que a gente pensa
- observou ele. A sua voz tornou-se firme. - Gostava de ter esse Tony Tatterton  minha frente. Torcia-lhe a cabea at o pescoo vibrar como uma corda de guitarra
partida.
Ri-me. No consegui evitar. Ele tinha uma imaginao to frtil.
- Ests a ver? Eu sabia que conseguia fazer-te rir. De
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qualquer modo, desculpa ter-te dado aquelas porcarias todas para comer no circo. No ests em condies. Vou-te levar a uma casa de pasto que conheo a caminho do
circo.  s comida caseira igual  que as mes fazem. Alis, o lugar at se chama Casa de Pasto da Me.
- Oh, agora no tenho fome, Luke. Estou apenas muito cansada.
- Claro.  compreensvel. J sei - disse ele estalando os dedos. - vou alugar-te um quarto num motel para ficares confortvel. Uma cama de feno numa tenda de circo
no  lugar para uma rapariga grvida - declarou ele, com firmeza, e inclinou-se para pr o carro a trabalhar.
- Oh Luke, no posso permitir que gastes o teu dinheiro desta maneira. Eu sei que te esforaste muito para ganh-lo.
- No tens voto na matria - replicou ele e ps a carrinha a trabalhar. Apercebi-me de que no havia margem para discusso. Quando o Thomas Luke Casteel punha uma
coisa na cabea, era teimoso e determinado. - Precisas de uma boa noite de sono num quarto com casa de banho e todas as comodidades. Alguns destes quartos tambm
tm televiso
- acrescentou ele e dirigiu a carrinha de novo para a auto-estrada.
Pediu-me para lhe falar mais sobre Farthy. Ento, descrevi-lhe o tamanho dos quartos, o labirinto, a piscina tipo olmpica e os campos de tnis, as cavalarias e
a praia privativa. Ele assobiava entre dentes e abanava a cabea.
- Eu sabia que havia gente rica, mas nunca pensei que fossem to ricos. Parece que esse Tony Tatterton  dono do seu prprio pas.
-  quase.
- E ele ganha esse dinheiro todo a fazer brinquedos para as pessoas ricas? - perguntou o Luke, incrdulo.
- Sim - respondi. - Mas so brinquedos muito caros.
- Como a tua boneca, imagino. Porque  que trouxeste a boneca contigo, se foi ele que a fez? - perguntou o Luke.
- No podia deixar a Angel Foi abraada a ela que chorei e foi abraada a ela que ri. Ela est a par dos meus pensamentos ntimos, dos meus sonhos secretos e de
todas as coisas horrveis que me aconteceram. O Tony Tatterton f-la, mas ela tem mais de mim do que dele - expliquei eu.
- Angell
-  o nome que eu lhe dei. O meu anjo-da-guarda disse eu com brandura,  espera que ele se risse do delicado e frgil mundo de "faz de conta" de uma rapariga. Era
o que
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faria a maior parte dos rapazes da idade dele, mas ele no se riu. Sorriu.
-  bonito - disse ele. -  lindo. Como tu. Sabes que mais? - acrescentou ele, virando-se para mim. -  como te vou chamar a partir de agora... Angel. Assenta-te
melhor do que Leigh.
O meu corao que se tinha afundado e esfriado, acendeu-se de novo no meu peito. Senti-me corar. Depois, funguei uma ltima lgrima.
- Ento, por que  que ests a chorar?
- Estou a chorar porque tive a sorte de encontrar uma pessoa como tu, uma pessoa simptica. A maior parte das raparigas da minha idade tm medo de viajar sozinhas,
pois h tantas pessoas ms por a  espera para se aproveitarem delas em vez de as ajudarem. Tenho a certeza de que isso tambm me poderia ter acontecido se no
te tivesse conhecido.
- Sim, mas se no me tivesses conhecido, tinhas apanhado o comboio - lembrou-me ele. - Quando me apanho no meio do circo...
- Mas eu queria ir ver o circo contigo, e diverti-me imenso l, Luke. - E divertira-me mesmo, pois fizera-me esquecer todas as minhas preocupaes por algum tempo.
- Divertiste-te? Fico feliz. Eu tambm me diverti imenso. Desta vez, quando voltei a ver o espectculo contigo, foi como se estivesse a ver tudo pela primeira vez.
Tens uma maneira pura e lmpida de olhar para as coisas, Angel. Faz-me sentir a modos que... no sei bem... Faz-me sentir mais importante, maior, quando estou contigo
- disse ele, assentindo em seguida.
Eu desviei o olhar. No queria que ele visse a minha cara, pois tinha vergonha de lhe mostrar como gostava dele e como as suas palavras simples mas doces me tinham
feito sentir. Ele no tinha muita educao; no era rico, nem se vestia bem, como os rapazes de Allandale, mas tinha um domnio do mundo que eu admirava. Sentia-me
segura com ele, pois era capaz de lidar com as dificuldades e com a crise. O Luke Casteel s tinha dezassete anos, mas era um homem.
Conduziu a carrinha at um motel. O letreiro de non azul iluminava a palavra "Livre".
- No tens de fazer isto, Luke - disse eu, pondo a minha mo na sua.
- Eu sei. Eu no estou a fazer isto porque tenho de fazer. Estou a faz-lo porque quero. Agora, deixa-te ficar a sentada com a Angel e tem pacincia. Eu volto num
instantinho
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com a chave do teu quarto - disse e entrou na recepo do motel.
Recostei-me e fechei os olhos. Ele tinha razo: eu estava to cansada que precisava mesmo de uma boa noite de descanso. A emoo da viagem, o dia passado no circo
e o choque de ter perdido o comboio, tudo isso me deixara exausta. Cheguei mesmo a passar pelas brasas enquanto ele estava na recepo a alugar um quarto. Acordei
estremunhada, quando o Luke abriu a porta da carrinha com um estrondo e saltou l para dentro.
- 4 C - anunciou ele, acenando com a chave do quarto.
- Um quarto acolhedor com duas camas duplas e um aparelho de televiso.
- Acho que no consigo ficar de olhos abertos para ver televiso. Devias ter arranjado um quarto mais barato.
- Aqui tm todos o mesmo preo - explicou ele, estacionando o carro em frente da porta do quarto. Tirou a minha mala da carrinha e abriu a porta. Abraada a Angel,
segui-o.
Era um quarto pequeno com paredes cinzentas, pintadas de castanho-claro, e cortinas verde-claras com um aspecto poeirento. Tinha duas camas de casal com uma mesa
de madeira carcomida no meio e duas mesinhas-de-cabeceira, uma de cada lado. Em cima de cada uma delas havia um pequeno candeeiro com uns quebra-luzes amarelos,
manchados e poeirentos. Havia armrios em Farthy que tinham o dobro do tamanho do quarto, mas eu no me importei. O colcho macio tinha um ar muito convidativo.
O Luke pousou a minha mala e foi at  casa de banho, ligando as luzes e inspeccionando tudo.
- Parece que est tudo a funcionar. Tens a certeza que no queres nada para comer? E que tal uma chvena de ch? H um restaurante a um quilmetro, seguindo por
esta estrada. No demorava mais de cinco minutos e trazia-te qualquer coisa quente para beber. E talvez um muffin, hem? Tens de te alimentar - disse ele, com um
ar preocupado.
- Est bem - acedi eu. - vou lavar-me e meter-me na cama.
- Estarei de volta num instante. - Bateu com as palmas das mos uma na outra e saiu a correr.
1 Bolo redondo, chato e muito fofo, cheio de manteiga e tostado, comido enquanto quente. (N. da T.)
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O seu entusiasmo fez-me sorrir novamente. Queria fazer coisas por mim e estava a ser sincero. Tinha-me metido a mim prpria numa complicao, mas encontrara um verdadeiro
anjo-da-guarda. Talvez afinal at tivesse tudo a ver com magia. Talvez pelo facto de ter fugido do mundo perverso de Farthy, eu tivesse escapado do feitio malvolo
que cara sobre mim.
Tomei um duche e vesti uma das minhas macias camisas de dormir de seda e soltei o cabelo. Ficara feio e sujo por causa da viagem, mas eu estava demasiado cansada
para o lavar e pentear. Prometi a mim prpria que o faria de manh. Em seguida, com a Angel ao meu lado, deitei-me sob os cobertores de uma das camas de casal. Cheirava
a goma e os lenis eram tesos, mas eu estava cansada de mais para me importar com isso. O Luke bateu  porta suavemente e depois entrou com o meu ch quente, um
muffin de milho e doce e uma garrafa de cerveja para ele. Colocou tudo sobre a mesinha-de-cabeceira ao lado da cama, puxou a nica cadeira que havia para ao p da
cama para se sentar e sorveu a sua cerveja enquanto me observava a beber e a comer. Tinha um ar preocupado, como teria se fosse ele o verdadeiro futuro pai. Os seus
olhos negros brilhavam ternamente, amorosos.
- No tens fome, Luke? De certeza que uma cerveja no  suficiente.
- No, ainda estou muito excitado, acho. s vezes a cerveja acalma-me. - Sorriu e apontou para a Angel. - Essa boneca  mesmo parecida contigo. Tm as duas um cabelo
to bonito - disse ele, afagando o cabelo da Angel com ternura.
- O cabelo da Angel  o meu cabelo verdadeiro.
- Ests a gozar? - Eu abanei a cabea e os olhos dele abriram-se muito. Em seguida, inclinou-se para mim. Nunca vi um quadro to perfeito e to amoroso como vocs
as duas a deitadas - disse ele suavemente.
- Obrigada, Luke. s muito simptico. - Ficou a olhar para mim durante uns momentos e depois levantou-se.
- Vais ficar bem? - perguntou ele.
- Porqu? Onde vais?
- vou voltar para a minha tenda.
- E porque  que no podes ficar aqui? H outra cama e foste tu que pagaste o quarto, Luke. No devias voltar para a cama de feno. - Eu sabia que o meu tom de voz
soara um pouco desesperado, mas nunca tinha dormido num motel, e muito menos sozinha.
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- De certeza que no te importas?
- Claro que no me importo.
- Nesse caso, tudo bem. Acho que consigo acordar suficientemente cedo para ir dar gua e comida aos animais.
- Podes ver televiso, se ainda no estiveres muito cansado - disse eu, baixando a cabea. Agora que sabia que ele ia ficar comigo, podia descontrair-me. - No me
vai... incomodar...
Adormeci logo, mas acordei estremunhada a meio da noite, esquecendo-me de onde estava. No consegui controlar-me e gritei de medo. Segundos depois, senti o Luke
ao meu lado no escuro.
- Angel, Angel - dizia ele, afagando-me o cabelo. - Est tudo bem. Ests em segurana.  o Luke. Estou aqui contigo. No te preocupes com nada. No quero que voltes
a preocupar-te com mais nada - acrescentou ele, num sussurro.
Apercebi-me do stio onde estava, mas ainda me sentia to ensonada que apenas dei pelos seus lbios na minha face e ouvi as suas palavras vagamente. De qualquer
modo, parecia que as palavras faziam parte de um sonho, que eram palavras sussurradas pelo meu anjo-da-guarda.
- Quero tomar conta de ti a partir de agora, quero proteger-te, amar-te. Nunca mais na vida deixarei que ningum te magoe, mesmo que seja muito rico e poderoso.
Levar-te-ei para um mundo onde nenhuma pessoa perversa poder chegar a ti, um mundo onde estars rodeada apenas por coisas suaves, felizes e naturais, onde a msica
so os pssaros a cantar, onde os diamantes so estrelas, onde o ouro  a luz do Sol e as folhas de Outono. Vens comigo, minha Angel? Vens?
- Sim - murmurei eu. - Oh, sim, sim - repeti e voltei a adormecer logo em seguida.
Acordei de manh e encontrei o Luke ao meu lado, na cama. Eu adormecera nos seus braos e nunca me tinha sentido to segura ou to feliz. Os olhos dele pestanejaram
e abriram-se e olharam para mim durante uns momentos antes de sorrir. Depois, beijou-me ternamente nos lbios.
- bom dia - disse ele. - Como te sentes?
- Muito melhor. Mas porque  que...
- Porque  que eu vim para a tua cama? Tiveste um sonho, acho eu, e acordaste a gritar. Eu acalmei-te e adormeci ao teu lado. No te lembras de nada? - perguntou
ele, um pouco desapontado. - Do que eu te disse e tu a mim?
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- Acho que sim, apesar de haver palavras a bailar na minha cabea que parecem palavras do sonho.
- No eram palavras do sonho. Eram minhas e eram verdadeiras - disse ele, de novo com uma expresso firme, de determinao. - Eu disse-te que queria tomar conta
de ti, que queria proteger-te, sempre e para sempre, e  verdade.
- O que  que ests a dizer, Luke? - Sentei-me na cama, puxando o cobertor para mim, pois estava vestida com a minha fina camisa de dormir de seda. Ele sentou-se
tambm.
- Eu sei que carregas o filho do teu padrasto, mas mais ningum tem de saber disso. Deixa que todos pensem que  o meu filho. Quero que ele seja meu, porque quero
que tu sejas minha.
- O que  que queres dizer com isso? - Eu percebera, mas tinha de ouvir da boca dele.
- Quero dizer que quero casar contigo, que quero que sejas o meu anjo para toda a vida. Oh, eu sei que a vida no circo-no  uma vida boa para dois jovens comearem,
principalmente se esto  espera de um beb. Mas eu pensei em tudo - continuou ele, entusiasmado. - Quero levar-te para os Willies comigo, comear uma vida nova.
Tenho planos e ideias. Quero ganhar dinheiro suficiente para comear a minha prpria quinta e posso faz-lo, Angel.
"Oh, no digo que no seja difcil, de incio - continuou ele antes que eu pudesse interromper -, difcil mesmo. Tnhamos de ficar em casa dos meus pais por uma
temporada, mas eu trabalharia dia e noite e juntaramos dinheiro suficiente para comearmos a construir a nossa casa.
"Vais adorar o stio, Angel. Juro que vais. No  o que ests habituada, nem nada que se parea, claro - prosseguiu ele, falando muito depressa -, mas  uma vida
pura e livre, uma vida junto da Natureza, uma vida longe da corrupo e das pessoas que gostam mais delas prprias do que dos seus entes queridos.
- Luke, tu queres ser o pai do meu filho? Tu queres isso? - perguntei eu, ainda sem acreditar.
- Desde que isso signifique que te terei a ti tambm, Angel. No vs para casa da tua av - implorou ele. - De qualquer modo, no me parece que possas ser muito
feliz l. Tu mal a conheces e ela  velha, tem as suas manias. Alis
- disse ele, atingindo em cheio um receio que eu tinha escondido no fundo do meu corao -, e se ela no acreditar em ti? E se ela pensar que s igualzinha  filha
dela? Pode
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mandar-te embora, para casa. - Em seguida, concluiu, com firmeza: - Eu nunca te mandarei embora...
- Mas tu no podes voltar a trabalhar nos Willies. Tu adoras o circo, Luke - gritei eu. Eu tinha visto aquele amor nos seus olhos.
- Nem metade do que te adoro a ti, Angel. Nunca na minha vida me tinha aparecido uma coisa to especial ou to doce e importante. Sinto-me to realizado quando estou
contigo, to cheio de esperanas. No duvido que conseguirei atingir todos os meus sonhos desde que te tenha a ti. Tu fazes-me sentir importante, to importante
como outra pessoa qualquer. Por ti, trabalhava at me doerem os ossos. Diz que sim? Por favor.
Eu fiquei sem fala por uns momentos. H quase catorze anos atrs, a minha me ficara grvida de mim com mais ou menos a mesma idade que eu tinha agora e depois enganara
o homem que eu pensava ser o meu pai, conseguindo que ele se casasse com ela, sem nunca lhe dizer a verdade. Teria ele querido casar com ela, como o Luke agora me
queria a mim, se soubesse a verdade? Teria a minha vida sido muito diferente no incio? Iria ser diferente para o meu filho... ter um pai que sabia e aceitava a
verdade? Eu acreditava realmente que o amor do Luke era to forte e to pleno que haveria amor suficiente para mim e para acolher tambm o meu beb.
Senti a esperana a varrer todo o medo e a ansiedade que sentia. Aquele jovem bonito e terno queria-me de qualquer maneira, queria-me, apesar de ter ouvido a minha
histria e de saber o estado em que me encontrava. Amava-me tanto que estava disposto a considerar o meu filho seu filho e a desistir dos seus sonhos s para me
agradar.
Nunca na minha vida vira tanto altrusmo junto. Porque  que o meu pai no conseguira sentir nem metade do amor que o Luke tinha por mim, e no estivera disposto
a sacrificar alguns dos interesses do negcio dele para me ajudar e proteger? Porque  que a minha me no conseguira interessar-se mais por mim do que por ela prpria?
Os meus pais diziam que me amavam, mas no me amavam como o Luke. O amor dele era mais honesto e mais sincero, pois estava disposto a sacrificar-se por mim.
E ento, comecei a pensar que amar no significava apenas uma pessoa sacrificar-se, mas querer sacrificar-se, tirar prazer do facto de se entregar ao seu ente amado
mais do que a si prprio. Tive tanta sorte em encontrar algum que me amava dessa maneira.
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Olhei para a Angel. Parecia estar a sorrir. Talvez afinal ela at fosse o meu anjo-da-guarda; talvez ela tivesse trazido o Luke para a minha vida ou eu para a vida
dele. E agora, o Luke queria ser esse mesmo anjo-da-guarda.
O Luke reparou no modo como eu olhava para a Angel.
- O que  que ela est a dizer-te? - perguntou ele com brandura e com esperana.
- Ela est a dizer-me para aceitar, Luke - sussurrei eu, mais para mim do que para ele. Os seus olhos negros iluminaram-se. Que sorriso to bonito que ele tinha,
Era o tipo de rapaz que s ficaria mais bonito com o passar dos anos e ia ser o meu marido. - Ela est a dizer-me para eu aceitar repeti eu, olhando para aqueles
lindos olhos.
O Luke abraou-me e beijmo-nos.
Uma viagem que se iniciara por raiva, receio e desespero transformara-se de repente numa viagem onde reinava o amor e a esperana. As minhas lgrimas eram diferentes.
Eram lgrimas de felicidade e eram mais quentes. Estreitei-me com mais fora contra o Thomas Luke Casteel. O meu corao palpitava de felicidade. Havia magia no
ar.
A administrao do circo no ficou zangada com a partida abrupta do Luke, pois ele explicou-lhes que ia casar-se comigo e comear uma nova vida na sua cidade natal.
Disse-lhes que agora tinha obrigaes e responsabilidades, e a novidade espalhou-se rapidamente pela populao do circo. Quando voltmos para a tenda para reunir
as coisas dele, j se tinha juntado uma multido de pessoas para nos desejar boa sorte. Era uma multido bastante fora do comum, para no dizer outra coisa. Dei
comigo a ser apresentada  mulher de barbas, aos gmeos siameses, a anes, ao homem mais gordo do mundo, ao homem mais alto do mundo e ao homem mais forte do mundo,
bem como aos malabaristas, aos comedores de fogo, aos trapezistas e ao atirador de facas mais a sua mulher; todos eles me deram os parabns. Ento, o mgico, o Fabuloso
Mandello, apareceu com a sua encantadora assistente e pediu-me para eu lhe dar a mo. Olhei para o Luke, que acenou com a cabea; depois dei-lhe a mo e, de sbito,
senti um anel na palma da minha mo.
Abri a mo e vi um anel de imitao de diamante muito bonito.
- Um presente do Fabuloso Mandello - anunciou ele.
- O vosso anel de casamento. - A audincia que entretanto se reunira  nossa volta proferiu uns "ohs" e uns "ahs",
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como se ele me tivesse oferecido alguma coisa verdadeiramente valiosa. Eles viviam mesmo num mundo de iluso, mas eu no me importei. Senti como se tivesse entrado
nesse mundo, um mundo de irrealidades cor-de-rosa.
- Oh, obrigada.  lindo.
Em Farthy eu tinha anis, pulseiras e colares de diamantes verdadeiros, mas aqui, no circo do Luke, no meio de toda essa gente afvel e feliz, achei que este anel
era a prenda mais importante e maravilhosa que alguma vez recebera. Todos eles gostavam muito do Luke e desejavam-lhe as maiores felicidades.
- Quando sairmos daqui, vamos passar pelo juiz de paz ali ao fim da rua - anunciou o Luke. Houve um murmrio de excitao. Algum disse: "Vamos." E todos os artistas
do circo seguiram-nos at  casa do juiz de paz. Seria certamente um casamento que ele e a sua mulher nunca esqueceriam.
O juiz no pde conduzir o casamento no seu escritrio. Os nossos convidados encheram a sua considervel sala de estar e ainda se espalharam pelo alpendre. Os gmeos
siameses, dois homens na casa dos vinte ligados pela cintura, tocavam piano. Encolheram-se para caberem no banco do piano e comearam a tocar um trecho da Marcha
Nupcial. Olhei  minha volta, para os olhos da mulher de barbas, para os rostos sorridentes dos malabaristas, dos anes e dos acrobatas, e lembrei-me do casamento
da mam.
Parecia que tinham passado cem anos; lembrava-me de me ter sentido nervosa e desconfortvel a descer a grandiosa escadaria, atrs daquelas damas de honor vestidas
a primor. Recordei o mar de rostos l em baixo... todas aquelas pessoas abastadas, os smokings carssimos dos homens, os vestidos de noite das mulheres, desenhados
por estilistas, e as jias preciosas que as cobriam, cada qual a tentar superar a ostentao da outra.
A minha me tinha-me prometido um casamento igual ao dela, com uma recepo sumptuosa, mas aqui estava eu, na casa de um juiz de paz comum, a casar com um jovem
que tinha acabado de conhecer, rodeada por artistas de circo. Era de mais para a imaginao da minha me, por maior que fosse, pensei eu.
E, contudo, isso no me incomodava nada. No me importava de no ter pessoas famosas e da alta sociedade  minha volta; no me incomodava com o facto de estar vestida
com um dos meus fatos de Vero simples, em vez de um vestido de noiva de encomenda e que, mal acabasse a cerimnia,
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partssemos sem qualquer recepo, msica, baile ou iguarias de luxo.
No entanto, eu sabia que nenhuma fortuna, nem cem pessoas ricas a mais ou uma montanha de comida, poderiam transformar o casamento da mam num casamento mais feliz,
nem a sua vida numa vida melhor. Os convidados do casamento da mam no olharam para ela e para o Tony com tanto carinho como os amigos do circo do Luke estavam
a olhar para ns. Os desejos de felicidade que a mam recebera no foram, de longe, to sinceros. Eu sentia um verdadeiro derreter de coraes. Quando aquela gente
me beijou e abraou, foi com sinceridade. Eram um grupo especial, feliz, muitos dos quais tinham superado as suas singularidades e tinham feito com que essas singularidades
tivessem uma funo na vida deles. Eram artistas que viviam para dar prazer s outras pessoas, viviam para causar espanto e divertir. De algum modo, eles viviam
mesmo num mundo mgico, a magia dos sorrisos e das gargalhadas, a magia das luzes e da msica. No era de admirar que o Luke tivesse vivido to confortavelmente
entre eles, pensei eu.
- bom, ento - disse o juiz, quando ocupou o seu lugar  nossa frente e olhou em volta -, acho que podemos comear.
O juiz era um homem alto e magro com bigode ruivo e olhos cor de avel. Eu sabia que nunca esqueceria o seu rosto, pois ele estava prestes a proferir as palavras
e a pronunciar os votos que me ligariam para sempre ao Thomas Luke Casteel. O futuro do Luke ia ser o meu futuro; a sua dor, a minha dor; a sua felicidade, a minha
felicidade. Num sentido real, as nossas vidas assemelhavam-se a dois comboios que se haviam aproximado um do outro, provenientes de ngulos diferentes e que se tinham
unido para continuar a viagem. O facto de nos termos conhecido numa estao ferroviria era significativo.
A mulher do juiz, uma senhora pequena e rechonchuda, com uma expresso jovial, estava ao lado dele com os olhos muito abertos, atnita.
O juiz deu incio  cerimnia e, quando chegou quela parte em que me perguntava se eu aceitava Thomas Luke Casteel como marido, para amar e respeitar at que a
morte nos separe, eu fechei os olhos e pensei no meu pai, comigo nos braos, quando eu no teria mais de oito ou nove anos, prometendo que construiria uma manso
quando eu me casasse, "um castelo numa montanha para ti e para o teu prncipe".
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Ouvi os devaneios ininterruptos da minha me sobre o dia do meu casamento, o que eu devia vestir, o que eu tinha de fazer, quem tinha de convidar. Parecia que estava
a rever a minha vida toda em segundos, as palavras, as imagens, os sorrisos e as lgrimas, desvanecendo-se tudo at comear a ouvir apenas o bater emocionado do
meu corao.
- Sim - disse eu, voltando-me para o Luke e olhando para os seus olhos escuros e profundos e vendo neles a promessa de amor -, aceito.
- E tu, Thomas Luke Casteel, prometes receber Leigh Diane VanVoreen como tua mulher, para amar e respeitar at que a morte vos separe?
- Sim - disse ele, com uma firmeza mscula que quase me tirou a respirao. Parecia disposto a lutar at  morte para me fazer feliz.
- Ento, pelo poder que me foi conferido, declaro-vos marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Beij amo-nos como dois amantes acabados de atravessar um campo enorme s para carem nos braos um do outro e ficarem juntos at  eternidade. A gente do circo aplaudiu
e rodeou-nos. Tive de me ajoelhar para os anes me poderem dar um beijo de boa sorte. Os trapezistas tinham localizado o arroz e passaram mos-cheias de arroz uns
para os outros para poderem fazer chover o arroz sobre ns enquanto saamos da casa do juiz.
Entrmos na carrinha e acenmos-lhes. Estavam todos no relvado em frente da casa a acenar, a sorrir e a mandar beijos, excepto uma mulher que usava um vestido prpura
e um leno estampado da mesma cor na cabea. Das suas orelhas pendiam longos brincos de prata em forma de folha, a tez dela era escura e tinha olhos pretos, ainda
mais escuros que os do Luke. Tinha um ar srio, sombrio, e recuara, afastando-se da multido.
- Quem  aquela mulher, Luke - perguntei eu e apontei para ela.
- Oh,  a Gittle, a vidente hngara.
- Tem um ar to srio, to preocupado - disse eu, com um arrepio.
-  normal - explicou o Luke. -  o trabalho dela. Assim, as pessoas levam-na a srio. No te preocupes. No quer dizer nada, Angel.
- Espero que no, Luke - murmurei eu, enquanto nos afastvamos. - Espero que no. - Olhei para trs e acenei com a mo enquanto percorramos aos solavancos a estrada
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de acesso  casa do juiz e virvamos para a estrada principal. Em pouco tempo, tnhamos ultrapassado tudo e a Angel e eu estvamos a caminho de outra vida, de outro
mundo, que, tinha esperana, seria muito mais feliz do que o mundo que conhecramos em Farthy, do que a vida que deixramos para trs e para sempre.
Olhei para trs mais uma vez. Havia nuvens a anunciar tempestade no horizonte, mas ns estvamos a afastar-nos delas, precipitando-nos pela estrada como se estivssemos
a fugir da ameaa da chuva, do vento e do frio. L ao longe,  nossa frente, o cu era azul-claro, caloroso e convidativo. De certeza que isso significava que tudo
o que era triste e feio ficara para trs de ns. Cada lembrana da expresso sombria da vidente no conseguiria sobreviver  incandescncia de calor que emanava
da promessa espalhada pelo sol que nos dava as boas-vindas.
Apertei a Angel contra mim.
- Ests feliz? - perguntou o Luke. - Oh, sim, Luke. Muito.
- Eu tambm. Estou to feliz como um porco no...
- No qu?
- No interessa. Tenho de tomar cuidado com as palavras a partir de agora. Quero ser uma pessoa melhor, e tudo porque te tenho a ti.
- Oh, Luke, no me faas sentir como se eu fizesse parte da realeza. Eu sou apenas outra pessoa a tentar ser feliz num mundo que s vezes pode ser muito difcil
de suportar.
- No, no s. s o meu anjo e os anjos vm do cu. Olha c - acrescentou ele a sorrir. - Se tivermos uma rapariga, talvez este no seja um nome mau para ela: Heaven.
O que  que achas?
Adorei-o por dizer: "Se TIVERMOS uma rapariga..."
- Oh, sim, Luke. Heaven assentava-lhe mesmo bem.
- Ena, e dvamos-lhe o teu nome tambm. Ento, podemos cham-la Heaven Leigh Casteel - disse ele.
Riu-se e continumos o nosso caminho em direco  luz do Sol e s promessas.
1 Heaven significa "cu", da a aluso ao cu como um nome adequado. (N. da T.)
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21 OS WILLIES

A viagem para Winnerrow e para os Willies na carrinha velha do Luke foi comprida e rdua. Pouco depois de termos arrancado, o motor aqueceu de mais e ele teve de
andar mais de um quilmetro e meio para conseguir um pouco de gua numa bomba de gasolina. No parava de me pedir desculpa por me ter feito esperar dentro da carrinha
num dia to quente. Eu dizia-lhe que no fazia mal e que agora nada neste mundo me poderia fazer infeliz. Mesmo assim, ele insistiu que parssemos num pequeno restaurante
 sada de Atlanta para eu beber qualquer coisa fresca e ele uma cerveja. O Luke sorveu a cerveja rapidamente e pediu outra.
- No te preocupa beberes demasiada cerveja, Luke? perguntei-lhe eu.
Ele parou, como se essa ideia nunca lhe tivesse ocorrido.
- No sei. De onde eu venho  natural beber usque e cerveja. Ns raramente pensamos nisso.
- Talvez por beberem tanto  que no conseguem pensar nisso - sugeri eu, com ternura.
- Deves ter razo. - Ele abriu-se num sorriso. - J ests a tomar conta de mim - disse ele. - Gosto disso, Angel. Sei que vou tornar-me uma pessoa melhor por tua
causa.
- Tambm tem de ser por causa de ti prprio, Luke.
- Eu sei - disse ele. - Prometo-te uma coisa, Angel. Farei tudo o que conseguir para te fazer feliz e se alguma coisa te fizer infeliz mesmo assim, ento no hesites
em deitar c para fora. Alm disso, quando me repreendes, eu sinto-me bem - acrescentou ele e deu-me um beijo na cara. Ouvir um rapaz como o Luke dizer que queria
que eu tomasse conta dele dava-me uma sensao de formigueiro, aquecia-me por dentro. Sentia como se ele e eu estivssemos a crescer anos com a passagem dos minutos.
Enquanto estivemos no restaurante, vi uns postais no balco
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e decidi comprar um para mandar  minha me. Provavelmente seriam as ltimas palavras que lhe iria escrever por muito tempo, portanto pensei cuidadosamente e s
depois escrevi.
Querida mam,
Lamento ter fugido de casa, mas a mam no ouvia o que eu tinha para lhe dizer. Durante a minha viagem conheci um rapaz maravilhoso chamado Luke. Ele  bonito, meigo,
muito afectuoso e decidiu casar comigo e ser o pai da minha criana.
O Luke e eu estamos a caminho da casa dele, onde pretendemos refazer as nossas vidas.
Mesmo depois das coisas que me disse e fez, eu ainda lhe desejo as maiores felicidades, e espero que encontre lugar no seu corao para me desejar o mesmo.
com amor, Leigh
Colei um selo e deitei o postal na caixa de correio  sada do restaurante. Em seguida, pusemo-nos de novo a caminho.
O Luke guiou o dia todo e a noite toda. Eu estava sempre a perguntar-lhe se no estava cansado, mas ele dizia que tinha mais energia agora do que alguma vez tivera
na vida e que estava to ansioso por chegar a Winnerrow que no queria parar, a no ser para meter gasolina, comer e ir  casa de banho. Percorremos quilmetros
e quilmetros e eu adormeci vrias vezes. Quando o primeiro raio de luz da manh espreitou pela linha do horizonte, j nos encontrvamos na regio dos montes, a
subir as encostas com segurana, forando a carrinha a perfazer curvas atrs de curvas. Pequenas construes de m qualidade e por pintar anunciavam a chegada de
mais uma aldeia fora do caminho de terra batida, at que tambm as deixmos para trs. Reparei que as bombas de gasolina apareciam cada vez mais espaadas umas das
outras e que os recm-construdos motis eram substitudos por pequenas cabanas escondidas em florestas sombrias e densas.
Comemos a descer novamente os montes e chegmos a um vale. Aqui situavam-se os extensos campos verdes da periferia de Winnerrow, quintas bem organizadas com campos
cultivados durante o Vero, cujas colheitas seriam feitas dentro em breve.
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- Depois destas quintas - explicou o Luke -, vais ver as casas das pessoas mais pobres do vale, aqueles que no tm uma situao muito melhor do que os pastores.
L em cima - apontou para os montes  nossa frente -, so as casotas dos mineiros e as cabanas dos moonshiners.
Levantei o olhar para os montes, excitada. As pequenas casinhas salpicavam a encosta dos montes e pareciam to pacficas e recuadas, quase como se tivessem crescido
ali e fizessem parte do ambiente natural.
- Aqui tambm h pessoas ricas e abastadas - explicou o Luke, acenando para a parte mais funda do vale. - Ests a ver para onde so arrastadas as lamas mais frteis
dos montes pelas chuvas torrenciais da Primavera? Vai tudo parar aos jardins das famlias de Winnerrow, produzindo um solo frtil para aqueles que menos precisam.
Tm todos aqueles jardins floridos espectaculares e plantam as melhores tulipas, narcisos amarelos, ris, rosas e tudo o que os seus coraezinhos ricos desejam
- acrescentou ele, com amargura.
- No gostas muito das pessoas da cidade, pois no, Luke? - perguntei eu. Ele ficou silencioso por uns momentos e depois falou por entre dentes.
- Vamos passar pela rua principal e vais ver que  a que vivem todos os vencedores. Deve ser por isso que chamam a este lugar Winnerrow.
- Vencedores?
- Os proprietrios das minas de carvo construram as suas casas grandes aqui, nas traseiras dos vencidos: os mineiros que ainda continuam a morrer com pulmes pretos
e coisas do gnero. Tambm encontras aqui os donos das mquinas de algodo que produzem os tecidos para as roupas de cama e toalhas de mesa, e os donos das fbricas
de algodo, com o seu linho invisvel que  transportado pelo ar e que se instala nos pulmes dos trabalhadores. E nunca ningum ps um processo em cima dos proprietrios
por danos causados
- acrescentou ele, furioso.
- Algum de vocs j trabalhou nas minas ou nas fbricas, Luke? - perguntei eu.
- Os meus irmos, por uns tempos, quando eram mais novos, mas no conseguiam aguentar nenhum tipo de trabalho.
1 A palavra Winnerrow  composta pelos substantivos winner, que significa "vencedor", e row, que quer dizer "fila/fileira; poderia ser traduzida por "rua de vencedores"
no sentido em que Luke a utiliza. (N. da T.)
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por muito tempo e partiram por conta prpria. O meu pai nunca faria esse tipo de trabalho. Prefere as migalhas que a terra lhe d, fazer biscatos aqui e ali ou vender
usque caseiro. E eu no o posso criticar.
"Devo avisar-te j de uma coisa, Angel: as pessoas da cidade no gostam muito de ns, o povo dos Willies. Obrigam-nos a sentar nos bancos de trs da igreja e mantm
os filhos deles afastados dos nossos.
- Oh, isso  horrvel, Luke. Porque  que envolvem as pobres crianas nisso? - perguntei eu, pensando como elas deviam sentir-se magoadas. Agora tambm eu compreendia
a amargura das palavras do Luke quando se referia s pessoas da cidade. - Ningum deve sentir-se superior aos outros.
- Sim, bem, vai dizer isso ao presidente da Cmara de Winnerrow - disse ele, sorrindo. - Aposto em como conseguias. Estou desejoso de me vestir e levar-te comigo
 missa, Angel. Estou desejoso - disse ele, abanando a cabea.
Chegmos a um cruzamento e o Luke virou  direita, onde acabava a estrada de macadame e comeava um caminho de terra batida e areia grossa, que continuava por dentro
da floresta, transformando-se por fim num caminho de terra com buracos e socalcos, fazendo com que a carrinha andasse aos trambolhes e nos sacudisse com tanta fora
que eu tive de me agarrar ao manpulo da porta. No caminho, as minhas narinas foram inundadas pelos cheiros de madressilva, morangos silvestres e framboesas. Aqui,
nos montes da Virgnia ocidental, estava frio e o ar era fresco e puro, e isso fazia-me sentir mais viva. Era como se o ar dos montes afastasse todo o ar poludo
que eu tinha andado a inspirar nas salas bafientas, frias e lgubres de Farthy; era assim que me lembrava delas nesse momento.
- Estamos quase a chegar, Angel. Aguenta. Espera at a me te ver.
Retive a respirao. Onde viveria a famlia dele? Como  que podiam viver to escondidos na floresta? Como  que a casa poderia estar ligada a um sistema de esgotos
ou de gua canalizada? E onde estavam os fios de electricidade e do telefone? Eu s via rvores e arbustos.
De repente, pareceu-me ouvir o som de algum a tocar banjo. O Luke abriu-se num sorriso.
- O pai est no alpendre a arranhar o banjo - disse ele. Contornmos uma mata de rvores espessas e parmos.
Ali estava ela, a casa do Luke. No consegui controlar um
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sobressalto de surpresa. Dois pequenos ces de caa que estavam estatelados numa piscina de luz do Sol saltaram e comearam a ladrar excitadamente.
-  o Kasey e o Brutus - disse o Luke. - So os meus ces. E este  o meu lar, doce lar.
"Lar, doce lar!", pensei eu. A cabana fora construda com madeiras velhas nodosas. Parecia que nunca tinha conhecido tinta de qualquer espcie. O telhado era de
lata ferrugenta que chorara um milho de lgrimas para manchar a velha madeira prateada. A cabana tinha tubos de escoamento e barris para a chuva e eu deduzi que
serviam para apanhar a gua.
 frente da cabana havia um alpendre meio descado e em mau estado, sobre o qual se encontravam duas cadeiras de baloio. Um homem que eu facilmente reconheci como
o pai do Luke estava sentado com o banjo ao colo. Tinha o mesmo cabelo da cor do carvo e a mesma tez escura e, apesar de ter aspecto de quem passara por muita coisa
na vida, os seus traos fisionmicos ainda eram bonitos: um nariz direito tipo romano, mas do rosto e linha de maxilar vincadas. Tinha um ar soturno mas, quando
viu o Luke, fez um sorriso brando e afvel.
A mulher que estava sentada ao lado dele a fazer croch tinha um ar muito mais severo. O seu cabelo comprido estava apanhado num rabo-de-cavalo que ia at quase
 cintura. Quando se levantou, parecia ter mais ou menos a idade da minha me; porm, depois de descer do alpendre e aproximar-se da carrinha, a cara dela acrescentava
anos  minha primeira estimativa. Reparei que no tinha alguns dentes e que havia rugas  volta dos olhos e tmporas, produzidas pelo desgaste do clima. As linhas
na sua testa eram mais vincadas, mais speras do que as linhas do rosto da minha me.
No entanto, a me do Luke devia ter sido uma mulher muito bonita. Tinha os olhos negros do Luke e, apesar de o seu cabelo ter manchas de fios grisalhos, parecia
que lav-lo na gua da chuva o mantinha saudvel e forte como sempre fora. Tinha uma expresso orgulhosa e firme, orgulhosa como uma ndia, com mas do rosto salientes,
e era quase to alta como o Luke. Reparei nas mos dela, que podiam ter sido to macias e delicadas como as da minha me; eram speras e pareciam mos de homem,
pois as unhas estavam curtas e tinha calos.
- Me! - exclamou o Luke e saltou da carrinha. Ela abraou-o com ardor, vendo-se o orgulho e o prazer de me
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a brilharem nos seus olhos e a sua expresso desconfiada a suavizar-se. O pai do Luke pousou o seu banjo sobre a cadeira de baloio e desceu rapidamente os degraus
do alpendre para saudar e dar um abrao ao filho.
- Como ests, Luke - disse o pai. - No estava  espera que voltasses to cedo desta vez. O que  que te fez mudar de ideias? - perguntou ele, com o brao ainda
em volta dos ombros do Luke.
- Foi a Angel - respondeu o Luke.
- A Angel?
O pai e a me do Luke viraram-se na minha direco.
- Angel, anda at aqui e vem conhecer a me e o pai. Me - prosseguiu o Luke enquanto eu saa da carrinha -, quero que conheas a minha mulher, a Angel.
- A tua mulher! - exclamou a me dele. Observou-me dos ps  cabea enquanto eu me aproximava, transformando a sua expresso incrdula numa expresso de desapontamento.
- No  um bocadinho nova e frgil para uma mulher dos Willies? - perguntou ela a si prpria, em voz alta. Eu estava  frente deles  espera de uma apresentao
formal.
- Angel, quero apresentar-te a minha me, Annie, e o meu pai, Toby Casteel. Me, esta  a minha Angel. O nome verdadeiro dela  Leigh, mas para mim ela  mais um
anjo...
- Ai ? - comentou a me dele, ainda a fitar-me, incrdula.
- Bem-vinda ao nosso lar - disse o pai e abraou-me.
- Quando  que fizeram isto, Luke? - perguntou a me, a olhar ainda fixamente para mim.
- Ontem, em Atlanta. Conhecemo-nos e apaixonmo-nos em trs dias e o juiz de paz casou-nos. Tudo como deve ser. E tivemos o maior e melhor grupo de convidados de
casamento que alguma vez viram: todos os meus amigos do circo. No  verdade, Angel?
- Sim - confirmei eu. Sentia-me to constrangida sob o persistente olhar da me do Luke. Qualquer me ficaria desconfiada e observaria criticamente a mulher que
o seu filho trouxesse para casa, pensei; contudo, a me do Luke estava chocada e desapontada.
- Que idade tens? - perguntou-me ela.
- Quase catorze - respondi eu. Senti os meus olhos a ficarem molhados. At aqui, na parte mais pobre do mundo, as pessoas me censuravam.
- Bem, a tua idade no  problema - observou a me
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do Luke -, mas  preciso muita fora de vontade para viver nos Willies, filha. Deixa-me ver as tuas mos - exigiu ela e inclinou-se, agarrando-me nos dedos e virando
a palma da minha mo. Passou com os seus dedos calejados pela minha palma macia e abanou a cabea. - Nunca viste um dia de trabalho em toda a tua vida, pois no,
rapariga? Eu tirei as minhas mos das dela com um puxo.
- Eu posso trabalhar to arduamente como qualquer outra pessoa - repliquei eu. - Tenho a certeza de que as suas mos j foram to macias como as minhas.
Houve um momento de silncio pesado, e depois ela sorriu.
- Ora, s orgulhosa como uma Casteel. Eu sabia que tinha de haver uma razo para o meu filho te escolher. - Voltou-se para o Luke, que estava de p, radiante de
prazer. Bem-vindo a casa, filho. Quais so os teus planos agora?
- A Angel e eu vamos viver contigo e com o pai por uns tempos, me. vou arranjar trabalho com Mister Morrison em Winnerrow e aprender carpintaria. Ele andava sempre
atrs de mim para eu trabalhar para ele. A seguir, vou construir uma bela casa para ns, talvez no vale, para trabalhar a terra, criar vacas, porcos e cavalos e
fazer uma vida honesta e decente para ns. vou construir uma casa suficientemente grande para todos, e tu e o pai podem descer destes montes e viver como pessoas
- acrescentou ele.
A me dele endireitou-se e o sorriso evaporou-se do seu rosto.
- Ns no somos nem inferiores nem piores que aquela gente do vale, Luke. Dantes, nunca dizias mal da vida nos Willies. Nasceste aqui e foste educado aqui, e no
s pior nem melhor do que os outros.
- Eu no disse que era, me.  que eu agora quero fazer coisas grandes - disse ele, dando-me a mo. - Tenho responsabilidades.
A me dele continuava a olhar para mim com um ar desconfiado.
- bom, ento - disse o pai Casteel -, temos de festejar. No  verdade, Annie? Vamos cozinhar esses coelhos.
- Os coelhos so para domingo - replicou ela.
- Eu vou caar mais.
- J demoraste muito a ir caar estes - disse ela, bruscamente. Ele, porm, no se deixou intimidar.
- Eu estou c, me - disse o Luke. - Vai voltar a haver muita carne na mesa.
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- Hum - proferiu ela, cptica. - Est bem,  melhor trazeres as tuas coisas para dentro, Angel - disse-me ela.
- Ela s trouxe esta mala - observou o Luke.
- Uma mala? - Os olhos da Annie Casteel abriram-se, com interesse renovado. - Ela tem ar de quem traria uma camioneta cheia de coisas. Bem, ento vem c para dentro
ver-me a fazer o guisado de coelho e contas-me tudo sobre ti.
- Eu vou abrir a garrafa de sidra de ma, Luke - disse o pai atrs de ns.
- Agora no te vs para a encharcar e embebedar mais o Luke com essa bebida malvada, Toby Casteel - avisou ela. O pai do Luke riu-se. O Luke e ele seguiram-nos.
Subimos as escadas pouco slidas e entrmos na cabana. A minha expectativa descera consideravelmente no momento em que pusera os olhos na cabana, mas ainda no estava
preparada para o que iria encontrar l dentro.
A cabana consistia em duas pequenas divises, com um cortinado esfarrapado e desbotado ao meio, formando uma espcie de porta que dava para o que eu supus ser o
quarto. Havia um fogo de ferro fundido no centro da diviso grande. Ao lado do fogo estava um armrio de cozinha antigo equipado com latas de metal para farinha,
acar, caf e ch.
- Como podes ver - comeou a Annie -, isto no  um castelo, mas temos um telhado sobre as nossas cabeas. A nossa vaca d leite fresco e temos ovos frescos, quando
as nossas galinhas decidem p-los. Os porcos andam por a  vontade e,  noite, deitam-se confortavelmente por baixo do alpendre. Hs-de ouvi-los a grunhir junto
com os ces e os gatos e outro animal qualquer que decida fazer a sua cama ali em baixo - disse ela, apontando em direco ao cho.
Acreditei que ela no estava a exagerar. O cho da cabana tinha pelo menos um centmetro de espao entre cada tbua meia curva do soalho. Enquanto olhava em volta,
apercebi-me de que no havia casa de banho. Onde  que eles iam  casa de banho? Como  que eles tomavam duche ou banho?, interroguei-me. A me do Luke leu os meus
pensamentos. Sorriu ante o meu olhar curioso.
- Se ests a pensar onde  a sanha,  l fora.
- L fora?
- No me diga que nunca tiveste um anexo, filha?
- Um anexo? - Voltei a olhar para o Luke.
- No fiques preocupada, Angel. A primeira coisa que vou construir  o teu anexo privativo. Comeo logo que voltar da cidade amanh.
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- O que  um anexo? - perguntei eu, com brandura. A me do Luke riu-se.
- Tinhas mesmo de arranjar uma rapariga da cidade, no , Luke? Um anexo  uma casa de banho, Angel. Quando a natureza chama por ti, vais l fora quele pequeno
telheiro e sentas-te numa tbua com dois buracos.
Eu devo ter empalidecido um pouco. No sei. A me do Luke parou de sorrir e lanou-lhe um olhar de censura. Ele pousou a mala e abraou-me.
- Vou-te construir uma bem bonita, Angel. Vais ver. E no vai demorar assim tanto. Em pouco tempo, vou conseguir juntar dinheiro suficiente para comear a construir
uma casa no vale.
- Sabes alguma coisa de como se faz um guisado de coelho? - perguntou a Annie Casteel. Eu levantei os olhos e vi-a pegar em dois coelhos mortos e tir-los pelas
orelhas de uma pequena caixa de gelo. Suspirei e engoli em seco. Bem, depois de os esfolar, mostro-te como se faz a receita da minha me.
- A me faz o melhor coelho que alguma vez provaste
- elogiou o Luke.
- Eu nunca comi coelho, Luke - disse eu, engolindo os meus suspiros.
- Ento  agora que vais experimentar - replicou ele. Eu assenti, com esperana, respirei fundo e olhei em volta.
O pai e a me do Luke eram as pessoas mais pobres que eu alguma vez vira; porm, quando olhei para o Toby Casteel, vi um sorriso radioso e feliz nos seus lbios
e, quando olhei para a me do Luke, vi orgulho e fora. Estava confusa, cansada e assustada. A vida tinha-me lanado outro desafio, quando eu pensava que estava
a iniciar uma vida mgica de felicidade. No entanto, percebi que ali no havia nem tempo nem lugar para lgrimas. S havia trabalho e luta pela sobrevivncia. Talvez
me fosse fazer bem. Talvez eu me tornasse mais forte, mais decidida e mais dura, conseguindo desse modo enfrentar a maldade do mundo de onde tnhamos acabado de
sair.
- Algum tem de descascar essas batatas - disse a Annie Casteel e apontou para um monte de batatas no cho.
- Eu fao isso - ofereci-me, apesar de nunca ter descascado batatas na vida. Ela lanou-me um olhar cptico, o que ainda me provocou mais. - Onde est o descascador
de batatas? - perguntei eu.
A me do Luke sorriu.
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- Ns no temos utenslios de luxo, Angel. Usa essa navalha a e no cortes de mais. - Depois disse para o filho:.- Luke, vai pr as coisas da Angel atrs da cortina.
- Atrs da cortina? E onde  que tu e o pai vo dormir?.- perguntou o Luke com um ar preocupado.
- Ns ficamos bem em cima dos colches de palha no cho. J dormimos neles antes, no foi, Toby?
- No  mentira nenhuma - confirmou o pai.
- Mas...
- Bem, agora no comeces a discutir, Luke. Se bem te conheo, vais j comear a trabalhar para um beb. Desconfio at que j comeaste - disse ela, olhando para
mim, como tivesse poderes para ver a gravidez na minha cara. - Todos os Casteel so feitos na cama - acrescentou. - Espero e rezo para que isso seja sempre uma verdade.
- Est bem, me. - O Luke afastou a cortina, revelando uma grande cama de ferro com um colcho velho e desbotado sobre molas em espiral. Que diferena entre aquilo
e at mesmo a cama no motel barato onde dormramos a noite passada, pensei; mas ia ser a nossa primeira cama de casados. Teria de servir.
No podia haver mundos mais diferentes do que o mundo da manso Farthinggale e o mundo dos Willies. Tinha decidido fugir de Farthy e tinha vindo para to longe,
que parecia que a minha me, o Tony e tudo o que deixara para trs se encontravam num planeta distante, noutro sistema solar. Estava em estado de choque e tinha
medo; porm, sentia-me decidida a no regressar.
Apesar da sua maneira dura de falar e dos seus olhos crticos, descobri que era fcil falar com a Annie Casteel. Ela ouvia o que eu dizia, absorvendo a histria
da minha vida, com uma expresso interessada e de espanto. Claro que no lhe contei que o Tony me tinha violado. O Luke queria que eu mantivesse segredo sobre a
minha gravidez, at dos seus pais. A Annie queria saber porque  que eu fugira e eu expliquei-lhe que o novo marido da minha me tentara meter-se comigo e que a
minha me me deitava as culpas para cima.
- com um pai que no se preocupava comigo e uma me que no acreditava em mim, senti-me perdida e sozinha e decidi vir-me embora. Estava a caminho da casa da minha
av quando conheci o Luke e me apaixonei - expliquei eu.
Ela assentiu e depois passou-me as cenouras para eu raspar
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e lavar. Porm, quando lhe falei sobre as bonecas-retratos e sobre a Angel, insistiu comigo para que eu parasse de trabalhar e tirasse a Angel da mala para ela poder
ver uma coisa to delicada e to cara. Os olhos dela iluminaram-se de prazer.
- Quando eu era pequena, o meu pai teve de me talhar uma boneca de um tronco espesso. Nunca tive nada que fosse gracioso ou amoroso e nunca vi nada parecido com
isto, nem sequer nas montras das lojas l em baixo, em Winnerrow. E depois de casar no havia razo para comprar uma, pois tive seis rapazes e nenhuma rapariga.
Depois de algum tempo, desisti de tentar ter uma rapariga.
"Espero que, quando tu e Luke tiverem um beb, seja uma rapariga - disse ela e eu percebi que esta mulher dura e forte dos Willies podia ser to doce e carinhosa
como qualquer outra mulher que eu conhecera. Senti pena dela, pena por a sua vida ser to dura e por ter to poucas oportunidades de ser uma mulher, de se arranjar
e ficar bonita, de manter a sua pele macia e deixar as unhas crescer.
- Eu tambm, Annie - disse eu. Ela fitou-me por uns momentos e depois ripostou.
- Podes chamar-me me - disse ela, e sorriu. - Agora vamos pr este guisado a fazer. Se bem conheo estes dois, vo estar a zurrar como mulas e a pedir de comer
mais cedo do que imaginamos.
- Sim, me.
Usei um anexo pela primeira vez na minha vida, sentei-me na pequena mesa de jantar feita de tbuas grossas e comi uma coisa que nunca sonhara comer. Mas estava delicioso.
Depois de jantar, o pai tocou o seu banjo e o Luke e ele cantaram velhas canes dos montes e beberam usque caseiro. Percebi que estavam ambos a ficar levemente
tocados. O pai convenceu o Luke a fazer uma dana e depois ele tambm danou. Passado algum tempo, a me ralhou com eles por estarem a fazer figura de parvos. O
Luke lanou-me um olhar e eu abanei a cabea. Foi o suficiente para ele ficar sbrio.
Mesmo antes de nos irmos deitar, o Luke e eu sentmo-nos no alpendre e ficmos a ouvir os sons da floresta: os mochos a piar, os coiotes a uivar, e as rs a coaxar
nos pntanos. Tinha uma autntica sensao de paz e segurana, sentada ali com o Luke, de mo dada com ele e a olhar para as estrelas no cu, apesar de estar a quilmetros
da civilizao que eu conhecera e de estar a viver numa cabana.
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Quando nos enfimos juntos por baixo da colcha, eu abracei e beijei o Luke ternamente. Ele estava agitado, mas no me possuiu da maneira como um marido deve possuir
a sua mulher.
- No, Angel - sussurrou ele. - Vamos esperar at tu teres o beb e eu te ter dado uma casa decente, para podermos dormir e fazer amor longe dos ouvidos das outras
pessoas.
Eu sabia o que ele queria dizer. As velhas molas rangiam mesmo quando nos virvamos na cama. Do outro lado da cortina, o pai ressonava e, sob as tbuas do soalho,
tal como a me avisara, os porcos grunhiam e os ces ganiam. Alguma coisa arranhava as paredes de madeira. Ouvi um gato a assanhar-se e depois ficou tudo to sossegado
quanto possvel; apenas se ouvia o vento a assobiar atravs das rvores e os rudos secos do soalho e das paredes da pequena cabana. O usque caseiro do pai ps
o Luke a dormir muito depressa. Eu demorei mais um pouco, mas por fim fechei os olhos e dormi a minha primeira noite nos Willies.
De manh, o Luke levantou-se cedo, bem desperto, e foi at Winnerrow tentar arranjar aquele emprego de carpinteiro. O pai andava a trabalhar com um agricultor qualquer
chamado Burl, a construir um celeiro novo com ele e a ganhar algum dinheiro. Depois do pequeno-almoo, a me sentou-se para continuar o seu croch. Decidi pegar
num esfrego, num balde e em detergente e limpar a cabana o melhor possvel. A me parecia divertida com o meu esforo mas, quando entrou na cabana e viu como eu
tinha lavado os vidros e polido os objectos todos da casa, assentiu de aprovao.
Em seguida, levou-me at ao seu pequeno jardim e eu ajudei-a a arrancar as ervas daninhas enquanto ela falava do seu passado, como tinha sido a sua vida por ter
crescido nos Willies. Falou-me dos seus outros filhos, os irmos do Luke, e eu notei como ela ficara transtornada por dois deles estarem na priso.
- Ns somos pobres e nunca nos armmos em grandes
- dizia ela -, mas sempre fomos gente honesta. Excepto, claro, em relao ao usque caseiro que o pai faz, mas, de qualquer maneira, isso no tem nada a ver com
o Governo. Todos aqueles impostos so s para tentar proteger aqueles grandes homens de negcios que fazem usque e o vendem por preos altssimos. As pessoas aqui
da zona nunca conseguiriam pagar esse preo pelo usque e no beberiam nada se no houvesse moonshiners.
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"No quer dizer que eu aprove a bebida, ateno. Foi a bebida que meteu os meus outros rapazes em apuros. Eu apenas detesto ver os pobres homens dos Willies a serem
perseguidos por fazerem o seu prprio usque. Percebes, Angel?
- Sim, me.
- Hum - proferiu ela, observando-me a trabalhar. Afinal, at s capaz de acabar por te tornar uma mulher dos Willies. Pelo menos no te importas de sujar as mos.
Teve piada como aquela observao me fez sentir orgulhosa. Pensei na expresso da minha me se ela me pudesse ver naquele momento. A mam morreria se tocasse em
alguma coisa com p em Farthy, mas ali estava eu, com os dedos enfiados na terra macia e fresca. E no me sentia assim muito mal, pensei. Mas o que queria mesmo
era parecer bonita aos olhos do Luke, quando ele voltasse do seu primeiro dia de trabalho em Winnerrow.
- Mas no faz mal mais logo ir lavar as mos e talvez pr um pouco daquele creme que eu trouxe comigo, pois no, me?
Como ela se riu!
- Claro que no, filha. Raios, no achas que eu tambm gostava de ter o aspecto daquelas mulheres chiques e ricas de Winnerrow?
- Bem, talvez eu possa ajudar a fazer isso, me - disse eu. - Mais logo, deixe-me escovar o seu cabelo e pode usar um pouco do meu creme para as mos.
Ela olhou para mim com um ar de quem achava aquilo estranho.
- Hum - disse ela. - Talvez.
Parecia ter medo da ideia, mas deixou-me tratar dela; deixou-me escovar o seu cabelo e enfeit-lo um pouco. Depois, fomos buscar o seu melhor vestido e um dos meus
mais bonitos e arranjamo-nos o melhor possvel para recebermos o Luke e o pai quando estes regressassem do trabalho. O pai chegou primeiro a casa.
- O que  isto? - disse ele, quando nos viu no alpendre to embonecadas. - No  domingo, pois no?
- Ento, Toby Casteel, no tem de ser domingo para eu ter um aspecto decente, pois no? - disse a me bruscamente. Ele ficou com um ar aflito e confuso, voltando-se
para mim para tentar perceber o que tinha dito que a fizera zangar-se to depressa. - No te faria mal nenhum ires lavar-te e vestires umas roupas decentes para
jantar, de vez em quando. Ainda s um homem atraente.
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- Sou? Bem, ento deve ser verdade - disse ele, piscando-me o olho.
- Oh,  sim, pai - afirmei eu, e o seu rosto iluminou-se. Foi para as traseiras da cabana, tomou um banho com a gua da chuva e depois vestiu-se com um dos seus
melhores fatos, o seu fato de domingo. Ficmos os trs sentados no alpendre  espera que o Luke chegasse.
Pouco depois, ouvimos o barulho da carrinha dele a calcorrear o rduo caminho atravs dos montes. De vez em quando, ele apitava.
- Eh l! - exclamou a me e lanou-me um olhar de aviso. O meu corao comeou a bater. O que seria? O que  que ela quereria dizer?
O Luke entrou no ptio da frente a toda a velocidade e a buzinar. Depois, saltou da carrinha sem fechar a porta. Segurava numa grade de seis cervejas contra o estmago,
trs delas j vazias.
- Temos de festejar - gritou ele e riu-se. -Mas que raio... - disse o pai.
- Que v para o diabo - lanou a me.
O Luke caminhava aos tropees com um sorriso estpido nos lbios. Ento, os seus olhos focaram-nos aos trs e ele viu que estvamos todos arranjados.
- Mas que... - Apontou para ns, como se houvesse algum ao lado dele. - Olha para eles... mas que... oh, vocs tambm esto a festejar?
- Luke Casteel - afirmei eu, pondo-me em p, com as mos nas ancas. - Como  que te atreves a vir para casa nesse estado? Primeiro, podias ter cado por uma ribanceira
abaixo ou qualquer coisa do gnero, e depois ests com um ar to parvo que at me d vontade de chorar.
- Hem?
- Diz-lhe das boas - incitou a me.
- Aqui estamos ns, a tentar comear uma vida nova, a tentar sermos felizes e tu vens para casa bbedo. - Dei meia volta com lgrimas a correrem-me pelas faces e
entrei na cabana.
- Hem? - repetiu o Luke.
Atirei-me para cima da cama e desatei a chorar. Pouco depois, um Luke Casteel muito mais sbrio seguiu-me. Ajoelhou-se ao meu lado e afagou-me o cabelo.
- Oh, Angel - dizia ele. - Eu s estava a festejar por ns. Consegui o emprego e descobri que podia comprar madeira com desconto quando estiver pronto para comear
a nossa casa nova.
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- No me interessa, Luke. Se tens alguma coisa que festejar, devias esperar para festejarmos juntos. Eu disse-te que estava preocupada por beberes tanto e tu prometeste
parar de beber. Agora acontece isto.
- Eu sei, eu sei. Oh, desculpa - pediu ele. - vou levar as garrafas que sobraram e atir-las pela ribanceira abaixo prometeu ele. - E se no me perdoares, atiro-me
atrs delas.
- Luke Casteel - gritei eu, virando-me para ele. Nunca mais fales dessa maneira. Nunca mais! - Os meus olhos flamejavam. Percebi como ele ficara surpreendido.
- Ena! Como s bonita quando te zangas a srio - disse ele. - Nunca te tinha visto assim, mas no quero que fiques zangada. Prometo - afirmou ele, erguendo a mo.
- No beberei mais quando guiar. Ds-me outra oportunidade?
- Oh, Luke Casteel, tu sabes que sim - disse eu, e abramo-nos e beijamo-nos.
- Tenho madeira na carrinha - disse ele. - E vou comear a fazer a tua casa de banho agora mesmo.
Segui-o para fora da cabana e observei-o a descarregar. A me lanou-me um olhar de aprovao por o ter posto sbrio to depressa. Depois, voltou-se para o Luke.
- Para que  a madeira? - perguntou-lhe ela.
- Para o anexo da Angel - disse ele, o que fez a me e o pai desatarem a rir.
- Continuem, divirtam-se  minha custa - disse o Luke -, mas, quando o virem, vo parar de rir.
O Luke ps todo o amor que tinha por mim no seu trabalho e construiu um anexo to bonito quanto possvel. Em seguida, pintou-o de branco e insistiu para que lhe
chamssemos casa de banho em vez de anexo. A me gozava com ele sempre que tinha oportunidade.
- vou ao meu anexo, quero dizer, casa de banho - dizia ela e o Luke rodava os olhos e abanava a cabea.
Passou o Vero e veio o Outono. O Luke fez mais alguns melhoramentos na cabana, experimentando algumas habilidades de carpintaria que tinha aprendido entretanto.
Construiu alguns armrios e prateleiras para a me e reforou o alpendre e os degraus de acesso. Fechou algumas das fendas entre as tbuas das paredes e do soalho;
porm, o trabalho dele na cidade comeou a tomar-lhe cada vez mais tempo. Pouco depois, j estava a chegar a casa depois do anoitecer e to estafado que quase nem
conseguia jantar. s vezes o seu hlito cheirava a usque. Sempre que eu fazia um comentrio
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a isso, ele dizia que precisava de dar um golo ou dois para aguentar at ao fim do dia.
- Ele est a tentar que eu faa o trabalho de dois homens, Angel - confessou-me o Luke uma noite, depois de jantar. Estvamos a passear por um caminho atravs da
floresta que nos levava a uma clareira num cume que dava para o vale. Era uma vista fora de srie. Conseguamos ver as luzes de casas a quilmetros de distncia.
- Todos os empresrios de Winnerrow, mais cedo ou mais tarde, acabam por se aproveitar da gente dos Willies - explicou o Luke. - Eu estou a controlar-me porque quero
comear a construir a nossa casa o mais cedo possvel, mas est a tornar-se cada vez mais difcil.
- No gosto de te ver a afogar problemas e frustraes em bebida, Luke. No podes arranjar um emprego diferente?
- No h assim muitos empregos para ns, a gente dos montes. Foi por isso que eu me fui embora dos Willies tantas vezes.
- Tenho andado a pensar, Luke. Talvez eu devesse entrar em contacto com o meu pai. Ele  dono de uma companhia de navios e tenho a certeza de que ele te arranjaria
um bom emprego.
- Que tipo de trabalho? Trabalhar na casa das mquinas de um paquete e estar longe de ti a maior parte do tempo?
- Tenho a certeza de que ele te arranjava um emprego no escritrio, Luke.
- Eu? Um emprego no escritrio? Havia de me sentir como um esquilo numa gaiola. No, senhor, eu no. Preciso de andar ao ar livre ou da excitao do circo, que 
uma vida ainda mais livre.
- Queres voltar para o circo depois de o beb nascer, Luke? perguntei eu. - Eu vou contigo, se quiseres.
- No. A vida no circo  dura e estamos sempre a viajar. Eu aguento isto at chegar a nossa vez - disse ele.
- Eu podia escrever ao meu pai e pedir-lhe para nos mandar parte do meu dinheiro. Tambm h dinheiro num fundo de garantia l em Farthy.
- No queremos nem um tosto desse dinheiro - disse o Luke bruscamente. Era a primeira vez que ele se zangava comigo. Mesmo estando escuro e apesar de termos apenas
a luz das estrelas, percebi como os olhos dele arderam de vergonha. - Eu consigo sustentar a minha famlia.
- Eu no quis dizer que no conseguias, Luke.
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Ele assentiu e sentiu-se logo mal por ter levantado o tom de voz comigo.
- Desculpa ter-te falado daquela maneira, Angel. Estou apenas cansado.
- A me tem razo, Luke. Devias tirar um dia de folga. Mesmo quando no ests a trabalhar na cidade, fazes trabalhos aqui por casa. Este domingo vamo-nos arranjar
todos para irmos  missa, est bem? Por favor, Luke.
- Bem, est bem - cedeu ele.
A me ficou contente por irmos  missa, mas quando l chegmos no domingo seguinte, percebi o que o Luke quisera dizer sobre as pessoas da cidade olharem de revs
para a gente dos Willies. Mal entrmos na igreja, podia-se cortar o ar com uma faca. As pessoas chiques da cidade viraram-se todas para trs e lanaram-nos um olhar
irritado e feroz, como que para nos avisar que devamos permanecer nos nossos lugares. A me e o pai Casteel sentaram-se imediatamente junto de outras pessoas que
eu reconheci dos Willies, mas eu no disse nada.
O Luke olhou para mim, curioso. Era to bonito, vestido com o seu fato e gravata, o cabelo penteado para trs, e eu, mesmo estando no meu sexto ms de gravidez,
achei que estava to bonita como qualquer uma dessas mulheres ou raparigas de Winnerrow. O meu vestido era to caro, se no mais caro, do que a maior parte dos vestidos
delas, e nenhuma delas tinha um cabelo to macio como o meu. A gua da chuva tinha tornado o meu cabelo ainda mais volumoso do que era quando cheguei aos Willies.
Vi dois lugares livres  frente e empurrei o Luke nessa direco. Ele retraiu-se um pouco e depois olhou para o meu rosto.
- Pensava que querias que eu repreendesse o presidente da Cmara de Winnerrow na primeira oportunidade - disse eu. Ele abriu-se num sorriso.
- Se quero! - exclamou ele e seguiu-me at aos lugares da frente. As pessoas que estavam sentadas nos bancos do estrado recostaram-se, como se uma lufada de vento
tivesse entrado na igreja e passado por elas. Estavam todas com os olhos muito abertos, numa mistura de curiosidade e afronta, mas eu fitei-os insolentemente at
baixarem os olhos e se descontrarem. O padre ocupou o seu lugar no plpito e fez um bonito sermo sobre amor fraternal, o que eu achei que era adequado a esse dia.
Mais tarde, a me veio ter comigo.
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- Eu tinha razo quando te vi pela primeira vez, Angel disse-me ela. - Tens a garra de uma Casteel. Estou orgulhosa de ti.
- Obrigada, me.
Ao domingo, depois da missa, a populao dos Willies juntava-se. Tocavam violino, danavam e comiam a comida com a qual cada famlia contribua. Eu ajudei a servir
e depois sentei-me a ver o Luke e o pai a cantarem e a tocarem banjo. Os homens danavam e as mulheres batiam palmas.
H mil anos atrs, eu tivera uma festa de anos em Farthy. A minha me contratara uma pequena orquestra carssima e uma empresa de servios. Os meus colegas de escola
estavam todos vestidos a preceito e provinham das melhores e mais ricas famlias da zona. Vramos um filme na nossa sala de cinema privativa. Nessa poca, achei
que tinha sido a melhor festa a que alguma vez assistira.
No entanto, em Winnerrow, com esta gente simples dos montes a cantar os seus sonhos ou canes engraadas sobre a herana que os montes lhes legaram, senti-me ainda
mais feliz. Ningum era superior ou inferior. Senti-me em casa,  vontade, confortvel.
Claro que reparei que as raparigas dos montes lanavam olhares amorosos na direco do Luke, pois, arranjado e bem vestido, ele era to atraente como uma estrela
de cinema. Uma das raparigas, a Sarah Williams, fisgou-me com os seus olhos verdes, quando conseguiu que ele danasse com ela e passou o tempo todo a olhar para
mim e a sorrir. A Sarah tinha cabelo ruivo cor de fogo e era quase to alta como o Luke. Colava-se muito a ele e eu no consegui deixar de sentir cimes, pois era
uma rapariga bonita, com um corpo elegante e sem uma barriga espetada como a minha. Mal a dana acabou, ele voltou para ao p de mim, literalmente libertando-se
das garras da Sarah.
- A Sarah  uma rapariga bonita, Luke - comentei eu, olhando para o lado.
- Talvez, Angel, mas eu s tenho olhos para ti - disse ele e virou-me a cara, para que eu pudesse olhar para os seus olhos negros, olhos plenos de amor, esperana
e orgulho. -
Eu no a devia ter deixado arrastar-me para a pista de dana - acrescentou ele, censurando-se a ele prprio. -  o monoonshine a subir-me  cabea, tal como me lembraste.
- Eu no quero parecer uma velha rezingona, Luke. - No o s. Nunca na vida. - Abanou a cabea, quando outra das raparigas o veio chamar.
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- Oh, Luke. Eu sinto que te estou a roubar, por vezes, por te fazer o pai do meu filho.
- No digas mais nada - sussurrou ele, pondo o dedo nos seus lbios. - Essa criana  nossa e tu no ests a afastar-me de nada de que eu prprio no queira ser
afastado. Ests com um ar cansado, Angel - acrescentou ele. - Vamos para casa. Eu j comi e bebi o suficiente.
- Mas tu ests a divertir-te tanto, Luke.
- Prefiro estar em casa sozinho contigo, Angel - disse ele.
O meu corao voltou a encher-se. Quando voltmos para a cabana nessa noite, estivemos a rir e a conversar animadamente at irmos dormir. O Luke e eu enfimo-nos
por baixo da nossa colcha e abramo-nos. Nunca me sentira to segura e to feliz. De vez em quando, o beb dava um pontap, e o Luke, que estava colado a mim, tambm
sentia.
- No sei se  rapaz ou rapariga - observou ele -, mas seja o que for, tem o teu orgulho e a tua coragem, Angel prosseguiu o Luke. - Nunca me esquecerei da maneira
insolente como deitaste abaixo aquela gente rica hoje.
- E eu nunca me hei-de esquecer de como estavas atraente e das raparigas todas que te fizeram olhinhos, Luke Casteel.
- Oh, no digas isso. - Como a sua bochecha estava encostada  minha, senti-o corar.
- Parece que vamos ter muitas coisas para contar ao nosso filho, quando ele ou ela tiverem idade suficiente para ouvir e perceber, hem, Luke?
- Oh, de certeza - concordou ele. Beijou-me e estreitou-me e ambos fechmos os olhos e deixmo-nos dormir.
No fim de Novembro comeou a nevar nos Willies. com a noite, o frio macio veio instalar-se nos montes como um cobertor de gelo. s vezes, o vento soprava implacavelmente
atravs da cabana e eu enrolava-me na nossa colcha e sentava-me ao lado do Velho Fumegante, o fogo a carvo. Quando o Luke chegava a casa  noite, abraava-me e
esfregava-me, amaldioando o frio. A me e eu fizemos novas colchas de croch e o Luke comprou-me umas jardineiras compridas para eu vestir. Eu parecia um susto,
com a barriga espetada, e ainda demos umas boas gargalhadas  conta disso.
Na vspera de Natal, tivemos a melhor refeio possvel. O pai comprara um peru a Simon Burl, que lhe custara um dia de trabalho, mas estava todo orgulhoso do peru.
A me e
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eu tnhamos tricotado luvas e camisolas para o pai e para o Luke, e o Luke trouxera presentes para toda a gente: pentes novos para a me, um cachimbo feito de carolo
de milho verdadeiro para o pai e uma prenda para mim to especial que ele quis que eu a desembrulhasse atrs da cortina esfarrapada que servia de parede para o nosso
quarto.
Sentei-me na cama e tirei a fita com cuidado. Depois, levantei a tampa da caixa e afastei o papel de seda. L dentro estavam as roupas de boneca mais lindas que
eu vira na vida, roupas para a Angel. O Luke tinha-lhe comprado um fato de noiva: um vu de noiva com um tecido transparente a pender de uma capinha cintilante,
um vestido comprido feito de renda branca, bordado sumptuosamente com prolas minsculas e contas reluzentes, sapatos brancos forrados a renda e cetim branco e at
meias de seda presas a um minsculo cinto de ligas.
- Oh, Luke,  to lindo. Estou desejosa de vesti-la gritei eu.
- Tu nunca tiveste um casamento decente, vestida de noiva, mas pensei que pelo menos a Angel devia ter um casamento a srio - disse ele.
- Que querido, Luke! - Vesti a Angel com o seu novo adorno e reparei no medalho  volta do pescoo dela. Arranquei-o e atirei-o pela janela fora, to longe quanto
possvel. Em seguida, fomos mostr-la  me ao pai.
Mais tarde, enquanto a me e eu estvamos a lavar a loia, ela inclinou-se e segredou-me.
- Nunca pensei que o meu Luke viesse a ser assim, Angel. Sempre tive medo que ele fosse igual aos irmos, pois gosta da sua pinga, mas tu fazes com que ele no v
longe de mais. Quando te magoa, ele prprio sofre imenso. Enquanto te tiver a ti, nunca ir meter-se em sarilhos a srio. Acho que quando ele te encontrou, foi o
seu dia de sorte.
- Obrigada, me - disse eu, com lgrimas nos olhos. Ela sorriu e abraou-me, abraou-me a srio pela primeira vez.
De alguma maneira, e apesar de sermos to pobres e de vivermos numa cabana do tamanho de uma das casas de banho de Farthy, eu sentia-me feliz. At achava que tinha
sido o melhor Natal da minha vida. Os olhos da Angel cintilavam  luz do candeeiro a leo. Ela tambm estava feliz.
O ms seguinte foi um ms difcil para ns. Nevou quase todos os dias e estava um frio de rachar. O Velho Fumegante deitava para fora quase tanto fumo como calor,
mas tivemos
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de o manter aceso continuamente. Todas as noites, o Luke pedia-me desculpa pelo tempo e passava horas a esfregar-me os dedos dos ps e das mos, mas o que  certo
 que sobrevivemos, e entrmos no degelo em princpios de Fevereiro. Os dias passavam, o cu no tinha nuvens e o Sol irradiava calor, fundindo o gelo dos ramos
das rvores.  noite, a neve derretida e o gelo brilhavam como diamantes, transformando a floresta que nos rodeava num cintilante pas das maravilhas.
Fazendo os clculos  minha gravidez, estava apenas a semanas de dar  luz. A me era to eficiente como uma parteira, pois trouxera ao mundo dezenas de bebs dos
Willies, bem como seis dela prpria. O Luke queria levar-me  cidade para ir ao mdico, mas eu sentia-me segura com a me e achava que no havia razo para o Luke
gastar quase dois meses de ordenado para pagar a um mdico que iria fazer a mesma coisa que a me, quando chegasse a hora.
O beb era activo e eu dei comigo com falta de respirao de vez em quando. Doam-me os rins. Queria fazer a minha parte do trabalho, mas a me insistia para que
eu descansasse mais. Contudo, encorajava-me a andar o mais possvel.
Quando o clima aqueceu um pouco e o Inverno abrandou as suas garras sobre a floresta, o Luke e eu comemos a dar os nossos passeios nocturnos at ao cume que tinha
vista sobre o vale. Da perspectiva do cimo dos montes, o cu nocturno de Inverno desobstrudo era espectacular.
De todas as minhas recordaes, suponho que esta noite de Fevereiro me ficaria na memria mais do que todas as outras. Eu estava muito bem agasalhada. Apesar de
no estar tanto frio como estivera em Janeiro, o Luke insistira para que eu vestisse as camisolas, o casaco, o gorro que a me me tricotara e as luvas que eu prpria
fizera depois de ela me ensinar a fazer malha. Porm, quando chegmos ao cume, eu descalcei as minhas luvas de l para lhe poder dar a mo e sentir o calor dos seus
dedos.
Ficmos ali silenciosos por uns momentos, ambos fascinados pelos milhares de estrelas espalhadas  nossa frente pela noite escura. As casas por baixo de ns salpicavam
o vale, as suas janelas estavam iluminadas e elas prprias pareciam estrelas. Cintilavam com o calor que emanava das famlias sentadas em volta das lareiras. Quase
que se conseguia ouvir os risos deles, a msica e as conversas calmas.
- Um dia - disse o Luke -, um dia, em breve, uma
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daquelas casas l em baixo no vale vai ser a nossa. Juro, Angel.
- Eu sei que sim, Luke. Acredito em ti.
- Vamos estar sentados na nossa sala, eu com os ps apoiados, a fumar o meu cachimbo, tu a tricotar ou a fazer croch, e o nosso beb a brincar no cho, entre ns
os dois, os trs quentinhos e em segurana. - Depois, acrescentou:
-  tudo o que eu quero na vida, Angel. Achas que estou a sonhar alto de mais?
- Acho que no, Luke.
- A me e o pai acham que  um sonho to distante como aquelas casas l em baixo - disse ele, com tristeza.
-  s porque foi assim com eles, mas no vai ser assim connosco, Luke.
Ele assentiu e abraou-me, estreitando-me contra ele. Ficmos ali de p, com as estrelas por cima de ns e  nossa frente; duas pessoas, sozinhas, numa noite de
Inverno, a sussurrarem o seu amor um pelo outro. O meu beb deu um pontap.
- Sentes, Luke? - perguntei eu, pondo a mo dele na minha barriga. Ele sorriu.
- Acho que  uma rapariga, Luke.
- Talvez. Amo-te, Angel. - Virou-se para mim. Amo-te mais do que algum homem amou uma mulher.
O meu beb deu outro pontap e doeu-me o ventre. Tive mais dores essa noite do que alguma vez tinha tido. Nos ltimos dias, eu andava a acordar com dores a meio
da noite e at de manh, mas no me queixava pois no queria que o Luke se preocupasse e ficasse em casa em vez de ir trabalhar. Talvez a dor significasse apenas
que estava prximo, pensava eu, apesar de a me no parecer muito feliz com esse facto.
- Acho que o beb quer sair e vir ter connosco, Luke. Est a chegar a hora.
- Bem, a altura no podia ser melhor - comentou ele.
- com os cus a brilharem e todas estas estrelas,  uma boa noite para o beb nascer, principalmente se for uma rapariga e ns lhe chamarmos Heaven.
Uma dor aguda quase me ps de joelhos, mas eu fiz uma careta e suportei-a, para que o Luke no percebesse e ficasse preocupado. Ele estava to feliz e to cheio
de esperanas, no queria fazer nada que lhe alterasse a disposio. No entanto, no conseguia evitar sentir-me um pouco assustada, apesar de imaginar que era natural
uma mulher ter medo antes de dar  luz o seu primeiro filho, principalmente uma mulher to jovem como eu.
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- Oh, Luke, leva-me para a cabana e abraa-me, abraa-me com mais fora do que nunca - pedi eu. Ele beijou-me e comemos a perfazer o caminho de regresso.
- Espera - disse eu, detendo-o.
Voltei-me para trs para lanar um ltimo olhar s estrelas.
- O que foi, Angel? - perguntou o Luke.
- Quando fechar os olhos, hoje  noite, quero que todas aquelas estrelas apaream por detrs das minhas plpebras. Quero sentir-me como se estivesse a adormecer
no cu.
Ele riu-se e em seguida demos a curva para entrarmos na floresta, e as estrelas desapareceram.

EPLOGO

Viro a pgina, mas no tem nada escrito, nem na pgina seguinte, nem na outra. Finalmente, encontro uma folha de papel dobrada entre a ltima pgina do dirio e
a capa. Abro-a com cuidado, pois  to antiga que, se eu fosse demasiado brusca, podia desfazer-se entre os meus dedos.  uma carta de uma agncia de detectives.
Exmo. Mister Tatterton,
Como o senhor j foi informado, localizei a sua enteada numa zona montanhosa da Virgnia Ocidental. No meu ltimo relatrio, descrevi as condies em que ela estava
a viver e tambm que estava grvida.
Receio ser portador de ms notcias. Ontem, o meu assistente, a quem entreguei o caso, telefonou a informar que soube da notcia da morte da sua filha. Aparentemente
morreu de parto. Comunicou-me que ela no recebeu cuidados mdicos e deu  luz na sua cabana nos montes Willies. Lamento.
O meu assistente informou tambm que a criana est viva e  uma menina.
Espero novas ordens.
Atenciosamente,
Stanford Banning,
Investigador Privado
Por uns momentos, fiquei sem respirao. O ar  to bafiento e to abafado nesta suite velha e poeirenta.
- ANNIE!
 o Luke que est a chamar-me.
- Estou aqui, Luke.
Pouco depois j ele est  porta.
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- Todas as pessoas que vinham ao enterro j chegaram, Annie. E esto todos a perguntar por ti. Est na hora - diz o Luke. Eu concordo silenciosamente. - O que 
que tens estado a fazer?
- Tenho estado aqui sentada a ler.
- A ler o qu? - Ele avana para dentro da suite.
- Uma histria, uma histria estranha e triste, mas muito bonita, a histria da vida da minha av. - Retenho as minhas lgrimas, mas o Luke v-as nos meus olhos.
- Annie, vamos embora. Este lugar est assombrado pela tristeza e pela dor. Tu no pertences aqui.
- Sim. - Sorrio. Como o Luke era bonito, to bonito como o seu av devia ter sido. Ele aproxima-se de mim, eu pego na mo dele e levanto-me. Comeamos a andar e
eu detenho-me.
- O que foi?
- Nada - respondo eu. - S quero repor isto no seu lugar. Sinto que pertence aqui, no meio de todas as outras recordaes. - Volto a pr o dirio na bolsa de pano
e devolvo-o  gaveta. Depois, olho uma vez mais  minha volta e apresso-me a ir ter com o Luke.
Descemos a enorme escadaria. Eu detenho-me. Parecia-me ter ouvido o riso de um rapazinho. At acho que o ouvi chamar: "Leigh! Leigh!"
Sorrio.
- O que foi? - pergunta o Luke.
- Estava a imaginar o meu pai em menino a chamar a minha av para ela ir brincar com ele.
O Luke abana a cabea.
Continuamos a descer as escadas e passamos pelo grandioso trio de entrada. Ser msica que eu ouo atrs de mim? A festa de anos de Angel? Um concerto de piano
para convidados ricos? O meu pai a praticar o seu Chopin? Ou ser apenas o vento a descobrir o seu caminho para o interior da manso? Talvez seja tudo isso junto.
Saio com o Luke e fecho a grande porta atrs de mim, deixando em aberto a pergunta e a resposta, junto com todas as outras, dentro da grande Manso Farthinggale.
